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sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo – 2ª edição

 

É com imensa alegria que dou a conhecer a 2ª edição do livro inicialmente lançado em Outubro de 2022, numa edição de autora. Três meses passados, e sem qualquer editora por trás a mexer os cordelinhos, isto é, tudo feito com a “prata da casa”, a 1ª edição, que felizmente despertou muito interesse, esgotou. E isto sem qualquer distribuição a nível nacional.

Eu, que não estou habituada a escrever sobre temas que gerem um interesse tão transversal, consegui despertar a curiosidade de muitos outros leitores, para além dos que se entusiasmam com a História da Alimentação.

Na realidade não sou eu que estou a vender o livro. É mesmo o Sttau Monteiro.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo

 É este o título do meu último livro. Baseando-me na vida de um dos nossos maiores escritores do século XX, fui buscar um lado menos conhecido da sua actividade. Descobri a sua obra na minha adolescência, comprando os seus livros proibidos, vendidos na Livraria Nacional, na Covilhã.

Mais tarde, em Lisboa, acompanhei a sua actividade jornalística como gastrónomo lendo religiosamente as suas críticas que recortava dos jornais e que guardei até aos dias de hoje.

Devo-lhe muito do que aprendi de culinária numa época em que estava a descobrir os novos pratos. Se hoje nos parece banal uma receita italiana ou uma referência a um restaurante chinês ou indiano, na época era completamente inovador.

Tive a sorte de mais tarde comprar num alfarrabista os seus cadernos dactilografados com apontamentos históricos em que se apoiava para escrever os seus artigos. Isso permitiu-me identificar muitos escritos da sua autoria não assinados.

Numa altura de perseguições políticas que o levaram à prisão, até estes escritos se apresentavam assinados com pseudónimos, de que identifiquei pelo menos catorze.

Um escritor que era um homem insinuante, de inteligência acutilante e de humor especial, talvez british, para descobrir ou reencontrar.

 O livro tem grafismo do nosso melhor gráfico português; o Jorge Silva, muito bem adaptado ao gosto da época e a edição é minha. Decidi tomar mais uma vez essa decisão e acho que não me vou arrepender.

Para quem quiser adquiri o livro em pré-venda com preço mais baixo contacte-me através do mail do blogue: garfadasonline@gmail.com.

 Posteriormente estará à venda em poucos sítios, como na Wook, Livraria Ferin e Vida Portuguesa. A maior parte das livrarias não aceita edições de autor.

Espero que gostem, eu acho-o uma beleza e estou muito orgulhosa.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Dois irmãos-de-leite


