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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Objecto mistério Nº47. Resposta: Infusor de chá


Este desafio foi mais fácil do que pensei e várias pessoas acertaram, ao contrário do que aconteceu no facebook onde apareceram respostas muito variadas.
Este moderno utensílio, de que confesso desconhecia o modelo, tem a extremidade em bico, que funciona como corredor (uma palavra esquecida) e na parte inferior uma pequena mola que permite tirar a tampa e retirar as folhas já utilizadas.
Os modelos para colocar folhas de chá são imensos e um dos que me seduz é um very british submarino amarelo, a lembrar o título do albúm dos Beatles. Mas habitualmente a sua forma é mais prosaica e além das tradicionais casinhas, dos bules e colheres, de que apresento alguns exemplos há muitos mais.
Se as formas são interessantes já o mesmo não diria do fim do objecto em si, que nunca percebi. As folhas do chá são para estar soltas e libertarem o seu aroma na água. 
Depois do chá repousar assentam no fundo do bule e se uma pequena folha escapar para a chávena também não tem problema nenhum. É por isso que nunca me fez falta nenhuma. Quanto ao fascínio pelos objectos já é outra conversa.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Objecto mistério Nº 37. Resposta: Mate de cabaça com bombilha

 
Na realidade eu devia ter acrescentado a este desafio que os brasileiros não podiam votar. Mas teria que acrescentar que também quem viajou para a América do Sul e, em especial, para a Argentina, também não. É que este utensílio é, desde há vários séculos, bem conhecido nessas paragens.
Assim tornou-se um desafio fácil, embora para um português este seja habitualmente desconhecido.
Imagem de embalagem de erva mate do acervo do museu paranaense in gazeta do povo
A denominação «mate» atribuída ao objecto é um daqueles casos em que o contentor e o conteúdo passam a ter a mesma designação. Em Espanha o prato «olha» (que corresponde ao nosso cozido à portuguesa) tomou o nome do objecto em louça onde era confeccionado, a olla
A taça destinada à confecção do chá mate é conhecida por «mate» na Argentina e por «cuia» no Brasil. O material utilizado para a taça em si é variado, mas os mais característicos são feitos com cabaças (família das cucurbitáceas, como as abóboras). Estas são lavadas, polidas e escavadas para retirar as sementes. São depois coradas, podendo ter desenho esgrafitados ou serem revestidas com outro material como o couro. A parte superior é cortada e é aplicado um rebordo em metal, mais ou menos nobre. Podem também ter pés de suporte, como acontece no Brasil, em que apresentam por vezes uma forma em sino invertido e são muitas vezes feitas em cerâmica.Nas regiões do sul do país toma a designação de «chimarrão»
A erva mate (Ilex paraguariensis) é uma planta semelhante ao loureiro, em que se aproveitam as folhas e os ramos mais finos que são secos e depois triturados. Este preparado é introduzido na taça e adiciona-se água quente. A mistura é agitada e bebida através da «bombilha» ou «bomba», um espécie de palhinha com um crivo na extremidade que se destina a filtrar a bebida. São-lhe atribuídas várias propriedades terapêuticas que têm sido estudadas nos últimos tempos.
Embalagem de erva mate. Imagem do acervo do museu paranaense in gazeta do povo
Quanto ao objecto em foco pode apresentar-se com uma grande variedade de formas e alguns são peças de grande beleza, em que se salientam os mais antigos que podem ser em prata, ou os exemplares mais raros do século XIX em porcelana pintada. No dia a dia, nos países onde continua a ser utilizada, são objectos simples, adaptados ao gosto de cada um que os escolhem mais pela qualidade de fornecer uma chá agradável do que pela estética. Nesse sentido transformam-se em utensílios indispensáveis que as pessoas transportam consigo como objecto pessoal.
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P.S.
1 - Tive alguma dificuldade em perceber a diferença entre chá mate e "chimarrão", expressão que é mais usada no sul do Brasil. Trata-se do processo de fabricação da erva mate que no chimarrão passa pelo processo de sapeco (fumadas), secagem e moagem enquanto a erva mate para chá mate é apenas seca e tostada.
2 - Optei pelas expressões argentinas para os utensílios uma vez que o objecto apresenta uma forma sugestiva de ter origem nesse país.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um "tête-à tête" do Moinho Fluminense

