Mostrar mensagens com a etiqueta Rótulos de Bebidas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rótulos de Bebidas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de março de 2017

O mistério do Licor dos Benitinhos: resolvido.

Quando escrevi o livro «Licores de Portugal: 1880-1980» dediquei um capítulo às várias ginjinhas lisboetas e aos seus fabricantes.
Na história da Ginjinha Espinheira conhecida também por “Ginjinha do Rossio” fundada em 1840 pelo pai de Francisco Espiñeira Cousiño (de que se desconhece o nome) surgia um mistério em relação a um dos licores. O fundador foi o primeiro elemento da família a vir da Galiza para Portugal. O seu filho Francisco herdou a pequena loja ainda hoje existente e comprou a primeira fábrica de licores na rua Damasceno Monteiro. Tendo ficado à frente do negócio dos licores naturalizou-se em 1896 português.[1]
Em 1906 fez o primeiro pedido de registo de uma das suas marcas, a «Ginja Bebida Peitoral e Digestiva», bem como do «Licor de Hortelã Pimenta Superior»[2]. Foi também em 1906 que registou a marca «F. Espinheira 1º fabricante», com a foto do mesmo dentro de um círculo, a que se sobrepõe um outro círculo com idêntica imagem do Zé Povinho[3].
Em 1907 registou uma marca chamada «Licor dos Benitinhos»[4] de que nunca vi qualquer garrafa ou rótulo. Apresentava a foto de dois homens risonhos, já de idade avançada. Esta imagem não fazia qualquer sentido dentro da tipologia dos rótulos de licor da época e sobre ela escrevi: «parece só fazer sentido para quem os conhecia e não deixou história».
Há dias ao folhear a revista Branco e Negro de 1890 deparo-me com uma fotografia de A. Bobone com a legenda «Dois moços de recados». A imagem encontrava-se sob o título «Typos de Lisboa» e nada acrescentava.
Não havia dúvida eram os «Benitinhos» que deram lugar ao título do licor e que, a avaliar pelo fisionomia, deviam ser galegos. Ficou esclarecido o mistério. Eu tinha razão quando escrevi que tal imagem só faria sentido dentro de um contexto familiar que neste caso era o de umas figuras que à época deviam ser conhecidos nas ruas de Lisboa.

PS: A expressão «moços» aplicado a homens de idade já avançada não se relaciona com juventude mas com uma função ou ofício:«moço de recados».





[1] ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, liv. 11, fl.12v, 02/10/1896, Carta. Naturalização.
[2] BPI, 1906, nº 7, p. 270.
[3] BPI, 1906, nº 12, p.449.
[4] BPI, 1907, nº 11, p. 394.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O licor «Cae Bem» de Francisco Dias

Garrafa Licor Cae Bem
Francisco Dias era o nome do proprietário da fábrica de licores que, em 1931, estava estabelecido no largo da Portas do Sol, 6 e 7, em Lisboa. O edifício já não existe, sacrificado à necessidade de largueza e amplitude de visão do largo,  mas as fotografias da época mostram a suas grandes dimensões.
Fábrica de Francisco Dias à esq. Largo das Portas do Sol. Foto de Eduardo Portugal, 1939, Arquivo fotográfico da CML
A empresa, como então era moda, tomou o nome do seu proprietário «Francisco Dias» que em 1935 mudou a designação para «Francisco Dias, Limitada». Foi nesse ano que registou igualmente a insígnia que consistia numa estrela de cinco bicos, dentro de um círculo de onde saíam múltiplos raios, e tendo no centro as letras «FD» e que aparece nos rótulos da garrafas.
Um dos seus primeiros produtos, registado em 1931, foi o «Creme de Licor Cae Bem», de que finalmente consegui arranjar uma garrafa. Com uma imagem moderna, adequada à época, uma jovem de cabelo curto brindava com um cálice na mão, enquanto a outra se apoiava numa mesa sobre a qual se pode ver uma garrafa de licor. Seguiu-se, ainda em 1931, o «Creme de Anis Escarchado», em que o rótulo recortado mostrava um casal em traje de cerimónia, a brindar com duas taças, sobre uma fruteira gigante repleta de frutas.
Rótulo mais tardio do Creme de Licor Cae Bem © AMP
Em 1935 para além de uma «Aguardente fina» registou a marca «Chega-m’isso», um creme em que utilizava novamente no rótulo um casal a brindar, desta vez tendo a figura feminina um copo e a masculina uma garrafa na mão. A última marca detectada foi designada «Pretinha», não sendo explicitado de que tipo de bebida se tratava, mas produziu também um licor designado «Lutador» e ginjinha.
Rótulo Licor Lutador © AMP
Em 1944 o seu nome constava da lista de fabricantes de licores publicada pelo «Grande Anuário de Portugal» e o achado de um rótulo desta firma da década de 1950 mostra-nos que produziam então um «Creme Escarchado de Laranja» e que a empresa se situava ainda no largo das Portas do Sol.
Rótulo Fina Ginginha © AMP
No «Guia Profissional de Portugal», de 1964, pode ver-se um anúncio seu, como fabricantes de licores e xaropes mas tinha-se já mudado para a Travessa de S. Tomé, 7, em Lisboa. Existia ainda em 1971, de acordo com o «Informador Comercial e Industrial de Lisboa».

