Mostrar mensagens com a etiqueta Vidros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vidros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de novembro de 2018

Objecto Mistério Nº 58. Resposta: Lavatório


 Usamos ainda hoje uma forma simplificada deste lavatório, que designamos por lavabo. Trata-se de um pequena taça com pires destinada a lavar os dedos após o consumo de alimentos comidos à mão, como o marisco. Este tipo de utensílio foi o herdeiro natural do que apresentámos como objecto mistério.
A designação de lavabo explica-se por ser a mesma que se utiliza para os depósitos de água com torneira para alguém se lavar. A mesma palavra refere-se, na religião católica, à cerimónia da lavagem dos dedos e à oração que a acompanha na missa.
Imagem tirada da net
 Quanto ao lavatório, no início do século XIX, surgia nos inventários de bens, como no de D. Fernando II[1], como finger glass ou rince bouche. Estas expressões estrangeiras explicam bem a forma como era utilizado. Ele vinha à mesa com água tépida dentro do copo da qual se despejava uma parte na taça. Entregues no final da refeição lavavam-se os dedos na taça, bochechava-se com a água do copo que se deitava na taça já utilizada e o todo era recolhido. Era por esta razão que os lavatórios eram em vidro opaco, branco, ou azul em vários tons. Nalguns casos, como nalguns existentes ainda nas reservas do Palácio da Vila em Sintra, eram em vidro espesso espiculado, que igualmente lhes retirava transparência.  
 Estiveram em grande moda na corte de D. Maria II. O Marquês de Fronteira, D. José de Trazimundo, nas suas memórias descreveu uma cena passada com o representante de França em Portugal, em 1848, Mr. Mallefille[2]. Desconhecendo as regras de etiqueta da época bebeu a água tépida. Tivesse ele lido o livro Manual de Civilidade e Etiqueta e evitar-se-ia esta cena.



[1] Inventário das Louças antigas e modernas que sairam da real Mantearia... 1857. ANTT. AHMF.CR. Cx 4471.
[2] Pereira, Ana Marques, Mesa Real, p, 172.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Convite: Exposição Garrafas de Licores

Vai ter lugar no dia 21 de Julho, sábado, às 16 horas a inauguração de uma nova exposição de Garrafas de Licor, com parte do espólio das cerca de 1000 garrafas desta temática que entretanto fui coligindo.
A exposição desta vez será no Museu Marquês de Pombal, em Pombal e resultou da proposta que a Drª Cidália Botas, desse Museu, fez para levar a exposição que esteve anteriormente no Museu do Vidro da Marinha Grande. Contamos com o apoio deste último museu que nos facilitou fotografias e cópias de modelos industriais que vão tornar a amostra mais completa.
Ao contrário do Museu da Marinha Grande, que possui salas próprias para exposições, este museu de Pombal, de pequenas dimensões, vai integrar no seu espaço as peças de vidro da colecção.
Como o Marquês de Pombal foi um patrocinador do desenvolvimento de várias indústrias, entre as quais a do vidro, as garrafas vão ficar sobre a protecção do Marquês, o que muito me agrada.
O projecto que parecia difícil foi um desafio conseguido e a exposição, que acabamos de montar, ficou muito interessante.
Se tiverem disponibilidade não deixem de ir visitar a exposição no dia da inauguração ou noutro. Não haverá palestra nesse dia que fica adiada para o final da exposição a 31 de Outubro. Mas podem sempre visitar o museu, a exposição e beber um licor, caso estejam presentes no dia 21 de Julho, o que muito prazer me daria.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Palestra: «Garrafas de licor uma doce descoberta»


No próximo sábado, dia 23 de Junho às 16,30 horas, irei falar no Museu Municipal de Almada sobre este tema.
A comunicação estará focada nas garrafas de vidro e integra-se no programa que acompanha a Exposição «Uma história engarrafada. O vidro utilitário do séc. XVIII em Almada», de que já falei aqui. 

Estarão em exposição achados arqueológicos de vidro encontrados nas escavações de uma habitação desta cidade. A Exposição que foi inaugurada no dia 9 de Junho estará patente ao público até 31 de Julho.
Quanto à palestra lá os aguardo.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Exposição de Vidros do Séc. XVIII


A minha amiga Inês Coutinho, do Departamento de Conservação e Restauro e investigadora na Unidade de Investigação Vicarte, FCT do Campus da Caparica, enviou-me um convite irrecusável.