Esta fotografia enternecedora, e ao mesmo tempo surpreendente, foi transformada em postal ilustrado e representa dois irmãos-de-leite em Angola, em 1932, no Vicariato de Huambo. O espantoso é que um é uma criança de raça negra e o outro uma cabrinha de tenra idade. Ambos sem mãe que lhes desse leite foram alimentados com o leite existente na garrafa que se encontra entre eles.
A legenda, na face posterior do postal é clara: «Dois irmãos de leite. Vicariato do Huambo, 1932». Esta designação de irmãos-de-leite, isto é, irmãos não consanguíneos a que eram atribuídos laços de familiaridade pelo facto de serem amamentados pela mesma mulher, também era conhecida por «irmãos colaços». D. Francisco Manuel de Mello, na Feira de Anexins, usa-a com esse sentido (p. 30).
Mãe preta. Fotografia tirada da internet
No Brasil essa função competia muitas vezes às escravas negras e mais tarde às criadas que haviam tido filhos. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, refere-se a esse facto que considerava explicar «muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas». Mas este hábito foi usado em muitos países e cortes europeias, facilitando assim maternidades mais precoces (a amamentação impede a fertilização) e uma maior liberdade da mulher de sociedade.
Em oposição situava-se a «ama-seca» expressão aplicada à mulher que trata das crianças, sem as amamentar.
Ama-de-leite. Fotografia tirada da internet
Para enquadrar esta imagem quero acrescentar que a informação sobre este Vicariato e a Acção Missionária Angolana na região do Huambo é escassa antes de 1940. Há referência a um Seminário de Caála no Huambo, fundado em 1921 sob a responsabilidade do Padre Joaquim Alves Correia. Em África as várias estruturas missionárias religiosas foram afectadas pela implantação da República em 1910 e estes missionários deixaram de ser considerados funcionários públicos. Em 1921 um Decreto do Ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, enquadrou os missionários na sua função, sendo utilizados pelo Estado para fins civilizadores, mas dependentes da Igreja católica e da sua disciplina. No entanto apenas em 1926 seriam publicados o Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas em África.
Irmãos-de-leite. 1883. Foto tirada da internet.
No Huambo os missionários, em especial os padres da Congregação do Espírito Santo, exerceram a sua acção sobretudo sobre os Ovimbundu, com uma expansão agrícola regional na década de 1920, que viria a decair na década de 1940 com as fazendas mais produtivas a tornaram-se propriedade dos colonos brancos.
Na década de 1930 o Huambo ainda era o paraíso, com irmãos-de-leite diferentes a partilharem o leite de um outro animal desconhecido.
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Bibliografia:
LECOMTE Padre Ernesto, (1937 - 6.ª edição), Cartilha da doutrina cristã em portuguez e mbundu. Huambo, Tipografia da Missão.
DULLEY, Iracema, «Cristianismo e distinção: uma análise comparativa da recepção da presença missionária entre os «Ovimbundu» e os «Ovakwanyama» de Angola », Mulemba [Online], 5 (9) | 2015, consultado a 16 abril 2019 em http://journals.openedition.org/mulemba/404 ; DOI : 10.4000/mulemba.404
MELLO, Francisco Manuel de, (1875). Feira dos anexins obra posthuma de D. Francisco Manuel de Mello / ed. dirigida e revista por Innocencio Francisco da Silva. Livraria de A.M. Pereira: Lisboa.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Convite para Guimarães


Para quem estiver no Norte gostaria de contar com a vossa presença no lançamento do livro «Vestir a mesa / Dressing the Table».
Para os outros é uma boa desculpa para visitar Guimarães.
Apareçam!.

domingo, 3 de junho de 2018

Crowdfunding do livro «Vestir a Mesa»



Após o 25 de Abril sobre as dificuldades de emprego dos jovens engenheiros formados no Técnico corria uma anedota que não resisto a contar. Um deles conseguiu finalmente um emprego num circo como domador de leões. Receoso entrou na jaula e aproximou-se de um leão que abriu a boca e lhe disse: «Não tenhas medo. É tudo malta do Técnico».

A entrevista apresentada feita pela minha amiga Isabel Almasqué, apoiada pela filmagem do Manuel Rosário e as fotos de Minnie Freudenthal, resultou num trabalho de qualidade extraordinária de divulgação de várias das minhas actividades mas que tem como fim principal promover o crowdfunding do livro «Vestir a mesa»

O texto e imagem podem ser vistos no site do DOMA (De Outra Maneira) que vale a pena visitar e seguir.
Espero que depois disso as pessoas se sintam motivadas para conhecer e apoiar este livro cuja edição depende da acção dos apoiantes da ideia. Não ficam a perder seguramente.

E o que tem afinal a anedota a ver com isto?. É que somos todos de Medicina, de diferentes especialidades, mas que em comum, para além da amizade, temos um gosto em ver a vida como um desafio, de uma forma diferente ou … De outra Maneira.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Lançamento do Livro das Pitanças


Vai ser lançado no próximo dia 15 de Março, às 17 horas, no Convento de Mafra um interessante livro denominado «Livro das Pitanças».
Passamos assim a ter acesso a um manuscrito conventual do século XVIII, designado Princípio e Fundação do Real Convento de Mafra, e sua grandeza, e sua sustentação, e luxo, etc. que é um códice pertencente ao Palácio Nacional de Mafra e que se conserva na sua extraordinária biblioteca (Casa da Livraria como era apelidada no livro).
A outra designação mais apelativa e simples, Livro das Pitanças, deve-se ao facto de nele estarem também registados os bens de consumo destinados aos religiosos.
Bluteau descreve os vários sentidos para esta palavra ao longo dos tempos mas a principal é a sua utilização para designar uma ração dada nas comunidades religiosas, em especial a que se consumia nos dias de festa.