Este conjunto de porcelana parece um tête-à-tête de brincar. Todas as peças apresentam escrito a dourado «O Moinho Fluminense. Manáos».
Pensei no início ser um presente de algum restaurante, mas na realidade apenas encontrei na cidade de Manaus um estabelecimento com essa designação, que correspondia a uma loja de venda de produtos alimentares, pertença de J. Guimarães Júnior.
É provável que fosse uma sucursal da conhecida fábrica de moagem «Moinho Fluminense» (1), fundada no Rio de Janeiro em 1883 e com alvará de funcionamento com a data de 1887. O edifício de grandes dimensões, foi construído de raiz de acordo com o projecto do arquitecto António Januzzi e destinava-se à moagem de cereais. A importância do edifício acompanhava a da indústria da panificação que dava no Brasil os primeiros passos; na realidade o pão de trigo só foi conhecido no Brasil no século XIX. A corte portuguesa habituada ao pão de trigo em Portugal seguramente que deve ter estranhado.
Foto da Fundação Bunge
Em 1914 o «Moinho Fluminense» foi adquirido pela empresa alimentar «Bunge Brasil». Em 1955, de acordo com um anúncio aos seus produtos existia também o chamado «Moinho Central» em S. Paulo, igualmente pertença da então designada firma «Moinho Fluminense, SA.». Ambos os edifícios foram abandonados e sofreram incêndios. Tiveram, contudo, destinos diferentes; enquanto o moinho de S. Paulo foi implodido, o do Rio de Janeiro transformou-se num centro comercial.
Quanto à  provável filial em Manaus só consegui encontrar uma foto, em que a simplicidade do edifício contrasta com o requinte do serviço de porcelana. Seguramente que falta um elo nesta história, que deve estar relacionado com o progresso associado ao “ciclo da borracha”.
Aqui fica a imagem do requintado serviço que, imagino, foi trazido para Portugal por alguém que viveu no Brasil. Quanto à explicação da identificação em letras douradas «Moinho Fluminense. Manáos» é um desafio de que fico a aguardar achegas para esclarecimento.  

(1) A ausência do «O» inicial torna esta hipótese menos consistente.

domingo, 5 de maio de 2013

Uma chávena de Horniman's na Padaria Ingleza

 

 Neste poste estabeleço uma ligação entre a Padaria Ingleza, de que falei anteriormente  e o Chá Horniman's.
 Encontrei este interessante anúncio nas folhas de um jornal publicitário, sem nome nem data e que presumo, por outros anúncios, que terá sido publicado em 1895. Nele a Padaria Ingleza surge apenas com uma única morada, na Travessa Nova do Cais do Tojo, nº 15, e o seu proprietário era John Broomfield.
A firma era também designada por «English Bakery», nome que provavelmente seria mais adequado à colónia inglesa. Apesar de ter ficado conhecida pela designação portuguesa, não há dúvida que fazia jus ao seu nome. 
Na loja da Travessa do Cais do Tojo, o proprietário vendia o chá Hornimans, nas variedades verde e preto, vindo directamente de Londres, mas também «um grande sortimento de buns e bolos para lunch, sobremesa e chá».  
Vendia também biscoitos secos; pastéis de carne e peixe; bolos grandes; vol-au-vents (sistema inglês), o «genuíno brown bread muito recomendado pelos médicos para diabéticos»; pãezinhos para jantar e uma grande variedade de vinhos.
Estes dados levam-me a especular que Mary Ann Bloomfield, uma cidadã inglesa, comerciante e residente em Lisboa, que registou o nome «Padaria Ingleza» a 4 de Março de 1898, seria viúva de John Broomfiled. Seria ela que continuaria a obra de seu marido ampliando o negócio com a abertura de um segundo espaço comercial, como já dissemos anteriormente.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Aviação e o Chá

Ofereceram-me hoje esta interessante gravura que retrata o interior de um pequeno avião que sobrevoa Londres.
Em primeiro plano podem observar-se duas senhoras de calmo sorriso que apreciam o chá oferecido por um “steward”, identificado na lapela e vestido a rigor. As indumentárias femininas remetem-nos para a década de 1920-30.
A gravura apresenta a assinatura de C E Turner que corresponde ao nome de Charles Eddower Turner (1893-1965) que serviu na Royal Air Force durante as duas guerras. Esta sua actividade colocou-o em posição priviligiada para representar cenas de batalha, barcos e aviões.
Para além da representação artística da guerra, com publicações em revistas como o Illustrated London News e a Sphere ficou também conhecido pela sua actividade em campanhas publicitárias, a mais conhecida de todas para a linha de navios Cunard.
Esta gravura corresponde precisamente a esse período de acalmia entre as duas Grandes Guerras, quando se pensava que os problemas na Europa havia acabado e era possível sair de casa simplesmente para beber um chá a bordo de um avião.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Manzanilha, a camomila espanhola