Trata-se da inauguração da Exposição de vidro utilitário do século XVIII de Almada, intitulada «Uma história Engarrafada», que terá lugar no dia 9 de Junho às 16,30h no Museu da Cidade em Almada.

Para os lisboetas é só apanhar o barco no Cais do Sodré até Cacilhas (10 min) e tomar o metro de superfície direcção Corroios e saem na Cova da Piedade (10 min).
Ficam convidados. Vai valer a pena!

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Convite «Artes do Vidro no Consumo dos Licores»


No próximo dia 7 de Abril às 15,30 vou fazer uma conferência no museu do Vidro da Marinha Grande.
Com o título «Artes do Vidro no consumo dos Licores» será uma revisão pelos objectos que ao longo dos últimos séculos serviram para apresentar ou consumir os licores.
No século XIX, período áureo desta moda, os objectos tomaram formas exuberantes que serviam para orgulhar os anfitriões durante o serviço de licores que tinha lugar após o jantar, juntamente com o café.
 A partir de meados do século XX os licores ficaram cada vez menos na moda e o vidro fazia as suas últimas aparições nos conjuntos de cálices de múltiplas cores, para logo ser suplantado por novos materiais, como por exemplo o alumínio anodizado.
A conferência encerra a exposição que termina no dia 8 de Abril onde se encontram patentes algumas das garrafas da minha colecção.
Última oportunidade portanto para visitar a exposição. Terei muito prazer na vossa presença.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Exposição de Garrafas de Licores no Museu do Vidro

As garrafas de licor são diferentes de todas as outras. As de vinho ou de champanhe são sóbrias e obedecem a formas standard.
As garrafas de licor, em especial na primeira metade do século XX, tomaram formas antropomórficas ou geométricas para competirem com o uso dos licoreiros. Desde o século XIX que a moda ditava que o consumo dos licores se devia fazer após as refeições, isto é, no período do café. Era um momento de descontracção dedicado à conversa e em que a dona de casa tinha a oportunidade de mostrar os seus belos licoreiros ou até, como em França, as grandes caves à liquer.
Os comerciantes não se deram por achados e começaram a desenhar garrafas atraentes, que tiveram o seu apogeu nas garrafas figurativas.
São algumas dessas garrafas da minha colecção (que conta já com mais de 600 exemplares) que vão estar expostas no Museu do Vidro da Marinha Grande, até Abril.

A inauguração é no próximo sábado, dia 18 de Novembro às 16 horas e seria um prazer contar com a vossa presença.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A propósito de biscoiteiras

 Não é fácil escrever sobre este tema. Como não é igualmente fácil distinguir por vezes as biscoiteiras das confeiteiras e das bomboneiras. Estas últimas foram mais precoces na história da civilização e do gosto pela sofisticação da mesa, pelo que merecem um estudo à parte. Ficamo-nos então pelas biscoiteiras a propósito destes exemplares de vidro que adquiri recentemente.
Não fossem os americanos e a história das biscoiteiras seria curta. Dito assim parece-nos estranho, mas eu explico.
Embora haja quem diga que as biscoiteiras surgiram no século XVIII em Inglaterra, o que poderá ser verdade dado o seu gosto pelos biscoitos, não consegui encontrar representação de nenhuma até ao momento. O período áureo destas delicadas peças foi o século XIX.
Os principais exemplares são em vidro, com estética Art Nouveau, em vidro simples, pintadas ou irisadas, de que os alemães e os franceses foram os principais produtores. Com uma armação metálica que servia de pega, tinham uma tampa correspondente, embora este sistema nunca tivesse sido o mais eficaz, para que estas não amolecessem. Talvez por isso eram utilizadas as caixas em folha-de-flandres, que eram herméticas. Embora mais úteis sob este ponto de vista não se prestavam contudo ao fim a que as belas boleiras se destinavam. Eram normalmente objectos únicos, usados no período do pós jantar, isto é, do café e dos licores. É conhecido o uso de determinado tipo de biscoitos, as ratafias, introduzidos no licor com o mesmo nome, deleite dos apreciadores no século XVIII[1].
Por volta da década de 1920 surgiram na Europa modelos em cerâmica com forma de caixa com bases rectangulares ou ovais, algumas com pegas e fechos metálicos. Por vezes apresentavam-se com características Art Deco, com desenhos geométricos aerografados.

Mas foi nos Estados Unidos que a partir de 1929 se começaram a produzir biscoiteiras em cerâmica de formas variadas, de animais, bonecos, etc. Muito apreciadas foram desde sempre objecto de coleccionismo. O coleccionador mais conhecido foi Andy Warhol, cuja colecção foi vendida por uma fortuna o que impulsionou ainda mais esse interesse.

