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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Uma ementa dos anos 20

 

Fiquei entusiasmada com esta ementa de um grupo, aparentemente fundado em 26 de Novembro de 1922, designado “Grupo dos 15 amigos de S. Bento”.  O jantar realizou-se em 11 de Janeiro de 1925 e era o 8º jantar de confraternização, pelo que posso supor que teria tido lugar duas vezes por ano.

Os promotores da iniciativa foram João Alves e António Branco, mas infelizmente não consegui descobrir a que se dedicava esta associação. A ementa apresentava uma fotografia de qualidade, provavelmente relacionada com o grupo, onde se podia ver o antigo Arco de S. Bento.

Este arco foi construído em 1758, na Rua de S. Bento, levando ao abastecimento de água da zona, incluindo o Convento de S. Bento, actual Palácio da Assembleia. Em 1938, forma feitas obras na zona que levaram ao seu desmantelamento e, em 1993, foi reconstruído e passou a ocupar um espaço estranho e desadequado na Praça de Espanha, onde ainda se encontra.

Vejamos então o “Menu” que é descrito de forma humorística com designações que nos remetem para o espírito bem-humorado deste tipo de associações. Ficamos a conhecer a ordem da refeição mas no que respeita à confecção é um mistério dadas as designações usadas.

O jantar teve lugar no Restaurant Sport, em Sete Rios, em Lisboa. Esta designação à francesa, só começou a divulgar-se em Lisboa depois de 1870, usando-se em vez disso a designação de “casa de pasto”, enquanto o café era designado “botequim”. Ao consultarmos o Novo Guia do Viajante em Lisboa, de 1872, escrito por Júlio Cesar Machado, no que respeita aos hotéis, casas de pasto, botequins ou cafés, encontramos referência a um total de 46 estabelecimentos, mas apenas três destes se designavam “restaurant”.

Estávamos agora na década de 1920, e a designação à francesa mantinha-se. Infelizmente não consegui encontrar qualquer informação sobre o estabelecimento, mas a designação remete-nos para um gosto sobre o desporto que começava a despontar.

Uma pequena foto no cimo da fotografia deixa-nos ainda a dúvida de quem se tratará. De um dos promotores? Do fundador da associação dos 15 amigos?

Por aqui nos ficamos, pelo menos por agora.

 

terça-feira, 8 de abril de 2025

Marylin Monroe em triplicado

 

Ementa desdobrável

Este conjunto dos três elementos certamente que pertenceu a algum admirador de Marylin Monroe, que não é difícil encontrar. Trata-se de duas cartas de restaurante, de comidas e de bebidas e de um envelope de cartas.

Provavelmente até nem era um coleccionador de ementas mas não resistiu ao apelo da imagem desta estrela luminosa. As cartas de restaurante são mais difíceis de adquirir que as ementas, pelo que as que surgem são mais frequentemente roubadas.

Carta de vinhos

O restaurante em causa já não existe há, pelo menos, 10 anos e sobre ele nada descobri. A sua história também não devia ir além do título. Situava-se no Hotel Holiday Inn junto ao aeroporto de Paris-Orly.

A embalagem com papel de carta, com a imagem velada da artista que se repete no interior do envelope, é daquelas coisas que compramos, como acontece com algumas agendas e que achamos bonitas demais para uso. Ficam intactas.


Como conjunto é interessante, devido à presença da imagem da sempre fascinante Marylin Monroe. Não será a ementa a despertar qualquer curiosidade, seguramente.
Papel de carta e envelopes com a sombra de Marylin Monroe





quarta-feira, 17 de abril de 2024

Um brinde da Taberna Ingleza

 

A empresa que havia fundado a Taberna Ingleza, em 1908, ofereceu aos seus clientes um pequeno Almanack-Brinde para o ano de 1909.

Situada na Rua Jardim do Regedor, 33, em Lisboa, perto dos Restauradores, numa zona então muito movimentada, era descrita como “um elegante restaurante que tomou o título da célebre e bem conhecida Taberna Ingleza, que há anos existiu no Cais do Sodré”.

Referia-se assim a um dos restaurantes que existiu na zona ribeirinha, no local onde se situava um botequim do Marrare. António Marrare fundou quatro botequins: o de S. Carlos à esquina da Rua da Figueira (hoje rua Anchieta); o chamado Marrare das Sete Portas no Arco do Bandeira; o Marrare de Polimento no Chiado, e o do Cais do Sodré N° 9, à esquina da Travessa dos Romulares.

