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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ticiano e Veronese

Ticiano, Mulher com Taça de Frutas. c.1555. Staatliche Museu, Berlin

Há alguns anos atrás, uma amiga pediu-me para a acompanhar para lhe dar opinião sobre uma casa que pretendia comprar.
Ao entrar na sala de jantar deparei-me com vários quadros a óleo nas paredes. Os quadros existentes nessa sala eram os primeiros estudos de um conceituado pintor ainda vivo. Numa outra sala estava um quadro de grandes dimensões, que representava uma mulher com um prato com frutas e flores.
A minha amiga acabou por comprar a casa e eu comprei dois quadros. Um quadro realista português, representando uma refeição de uma família minhota e um outro quadro que, então me foi descrito, como sendo um estudo académico do século XIX, sobre um quadro de Veronese.

Tenho-o na sala de jantar e durante anos procurei, em vão, nos quadros de Veronese identificar aquela personagem. Nunca a encontrei. Mas olhava para ela e sentia nela aquela pujança das mulheres pintadas por Veronese.
Há poucos dias deparei-me com um postal ilustrado que representava o «Retrato da filha de Ticiano», pintado por este. Olhei e lá estava a jovem que sempre acreditara ser obra de Veronese. A mesma posição, o mesmo vestido, mas em vez do prato com frutas segura uma caixa-cofre renascença. Comecei a procurar pinturas idênticas de Ticiano e descobri que este usou a sua filha Lavínia em vários dos seus quadros. Com o mesmo motivo existem pinturas e desenhos que mostram a sua filha numa difícil posição, em pé de costas, com a cabeça ligeiramente virada para o observador e com os braços levantados segurando em vários objectos.
Senti-me enganada e procurei uma explicação para o meu logro.
Ticiano (Tiziano Vecellio) (cerca 1485-1576) nasceu em Pieve di Cadore, Itália, e aos 10 anos foi para Veneza. Em 1516 já era pintor da República de Veneza, mas a sua obra extendeu-se a outras corte europeias. Foi o mais importante pintor da sua época e a sua influência extendeu-se por gerações.

Veronese (Paolo Caliari) era mais novo e nasceu em Verona em 1528. Por volta de 1550 foi para Veneza, onde rapidamente conseguiu obter encomendas para igrejas e para o palácio dos Doges. Ticiano tornou-o seu protegido, facto que não seria alheio à rivalidade existente com Tintoretto. A influência de Ticiano na obra de Veronese é conhecida.
Foi esta rivalidade existente entre os três pintores Ticiano, Tintoretto e Veronese, em Veneza, entre 1540 e 1590, que levou a uma profusão de novas ideias e obras, consideradas expoentes máximos da Renascença.

É sobre este tema que se encontra exposta no Museu do Louvre uma exposição de pintura «Titien, Tintoret, Véronèse. Rivalités à Venise», extraordinária, como todas as exposições on-line deste museu, pelo que aconselho a darem um salto ao Louvre virtual e a não a perderem.

Pode dizer-se que o achado desta exposição não podia vir mais a propósito, na altura em que descubro o meu engano na atribuição ao autor do quadro que um dia pintou o original. Apesar da rivalidade, alguma influência tiveram entre si estes pintores, sobretudo na utilização de composições semelhantes e no tipo das figuras.
Daí, não ser tão estranho eu, na minha ignorância, aceitar a atribuição do quadro a Veronese. Fiquei confusa com a descoberta, mas nada mudou. Continuo a olhar para o quadro com o mesmo prazer. Agora sei que a jovem se chamou Lavínia, era filha de Ticiano e uma das suas modelos preferidos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A pintura de Paolo Veronese reinventada

Paolo Veronese (1528-1588) foi o nome porque ficou conhecido o pintor Renascentista italiano Paolo Caliari, por ter nascido em Verona.

A sua obra sempre me fascinou, pela força das suas personagens e pelo pormenor da sua pintura. A sua representação de banquetes como o «As bodas em Caná» ou a «Festa em Casa de Levi», temas bíblicos transportados para a Renascença, permitem um estudo apurado dos trajes, objectos e costumes dessa época. Voltarei a este tema, mais tarde, para falar dos banquetes venezianos.
Hoje este post tem outro fim. Divulgar como a técnica pode imitar a arte.
O quadro «As bodas em Caná» ficou terminado em 1563, como resposta a uma encomenda dos monges beneditinos de San Giorgio Maggiore, em Veneza. O quadro, de grandes dimensões (9,94 x 6,77 metros) foi pintado para uma das paredes do refeitório do mosteiro.

O convento, fundado em 982, foi durante séculos um importante centro teológico e cultural.
Entre 1560 e 1562 Andrea Palladio foi encarregue de construir o refeitório e mais tarde a igreja. Foi para este refeitório que foi encomendada aquela que viria a ser uma das obras primas de Veronese.

Após a queda da república veneziana, em 1797, Napoleão ocupou o mosteiro e apoderou-se de vários dos seus bens, como os livros e a pintura. O quadro «As bodas em Caná», apesar das suas dimensões, foi levado para Paris, tendo recolhido ao do Museu do Louvre onde permanece.

Em 2006 o museu do Louvre estabeleceu um acordo com a Fondazione Giorgio Cini, italiana, com o intuito de entregar a uma empresa espanhola de nome “Factum Arte” a missão de reproduzir fielmente a importante obra afim de ser colocada no seu local original, isto é, na parede do refeitório, em Veneza. As condições de reprodução eram exigentes e passavam pela utilização de um método em que não houvesse contacto com a pintura, nem uso de luz externa , de forma a não danificar a pintura e ao mesmo tempo não fosse perturbadas as visitas do público. O problema logístico foi solucionado com um sistema de scan que registou toda a obra, com a maior resolução possível. O processo complexo pode ser avaliado consultando o sítio da empresa http://www.factum-arte.com/eng/conservacion/cana/Default.asp.
O resultado foi uma reprodução fidelíssima da obra, graças à tecnologia digital.
Ultrapassando discussões legais para recuperação de obras saídas do país, morosas e na maior parte das vezes infrutíferas, esta fundação cultural veneziana resolveu o problema de uma forma inovadora. O original mantém-se no Louvre, de onde dificilmente sairá, e a cópia fiel ocupa agora a parede do refeitório do convento, devolvendo-lhe o esplendor original.
De momento todos lucram e no futuro as contendas ir-se-ão resolvendo.