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terça-feira, 14 de maio de 2024

Doce de Fraca Saúde

  

Se as embalagens antigas são normalmente fascinantes, a que nos trazem qualquer tipo de informação são-no ainda mais.

Neste caso trata-se de uma embalagem de doces do século XIX. De fabrico manual, como era habitual, apresenta a base em madeira e é construída em cartão forrado a papel.

Foi, contudo, o rótulo que me chamou a atenção. O título informa-nos que se trata de um “Doce de Fraca Saúde”, remetendo-nos para uma época em que o açúcar era considerado terapêutico. O seu uso inicial, nas Farmácias, só depois foi desviado para as Copas e outros locais de confecção de doçaria.

Desconheço que tipo de doce conteria, sendo possível que se tratasse de uma conserva de fruta, isto é, de uma fruta cristalizada, uma forma de preservar o fruto mais tempo e que se adaptaria bem a este tipo de caixa, como aconteceu com as ameixas de Elvas.

Quanto ao produtor Adelino Pinto, que tinha o seu comércio em Coimbra, na zona de Celas, nada consegui saber. Pode saber que alguém da zona venha a descobrir.

PS:
Apenas consegui detectar uma notícia no jornal Gazeta de Coimbra, de 25 de Fevereiro de 1912, onde se encontrava o seu nome incluído numa lista de pessoas doentes, mas não posso confirmar tratar-se da mesma pessoa.


sábado, 13 de agosto de 2016

O Chá Lig

As duas caixas de «Chá Lig Extra Fino» da minha colecção pareciam-me iguais, à primeira vista e inicialmente pensei tratar-se de uma repetição.
O estado de conservação de uma delas é melhor do que o da outra, tendo a melhor conservada na base uma marca em relevo identificativa de ter sido feita na Casa da Viúva Ferrão em Lisboa, ao que se junta na tampa, escrito a preto «Vª Ferrão, Lda».
A que suponho mais antiga não está identificada mas foi seguramente feita na mesma Litografia, dada a semelhança. Nesta mesma lata pode ler-se na face posterior: «Único importador José Domingos Gil, Porto, Portugal».
Acontece que este Chá Lig foi registado em 25 de setembro de 1943 por Olinda do Espírito Santo Gil que se identificava como comerciante, estabelecida em Mira de Aire.
Estes dados levam-me a pensar que Olinda Gil, que procedeu ao registo em 1943, possa ser viúva de José Domingos, tendo mudado de local de habitação.
Registo da embalagem
Infelizmente não consegui juntar quaisquer outros dados para esclarecer esta situação. 
De qualquer modo não esperava que duas caixas tão semelhantes se completassem e só por isso fico contente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Andy Warhol e as cornucópias de Alcobaça

 
Decidi-me por este título absurdo e panfletário, ao modo dos jornais tabloides, para falar de um doce de Alcobaça cuja associação a uma criação deste artista me é frequente.
Não sou grande apreciadora de doces de pastelaria que, na maioria das vezes, não compensam na relação gosto / calorias. Mas há alguns a que não resisto e um deles são as cornucópias da Alcoa.
São uns doces deliciosos que em 2013 ganharam o primeiro prémio no concurso de doces conventuais de Alcobaça. Como o nome indica têm a forma de cornucópias, sendo o cone feito com uma massa frita, estaladiça semelhante à dos coscorões, sendo recheada com abundante doce de ovos. 
Uma delícia irresistível de que trago sempre uma caixa quando vou a Alcobaça, embora agora também já se possam comprar em Lisboa.
É precisamente sobre a caixa que quero falar para justificar o título. Desenhada de forma inteligente destina-se a conter no seu interior os cones em posição vertical, para impedir o derrame do doce de ovos, tem no seu interior um tabuleiro perfurado com seis orifícios circulares.
Quando vejo esta caixa lembro-me sempre de um objecto de design que comprei há alguns anos nos Estados Unidos. Trata-se de um tabuleiro acrílico concebido por Handy Warhol, com orifícios para introdução de quatro taças cónicas em melamina, decoradas, e suas respectivas colheres em plástico. 
Na caixa, onde surge a imagem do autor, é descrito como um «conjunto para gelados com quatro cones, colheres e tabuleiro”. Acrescentando: «Sirva uma porção dupla de cultura pop aos seus convidados».
Apesar desta indicação é evidente que nunca tive coragem para a usar. Considero-a uma peça do meu museu (imaginário) e tenho finalmente a oportunidade de a mostrar e de fazer esta associação que me assalta sempre que vejo as cornucópias doces de Alcobaça dentro da sua embalagem.

