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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

O queijo da Serra da Estrela

 

Imagem tirada da internet

Na última semana os jornais noticiaram que 30% do queijo da Serra da Estrela (DOP) acaba dentro dos pastéis de bacalhau.

É caso para dizer: “E anda um pai a criar um filho para isto”.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Queijadas da Ilha Graciosa

  

Espalhadas pelas belas encostas da Ilha, alternando com paisagens que parecem saídas de um quadro de João Hogan,  podem observar-se manadas de vacas que pastam calmamente. Chama à atenção a diversidade de cores: malhadas pretas e brancas, castanhas e brancas ou castanhas, numa mistura agradável à vista. São vacas leiteiras responsáveis pela grande quantidade de leite produzido que, na grande maioria, é exportado para outras ilhas. Na ilha é consumido em parte e transformado em manteiga e queijo, o célebre queijo da Graciosa que compete com o de outras ilhas dos Açores e que alguns dizem ser superior ao de S. Jorge.

O leite serve igualmente para fazer as Queijadas da Graciosa que antigamente eram designadas por “covilhetes de leite” ou “queijadas da praia”. Feitas no domicílio passaram, desde há cerca de 25 anos, a ser produzidas como especialidade  local por Maria de Jesus Félix que abriu uma fábrica para a produção das mesmas. Mas é possível encontrar outras idênticas em vários pontos da ilha.

A receita é conhecida e presumo que seja muito idêntica nos vários locais, porque nas que provei localmente não encontrei diferenças significativas. À vista são queijadas de bicos, habitualmente cinco, feitas com uma massa fina, levemente franjada nas extremidades. Lá dentro um creme de leite bem apurado, que lhe dá uma cor escura e que é extremamente doce.

Fiquei a pensar que, embora do ponto de visto teórico, seja bom manter as receitas tradicionais,  na realidade, hoje  em dia, o nosso paladar já não está habituado a uma quantidade tão grande de açúcar. Dito de outra maneira, entre o rigor escrupuloso da receita tradicional e os conceitos de alimentação actuais (menos sal, menos açúcar, etc.) há que optar pela adaptação aos hábitos mais saudáveis dos nosso tempos. Assim, apesar do meu interesse pelas antigo receituário de culinária, parece-me aconselhável reduzir a quantidade de açúcar da receita, que faz estranhar o paladar dos não autóctenes. E se eu sou gulosa!

domingo, 20 de dezembro de 2020

Uma irritação transformada em tigelada que mais parece uma queijada

 

Não quero fazer concorrência ao programa “Irritações” onde os intervenientes ao fim de vários programas parecem ter de inventar factos que os irritam. Esta é uma irritação verdadeira que advém da compra de dois queijos num mercado biológico. Muito bonitos e apelativos, mas caríssimos, porque estamos a pagar, além do produto, crenças e convicções. Como ficaria espantado um verdadeiro queijeiro, daqueles lá da Serra da Estrela, se visse estes preços.

Mas tudo bem. Quando as coisas são de qualidade, tendemos a secundarizar os preços. O pior é que um aspecto importante nos queijos é o seu sabor e esse não estava lá. Sabiam os dois ao mesmo, isto é, a nada.

O queijo de cabra, que cheirava intensamente a cabra, não sabia a cabra. Concluí que devia ter leite de vaca misturado, mas estranhamente o sabor não acompanhava o cheiro.

Decidi fazer uma tigelada de requeijão com o queijo, uma estreia absoluta. A tigelada da Beira Baixa, sobre a qual já falei, (Ver: :https://garfadasonline.blogspot.com/2015/06/tigelada-da-beira-baixa.html), não leva habitualmente requeijão. Em minha casa, na Covilhã, era sempre a de requeijão que comíamos. Estranhamente nunca falei nela, o que prometo fazer proximamente.

Hoje é só para lhes mostrar a minha experiência, feita com o queijo de cabra biológico a fazer o papel do requeijão. Não dou a receita porque a fiz a olho, em dose menor para me caber num pequeno forno e evitar ligar o forno grande. Fá-lo-ei quando voltar a este tema.