Quem puder estar presente pode ter o livro em primeira mão e deleitar-se de imediato. Para os outros interessados ficam a saber que dispõem agora de mais uma valiosa fonte de informação sobre o Convento de Mafra e o quotidiano dos religiosos que o habitaram.

domingo, 30 de outubro de 2016

Taste… Uma conferência por Massimo Montanari em Coimbra

Uma palestra exceptional enquadrada no projeto DIAITA irá ter lugar no próximo dia 22 de novembro, às 17h30, na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, ministrada por Massimo Montanari.
A palestra intitula-se: Taste. Historical considerations about an ambiguous concept.
Um tema que promete ser extremamente interessante sobretudo vindo deste conhecido Professor de História Medieval da Universidade de Bolonha e conhecido sobretudo como sendo um reputado estudioso da História da Alimentação, com vasta obra publicada.

Trata-se de uma Aula Aberta e portanto quem estiver por perto não deve perder esta oportunidade.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Colóquio: A Mesa e as Artes


Não percam este programa aliciante e diversificado.
Eu vou «Vestir a Mesa dos séculos XV ao XX».
NOTA: 
Mais informações em gestao.ielt@gmail.com ou Tel: 217908300 ext 1241.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Ninhos de Páscoa

Esta sugestão de bolos “Ninhos de Páscoa” era uma proposta profissional para pasteleiros, uma vez que a receita dava para sete bolos. Feitos em formas redondas com o interior escavado, permitiam um decoração central com fios de ovos sobre os quais eram colocados ovos coloridos.
A receita era apresentada pelos Serviços Técnicos da empresa, onde eram feitas várias confecções pelo mestre pasteleiro, não identificado, no Laboratório de experiências. 
O pequeno livro de capas plastificadas, de que apenas possuo algumas folhas, data de 1965 e destinava-se a profissionais.
A FIMA, Fábrica Imperial de Margarina, Lda, com sede no Largo de Monterroio Mascarenhas, 1, Lisboa, foi uma das iniciativas industriais do Grupo Jerónimo Martins. Inaugurada em 1944, a fábrica em Sacavém, dedicava-se à produção de margarinas e óleos alimentares. Esta firma que já distribuía nas suas lojas a margarina «Cowerd-Vaqueiro», associou-se em 1949, com a multinacional anglo-holandesa Unilever e passou a produzir outras variedades de margarina.
Assim, neste livrinho são referidas as variedades de margarina então existentes: a Vaqueiro para bolos e massas; a Pastelaria, especial para folhados; a Imperial, especial para cremes e a Vaqueiro H para folhados de tipo dinamarquês.
De realçar que as campanhas de informação sobre a utilização da margarina ainda continuavam na década de 1960, aqui dirigidas a pasteleiros, a par das que se continuavam a fazer para as donas de casa, e o grau de modernização das mesmas que passava inclusivamente por um laboratório técnico onde eram testados os produtos.
E como ainda vamos a tempo, aqui deixo a receita, para aqueles que quiserem ter uma Páscoa nostálgica com bolos em forma de ninhos. Páscoa feliz!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A guerra, a fome e o humor, um triângulo estranho