Colecção de biscoiteiras de Andy Warhol. Imagem retirada da internet
Aos europeus nunca entusiasmaram muito estes modelos. Em Portugal existem biscoiteiras em cerâmica feitas na Fábrica de Sacavém, ou outros modelos mais imaginativos da Fábrica Aleluia e pouco mais. O nosso gosto ficou pelas de vidro e o nosso sentido prático pelas caixas de lata. Servidos os biscoitos à hora do chá, uma vez que se perdeu o hábito de acompanharem o café, são habitualmente apresentados em pratinhos, saídos das ditas caixinhas para quem os faz em casa, ou directamente do pacote para quem os compra já confeccionados.
É tudo uma questão de gosto.
Catálogo de 1911
P.S.1 - Depois de publicado no facebook a Cristina Neiva Correio sugeriu que seria mais adequado usar a expressão biscoteira em vez de boleira que eu sempre tinha ouvido.
Catálogo de 1911
Consultei o catálogo dos grande Armazéns Hermínios no Porto de 1911-2 e a designação era «biscouteira». 
Catálogo de 1928-1929
Já no catálogo do Armazéns Grandella  de 1928-9, eram designadas «Biscoiteiras», assim sendo corrijo a designação e agradeço a correção. Com calma vou ver outros catálogos e voltarei a este tema.
P.S.  2 - Agradecia que as pessoas, em especial as mais velhas, dissessem se se lembram de ser usada a expressão «boleira» ou «biscoiteira». É possível que fossem utilizadas as duas e penso que não terá a ver com as regiões do país.




[1] Ana Marques Pereira. Licores de Portugal (1880-1980). p. 120.

domingo, 5 de junho de 2016

Museu virtual: Copo enganador

Nome do Objecto: Copo enganador

Descrição: Copo de parede dupla, de forma troco-cónica, sem pé, apresentando a parede interior forma cónica. A base do copo, em vidro mais espesso, encontra-se perfurada no centro, onde entra uma pequena rolha que permite reter líquido no seu interior. A parede exterior apresenta desenhos vegetalistas gravados a ácido.

Material: Vidro transparente.

Época: Primeira metade do século XX.

Marcas: Não tem.

Origem: Adquirido no mercado português.

 
Grupo a que pertence: equipamento culinário.

Função Geral: servir alimentos.

Função Específica: servir bebidas

Nº inventário: 2164
Copos Bodum

Objectos semelhantes: 1- Copos modernos da Bodum, de parede dupla, para bebidas quentes ou frias. Funcionam como isolantes e não permitem o acesso ao interior.
 2 - Outro tipo de copos semelhantes eram usados no Carnaval. Continham entre as duas paredes um líquido, mas apresentavam-se vazios no interior servindo para brincadeiras.
Observações: As características do copo assemelham-no a copos enganadores. Estes contudo são habitualmente de paredes espessas, parecendo conter mais líquido do que realmente contêm, pelo que eram de uso comum em tabernas. Em casa eram destinados aos anfitriões para poderem fingir que bebiam mais do que parecia, mantendo a lucidez. Apresentei já um desses copos como objecto mistério. A quem interessar pode ver aqui a resposta. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