A tigelada ficou boa, embora não o suficiente para de futuro tomar o lugar do requeijão. Cheirava a queijo e até sabia a queijo, talvez detectado pelo gosto inusitado naquela receita. Foi uma boa solução, mas a não repetir.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O que se passou entre Isabel, Pedrinho, Glaxo, Tótó e Mimi


Este título longo encima um poster publicitário que, ao modo da banda desenhada, conta uma história.
Suspeitei logo do Glaxo, entre os nomes da Isabel e do Pedrinho. Estava cheia de razão. Afinal tinham humanizado a lata de leite. Que o gato se chamasse Mimi e o cão Tótó, ainda vai, apesar de estarmos nos nos 40-50, mas uma lata!.
Mas a história prometia. O Pedrinho não crescia porque o leite da mãe não era bom e o das vacas era tão perigoso! Felizmente a amiga Maria Luiza, mãe do Luizinho foi visitá-la e recomendou-lhe Glaxo. O médico concordou e lá foi a Luiza à farmácia com o Tótó. Ao 3º dia o Pedrinho já estava melhor e pedia mais leite.
Mas não era só o Pedrinho que gostava do leite, também a Mimi e o Tótó se lambiam quando o bebiam. E a Mariquinhas «a irmãzinha maior», que ainda não conhecíamos, também gostava muito e mais feliz ficou quando o Pedrinho já começou a brincar com ela.
No final todos estão contentes, sadios e brincam alegremente. Mas ninguém é tão feliz como a Isabel por ver o seu filho tão formoso graça ao Glaxo, o excelente alimento para bébés.
FIM.
Como eu gosto destas histórias simples!.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Dois irmãos-de-leite


Esta fotografia enternecedora, e ao mesmo tempo surpreendente, foi transformada em postal ilustrado e representa dois irmãos-de-leite em Angola, em 1932, no Vicariato de Huambo. O espantoso é que um é uma criança de raça negra e o outro uma cabrinha de tenra idade. Ambos sem mãe que lhes desse leite foram alimentados com o leite existente na garrafa que se encontra entre eles.
A legenda, na face posterior do postal é clara: «Dois irmãos de leite. Vicariato do Huambo, 1932». Esta designação de irmãos-de-leite, isto é, irmãos não consanguíneos a que eram atribuídos laços de familiaridade pelo facto de serem amamentados pela mesma mulher, também era conhecida por «irmãos colaços». D. Francisco Manuel de Mello, na Feira de Anexins, usa-a com esse sentido (p. 30).
Mãe preta. Fotografia tirada da internet
No Brasil essa função competia muitas vezes às escravas negras e mais tarde às criadas que haviam tido filhos. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, refere-se a esse facto que considerava explicar «muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas». Mas este hábito foi usado em muitos países e cortes europeias, facilitando assim maternidades mais precoces (a amamentação impede a fertilização) e uma maior liberdade da mulher de sociedade.
Em oposição situava-se a «ama-seca» expressão aplicada à mulher que trata das crianças, sem as amamentar.
Ama-de-leite. Fotografia tirada da internet
Para enquadrar esta imagem quero acrescentar que a informação sobre este Vicariato e a Acção Missionária Angolana na região do Huambo é escassa antes de 1940. Há referência a um Seminário de Caála no Huambo, fundado em 1921 sob a responsabilidade do Padre Joaquim Alves Correia. Em África as várias estruturas missionárias religiosas foram afectadas pela implantação da República em 1910 e estes missionários deixaram de ser considerados funcionários públicos. Em 1921 um Decreto do Ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, enquadrou os missionários na sua função, sendo utilizados pelo Estado para fins civilizadores, mas dependentes da Igreja católica e da sua disciplina. No entanto apenas em 1926 seriam publicados o Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas em África.
Irmãos-de-leite. 1883. Foto tirada da internet.
No Huambo os missionários, em especial os padres da Congregação do Espírito Santo, exerceram a sua acção sobretudo sobre os Ovimbundu, com uma expansão agrícola regional na década de 1920, que viria a decair na década de 1940 com as fazendas mais produtivas a tornaram-se propriedade dos colonos brancos.
Na década de 1930 o Huambo ainda era o paraíso, com irmãos-de-leite diferentes a partilharem o leite de um outro animal desconhecido.
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Bibliografia:
LECOMTE Padre Ernesto, (1937 - 6.ª edição), Cartilha da doutrina cristã em portuguez e mbundu. Huambo, Tipografia da Missão.
DULLEY, Iracema, «Cristianismo e distinção: uma análise comparativa da recepção da presença missionária entre os «Ovimbundu» e os «Ovakwanyama» de Angola », Mulemba [Online], 5 (9) | 2015, consultado a 16 abril 2019 em http://journals.openedition.org/mulemba/404 ; DOI : 10.4000/mulemba.404
MELLO, Francisco Manuel de, (1875). Feira dos anexins obra posthuma de D. Francisco Manuel de Mello / ed. dirigida e revista por Innocencio Francisco da Silva. Livraria de A.M. Pereira: Lisboa.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Como transformar um chèvre num cabreiro