Esta empresa utilizou também garrafas com o seu nome em relevo no vidro. Refiro-me a uma garrafa com o feitio aproximado de uma guitarra, em que surge, na metade inferior, um círculo onde pode ler-se «Francisco Dias – Lisboa». No que respeita à utilização de garrafas figurativas comercializaram pelo menos o jogador que era representado com uma bola entre os pés e onde, na base, se identifica o nome Francisco Dias em relevo, enquanto na frente o rótulo mostra a marca «Chutador».
Garrafa figurativa
Esta firma lisboeta pode ser utilizada como exemplo na utilização de rótulos muito ingénuos, coloridos e divertidos que foi a característica visível mais marcante dos licores populares produzidos desde o final do século XIX e durante a primeira metade do século XX.

Bibliografia: Pereira, Ana Marques, Licores de Portugal (1880-1980).

terça-feira, 15 de julho de 2014

Rótulos de Licores

A imagem da mulher em rótulos de licor sugerindo uma indicação de género, numa época em que a relação licor-sexo feminino estava bem estabelecida.

Rótulos de licor anis da «Companhia Portuguesa de Licores sucessores de Abel Pereira da Fonseca, Lda» e da «Fábrica Victória» respectivamente, imagens extraídas do livro «Licores de Portugal 1880-1980».

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Livro «Licores de Portugal (1880-1980)»

  
Capa da edição especial
Foi ontem o lançamento do livro «Licores de Portugal (1880-1980)» e agradeço aqui a todos os amigos que puderam estar presentes. Para os restantes gostaria de dar algumas informações sobre este trabalho.
Trata-se de uma edição de autora, uma vez que a minha editora não considerou que fosse um tema vendável. A minha opinião é a oposta e investi nesta obra uma boa parte das minhas economias que, com a ajuda de todos, espero recuperar.
Com a liberdade de autora/editora pude fazer uma livro ao meu gosto, sem restrições de imagens, em papel couché e com as imagens inseridas no texto. Assim o livro ficou quase com 300 páginas e é profusamente ilustrado.
Como bibliófila decidi também fazer uma edição especial de 50 livros numerados e assinados pela autora, com capa dura, neste caso branca, como o hábito dos monges, para contrastar com a cor cereja dos livros brochados e, nas duas modalidades, são vendidos a preço de crise.
O livro tem 11 capítulos onde são apresentados os seguintes temas:
A origem dos licores; Licores conventuais, Licores caseiros; Licores comerciais e Centros licoreiros portugueses; A Ginjinha. Um caso especial; O Granito de Évora; Antigas marcas de licores; Os objectos de consumo; O papel social dos licores; A rota dos licores lisboetas e uma extensa bibliografia.
Deixo aqui algumas imagens para ficarem com ideia do livro que, espero, tenha aceitação, uma vez que se trata de uma área completamente inexplorada e em que se abordam novos temas de características portuguesas como as garrafas de vidro figurativas e os rótulos de licor.
Muito do material usado para o livro está patente na exposição do Centro de Artes Culinárias e sobre ela falarei mais tarde, logo que tenha fotografias de qualidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um rótulo de «Boas Festas»

O meu cartão de Boas Festas é um rótulo de Vinho do Porto, cuja designação de marca é precisamente «Boas Festas».