O licor «Cae Bem» de Francisco Dias

Garrafa Licor Cae Bem
Francisco Dias era o nome do proprietário da fábrica de licores que, em 1931, estava estabelecido no largo da Portas do Sol, 6 e 7, em Lisboa. O edifício já não existe, sacrificado à necessidade de largueza e amplitude de visão do largo,  mas as fotografias da época mostram a suas grandes dimensões.
Fábrica de Francisco Dias à esq. Largo das Portas do Sol. Foto de Eduardo Portugal, 1939, Arquivo fotográfico da CML
A empresa, como então era moda, tomou o nome do seu proprietário «Francisco Dias» que em 1935 mudou a designação para «Francisco Dias, Limitada». Foi nesse ano que registou igualmente a insígnia que consistia numa estrela de cinco bicos, dentro de um círculo de onde saíam múltiplos raios, e tendo no centro as letras «FD» e que aparece nos rótulos da garrafas.
Um dos seus primeiros produtos, registado em 1931, foi o «Creme de Licor Cae Bem», de que finalmente consegui arranjar uma garrafa. Com uma imagem moderna, adequada à época, uma jovem de cabelo curto brindava com um cálice na mão, enquanto a outra se apoiava numa mesa sobre a qual se pode ver uma garrafa de licor. Seguiu-se, ainda em 1931, o «Creme de Anis Escarchado», em que o rótulo recortado mostrava um casal em traje de cerimónia, a brindar com duas taças, sobre uma fruteira gigante repleta de frutas.
Rótulo mais tardio do Creme de Licor Cae Bem © AMP
Em 1935 para além de uma «Aguardente fina» registou a marca «Chega-m’isso», um creme em que utilizava novamente no rótulo um casal a brindar, desta vez tendo a figura feminina um copo e a masculina uma garrafa na mão. A última marca detectada foi designada «Pretinha», não sendo explicitado de que tipo de bebida se tratava, mas produziu também um licor designado «Lutador» e ginjinha.
Rótulo Licor Lutador © AMP
Em 1944 o seu nome constava da lista de fabricantes de licores publicada pelo «Grande Anuário de Portugal» e o achado de um rótulo desta firma da década de 1950 mostra-nos que produziam então um «Creme Escarchado de Laranja» e que a empresa se situava ainda no largo das Portas do Sol.
Rótulo Fina Ginginha © AMP
No «Guia Profissional de Portugal», de 1964, pode ver-se um anúncio seu, como fabricantes de licores e xaropes mas tinha-se já mudado para a Travessa de S. Tomé, 7, em Lisboa. Existia ainda em 1971, de acordo com o «Informador Comercial e Industrial de Lisboa».

Esta empresa utilizou também garrafas com o seu nome em relevo no vidro. Refiro-me a uma garrafa com o feitio aproximado de uma guitarra, em que surge, na metade inferior, um círculo onde pode ler-se «Francisco Dias – Lisboa». No que respeita à utilização de garrafas figurativas comercializaram pelo menos o jogador que era representado com uma bola entre os pés e onde, na base, se identifica o nome Francisco Dias em relevo, enquanto na frente o rótulo mostra a marca «Chutador».
Garrafa figurativa
Esta firma lisboeta pode ser utilizada como exemplo na utilização de rótulos muito ingénuos, coloridos e divertidos que foi a característica visível mais marcante dos licores populares produzidos desde o final do século XIX e durante a primeira metade do século XX.

Bibliografia: Pereira, Ana Marques, Licores de Portugal (1880-1980).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O licor, uma bebida de Natal

É verdade que se foi perdendo esta tradição de beber licores na época natalícia. 
A grande excepção encontra-se nos Açores onde está bem vivo este costume chamado «O menino mija?» e onde as pessoas vão visitar os seus amigos e familiares repetindo esta pergunta. É uma ronda onde se vão provando os licores caseiros ou industriais regionais e se aproveita para desejar as Boas Festas.
No resto do país foi-se perdendo o hábito de associar estas bebidas à época natalícia. Mas que este existiu é-nos provado por várias manifestações materiais, desde a forma das garrafas, aos rótulos e à publicidade.
Mostro-lhes alguns exemplos como a garrafa em forma de casa, a cuja porta o pai Natal bate para oferecer os presentes.
Foi desenhada por Adolfo e Rocha em 1955 e encontra-se na forma não pintada ou com pintura manual onde são realçados todos os pormenores incluindo a neve.
Uma outra forma popular de garrafa era a do próprio Pai Natal que existe em várias versões e de que já apresentei em anos anteriores um exemplo. 
Algumas distinguem-se pela pintura que identifica o produtor, enquanto noutras essa identificação era feita apenas através de um rótulo colocado nas costas.
Por ultimo mostro-lhes uma garrafa do Licor Natal, de forma cónica, que está ilustrada num cartaz publicitário em que o próprio Pai Natal viaja numa dessas garrafas e que eu reproduzi em postal.
Espero que gostem. Servem para eu lhes desejar Boas Festas e lembrar que a exposição onde estão estas garrafas e  outros objectos deste tema vai estar no Mercado de Santa Clara até Fevereiro de 2014.