Existem vários tipos de queijo de cabra. Entre nós o chamado «chèvre» é um queijo de pasta mole, de forma cilíndrica, envolvido numa película acinzentada que resulta da acção de bolores no exterior e é a este que me refiro.
Queijo da Quinta da Maçussa. Foto do site da Câmara dea Azambuja.
Foi Adolfo Henriques da Quinta da Maçussa quem primeiro o produziu em Portugal, há mais de 12 anos. Agora pode encontrar-se já em todos os supermercados feitos industrialmente. O prazo de consumo não é muito alargado e depois dessa data sucede-lhe o que sucede a todos os queijos: seca. Já me tinha acontecido antes, mas desta vez deixei-o secar mais tempo. Com surpresa, quando o fui comer soube-me a queijo cabreiro.
Esta afirmação aparenta nada ter de especial. Parece mesmo lógica, mas acontece que me soube ao queijo cabreiro da Beira Baixa que eu comia em miúda, também designado queijo picante, ou chulé devido ao cheiro intenso. 
Foto tirada da internet
O meu pai era um grande apreciador de queijo e não terminava uma refeição sem comer queijo. À mesa vinham sempre várias qualidades de queijo mas para este existia um ritual próprio. Como era muito intenso só se cortava um bocadinho e depois como dizia o meu pai «tinha que se acertar o pão com o queijo». Esta manobra transformava-se por vezes num jogo: um pouco mais de pão, um pouco mais de queijo. Nos últimos anos quando a ASAE começou a entrar nas queijarias os métodos de produção deste queijo mudaram. Vezes sem conta o meu pai explicava porque o queijo cabreiro já não era tão bom. Dantes era amadurecido sobre palha que era humedecida e o queijo ia na realidade apodrecendo. Ficava com uma cor cinzenta e um cheiro e gosto intensos. Quando foi proibida a palha este amadurecimento passou a ser feito com sal.
Há uns anos ainda comprei um que no início era saboroso mas depois começou a formar cristais de sal no exterior e deixou de se poder comer. Uma das últimas vez que fui a uma queijaria na Beira Baixa comentei este assunto com a queijeira e disse-lhe que já não valia a pena comprar queijo cabreiro. Disse-me então que ia buscar um diferente que fazia para a família. Lá comprei o queijo que era fortíssimo e do qual só se podiam comer pequenos pedaços. Quando alguém comia cá em casa oferecia um bocado do queijo e as pessoas nem sabiam como comentar. Para o fim acho que estava já putrefacto e acabei por o deitar fora porque se tinha tornado indigesto.
Depois desta descrição compreenderão o motivo deste título. O chèvre seco naturalmente soube-me ao antigo queijo cabreiro e foi uma agradável surpresa. Já está outro a secar. Vamos a ver se me saio bem desta vez, porque não sei se  o reultado foi uma questão de tempo ou de marca de queijo. Experimentem.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