Foi uma das marcas comercializadas pela empresa António Pinto dos Santos Júnior & Cª, fundada em 1872, em Vila Nova de Gaia, onde funcionavam como armazenistas de vinhos tintos de mesa, Porto licoroso, Porto velho e Porto Malvasia. Nas primeiras décadas do século XX exportavam para o Brasil vinhos e azeites.
 Nos ano de 1944 o nome desta firma surgia no Anuário Comercial de Portugal como sendo armazenistas e exportadores.
Foi mais tarde vendida ao grupo Barros Almeida, que iniciara a sua actividade em 1913. Em 2006 esta firma, por sua vez, passou a fazer parte do grupo de produção e comercialização de Vinho do Porto designada Sogevinus.

Saúdo o Natal com um Porto velho. Um Feliz Natal para todos

segunda-feira, 26 de março de 2012

O Licor de Singeverga

Falo hoje do único licor monástico português: o «Licor de Singeverga», que toma o nome do próprio mosteiro beneditino.
Tal como veio a acontecer noutras ordens monásticas a regra de S. Bento estabelecia que o convento devia ser autónomo. Dentro da cerca e junto à zona das cozinha existia a viridaria. Uma das áreas estava reservada à plantação da ervas aromáticas usadas não só na alimentação mas também na botica, enquanto que no horto eram cultivadas as verduras para a alimentação e no pomar os frutos.
Antiga casa dos donatários
A Regra de S. Bento começou a ser difundida em Portugal no século XI pelos cluniacenses e assenta em dois pilares fundamentais: Ora et Labora (reza e trabalha). Sob estes princípios a comunidade empenha-se na prática do culto religioso, mas também numa actividade que lhes permita uma economia sustentada.

A reforma monástica iniciada pelo rei D. Sebastião e levada a cabo pelo Cardeal D. Henrique levou à criação das “Congregação dos Monges Negros de S. Bento dos Reinos de Portugal”. Tendo como casa mãe o Mosteiro de Tibães, daí disseminaram muitos mosteiros beneditinos.

Hoje o único mosteiro beneditino masculino em Portugal é o de Singeverga. Tem uma história curta. Foi fundado em 1892 na freguesia de Roriz (Santo Tirso), após a restauração da vida beneditina, na sequência da extinção das Ordens Religiosas, em 1834.
Edifício antigo do mosteiro junto ao qual se situa a fábrica de licores
O seu local de acolhimento foi a quinta de Singeverga, pertença da família Gouveia Azevedo que a doaram à Ordem Beneditina. Mas apenas em 1931 a comunidade se instalou nesse local. Esta prosperou e em 1955 foi construído um novo edifício, hoje grande demais para as necessidades e vocações.
Quem melhor que os frades, que tinham acesso à ervas e ao processo da destilação, para serem os iniciadores da produção de licores. No início os xaropes, as infusões e as decoções eram usadas para produzir medicamentos. O seu mau gosto levou adição do mel, substituído mais tarde pelo açúcar.
O «labora» desta ordem de que falamos passa pela produção de um licor ainda mal conhecido, o único licor de origem monástica produzido em Portugal. Esta especificidade justificava uma vista. Falei com o padre Albino Sampaio Nogueira, encarregue da produção e comercialização desta bebida. Foi em 1945 que começou a sua produção, graças à acção de um amigo do mosteiro, o engenheiro químico de nome Botelho.
Os garrafões de infusão
Os licores estão sempre envoltos em mistérios e nunca nos explicam como são feitos, mas o padre Albino explica-nos com simplicidade o moroso processo. Assim explicado até parece fácil. Começa com a maceração das especiarias em álcool etílico a 95º, onde ficam quatro dias, com agitação regular manual. É aqui que entra o açafrão, a canela em pau, a noz-moscada, o cravinho, o cálamo aromático, raiz angélica, a baunilha em vagem, etc.
Local de destilação
É feita depois a destilação da água e a do álcool a que se junta depois um xarope feito com água, açúcar e ácido cítrico de modo a descer a graduação alcoólica. No final adicionam-lhe caramelo e chá preto para dar cor ao licor e acertar o teor alcóolico que no final se situa nos 30º.
Passa depois o licor para barricas de carvalho onde estagia pelo menos durante um ano. O licor é depois filtrado e engarrafado manualmente, tal como  os rótulos e as garrafas são embaladas. E lá vão elas, em três tamanhos, para as grandes superfícies.
Esta produção, tal como a venda de leite produzido pelas simpáticas vacas que pastam nos terrenos circundantes são a fonte de rendimento desta ordem.
Não têm publicidade a não ser a de quem experimenta os seus licores.
Tal como aconteceu com uma loja do Porto, que depois de eu ter feito várias perguntas e fotos me perguntou quanto tinha de pagar pela publicidade, eu respondi: «Nada. A minha publicidade é de graça». Aqui eu posso acrescentar que nestes casos: «O gosto em fazê-la é todo meu».