Parece-me que há 10 anos que não como um bocado de porco. Simplicissimus.
Dificilmente associamos o humor à guerra e à fome. Foi contudo uma das estratégias usada durante a I Grande Guerra como forma de propaganda da guerra, tanto pelos alemães como pelos aliados.
Os dias sem carne seriam suportáveis...se houvesse carne nos outros dias. Simplicissimus. 1915
Foi a primeira vez que se formaram grupos organizados ou associações que tinham como fim tornar as massas populares mais receptivas à ideia da guerra e minimizar a visão negra que dela tinham as populações envolvidas.
Que se passa? É horrível! Sonhei que tinha perdido o meu cupão de cerveja.
Os meios utilizados para manter a opinião pública do lado dos decisores políticos foram variados, em especial o uso de cartazes, de postais e a divulgação em revistas e jornais.
Este assunto pouco actual foi-me suscitado pela leitura de um livro sobre este tema, designado «Peints para eux-mêmes» e com legendas em quatro línguas: inglês, italiano, espanhol e português.
O título retoma um anterior «Les Français peints par eux-mêmes» que tinha como subtítulo «Enciclopédia moral do século XIX», um conjunto de livros com início de publicação em 1839, mas que nada tem a ver com ele.
Gretchen faz-se fotografar diante de acessórios em cartão para o noivo na frente não suspeitar da escassez de víveres.
O mais interessante do livro é presença de um carimbo de pertença do “Comité de Propaganda Aliadófila” que se situava em Lisboa na Rua de Campolide, nº 146, 2º. Sobre esta associação, que existiu em vários países, nada consegui saber, o que não deixa de ser curioso.
O talhante Schinagel corta o seu primeiro nabo
As gravuras apresentadas reproduzem imagens publicadas em jornais e revistas de vários países, nos anos de 1915 e 1916, e entre eles saliento as publicadas na revista alemã Simplicissimus. Nesta revista, de grande qualidade gráfica, publicaram os seus textos escritores como Thomas Mann e Rainer Marie Rilke e ilustradores famosos.
Esta associação guerra e humor estava tão divulgada que, em 1917, em plena guerra, no Salon des Humoristes de Paris, o tema da exposição foi "A guerra e os Humoristas".
Miau. 10 de Março de 1916. Leal da Câmara
Para acompanhar o texto fui buscar algumas imagens nacionais como as ilustradas por Leal da Câmara para a revista «Miau», em 1916. Nesse ano a legislação nacional alterou-se terminando a liberdade de imprensa no que respeitava às notícias da guerra, situação que se manteria até 1919 quando regressaram ao país os soldados portugueses que tinham partido para França e entre os quais se encontrava o meu avô. 
Miau 1916. Ilustração de Leal da Câmara

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Parabéns ao sr. Wilbur Scoville

Hoje ao abrir o Google deparei-me com o desenho de um senhor de bigode rodeado de pimentos vermelhos. Trata-se de uma homenagem do Google a Wilbur Scoville (1865-1942), um farmacêutico americano que, em 1912, criou a escala de Scoville e que faria hoje 151 anos, se fosse vivo.
Os vários tipos de pimentos contém CAPSAICINA que é a substância responsável pela sensação de ardência ou pungência dos frutos das pimentas (p.143).
E se quizer saber o que são as UNIDADES DE PICANTE SCOVILLE só tem que procurar na página 487 do livro «Do Comer e do Falar…».
Mas eu digo-lhe: É uma escala para avaliar a ardência ou pungência das pimentas desenvolvida por Wilbur Scoville nos Estados Unidos em 1912; varia de 0 (pimentão) até 300.000 (‘Habanero’).
Poster e rótulo no centenário da escala de Scoviille apresentado no blogue KillerArtWorx
Não se pode negar que é o momento mais picante deste blogue!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Chocolate Hórfeiçal