ABC Illustrado Nestlé

Este raro livro para crianças deve ter sido publicado logo no início do século XX, de acordo com a grafia que apresenta e que não obedece ainda à proposta feita em 1904 por Gonçalves Viana, que viria a ser oficializada em 1911.
Tem contudo todas as características do século XIX, data em que deve ter sido concebido na Suíça e traduzido posteriormente para outras línguas. Numa época de raros livros infantis este era oferta dos proprietários da farinha láctea Nestlé. No prologo é introduzida a ideia de que a vida de uma criança, que no início é constituída por carícias, dádivas, brinquedos e farinha Nestlé, no futuro tem maiores exigências, sendo necessário alicerçar a cultura para a qual contribui este abecedário.
Esta farinha láctea resultava da investigação do farmacêutico alemão Henri Nestlé cuja maior aspiração era solucionar o problema da desnutrição infantil. Grassava na Europa a fome e as crianças apresentavam-se mal alimentadas e em muitos casos corriam o risco de adquirem tuberculose através do leite.
Na segunda metade do século XIX os estudos sobre tuberculose obtiveram grandes progressos. Em 1865 Villemin tinha verificado, pela primeira vez, a capacidade de transmissão da doença para os animais, a partir de material proveniente de humanos e em 1882 Robert Koch identificou o agente infecioso. o Mycobacterium tuberculosis que tomaria o nome do seu descobridor como bacilo de Koch. Só mais tarde, em 1897, Smith conseguiu a diferenciação entre o bacilo humano, o bovino e o aviário.
A Nestlé é uma indústria alimentícia que foi fundada em 1866 e na sua primeira fase foi este leite, sobre a forma de farinha, que Henri Nestlé produziu com o seu nome, designando-o um alimento completo para crianças. Foi com este produto que ganhou dezenas de medalhas em exposições nacionais e internacionais que ostenta na capa posterior deste livro.
Farinha produzida em Portugal pela Soc. de Produtos Lácteos AVANCA para a Nestlé
Em Portugal foi em 1923 que ocorreu a Fundação da Sociedade de Produtos Lácteos, Lda., que tinha como principal sócio o Prof. Egas Moniz. A primeira fábrica portuguesa de leite em pó simples foi fundada em Avanca, no concelho de Estarreja, no distrito de Aveiro. Era nela que eram produzidos os produtos Nestlé que então já eram publicitados como alimentos completos para crianças, adolescentes e pessoas idosas.
Mas à época da edição deste livro a produção era ainda feita exclusivamente em Vevey, na Suíça. Neste abecedário o texto apenas nos remete para descrições directamente relacionadas com a produção, consumo e indicações da farinha alimentícia.
As gravuras, de vários autores, são na maior parte feitas por Harry Rountree (1878–1950) um notável ilustrador nascido na Nova Zelândia mas que em 1901 já se encontrava em Londres. Foi responsável por um número enorme de ilustrações de livros infantis, entre eles, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Foi também reconhecido como ilustrador de cartazes publicitários; trabalhou para a revista Punch e ilustrou livros para adultos como os de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes.

Por tudo isto, este livro resultou tão bem do ponto de vista gráfico, informativo e publicitário.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os pastores e o queijo da Serra da Estrela

Esta fotografia data de 1914 e foi tirada por Artur Ricardo Jorge (1886-1975) que, apesar da sua formação em Medicina, se dedicou às Ciências. O seu interesse pela Botânica e pela Zoologia fê-lo empreender várias visitas de estudo por diferentes países. 
Esta foto tirada na Serra da Estrela mostra-nos três pastores com os trajes tradicionais. Todos se apresentam com um chapéu de feltro de aba larga, botas de carneira ensebadas e a proteger a região lombar têm enrolado um pano preto, em faixa.
 Os mais velhos apoiam-se em cajados que vão servir para orientar os animais, de suporte na caminhada e de defesa. São estes os mais protegidos do frio, com camisas, sobre as quais levam coletes simples, embora um deles tenha virados arredondados, e sobre estes o casaco de surrobeco. No ombro, aguardando o baixar da temperatura, está a capa dobrada e, para melhor se protegerem, usam sobre as calças safões feitos de pele de ovelha.
Quanto ao jovem à direita, usa a chamada «camisola de pastor», uma camisa grossa de xadrez, neste caso sem aplicações ou rendilhados, que esses ficavam para os dias de festa. Sobre esta um colete de trespasse, com virados redondos, e vários botões em duas fiadas. Na mão segura a «ferrada», um utensílio em folha-de-flandres com asa, para a recolha do leite das ovelhas.
Antes do entardecer, no regresso, teria lugar o processo de transformação do leite em queijo. Mais tarde o queijo, quando pronto, iria juntar-se ao pão, para fazer parte da refeição que o pastor levava no «surrão», o saco de couro da merenda, usado a tiracolo. Fechava-se assim um ciclo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Museu Virtual: Iogurteira Yalacta

Nome do Objecto: Iogurteira Yalacta 

Descrição: Caixa exterior de base circular, com tampa com pega em forma de y. No interior tem uma outra caixa em alumínio com tampa dentro da qual se encontram 4 potes de iogurte pentagonais, em cerâmica branca.
Materiais: Caixa exterior em baquelite malhada em castanho e preto. Caixa interior em alumínio. Potes em cerâmica.
Época: Cerca de 1950.