 Foi esta caixa de lata dos anos 40-50, de que não encontrei qualquer informação, que me fez falar na manzanilha.
 Aprendi a palavra “manzanilla” nas minhas idas a Espanha quando, depois do jantar, e evitando o café que me provoca espertina, pedia «manzanilla». Na realidade o que eu pedia, nos primeiros tempos, era «té de manzanilla». O empregado arregalava os olhos e perguntava-me se era “chá” ou “camomila” porque em castelhano faz-se a distinção entre o chá verdadeiro (camelia sinenses) e as infusões de ervas, o que não acontece em Portugal. Quando percebi a diferença passei a pedir apenas «manzanilla» e tudo corria bem.
 Dá-se o nome genérico de Camomila a várias plantas da família  Asteraceae, em que se inclui a Camomila-vulgar (Matricaria recutita), também chamada simplesmente  Camomila, Camomila-alemã, Matricária ou Manzanilla, que é a que se usa para fazer infusões e a Camomila-romana (Chamaemelum nobile), também designada Camomila-de-Paris ou Macela, que a minha mãe usava quando eu era pequenina para me aclarar o cabelo.
 Como planta medicinal o seu uso tem uma longa história. Os antigos egípcios tratavam uma doença febril semelhante à malária com o chá de suas flores. Ficou muito conhecido também um tipo de vinho aromatizado com flores de camomila. Na Espanha, por exemplo, esse vinho era usado como digestivo.
 Embora eu desconfie de muitas das afirmações que são feitas a propósito de algumas plantas não há dúvida que a camomila é repousante e ajuda na digestão.

Em 26 de Janeiro de 2005 foi publicado no American Chemical Society’s Journal of Agricultural and Food Chemistry, um estudo sobre a variante Matricaria recutita, que usamos como chá. Foram feitas análises à urina a um grupo de voluntários antes e depois de beberem este chá, diariamente, durante duas semanas. Os investigadores detectaram que ingerir este chá provocava niveís urinários aumentados de hipurato, um produto de degradação de substancias fenólicas que estão relacionadas com o aumento da actividade antibacteriana. Isso explicaria a estimulação do sistema imune e a sua aplicação para contrariar as infecções.
Foram também encontrados níveis aumentados de glicina, um amino-ácido que se tem revelado anti-espasmódico muscular. Seria esse efeito que justificaria a sua eficácia nas dores menstruais. Surpreendentemente os níveis de hipurato e glicina mantiveram-se elevados durante duas semanas após a suspensão da ingestão desta infusão. 
Mas a glicina actua também como calmante e sedativo ligeiro, e essa é a principal razão porque é vendida.
 Devo dizer que neste caso não me fazia falta um artigo científico para confirmar um efeito que eu própria constatava. Mas dada a minha formação de medicina clássica, fica sempre bem  documentar as afirmações.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Museu Virtual: Bule de Chá

Nome do Objecto: Bule de chá do modelo Kirby

Descrição: Bule em porcelana com exterior de cor amarela e asa, bico, pés e contorno da tampa em dourado. Corpo do bule oval com filtro perfurado integrado.

Material: Porcelana

Época: 1940-1950

Marcas: SP (Sociedade de Porcelanas de Coimbra)

Origem: Mercado português

Grupo a que pertence: Recipientes para o serviço ou consumo de bebidas.

Função Geral: Recipiente para servir bebidas.

Função Específica: Bule para fazer e servir chá.