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os amers ou bitters

Os amers, também conhecidos por bitters, são um tipo de licor usado como aperitivo. São feitos a partir de uma infusão de plantas amargas e de entre estas as mais frequentemente usadas são a genciana amarga (Gentianella amarella), a laranja amarga (Citrus aurantium bigarada) e a quinina (Cinchona officinalis).
A quinina foi sobretudo usada como planta medicinal e também em receitas de cocktails antigos. Hoje em dia podemos encontrá-la em pequenas quantidades na água tónica, muito usada para adicionar ao gin.
Entre os amers mais famosos está o «Angostura» de que lhes falarei à parte.
Em Itália, onde são conhecidos por amaro, são produzidos dois bem divulgados: o «Campari», com uma fórmula criada por Gaspare Campari em 1860 e o «Fernet Blanca» que data de 1845 e que se baseia numa receita inventada por Maria Scala onde entra camomila, ruibarbo, cardamomo, anis e cravo-da-índia.
Em Inglaterra são sobretudo conhecidos os orange bitters, de que vamos falar.
Antes porém, não podemos deixar de referir um dos mais conhecidos bitters, de origem francesa: o «Amer Picon». Trata-se de um licor de laranja amarga criado por um francês chamado Gaetan Picon, em 1837. Da sua composição fazem parte o amargo da casca da quina, laranja e genciana. Quando Picon estava no exército no Norte de África, em Argélia, contraiu malária. Tentou recriar uma bebida que a sua avó tinha anteriormente feito para ele, numa anterior infeção. Destilou uma infusão de alcóol com casca de laranja e a esta juntou raiz de genciana, quinina, xarope de açúcar e caramelo. Recuperou do acesso de malária, atribuindo a sua recuperação à bebida que havia produzido, facto a que, provavelmente, não terá sido alheio a presença da quinina. Do mesmo princípio partiu o seu superior que lhe encomendou maiores quantidades para as suas tropas.
Assim começou a produção de um dos «amers» mais famosos. Embora durante alguns anos apenas fosse conhecido na Argélia, onde era produzido, foi ao ganhar um prémio na Exposição Universal de Londres, em 1862, que a sua fama se disseminou.
O aumento de encomendas obrigou à abertura de uma fábrica maior, em Marselha, embora as laranjas continuassem a vir da Árgelia. A fama do «Amer Picon» não parou de aumentar tendo-se transformado numa bebida popular ainda no século XIX. Era servida misturada com água ou cerveja, tornando-se numa bebida agradável e tinha a vantagem de ser barata. Em 1937, no centenário da empresa, foi publicado um livro com a história da mesma.

Em Portugal, no final do século XIX e na primeira metade do século XX os licores tiveram grande aceitação . De entre eles realçamos o nosso bitter, que foi produzido por Leopoldo Wagner, o fundador da Fábrica de Licores Âncora.
Este bitter era feito com laranja amarga, também conhecida por laranja de Sevilha ou bigarada. Esta laranjas, distintas das laranjas doces (Citrus Sinensis), foram as primeiras a ser introduzidas na Europa, no século XII. A planta é oriunda da Ásia (Índia, sudeste da China e sul de Vietname). Os árabes levaram-na para a Arábia no século IX e começou a ser cultivada na zona de Sevilha no século XII.