Marcas: YALACTA no interior da tampa e na base da caixa exterior «Made in France»
Origem: Francesa adquirida no mercado português.

Grupo a que pertence: Equipamento Culinário

Função Geral: Equipamento para preparar os alimentos

Função Específica: Para a confecção de iogurte.

Nº inventário:1357 e 4012.

Objectos semelhantes: Não classificados.

 

Notas:

Os potes para iogurte podiam ser em porcelana ou em pyrex. Nalguns casos existia um pote mais pequeno, no centro, destinado a colocar o termómetro, vendido pela mesma empresa. Existiam vários modelos de que se mostram os catálogos. 

HISTÓRIA:


A Yalacta existe em Paris desde 1926 tendo sido fundada por um  emigrante arménio de nome Savary(1) que trouxe consigo os seus fermentos lácticos para produzir iogurte e kefires. Aproveitando o facto de Metchnikoff, de quem já falamos, ter grandemente influenciado o hábito de ingerir iogurtes no Ocidente, começou a comercializar os seus produtos. Mais tarde, nos anos 50, começou a vender vários utensílios para a confecção de iogurtes, como é visível nos catálogos. A publicidade ao iogurte como produto saudável para jovens e idosos, e às iogurteiras, feita na década de 1950 ajudou à sua comercialização e divulgação.
Em 1973, a Yalacta foi integrada numa empresa francesa, a Compagnie Générale de Diététique, que se dedica à produção de complementos alimentares e que continua a comercializar os fermentos lácticos e as iogurteiras.

(1) Em 1952 foi René Pierre Marie Savary, quem fez no Canadá o registo da marca, já conhecida no país desde 1932. Seria o próprio ou o filho?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Iogurte Ocidental

A história do iogurte em Portugal está por fazer e, apesar de algumas informações dispersas, pouco consegui saber. Embora o iogurte seja um alimento tão antigo (segundo alguns existia na Ásia Central desde cerca de 6000 a.C.), só no início do século XX se viria a difundir no Ocidente.

Foi Ilia Metchnikoff (1845-1919), de origem russa, quem chamou à atenção para o tipo de alimentação do povo búlgaro que, apesar de pobre, tinha uma grande longevidade. Estudou o iogurte búlgaro e relacionou a sua utilização como alimento com os seus efeito benéficos na flora intestinal. Foi professor no Instituto Pasteur de Paris e escreveu o livro «O prolongamento da vida: Estudos de um Filosofia optimista», bem como vários artigos de divulgação que influenciaram as pessoas a consumir este lacticínio. 
Ilya Ilyich Mechnikov
Não foi contudo Metchnikoff quem identificou o bacilo que transforma o leite em iogurte. Esse estudo ficou a dever-se a Stamen Grigorov (1878- 1945) um um microbiologista búlgaro que o designou por lactobacillus bulgaricus (presentemente designado Lactobacillus delbrueckii, subsp. bulgaricus).

Em Portugal a industria láctea desenvolveu-se tardiamente e é difícil dizer qual foi o primeiro iogurte comercial.
Temos conhecimento de uma publicação sem autor, de 1935, em que já se valorizava este produto, designada: «Cura da prisão de ventre e diarreia pela lacto-acidofilina (leite acidófilo): cultura pura de bacilus acidophilus em leite».