sábado, 18 de maio de 2013

Félix Correia à mesa do café

Esta foto pertenceu ao espólio de Félix Correia (1901-1969) que foi jornalista do diário A Monarquia em 1918. Foi colaborador do jornal A Revolução (1922-1923) e director do mesmo a partir do 12º número.
 Exerceu funções como redactor no Diário de Lisboa, onde se tornou conhecido ao ser o primeiro jornalista português a entrevistar Hitler, em 1935.
 Foi chefe de redacção do Jornal do Comércio e da Colónias de 1934 a 1937 e a partir de 1940 foi director da revista ilustrada A Esfera. Foi também sócio fundador do sindicato dos jornalistas. 
Apesar deste currículo a razão porque comprei esta fotografia foi mais prosaica. Na foto, o jornalista à esquerda, acompanhado por um colega não identificado, apresenta-se sentado a uma mesa de café. Adivinha-se o final de uma refeição, no momento mais repousante do café. A fotografia, tirada por um terceiro elemento não visível, mostra-nos sobre a mesa três tipos de copos. Os copos altos de água que acompanhavam o café, os pequenos copos destinados à bebida alcoólica (aguardente ou brandy) e um terceiro tipo para o café.
Os copos de vidro para café foram usados durante bastante tempo e eram habitualmente de vidro grosso, apresentados sobre um prato, também em vidro, como no caso presente ou, mais tarde, em porcelana ou inox. Por volta dos anos 50 o cliente ainda podia escolher, nalguns cafés, se desejava o café servido em copo de vidro ou em chávena de louça, havendo defensores das duas modalidades. Um outra variante nacional era a apresentação do copo dentro de uma base em cortiça para proteger as mãos do calor da bebida. Talvez ainda alguns se lembrem do café servido no Café dos Pretos , que existia na Feira Popular de Lisboa, onde este tipo de copos era a regra. 
O que mais me surpreendeu nesta foto foi o modelo do copo de café, pouco frequente. Habitualmente eram usados copos grossos, facetados, de base e bocal redondo. O modelo aqui apresentado, de que consegui arranjar um exemplar, era utilizado, quando em dimensões menores, para servir licor, sendo habitualmente de cores suaves, rosa , azul ou verde.
Um registo interessante de um momento pós-prandial, conhecido por «café», com pormenores ignorados pelos mais novos.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O termómetro moral do alcoolismo

Este copo de vidro, de origem desconhecida, destinado a bebidas espirituosas apresenta as marcas adequadas às quantidades a ingerir de forma a comportar-se como uma “Lady” ou  um “Gentleman”. Acima dessas doses pode-se esperar que as pessoas se comportem como um “porco” ou, em doses ainda maiores, ao nível superior, prevê-se que a pessoa passe a comportar-se como um “grande porco”.

Embora neste copo as representações tenham um sentido humorístico, na realidade a apreensão com os efeitos do alcoolismo vêm de há vários séculos atrás. Esta preocupação em associar a quantidade de álcool ingerido aos seus efeitos tinha um efeito pedagógico.
Ao vê-lo veio-me à ideia um interessante quadro publicado por um médico inglês John Coakley Lettsom (1744–1815) designado «Termómetro Moral e Físico».
Lettsom foi o fundador da Sociedade Médica de Londres, em 1773, mas a sua acção foi muito mais vasta.
Nas suas viagens estudou insectos e escreveu um livro de entomologia chamado The naturalist's and traveler's companion, containing instructions for collecting and preserving objects of natural history and for promoting inquiries after human knowledge in general, publicado em 1774.
O seu principal papel foi contudo como filantropo. Apoiou as classes mais desprotegidas da sociedade, dando consultas e conselhos, de tal modo que acabou por perder toda a sua fortuna nesta actividade, incluindo a sua casa de família.
Um dos seus focos de interesse foi o alcoolismo e a sua associação à perturbação social e ao crime. A sua preocupação com a «temperança», uma das virtudes cristãs, inscrevia-se nesse quadro que começou por ser publicado em 1780, de forma simples.
Nele se estabelecia a relação das bebidas com o comportamento humano. Começando pela água, segue-se a cerveja, a cidra, o vinho e já na secção da «intemperança» as bebidas mais alcoólicas da época como o ponche, o toddy, o flip, o grog, o gin e o brandy.
Lettsom estabeleceu contudo uma relação não só com o grau alcoólico da bebida (lembre-se que na época não existiam ainda alcoolímetros), mas também com a hora do dia. Estas variáveis levavam a resultados diferentes que o autor identificava. Da serenidade de espírito, reputação, longa vida e felicidade até ao desespero, apoplexia e loucura, passando pela doença, pela mentira e pela prisão, estão representados todos os efeitos do alcóol na desregulação da vida.
Já no século XIX, em 1827, surgiu uma nova versão do quadro, ilustrada, em que se representavam os quadros familiares em que decorriam as alterações provocadas pelos alcóol. Mais bonito, perdia o cunho científico médico e tornava-se mais compreensível para todos e por conseguinte mais eficaz.
Imagens interessantes e extremamente didácticas numa sociedade minada pelo vício do alcóol.