Nº inventário: 1034

Objectos semelhantes: Bules em metal “silverplated” produzidos em Inglaterra de acordo com o modelo inventado e patenteado pela firma Kirby, Beard & Co, Ltd, de Birmingham e Redditch.
O nome foi adoptado, em 1816, por Robert Kirby e George Beard, que se juntaram para trabalhar numa empresa que já existia desde 1743. A sua actividade inicial foi como fabricantes de ganchos de cabelo e agulhas e posteriormente começaram a produzir objectos domésticos de luxo, que exportavam para a Europa, entre os quais bules para chá.
No início do século XX esta empresa tinha uma loja em Paris na Rue Auber, nº5. Em 1910, um anúncio publicado na revista Femina, em França, mostrava este modelo de bule “Kirby”.
No seu apogeu a Kirby & Beard produziu também máquinas de barbear de qualidade. A fábrica foi destruída pelos bombardeiros alemães durante a II Guerra Mundial .
H. Rousset no livro «Boissons hygiéniques», publicado em 1926, apresenta o modelo de um bule para infusão de chá modelo «Kirby». O próprio bule possui um filtro em louça que permite o contacto das folhas do chá com a água quente quando este está deitado. É por esta razão que o bule apresenta dois pequenos pés, sobre os quais se apoia, juntamente com a asa.
Feito o chá, e para impedir a continuação da libertação dos taninos que dão ao chá um gosto acre, o bule é colocado em pé e as folhas ficam isoladas no recipiente próprio.

Foi este tipo de bule Kirby, inicialmente feito em casquinha, que a Sociedade de Porcelanas de Coimbra, utilizou como modelo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mais um pouco de Chá-Licungo

Regresso ao tema do Chá Li-Cungo, para prazer dos saudosistas. A lembrança foi despoletada por este cartaz publicitário lindíssimo. Está identificado como tendo sido feito em Lisboa na «Lito Amorim», em 8 de Julho de 1938. Esta tipografia teve grande actividade dos anos de 1930 a 1960 sendo responsável pela impressão e presumivelmente pela criação de material destinado ao Turismo. Estava ainda activa em 1985.

O cartaz, de grande qualidade estética, mostra-nos um criado preto com um «fez» ou chapéu turco na cabeça e um tabuleiro em que repousam uma chávena e um bule onde se pode ler «Chá Li-Cungo».
Nesta imagem está representado um modelo de bule, menos frequente do que os que reproduzi no poste anterior sobre este tema. Trata-se de uma peça saída igualmente da Fábrica de Louças de Sacavém, do período Gilman & Cia, como se pode ver na sua base.

Na parte inferior do cartaz mostram-se vários modelos de caixas de chá, os mais frequentes em cartão, como apresentei anteriormente, e uma caixa em folha-de-flandres azul, onde se identifica a sua proveniência: «Companhia da Zambézia - Gurué - Moçambique», remetendo-nos para a extensa região de plantação de chá no centro daquele país.
Também a representação desta embalagem nos ficou na memória. Um exemplar bem conservado é aqui apresentado e serve para recordar os mais esquecidos ou aqueles que não tiveram a sorte de o conhecer.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Postais publicitários: Chá Lipton

Este postal publicitário ao Chá Lipton era oferecido pelos estabelecimentos Jerónimo Martins & Filho, então situados na Rua Garret, Nº 17 a 19, em Lisboa.
Tendo como tema uma bucólica paisagem japonesa, apresenta no verso a informação de que, contra a devolução de 20 etiquetas dos pacotes de chá, seria oferecido um lindo bule.

Seria o bule da imagem?

domingo, 30 de outubro de 2011

O chá Li-cungo


Foi ao folhear o jornal Século, de 16 de Outubro de 1948, um “Número especial dedicado ao Império”, de grandes dimensões e volume, que me deparei com uma notícia sobre a Companhia da Zambézia e o Chá Li-Cungo.

Após a Conferência de Berlim, em 1885, onde Portugal assumiu a obrigação de assegurar a ocupação efectiva dos seus territórios, Joaquim Carlos Paiva de Andrade que era oficial do exército português e adido militar em Paris, decidiu
explorar as riquezas minerais de Moçambique.

A sua proposta inicial, em 1878, foi para efectuar uma exploração mineira e florestal de uma vasta área da Zambézia e em Maio de 1892 fundou a Companhia da Zambézia, com capitais vindos de vários países além de Portugal, como a África do Sul, a Alemanha, a França, a Inglaterra, os Estados Unidos, etc.

A concessão seria posteriormente alargada a outros territórios limitados pelo rio Li-cungo, cujo nome viria a ser dado a uma das maiores produções da empresa: o chá.
Embora a produção inicial da companhia tenha sido de coco, borracha, café, arroz e outros produtos, em 1934 iniciou a produção de chá. Para além das plantações foi construída uma fábrica de transformação do chá.
Com a aprovação dos ingleses, o chá foi introduzido em Londres onde foi considerado de grande qualidade. Seguiu-se a exportação para a Turquia, Pérsia, Polónia, Checolosváquia, América do Norte, Espanha, etc.
Edifício da gerência da Companhia da Zambézia, em pleno palmar

Em Portugal, porém, o chá da África Oriental continuava desconhecido e os apreciadores desta bebida continuavam a consumir chá Lipton ou Horniman.
Começou então uma campanha publicitária em Portugal, ao chá Li-cungo, com ofertas de amostras de chá e de serviços de chá em louça contra a troca de pacotes.

