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sexta-feira, 6 de junho de 2014

As passas de uva de Málaga em Portugal

Apesar de sermos um país vinícola as passas de Málaga tiveram, durante muito tempo, grande aceitação em Portugal. A principal variedade de uva utilizada na província da Andaluzia para a transformação em passas, é a de uvas Moscatel de Alexandria. A variedade moscatel era já conhecida desde a dominação muçulmana, mas a sua disseminação deu-se na bacia mediterranica durante o século XVII e início do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Madrid
No século XIX era cultivada em toda a Andaluzia e a sua produção e exportação aumentaram progressivamente e tornaram-se numa actividade económica importante da região. Contudo a partir de 1870 assistiu-se a uma reversão do processo, no que respeita à produção de passas. À crise económica mundial, juntaram-se os aumentos de impostos, a competição com outros mercados (ex. passas da Califórnia), a filoxera, etc. Começou a haver excesso de produção com baixa de preço nos mercados, pelo que muitos agricultores começaram a arrancar as cepas e a plantar cana-de-açúcar.
Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A acompanhar o desenvolvimento desta produção frutícola surgiu em Málaga, a partir de 1830, uma produção litográfica e impressora destinada à publicidade de empresas, cartazes, cartões, etiquetas, produção de leques, etc. No final do século XIX a qualidade e o número de litografias nesta cidade colocavam-nas entre as mais importantes de Espanha.
Desenhos para caixas de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A gravura apresentada no início do poste e encontrada em Portugal faria provavelmente parte de uma das embalagens de passas produzidas pela firma «Hijo de Martins Alcausa». Encontrámos notícia da existência desta firma no jornal O Sol, de Madrid, de 15 de Dezembro de 1918. Nela se elogiava esta casa que havia sido fundada em 1870, contrariando a tendência descendente de produção deste tipo de frutos. Então com 48 anos a firma era conhecida pela sua variedade de «frutos verdes e secos», que exportava para vários países como França, Brasil e Portugal. De entre os vários tipos de frutas eram referidos os figos, os limões e as passas. Infelizmente esta bela litografia, não tem identificação do local de produção mas terá sido seguramente produzida por uma das várias litografias existentes na cidade
Gravura de caixa de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
Na tese apresentada por Alfonso Simón Montiel sobre «Los orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931», o autor refere que o conceito para as caixas de passas de Málaga é bastante homogéneo, evidenciando-se mais o nome do produto «pasas moscatel de Málaga» do que o nome do produtor. Embora as formas das embalagens pudessem ser variadas a mais frequente era a rectangular. No que respeitava aos motivos o recurso a imagens de toureiros ou figuras femininas típicas espanholas, numa segunda fase com evidente estética modernista, foi o mais utilizado. 
Para além dos modelos humanos, a representação de imagens da cidade, com formas arquitectónicas ou imagens de locais típicos como a catedral ou o porto, foram outros dos motivos utilizados nas embalagens de passas de Málaga. É este último o tema aqui apresentado e foi também nestes, segundo Alfonso Montiel, que se começaram a utilizar as novas técnicas fotomecânicas que imprimiam maior realismo às imagens, o que explica a beleza desta gravura.

Bibliografia:
- Montiel, Alfonso Simón, Los Orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931, Tese de doutoramento, Universidade de Málaga, 2007.
- Del Rio, Pilar,  La litografía artística para uso comercial en Málaga, em i+ DISEÑO, Universidade de Málaga.

domingo, 15 de agosto de 2010

Pessegada, uma salada da região saloia

Almocei há pouco tempo num restaurante da zona de Loures e comi à sobremesa pessegada, que achei muito boa. Resolvi agora fazê-la em casa e como me agradou o resultado, não posso deixar de falar nela.

A pessegada é uma salada fria de pêssego, muito fácil de fazer e extrememente agradável nesta época quente.

Para a fazer cortam-se os pêssegos em quadradinhos, polvillham-se com açúcar e canela e regam-se com vinho branco. Deve fazer-se a salada com antecedência para os pessêgos marinarem no vinho tempo suficente. Pôe-se a salada no frigorífico e serve-se bem fresca. Nada mais fácil e agradável. Se gostar pode pôr um raminho de hortelã, mas não faz parte da receita.
O meu amigo Zé Rosa, que é daquela região, disse-me que a mãe dele fazia esta salada com pêssegos rosa e com vinho tinto. Mas este hábito do vinho tinto perdeu-se e hoje faz-se com vinho branco.
Apesar de ser tradicional naquela região não encontrei referência a esta receita.
Quando se fala em pessegada entende-se o doce feito com pêssego que, à semelhança da marmelada, fica com um aspecto sólido. Corresponde ao que os ingleses chamam “curd”, palavra de tradução exacta difícil (pasta?).
No “Livro de Cozinha” da Infanta D. Maria, neta do rei de D. Manuel I, com receitas do século XV, aparece já a receita da pessegada. É um doce cozinhado, semelhante à marmelada, em que aos pêssegos se adiciona marmelo e assúcar fazendo uma pasta. É portanto uma conserva de fruta.
Os brasileiros têm também essa tradição na sua doçaria. E tal como fazem goiabada, fazem perada, e pessegada, o que penso ser uma herança portuguesa.

O Oleboma no livro «Culinária» tem uma receita semelhante em que usa vinho do Porto, mas isso torna a salada muito semelhante às de outros frutos e faz-lhe perder a frescura transmitida pelo vinho branco.

Esta é, portanto, uma outra «pessegada».
Experimentem. Vão gostar.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um presente de frutos secos: Um atado de figos

Um dos presentes que tive este Natal foi um saco de frutos secos, trazido da "terra", pelo pai de um amigo meu, que é da região de Viseu.
Dentro vinham vários frutos como peras secas, nozes e figos secos.

Embora as peras fossem lindíssimas, como se pode ver na foto, o que me surpreendeu foi um atado de figos secos.
Estou recordada dos colares de pinhões, que se compravam nas feiras e que hoje já ninguém tem tempo para fazer.
Lembro-me das penduras de uvas para fazer passas.
Mas atados de figos eu nunca tinha visto. Por isso decidi fotografá-los e mostrá-los.

Por último, e embora já não seja novidade, porque começaram a surgir há cerca de um ano, todos estes frutos vinham dentro de um saco confeccionado com sacos de café reutilizados.
Há vários tipos de sacos e cores, mas os Delta Ouro são os mais usados.Esta sim uma boa reciclagem, porque além de serem resistentes são bonitos. Devo dizer que até já vi pessoas que os usam em vez de carteiras