Depois disto o título já faz algum sentido, não acham?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um condessa de ameixas de Elvas

Chama-se condessa a um pequena cesta redonda ou oval de vime ou verga, com tampa e sem asa. Como normalmente não é muito grande a palavra condessinha, que devia indicar um diminutivo, é aqui sinónimo.
Na realidade esta expressão também se aplica a outras cestas com tampa e com asa, apesar desta última não fazer parte da definição. É uma designação antiga que se foi perdendo e quando a encontrava em textos antigos interrogava-me como seria o seu formato.
Foto tirada da internet
Mas ao olhar para esta pequena cesta destinada a conter ameixas de Elvas percebi que esta era uma verdadeira condessa. O seu formato faz-me lembrar uma das variantes de cestas feitas com canas em Odeleite, Algarve. A variedade de cestas aí feitas é grande mas refiro-me a uma com forma cilíndrica, asa e tampa rotativa que Jane Birkin usou como carteira e que fez grande sucesso na época.
A embalagem aqui apresentada, que preserva ainda o rótulo e os papéis recortados interiores, destinava-se a conter ameixas de Elvas confitadas que eram produzidas na fábrica de Manuel Joaquim Candeias, fundada em 1919. Além da transformação da ameixa dedicava-se igualmente à preparação de azeitonas de Elvas. Na década de 1960 dedicou-se à exportação, como o rótulo desta embalagem nos diz. Em 1970 foi comprada pelo encarregado da fábrica, Mário Renato da Conceição que era, afilhado de Manuel Candeias. Presentemente o seu filho Luís Silveirinha é o actual proprietário.
A associação desta ameixa de Elvas, da variedade rainha-claúdia, à sericaia foi, segundo Luís Silveirinha, uma criação do seu pai Mário Conceição e do Director da Pousada de Elvas, na década de 1970. O resultado foi brilhante porque hoje quando se come sericaia achamos que está mesmo a pedir ser acompanhada por ameixas de Elvas.

PS. Este texto surgiu como consequência de um pedido de Mário Cabeças para o arquivo comunitário AIAR (ver facebook) para eu divulgar as minhas caixas de doces de Elvas. Aqui fica a minha primeira contribuição.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

As passas de uva de Málaga em Portugal

Apesar de sermos um país vinícola as passas de Málaga tiveram, durante muito tempo, grande aceitação em Portugal. A principal variedade de uva utilizada na província da Andaluzia para a transformação em passas, é a de uvas Moscatel de Alexandria. A variedade moscatel era já conhecida desde a dominação muçulmana, mas a sua disseminação deu-se na bacia mediterranica durante o século XVII e início do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Madrid
No século XIX era cultivada em toda a Andaluzia e a sua produção e exportação aumentaram progressivamente e tornaram-se numa actividade económica importante da região. Contudo a partir de 1870 assistiu-se a uma reversão do processo, no que respeita à produção de passas. À crise económica mundial, juntaram-se os aumentos de impostos, a competição com outros mercados (ex. passas da Califórnia), a filoxera, etc. Começou a haver excesso de produção com baixa de preço nos mercados, pelo que muitos agricultores começaram a arrancar as cepas e a plantar cana-de-açúcar.
Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A acompanhar o desenvolvimento desta produção frutícola surgiu em Málaga, a partir de 1830, uma produção litográfica e impressora destinada à publicidade de empresas, cartazes, cartões, etiquetas, produção de leques, etc. No final do século XIX a qualidade e o número de litografias nesta cidade colocavam-nas entre as mais importantes de Espanha.
Desenhos para caixas de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
A gravura apresentada no início do poste e encontrada em Portugal faria provavelmente parte de uma das embalagens de passas produzidas pela firma «Hijo de Martins Alcausa». Encontrámos notícia da existência desta firma no jornal O Sol, de Madrid, de 15 de Dezembro de 1918. Nela se elogiava esta casa que havia sido fundada em 1870, contrariando a tendência descendente de produção deste tipo de frutos. Então com 48 anos a firma era conhecida pela sua variedade de «frutos verdes e secos», que exportava para vários países como França, Brasil e Portugal. De entre os vários tipos de frutas eram referidos os figos, os limões e as passas. Infelizmente esta bela litografia, não tem identificação do local de produção mas terá sido seguramente produzida por uma das várias litografias existentes na cidade
Gravura de caixa de passas. Museu de Artes e Costumes Populares. Fundação Unicaja, Málaga.
Na tese apresentada por Alfonso Simón Montiel sobre «Los orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931», o autor refere que o conceito para as caixas de passas de Málaga é bastante homogéneo, evidenciando-se mais o nome do produto «pasas moscatel de Málaga» do que o nome do produtor. Embora as formas das embalagens pudessem ser variadas a mais frequente era a rectangular. No que respeitava aos motivos o recurso a imagens de toureiros ou figuras femininas típicas espanholas, numa segunda fase com evidente estética modernista, foi o mais utilizado. 
Para além dos modelos humanos, a representação de imagens da cidade, com formas arquitectónicas ou imagens de locais típicos como a catedral ou o porto, foram outros dos motivos utilizados nas embalagens de passas de Málaga. É este último o tema aqui apresentado e foi também nestes, segundo Alfonso Montiel, que se começaram a utilizar as novas técnicas fotomecânicas que imprimiam maior realismo às imagens, o que explica a beleza desta gravura.