O chá era vendido em pacotes de cartão de várias cores, consoante a quantidade. Ficou mais conhecido o pacote amarelo, que correspondia aos 100 gramas, mas recordo-me de pacotes mais pequenos de cor rosa.
Um dos modelos de bule e açucareiro feitos pela Fábrica de Sacavém
O sucesso em Portugal foi grande e a sua venda não parou de crescer. Era considerado internacionalmente um chá de qualidade e a sua produção foi também aumentando progressivamente. Assim, de acordo com a notícia do Século, a sua produção que, em 1935, era de 37.000 toneladas aumentou, em 1947, para 243.699.

Desconheço a data em que a sua importação para Portugal foi suspensa. Há alguns anos surgiram no mercado novamente embalagens de chá Li-Cungo, de forma esporádica.
Infelizmente não possuo dados para terminar esta história, que parecia de sucesso.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Chá Lipton

Mostro-lhes hoje esta interessante lata de chá Lipton. É uma lata de Orange Pekoe, com o peso de uma libra e foi feita para o mercado americano, onde foi vendida nos anos trinta. Não chegou a ser aberta e conserva o papel exterior em muito bom estado.
Nela se pode ver a foto do seu fundador, sir Thomas Lipton (1850-1931), aqui apresentado como plantador de chá no Ceilão. O seu desenho mostra-o com farda e chapéu de marinheiro numa alusão ao seu gosto por velejar. Foi essa paixão que o fez participar na regata mais famosa do mundo a “America’s Cup” entre os anos de 1899 e 1930.
Começando assim parece tratar-se de alguém nascido em berço de ouro, mas na realidade Lipton era oriundo de uma pobre família escocesa. Como tantos outros conterrâneos os seus pais imigraram para os Estados Unidos em meados do século XIX, levando o seu filho. Este trabalhou em vários ramos entre os quais uma mercearia, onde aprendeu alguns segredos da profissão que lhe valeriam uma mudança radical de vida.
Regressando à Escócia em 1869, abriu ao fim de dois anos a sua própria mercearia em Glasgow. Com o passar do tempo novas sucursais foram abrindo e de 20 lojas em 1880 passou para 300 em 1890.
Este sucesso ficou a dever-se à tenacidade do seu proprietário e ao uso de técnicas de publicidade, ainda nos seu primórdios, em que usou o serviço de um desenhador de nome Willie Lockhart.
Lipton começou por comercializar chá a preços mais baixos através de intermediários mas, em 1890, uma visita ao Ceilão (Sri Lanka), iria mudar o seu destino e o do comércio do chá. O Ceilão era famoso pela produção de café, aí introduzido pelos holandeses em 1740. Tanto o café como o preço dos terrenos de plantação no Ceilão estavam no seu máximo quando uma praga por fungos, que começou em 1869, arruinou a cultura do café em menos de 20 anos.
Quando em 1890 Lipton visita o Ceilão conhece James Taylor (1835-1892), um inglês que introduziu aí a cultura do chá. Lipton decide comprar várias propriedades a produtores falidos e, em conjunto com Taylor, desenvolvem a produção de chá em grande escala. A produção foi de tal modo grande que praticamente se abandonou a importação do chá da China, passando a ser substituída pela do Ceilão e da Índia. Na sua publicidade Lipton anunciava o seu chá: «Directamente dos Jardins do Chá para o Bule».
Os Estados Unidos tornaram-se o seu cliente principal e, só na Feira Mundial de Chicago, de 1893, foram vendidos mais de um milhão de pacotes. Pelo seu sucesso a rainha Victoria nomeou-o “Sir” em 1898 e em 1902 receberia o título de baronete.
Foi também nomeado “Fornecedor da Casa Real”, título que ostentava nas latas: “Fornecedor do rei Afonso, do rei e rainha de Itália e do rei Jorge V”. Por esta altura já Lipton recebia na sua bela casa de Londres a família real e a melhor sociedade.
Uma história de sucesso de um “self-made man” que todos gostam de ouvir e a explicação para a caixa de chá de proveniência americana.