Na sequência do post anterior, falamos hoje nos produtos comercializados pela Fábrica Santo António, no Funchal.Com referimos, a principal produção desta fábrica, no seu início, foi de bolachas.
Ainda hoje a variedade de bolachas fabricadas é grande e nela se incluem as bolachas Petit-Beurre, Maria, digestiva de aveia, dietética de amêndoa e de avelã, gengibre e integral.
Para além disso produzem também biscoitos como os biscoitos de canela e de mel e outros.
Produzem também rebuçados como os de eucalipto e os típicos rebuçados de funcho.

No campo da compotas a variedade é grande, sendo interessante notar a utilização de frutas tropicais e semi-tropicais usadas na sua confecção. Assim podemos encontrar, a par de doces mais tradicionais como os de amora ou limão, os doces de tamarilho, pitanga, manga, banana e maracujá, papaia e maracujá, etc.
Frasco de doce tendo em baixo o tecido típico da Madeira, que cobria os frascos, agora substituído por papel idênticoE como é evidente uma das suas maiores vendas está no tradicional bolo de mel de cana de açúcar da Madeira, cujo berço madeirense se atribui ao Convento de Santa Clara do Funchal, onde começou a ser produzido, pelo menos desde o século XVII. Este bolo, resultado do encontro entre o doce e as especiarias, não foi durante muito tempo considerado, tal como outras doçarias, um manjar popular. Era então associado à época natalícia, mas hoje está disponível todo o ano. Tendo como característica uma longa duração, pode ser consumido tardiamente em relação ao seu fabrico.
João José Abreu de Sousa*, afirma que o bolo de Mel de cana de açúcar nasceu no convento franciscano masculino de Monchique, no Algarve. Foi frei Jordão do Espírito Santo, quem, nos finais do século XV, embarcou para a Madeira levando consigo esta receita. Seriam as freiras franciscanas do Convento de Santa Clara que, ao tomarem conhecimento desta, lhes adicionaram as especiarias vindas do Oriente, com destaque para o cravinho, iniciando assim uma tradição na doçaria madeirense.
Nota final:Estes meus post tiveram origem numa visita à Ilha da Madeira, há cerca de 2 semanas.
Hoje, perante as notícias da tragédia que atingiu a Madeira, interrogo-me se a fábrica, situada junto a uma das ribeiras que atravessa o Funchal e de que se podem ver as grades que o ladeiam na foto do post anterior, terá sido poupada à destruição.
* João José Abreu de Sousa, O bolo de Mel - Ex libris da Doçaria Madeirense, Funchal, Associação Cultural Memórias Gastronómicas, 2008.
* João José Abreu de Sousa, O bolo de Mel - Ex libris da Doçaria Madeirense, Funchal, Associação Cultural Memórias Gastronómicas, 2008.

A fábrica foi fundada em 1893 por Francisco Roque Gomes da Silva. Desde o início que a fábrica e loja têm permanecido no mesmo local, na Travessa do Forno. Começou por produzir bolachas e biscoitos, em que se torna evidente a influência inglesa, tanto no que respeita às receitas como ao logótipo das latas de 5 Kg onde estas eram acondicionadas. Podemos ver as latas antigas, em folha de Flandres forradas a papel, ao lado de latas da Huntley & Palmers, fábrica inglesa fundada em 1822 e que se tornou na maior fábrica de biscoitos do mundo e perceber a sua influência. Do mesmo modo as bolachas de gengibre remetem-nos imediatamente para Inglaterra.
Em 1948, a fábrica, parcialmente visível por detrás do balcão, foi remodelada e adaptada à electricidade. A modernização poupou contudo a principal máquina, uma moldadora de bolachas, que data de 1900 e que foi apenas adaptada à nova força motriz.
Com a morte do fundador a fábrica passou para seu filho Américo Ciríaco Silva e deste para António Manuel Carregal Côrrea da Silva. Permanece ainda na posse da família, sendo sua actual proprietária Christiane Bettencourt Sardinha. É a esta sucessão familiar que se atribui a persistência desta fábrica, uma das mais antigas fábricas de bolachas do país.