Quanto às laranjas doces foram trazidas pelos portugueses do Ceilão(1), no século XVI e fomos nós que introduzimos a laranja doce na Europa. Para impedir que os outros países a elas tivessem acesso, chegou-se mesmo, em 1671 (2), a proibir a saída das chamadas laranjeiras da China(3) para fora do reino, mandando-se fazer inspecções às embarcações. Foram exportadas para Inglaterra em número cada vez maior, tendo-se mantido um luxo até ao século XVII. 
Em várias línguas existe uma palavra diferente para a laranja amarga e a doce. É o caso da Grécia que usa a palavra nerantzi para a laranja amarga e portokali, para a laranja doce.
Por todas estas razões, o nosso papel nos amers ou bitters não foi original, mas os nossos licores de laranja de Setúbal eram forçosamente únicos.

(1) Williams, S. P., The Art of Dining, pp. 101 e 152.
(2) Collecção Chronologica das Leis Extravagantes , p. 57. Referido no livro Mesa Real.
(3) A designação de laranja da China levou a pensar que estas vieram da China, mas não há a certeza se as trouxemos deste país, da Índia ou do Ceilão.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O cometa Halley e a alimentação

 
O cometa Halley foi o primeiro a ser conhecido como periódico. A cada 76 anos aproxima-se da Terra e o seu brilho e forma tornaram-no num objecto de entusiasmo para observação, mas também de temor.  A ele foram sempre associadas catástrofes.

Em Maio de 1910 aproximou-se da Terra, mas já antes as notícias em todo o Mundo vaticinavam desgraças. Uma delas relacionada com a libertação de cianogénio, um gás letal que estaria presente na cauda do cometa.
Foto retirada de Comet Zone
As reações foram de dois tipos: os mais folgazões, antecipando o fim da civilização, organizaram festejos, sendo moda enviar convites para festas privadas ou em hotéis. Contudo os pessimistas, acreditando nos seus efeitos nefastos, esperavam morrer. Os mais previdentes correram a comprar máscaras contra gases, botijas de oxigénio e até pílulas que evitavam os efeitos tóxicos dos gases.

Em Portugal a Ilustração Portuguesa já em 7 de Fevereiro de 1910, fazia capa com o cometa. No seu interior dois textos com títulos assustadores davam o mote intimidatório: «O fim do mundo e os planetas» e «Na eminência de um cataclismo cósmico».
A 16 de Maio, de forma mais cautelosa, anunciava aos leitores em tom sereno: «O cometa Halley aproxima-se da Terra». Por último, a 23 de Maio apresentava fotos do cometa sob o título: «O cometa Halley no firmamento de Lisboa». Encerrava-se assim o tema.

Os comerciantes, no entanto, não deixaram passar em claro este fenómeno. O cometa serviu para marcas de produtos alimentares e outros.
Este rótulo de whisky americano é disso um exemplo, mas felizmente os nossos empresários também não ignoraram esse acontecimento que, como aqui se vê, serviu de marca para vinhos e azeite. O comerciante José António Lopes, estabelecido em Lisboa no Largo do Terreiro do Trigo, Nº16, 2º, pedia o registo da marca «Vinhos e Azeite Halley», em 1910. No rótulo podia ver-se o cometa «a caminho da Terra», facto em que o mesmo, evidentemente não acreditava. 
E a estrela que anunciou o nascimento do Menino Jesus aos Reis Magos, não seria um cometa Halley?
Vejam este postal de Natal de 1907 e digam-me.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Natal com Licor Natal

 
O meu poste natalício comemorativo deste ano é com o anúncio do «Licor Natal».
Em 5 de Setembro de 1932 entrava na Repartição da Propriedade Industrial um pedido da empresa “Salgado & Martins, Lda” para registo da marca «Ginjinha Popular». No ano seguinte, em 27 de Maio de 1933, era passado o Título de Registo do Nome de Ginjinha Popular, firma comercial portuguesa com sede na Rua Eugénio dos Santos, 61.
 