Este último acabou em 30 de Junho de 1827,[1] e daria lugar à Taberna Ingleza. Esta daria depois lugar ao Café Price. Em 1880 no Novo Guia do Viajante era referido: “Fornece almoços e mesmo jantares à inglesa; é notável pelos seus bifes, e muito frequentada por estrangeiros e marítimos”.[2]

 Esta nova Taberna Ingleza era “Um restaurante simples, elegante, confortável …. Uma casa onde o freguês estivesse bem e à sua vontade”. Acrescentando: “que “aceita às suas mesas todas as classes da sociedade quando elas se apresentem com decência e ordem”. 

O pequeno almanaque incluía um calendário com os meses e identificação dos santos por dias; uma pequena história intitulada “Um bom conselho”, em que aproveitava par realçara a qualidade da sua comida; provérbios relacionados com a alimentação e terminava com uma poesia-oração “A devoção do Barqueiro”.

Como diziam no início, a oferta do Almanaque era uma prova de reconhecimento às pessoas que, “com a sua visita tem honrado a Taberna Ingleza".



[1] Tinop. Lisboa de Outros Tempos. 1889: 127.

[2] Novo guia do viajante em Lisboa, Cintra, Collares, Mafra, Batalha, setubal, Santarem, Coimbra e Bussaco. Precedido d'uma introd. de Julio Cesar Machado. 1880.

 

 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Um remédio para a pandemia ... em 1918

Uma sugestão, bem humorada, para tratamento da pandemia da gripe espanhola, em 1918, que foi publicada no jornal O Eco Teatral e Cinematográfico.

Pergunto-me se esta Abadia teria a ver com o restaurante Abadia existente então no Palácio Foz, em Lisboa.

É que a famosa empresa Abadia de Alcobaça que teve uma acção importante na transformação frutícola, na produção de doces e licores, só foi criada em 1943. A escritura da sociedade data de 5 de Junho de 1943, ficando inscritos como sócios gerentes Joaquim Belo Marques da Silveira, José António Barreto Alves Faria, Galileu da Silva, Gaudêncio Luís da Silva Costa e Carlos Pereira Campeão. Que eu saiba não produziu cognac, pelo que associando a data, me parece mais provável a primeira hipótese. 

O restaurante Abadia foi fundado em 1917 e situava-se na cave do antigo Palácio Castelo Melhor, posteriormente vendido ao Marquês da Foz e mais conhecido pelo nome deste último. Um local misterioso pelas suas características estéticas novecentistas que se devem ao arquitecto  Rosendo Carvalheira.

Surpresas!

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Restaurante Aubette. A propósito de uma Ementa