Intrigou-me esta designação do «Chocolate Hórfeiçal», vendido em caixas sob a forma de pastilhas embrulhadas em papel. As pastilhas, em forma de bastonete eram embrulhadas em papel e acondicionadas em caixas, com o rótulo na tampa e as instruções na face posterior
Eram depois dissolvidas em água, ou leite a ferver, que se agitava bem para desfazer e a que se adicionava açúcar. O chocolate como bebida ficava rapidamente pronto, embora, o produtor, não identificado, também recomendasse que o chocolate se podia comer directamente da caixa.
Embora tenha conhecimento de quem o devia ter comercializado, a falta de confirmação e a fraca divulgação que teve, levam-me a crer que foi um negócio falhado que ficou nas mãos da família, cuja identificação nada traz à história.
O nome Hórfeiçal era-me estranho e pensei tratar-se de um anagrama. Mas também não consegui resolvê-lo. Acabei por decompor a palavra em vários elementos e associando a palavra  imagem acabei por perceber que era uma alusão ao rei Faiçal I (1883-1933) que, em 1921, foi aclamado rei do Iraque. 
Faiçal em 1918, ainda príncipe
O meu amigo António, do blog «Herdeiro de Aécio» , já falou sobre esta figura importante para a história da dissolução do Império Otomano e para o aparecimento dos novos países árabes, representada no cinema por Alec Guiness no filme Lawrence da Arábia.
Capa do livro sobre Faiçal I do Iraque
Presumo que este chocolate tenha sido feito nas décadas de 1920-1930 em que à Europa chegavam relatos do surgimento dos novos países e dos encontros com os representantes ocidentais.
Descoberto parte do anagrama fica por explicar o «Hór» inicial que ficará para cabeças mais elaboradas.

domingo, 7 de junho de 2015

A crise de fome em Cabo Verde em 1921

A partir de 1900 foram várias as crises de fome relacionadas com factores climatéricos e outros, que levaram à falta de trabalho e carências alimentares em Cabo Verde. As datas registadas são várias: mencionam-se as de 1900-1904, 1908, 1912-1914, 1917 e novamente em 1921.
Na realidade a partir de 1913 os Estados Unidos, para onde tinham já partido vários emigrantes, proíbiram a entrada de pessoas analfabetas e a crise agravou-se. Muitos tinham já partido para o Brasil e faziam parte do grande contingente de portugueses aí emigrados. Só entre 1901 e 1950 quase um milhão de portugueses emigraram para o Brasil.
Mindelo. Paços do Concelho. Imagem publicada em Buala
Quando em 1921 a sessão da Câmara no Mindelo é invadida pelo povo que clama fome e falta de trabalho, são feitos pedidos a Portugal. Em Diário da República de 23 de Junho de 1921, o Ministério das Colónias publica  o Decreto nº 7.608 em que atendendo à crise alimentar provocada pela escassez de produção agrícola é necessário um socorro urgente à população,  sendo concedido um crédito extraordinário de 600.000 escudos. Era quantia insuficiente uma vez que o Governador de Cabo Verde havia pedido à metrópole 3.000.000 escudos para as despesas indispensáveis.
Os emigrantes portugueses pelo Mundo cotizaram- se para ajudar. No Brasil, em 1921, o Boletim Mensal da Câmara do Rio de Janeiro dava conta das várias iniciativas a favor dos desvalidos de Cabo Verde, em que se incluíram representações no teatro da cidade, conferências com venda de documentos impressos, etc. que levaram a arrecadar um total de 42.735$90.
Foto de Amândio António Lopes, 1922
Nos Estados Unidos, em New Bedford, foi criada uma «Comissão Central de Socorros aos famintos de Cabo Verde», encabeçada por Euclides Goulart da Costa, então vice-cônsul em Nova Iorque, interessante figura da nossa diplomacia, de que voltaremos a falar. A comissão pretendia angariar fundos para adquirir víveres e enviá-los aproveitando os veleiros que navegavam entre New Bedford e os portos de S. Vicente e Praia. Assim a partir de Junho de 1921 abriram um concurso para aquisição de farinha, feijão, arroz e outros géneros que entrariam em Cabo Verde livres de direitos.
Em papel anexo Goulart da Costa escreveu. «A subscrição rendeu US$  5.163,50 com que se adquiriram cerca de 150 toneladas de farinha, milho e feijão remetidos pelo vapor S. Vicente em Setembro de 1921».
O apelo de solidariedade tinha funcionado.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O fascínio do ananás

Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, 1578
Desde a sua descoberta no Brasil até aos dias de hoje este fruto não perdeu o seu encanto e prestígio. Fresco, em conserva, transformado em sobremesa ou a acompanhar pratos salgados o seu gosto agridoce prende-nos e fideliza-nos ao seu consumo. Sabemos hoje que as suas capacidades facilitadoras da digestão se devem à bromeleína, uma peptidase que destrói as ligações entre as proteínas.
History of Drugs, Pomet 
Mas aquando da sua descoberta os indígenas, que nada sabiam de enzimas, tinham esse conhecimento empírico e utilizavam-no no tratamento de feridas, como disse André Thevet que o descreveu como «fruto maravilhosamente excelente, tanto pela sua doçura como pelo sabor, tão amoroso» no Singularitez de la France Antarctique, publicado em 1558. E os portugueses, tendo percebido o seu efeito anti-escorbútico, usavam-no nas viagens marítimas. Mas foi o seu gosto que prendeu os viajantes que chegaram ao Brasil no século XVI.
Historia da Provincia de Santa Cruz, Pero Gandavo, ( Imagem BNP)
Nas descrições do português Pero de Magalhães de Gandavo, autor da Historia da Provincia de Santa Cruz, a primeira história do Brasil, impressa em 1576, bem como nos relatos do jesuíta Fernão Cardim, que escreveu sobre o Brasil nas décadas de 1580-1590, é descrita a descoberta do fruto ananás e o modo como foi apreciado.  
Historia navigationis in Brasiliam…". Genebra, 1586.
Mas apesar das descrições destes portugueses e outros que não menciono agora, seria Jean de Léry  (1534-1611), na primeira edição do livro  Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil, autrement dite Ameriques contenant la navigation & choses remarquables vues sur mer par l'auteur…., ( e estou a abreviar o título),  publicada em La Rochelle em 1578, quem iria divulgar a descrição do fruto na Europa. Esta afirmação baseia-se no facto deste ter sido um best-seller na época, o que os portugueses dificilmente conseguem. Na verdade em 1677 ia já na sétima edição e em 1880 era publicada uma nova edição com notas. Lery foi um missionário do protestantismo e parece ter visitado o Brasil quando ainda era estudante.
Jean de Léry
 No capítulo XIII «Das árvores, ervas, raízes e frutos raros que se produzem na terra do Brasil» exaltava o ananás que descreveu como um grande cardo, do tamanho de um melão e feitio de uma pinha.  Quando madura a fruta tem um aroma de framboesa e de gosto é tão doce que nem as compotas do seu país o conseguiam ultrapassar. E concluía: « Acredito que é o melhor fruto da América».
Carlos II a receber um ananás, Hendrick Danckerts, 1675
Nos séculos que se seguiram o ananás tornou-se muito apreciado e rapidamente subiu às mesas reais. Numa pintura inglesa de 1675 Carlos II surge num terraço recebendo em mão um ananás, alegadamente criado pelo seu jardineiro John Rose. Embora seja dito que este foi o primeiro ananás criado em Inglaterra é pouco provável uma vez que a sua cultura na Europa começou com os holandeses e só no século XVIII se viria a divulgar nesse país.
Nurnbergiche Hesperides, 1708
Com um entusiasmo tal que foram publicadas obras como a de  William Speechly,que descrevia o seu método de cultura no livro A Treatise on the Culture of the Pineapple and the Management of the Hot-house, em 1779 , ou ainda outros livros com imagens fantásticas do fruto publicadas noutros países europeus.
Estufa em Dunmore, Escócia, 1776
 E até a própria arquitectura das estufas era reveladora do entusiasmo que este fruto desencadeou, como este exemplo construído na Escócia no século XVIII.