Ainda hoje lá existe o estabelecimento, onde no interior se pode ver um reclame publicitário à casa. Embora mantenha o nome foi transformada em café.
Durante anos a Ginjinha Popular vendeu, para além da ginjinha, vários licores, entre os quais o aqui apresentado «Licor Natal».
Nos anos 60 a casa «Ginjinha Popular» foi comprada pelos proprietários da vizinha «Manteigaria Londrina» e entregue em exploração a dois sócios. A sociedade não correu bem e, nos anos 70, já só restava um dos sócios de nome Adolfo. Foi nos anos 70 que aí foi admitido o sr. Alípio Ramos que me forneceu muitos dos dados que consegui apurar. Hoje é proprietário da Frutaria Bristol, sobre a qual falarei um dia destes.
O sr. Alípio recorda ainda a venda de capilé, groselha e salsaparrilha vendida ao balcão, à caneca, misturada com soda. Nessa altura já não existia o Licor Natal. Embora ainda se vendesse ginginha e outros licores, a produção já não era própria mas adquirida à firma José d’Oliveira Salgado, Lda, que ainda produz a Ginja Rubi.
Interior da Ginjinha Popular vendo-se um dos sócios actuais
 O Licor Natal ganhou um primeiro prémio para licores, isto é, uma Medalha de Ouro, cuja imagem ostentou depois na garrafa, numa exposição Industrial que teve lugar na FIL, em data que não sei precisar (finais dos anos 60?).
É provável que este licor tenha dado a ideia para a realização de um outro licor, neste caso de banana, vendido em garrafa de vidro pintada, com o feitio do Pai Natal. Foi comercializada pela firma Caldeira Ldª, de Lisboa e dela apresento este exemplar que tive a sorte de encontrar.
Um Feliz Natal para todos, mesmo sem Licor Natal

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pérolas Publicitárias. "Cerveja Perola"

Comprei há meses um lote de rótulos de bebidas e outros produtos alimentares e pensei que eram um bom tema para o meu blog.
Ao olhar para os rótulos de uma cerveja chamada «Perola», um nome que hoje seria altamente improvável ser usado numa bebida, ocorreu-me o título de “Pérolas Publicitárias” para este tipo de rubrica. Para fazer alguma sentido teria pois de começar com a apresentação deste rótulo.

Comecei à procura de informações sobre a empresa que a produziu, a Fábrica de Cervejas Estrella e consegui descobrir que, apesar de já não produzir cerveja, existia ainda agora sob o nome de Companhia de Cervejas Estrela, SA.

Consegui a morada e o nome e telefonei para lá. Tudo parecia bem encaminhado. Falei com uma senhora muito gentil que me disse que quem tinha conhecimentos sobre a antiga fábrica era o senhor engenheiro, que não estava de momento presente. Aconselhou-me a telefonar mais tarde. Quando telefonei fui aconselhada a telefonar noutro dia. Telefonei novamente. O senhor engenheiro estava em viagem. Deixei o meu número de telefone e o endereço do blog, após ter explicado a que se destinava a informação. Durante meses telefonei repetidamente. Há pouco fiz a última tentativa. Novamente não estava, o que me fez compreender que não havia qualquer interesse nesta conversa. Em Portugal existe um sentimento estranho, que faz com que as pessoas não tenham orgulho no passado das suas firmas. Numa época em que as empresas aparecem e desaparecem, seria de crer que, ter dezenas ou centenas de anos no mercado, seria um atestado de boa gestão e honestidade.
Em países como a Inglaterra esse orgulho está bem patente quando vemos uma data, a da fundação, junto ao nome da empresa: «since....».

Já tinha tido esta experiência quando contactei a empresa Jerónimo Martins, a propósito do meu livro «Mesa Real». Foram durante o século XIX fornecedores da Casa Real e ostentavam o facto nas cartelas das suas facturas ou no título das suas cartas. Foram também os importadores de Christofle em Portugal e, de acordo com facturas encontradas na Torre do Tombo, os vendedores das mesmas para a corte. Contactei a empresa e falei com uma menina das relações públicas, que me recebeu no seu moderno gabinete, e me disse que de momento não estavam interessados no passado relacionado com a parte de mercearia, mas que agora lhes interessava mais salientar a parte financeira ou de investimento. Não me recordo já das palavras mas sei que fiquei perplexa.

Mas voltemos aos rótulos de cerveja. O pouco que consegui descobrir foram os “Estatutos da Companhia de Cerveja Estrella” publicados em Lisboa na Imprensa Libanio da Silva, em 1926 e uns outros “Estatutos”, de 1938, publicados igualmente em Lisboa na Tipografia Ramos, que nos permitem datar a fábrica nesse período. Ignoro quando suspendeu a laboração.

Os dois rótulos da «Cerveja Perola», que apresento, correspondem a uma cerveja para exportação e a uma outra para o mercado nacional e são, provavelmente, da mesma época.