Este «Yoghurt Ocidental» deve datar do final da década de 1940 ou início da década de 1950. Lembro-me desde sempre de um frasco destes de vidro branco coalhado com as letras pretas em minha casa. Nesta altura estes produtos eram vendidos em farmácias. Apesar de no frasco estar escrito que é uma marca regista de fermentos búlgaros não consegui encontrar qualquer registo. 
Este iogurte era produzido pela «Bijou Cristal, Lda» que ficava situada na rua Morais Soares, 93-A, em Lisboa, onde hoje existe um loja das Multiópticas e que apenas em 1957 aderiu à Associação Nacional de Industriais de Lacticínios.
A publicidade apresentada num cartão mostra um frasco exactamente igual ao exemplar de vidro, mas o número de telefone tinha então 6 dígitos, mostrando que o cartaz é posterior. Lateralmente pode ler-se que foi feito na Litografia Amorim em Lisboa e regista a data de 1954.
Registo do Yoghurt Oriental
Além deste iogurte a firma J. A. Rodrigues, Lda. produziu o «Yoghurt Oriental», feito igualmente com fermentos búlgaros e que teve o cuidado de registar em 1953, altura em que a fábrica se situava na Calçada do Poço dos Mouros, nº 87, (Penha de França), em Lisboa.

Com o tempo é provável que se consiga obter mais informação sobre este produto. Por agora, não me foi possível.

sábado, 27 de julho de 2013

O Boletim de Sanidade e a Indústria Alimentar

O Ministério da Agricultura publicou em 29 de Agosto de 1938, legislação rigorosa destinada à colheita, armazenamento e venda do leite em condições higiénicas (D. L. nº 28:974). Com um preâmbulo muito interessante começava por definir o leite de vaca como um «alimento perfeito ou quase perfeito». Apesar disso era reconhecida a sua capacidade para transmitir doenças, entre as quais a tuberculose bovina que 150.000 pessoas na Grã-Bretanha haviam contraído entre 1921 e 1935. Em Portugal passava-se o mesmo, mas como sempre não eram avançados números.
Era já conhecida a história da “Maria Tifosa”, uma cozinheira irlandesa, portadora de febre tifóide, que emigrou para os Estados Unidos onde, no início do século XX, veio a infectar um número considerável de pessoas. Em Portugal também existiu uma “Maria Tifosa”, que me recordo de ser mencionada na faculdade, mas de que infelizmente não fixei pormenores.
Tornava-se pois necessário avançar com alterações radicais no que respeitava à higiene dos estábulos e dos locais de recolha e de tratamento do leite, mas também garantir a sanidade dos animais e das pessoas envolvidas neste processo.

No capítulo VII da publicação inicial já referida legislava-se sobre as condições de venda e distribuição de leite. Exigiam-se locais de venda com paredes revestidas a azulejos, câmaras ou armários refrigerantes e a existência de abastecimento de água no local. As garrafas deviam ser de vidro incolor, de fundo liso, obturadas e seladas.
No que dizia respeito aos vendedores ambulantes de leite não engarrafado que actuavam fora das áreas abastecidas pelas centrais pasteurizadoras, só podiam exercer o seu mester nas seguintes condições:
1 - Não serem portadores de qualquer doença transmissível.
2 - Estarem inscritos no registo de inspecções de saúde.

Aos vendedores de leite ambulantes que fossem aprovados era passado um «Boletim de Sanidade». É um desses primeiros boletins que podemos aqui ver e que desencadeou esta investigação. Com o nº 63, foi emitido pela delegação de Saúde de Beja, em maio de 1940, para uma leiteira, provavelmente de Lisboa, uma vez que era essa a origem do seu B. I.
Esta legislação respeitante aos produtos alimentares foi a primeira da época do Estado Novo e iria estender-se à venda de outros alimentos como o pão. Aliás, o artigo nº 86 desta lei já avisava que nas fábricas de manteiga e de outros derivados do leite se deviam adoptar as mesmas práticas higiénicas até ao aparecimento de diploma que regulamentasse essas industrias.

Na sequência destas exigências saiu em 2 de fevereiro de 1939 uma Portaria (nº 9:161) que confiava à Imprensa Nacional de Lisboa, com direito exclusivo, a execução e fornecimento dos boletins de sanidade passados aos vendedores ambulantes de leite não engarrafado.
Apenas em 6 de janeiro de 1951 (portaria nº 18:412) foram aprovadas as instruções relativas ao boletim de sanidade do pessoal empregado no fabrico e venda do pão e de outros produtos alimentares. Passaram a exigir-se exames médicos aos trabalhadores que manipulavam alimentos (cozinheiros, padeiros e outros) ou dos que lidam com eles (criados de mesa e de café, caixeiros de mercearia, leiteiros, vendedores ambulantes de bolos e gelados, etc.).
O amassar do pão numa padaria em Lisboa in «Illustração Portugueza », 1911.