Bibliografia:
- Montiel, Alfonso Simón, Los Orígenes del diseño gráfico en Málaga 1820-1931, Tese de doutoramento, Universidade de Málaga, 2007.
- Del Rio, Pilar,  La litografía artística para uso comercial en Málaga, em i+ DISEÑO, Universidade de Málaga.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Farinha Maizena

No século XIX a principal utilização do amido era como goma, para tornar a roupa mais brilhante e formatada após ser passada a ferro. Existem vários tipos de amido mas falamos hoje no conhecido amido de milho que é identificado mundialmente como sinónimo da marca «Maizena».
Nos Estados Unidos a primeira fábrica de amido de milho foi fundada por Thomas Kingsford, em Oswego, Nova Iorque, em 1849, que se manteria até 1903, sendo então destruída por um incêndio. 
Mas antes disso, um dos seus funcionários, Wrigt Duryea, mudou-se para Glen Cove e fundou, em 1855, a Duryea Starch Works. Mais tarde a sua família, que havia permanecido em Oswega, constituída pelo pai e patriarca, Hendrick Duryea e os seus numerosos irmãos (nove, dos quais um faleceu jovem), juntaram-se-lhe. 
Em 1881 a designação da fábrica passou para Starch Manufacturing Cº transformando-se na maior fábrica de amido, com mais de 700 empregados, numas extensas instalações representadas nas suas embalagens amarelas.
Em 1880 existiam nos Estados Unidos mais de 140 fábricas deste tipo, mas a grande maioria era de pequenas dimensões. Por essa altura os habitantes de Glen Cove já se queixavam da poluição provocada pela fábrica. 
Talvez por isso tenham acedido a juntar-se a outros fabricantes para formar a National Starch Manufacturing Company, em 1890, mais tarde designada Corn Products Company. Apesar do sucesso comercial com exportações para a Europa a partir de 1859, a família esteve ligada a várias tragédias. Em 1886 os dois filhos de Wright Duryea faleceram ainda crianças com dois dias de diferença e um dos seus irmãos, Hiram Duryea, foi morto a tiro pelo filho por alegadas perturbações mentais.
A avaliar pelo tipo de publicidade aqui apresentada, a Maizena deve ter entrado em Portugal no final do século XIX, depois de 1893, uma vez que nela surge referência à medalha de ouro ganha na Feira de Chicago, nessa data.
O primeiro registo em Portugal que encontrámos da «Maizena» data de 1907 e era referida como um produto nacional. Foi registada pela firma «Barretos & Marques» que eram industriais no Porto, com fábrica na Rua da Restauração. Seria uma representação ou uma cópia?
Apenas em 1913 a CONOPC, Inc., de Nova Iorque, fez o registo da marca Maizena com a representação gráfica habitual. Mais tarde, em 1930, a mesma firma registava a famosa embalagem amarela, tradicional e, em 1967, uma embalagem mais moderna com duas colheres de pau.
Maizena nome que vem de "maiz" o nome original deste tipo de milho
Presentemente a marca é propriedade da Unilever e tal como desde o final do século XIX encontra-se distribuída por todo o mundo, com estratégias diferentes de acordo com os hábitos dos países. 
Continua a ser utilizada em todas as cozinhas e eu pessoalmente não abdico dela para o béchamel e para as papas de farinha.
E já pensaram porque é que tratando-se de uma farinha de milho é branca e não amarela? Afinal é simples. Porque é utilizada uma estirpe de milho branco.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Fábrica de Bolachas Paupério - 2. As embalagens.

 Como prometi no último poste, vou falar das embalagens de Bolachas da Fábrica Paupério.
 A razão deste tema prende-se com o meu gosto por caixas mas tem sobretudo a ver com os novos modelos de embalagens que esta fábrica pôs agora à venda e que se baseiam em modelos antigos.
Existem ainda na fábrica 4 modelos de tampas das primitivas embalagens, encaixilhados, quando a venda de bolachas e biscoitos era feita em caixas de folha-de-flandres revestidas a papel. Por serem menos resistentes que as embalagens em folha de lata litografadas são hoje mais difíceis de encontrar.
 Através de um antigo catálogo pudemos também constatar os modelos utilizados nas décadas de 1950-1960, caixas ao gosto da época, em folha de flandres, sextavadas, com cartelas com paisagens e outras mais clássicas cúbicas em dois tamanhos.
Desde há cerca de três anos começaram a produzir caixas em cartão branco e azul, bem como pacotes mais pequenos, em cartolina nas mesmas cores, que reproduzem um dos modelos iniciais.
Nelas são visíveis as medalhas ganhas na Exposição de Filadélfia em 1876, da Exposição do Rio de Janeiro de 1879 e da Exposição Horticola-agrícola que teve lugar no Porto, em 1877, no antigo Palácio de Cristal, cuja imagem se pode ver em posição central.
Este ano, antecipando o Natal, lançaram dois novos modelos em lata, em tronco de cilindro, uma reproduzindo um dos modelos anteriores em amarelo e laranja (que Gianni Versace se ainda fosse vivo não desdenharia) e uma outra mais clássica, ao gosto inglês, com a imagem de dois meninos novecentistas.
Já estão à venda e eu fui comprá-las só para lhes mostrar. O que eu faço pela indústria nacional!.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

VIROL, uma alimento à base de tutano

O frasco de Virol apresentado era vendido em farmácias como suplemento alimentar. Esta forma de reforço alimentar foi desde sempre valorizada nos períodos de doença que se acompanham de falta de apetite.
O Virol era uma marca registada, de origem inglesa, que teve grande divulgação no século XIX. Era vendido em frascos de cerâmica vidrada creme, com rótulo preto, em três tamanhos. Durante os anos 20-30 era ainda comercializado, mas a apresentação passou a ser feita em frascos de vidro castanho. Era então publicitado como sendo útil para meninas anémicas.
Era uma bebida feita à base de extracto de malte, havendo mais do que uma variedade. Numa delas realçava-se a prevalência do óleo de fígado de bacalhau, mas a mais divulgada foi a aqui apresentada enriquecida com medula óssea. Para uma Hematologista, como eu, em que a medula óssea só é utilizada para transplantes, esta forma oral de ingestão é fascinante.
A medula óssea não é mais do que o tutano dos ossos. Como local de produção de células hematopoiéticas vai, ao longo dos anos, produzindo cada vez menos células sanguíneas e tornando-se mais adiposa. É por isso que em culinária se usam sobretudo os ossos longos.
Considerada desde sempre um alimento apreciado, foi muito consumida durante a Idade Média e a Renascença.
O Mestre Martino, no “Libro de Arte coquinaria”, do século XV, apresentava uma receita de tarte de marmelos recheados com tutano.
Durante os século XVIII e XIX existiam mesmo colheres próprias para comer tutano. Modernamente a receita mais conhecida é a de “osso buco” em que a carne é apresentada num corte que atinge o tutano do osso. Por vezes é acompanhado de risotto milanês, em que o arroz Carnaroli é enriquecido com tutano.

Lembro-me de em minha casa se comer o tutano dos ossos longos da vaca, que eram cozidos na sopa. Não existiam as tais colheres e a forma prática de se ter acesso ao tutano era segurar no osso e assoprar numa das extremidades. O tutano saia inteiro, para prazer de quem o ia comer, uma imagem que já estava perdida na minha memória.

Foto extraída de Antique Bottles

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