Em 1986, o D.L. n.º 252/86 de 25 de Agosto, no artigo 8º, respeitante ao boletim de sanidade, mantinha que «os indivíduos que intervenham no acondicionamento, transporte ou venda de produtos alimentares serão, obrigatoriamente, portadores do boletim de sanidade»; contudo em 1988 a Portaria 149/88, de 9 de Março, que fixava as regras de asseio e higiene a observar na manipulação de alimentos, determinava a abolição do boletim de sanidade.


sábado, 9 de março de 2013

O «Queijo Pastor», o antecessor do «Limiano»

Este belo cartaz (antigo calendário?) data de janeiro de 1953 e foi feito pela Lacto Lusa Lda. como publicidade ao queijo Pastor. Esta empresa começou em 1941 e os seus primeiros gerentes foram Francisco da Costa Leite e Américo Tavares da Silva. Contudo o registo do nome Lacto-Lusa Lda só foi publicado em 1948.


A fábrica ficava situada em Vale de Cambra e no início dedicava-se à produção de manteiga, da marca Lusa. Esta produção tinha como base o facto de a região ser rica em pastagens e de nela existir uma importante criação de gado para a produção de leite.
Foi em 1947 que a fábrica começou a produzir os queijos das marcas «Pastor» (tipo flamengo), «Belo Luso» tipo (Bell Paesse) e «Pastorinho». A produção do Queijo Limiano foi mais tardia e deveu-se a Américo Tavares da Silva que foi o responsável pelo início da sua produção em 1959. Uma outra marca de queijo a «Camponesa», não foi registada inicialmente e desconheço a sua data de início de produção.
No final dos anos 50 a Lacto-Lusa de Vale de Cambra extendeu-se a Ponte de Lima, tendo-se juntado a pequenos produtores de queijo locais. Em 1957 criou-se a Lacto-Lima e a Lacto-Açoreana, das quais a Lacto-Lusa era sócia maioritária. A Lacto-Lusa foi transformada em sociedade anónima em 1987, integrando as sociedades Lacto-Lima e Lacto Açoreana.
Em 1994 era criado o Grupo Lacto Ibérica S.A., como resultado da aquisição e fusão de 7 empresas. Com sede social na Ilha de S. Miguel, nos Açores, o grupo ficou distribuído por 8 locais, dos quais 4 são unidades fabris.
A Lacto-Ibérica, foi comprada em Janeiro de 2004, pelo grupo francês Bel, passando a constituir a Bel Portugal. Incorporou diferentes empresas de lacticínios como a Lacto Lusa, S.A, a Lacto Lima, S.A., a Lacto Açoreana, S.A., a Agrolactea, a Produtos Alimentares, Lda e a Lacticínios Loreto.
Funciona em Portugal com três fábricas: uma em Vale de Cambra, e duas nos Açores, na Ribeira Grande e em Covoada. É na unidade fabril da Ribeira Grande que são produzidos os queijos Terra Nostra e a manteiga Loreto. Em Vale de Cambra continuam a ser feitos os seus dois mais importantes queijos: o Limiano e o Pastor.
Como se pode ver no cartaz de 1953 o queijo Pastor era um queijo tipo flamengo, em bola, forrado a cera vermelha, tal como os holandeses faziam para o seu queijo Edam destinado à exportação. No meio deste percurso perdeu as suas “vestes” a favor do queijo Limiano que se tornou o preferido. O queijo Pastor tranformou-se num queijo tipo prato, achatado e de casca amarela, onde no rótulo surge um pastor com as suas vacas, semelhante ao do registo de 1947 mas agora polícromo.
Sem as campanhas publicitárias que sempre acompanharam o seu sucessor o queijo Pastor sugere-nos um pai enjeitado pelo filho, mas na realidade corresponde apenas a uma estratégia comercial da empresa. Representa apenas mais um mistério insondável da publicidade.