Comecei a organizar um lote de ementas que pertenceram ao Prof. Ricardo Jorge e sobre as quais voltarei a falar. Debrucei-me sobre a primeira, uma ementa de grandes dimensões, do «Congrès de la Fédération Internationale de la Presse Gastronomique», que teve lugar entre 12 e 17 de Maio de 1969, na Alsácia. Procurei informar-me sobre esta organização mas as minhas buscas foram infrutíferas.
Resolvi então pesquisar o restaurante de nome Aubette, em Estrasburgo, onde teve lugar o jantar de encerramento. A avaliar pela ementa, devia ser de grande qualidade. Não foi fácil porque este já não existe e pelo contrário surgiram posteriormente, com o mesmo nome, por razões óbvias como veremos, outros locais de restauração.
A descoberta que se seguiu foi extremamente interessante e completamente fora do meu conhecimento. Não conheço Estrasburgo e toda a informação foi recolhida da net. O nome de Aubette foi dado a um grande edifício militar projectado pelo arquitecto Jacques-François Blondel e construído entre 1764 et 1767. Situa-se na Praça Kléber e fazia parte de um plano mais amplo para modernizar a cidade. Transformado posteriormente em museu sofreu em 1870 um incêndio que apenas deixou de pé as paredes. Foi restaurado em 1874 e destinado a outras actividades. Em 1922 os irmãos Paulo e André Horn, que tinham a concessão da ala direita do edifício, decidiram aí instalar um complexo que incluía restaurante e outras actividades lúdicas. Para tal pede a colaboração do projecto e decoração a três elementos da escola De Stijl, de que também fazia parte, como fundador, Piet Mondrian (1872–1944). Os elemento em causa eram o arquitecto Theo Van -Doesburg (1883-1931), Sophie Taeuber-Arp (1889-1943) e Hans Jean Arp (1886-1966). O movimento também designado por neoplasticismo, foi um movimento holandês, iniciado em 1917, que se caracterizava por uma nova concepção do espaço e do uso da cor. À utilização de formas bidimensionais e geométricas, assimétricas, associava-se uma restrição no uso das cores, em que apenas eram utilizado o amarelo, o azul e o vermelho, a que se juntavam o preto e o branco. Este principio foi aplicado à pintura e ao design e posteriormente à arquitectura.
Foram estes conceitos que foram aplicados na decoração de Aubette, obra de vanguarda realizada entre 1925 e 1928. O projecto de grande ambição distribuía-se por quatro pisos. Na cave situavam-se os vestiários, as casas de banho, as cabines telefónicas, um bar americano e uma cave para dança com cabaret. No rés-do-chão situava-se um vestíbulo, um café-cervejaria, um café-restaurante, uma sala de chá e um bar. Por uma grande escada subia-se para um piso intermédio onde ficavam as casas de banho, os vestiários e uma sala de bilhar. Era também aí que se situavam as cozinhas, a sala frigorífica e a copa que dava para o pátio através de um elevador de serviço. No primeiro piso existia uma grande sala que servia ao mesmo tempo de sala de dança e cinema, ligada por um hall à pequena sala de festas. A propósito do Café Aubette Van Doesburg disse: «A pintura separada da construção arquitectónica não tem o direito de existir». O complexo, inaugurado com grande fausto em 28 de Fevereiro de 1928, nunca foi bem aceite pela população que o considerava demasiado moderno. Quando em 1938 os irmãos Horn deixaram de ser gerentes o projecto foi alterado para formas mais consensuais. É provável que o Restaurante Aubette que eu procurava se situasse num desses locais alterados. O espaço foi considerado perdido mas nos anos oitenta foram realizadas obras que revelaram que o local podia ser reabilitado. Os trabalhos de restauro começaram em 1985 e em Junho de 2006 estavam concluídos. Aquela que foi considerada por Hans Houg, antigo director dos Museus de Estrasburgo, talvez com algum exagero, «a capela Sixtina da arte abstracta», pode agora ser visitada.
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Nota: Este poste foi publicado em 2018. Hoje ao actualizar as etiquetas mudou de lugar e foi reeditado nesta data.
 

terça-feira, 7 de abril de 2020

A Casa Oásis

Este folheto publicitário, que encontrei nas minhas arrumações, descreve em pormenor o que hoje seria uma instalação hoteleira (com dormidas), restaurante, barbearia e leitaria. 
Quem o guardou escreveu em cima a data (1922?) e o local em que se situava (Entroncamento).

O seu proprietário António Lopes Leitão explicava a localização da casa, perto da Estação de Comboios do Entroncamento, onde existia um candeeiro que iluminava a porta e uma tabuleta onde se representava uma vaca, em alusão ao serviço de leitaria, tal como se podia ver no folheto.
Além de salientar «o esmerado serviço» o texto mencionava a “higiene” e a “limpeza”, noções que hoje tendemos a sobrepor.
Na altura eram conceitos distintos e importantes sobretudo atendendo às grandes preocupações desenvolvidas com a Higiene, resultantes dos conhecimentos adquiridos com a pandemia de gripe pneumónica de 1918-1919.
Os atractivos da Casa Oásis não se ficavam por aqui e, no que respeitava à alimentação servia em exclusivo os afamados leite, queijos e manteiga da Quinta da Cardiga, pães moletes e bolos, para além de enchidos e conservas e diversas bebidas, como era descrito em pormenor. 

Por fim a barbearia, que rivalizava com as de Lisboa e do Porto e em que se utilizavam máquinas de desinfecção, para satisfação dos clientes. 

Não me parece nada mal.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O restaurante Taínha em Matosinhos

Hoje já não existe e no seu lugar situa-se a Marisqueira Majára. Devia o seu nome ao proprietário José Taínha. 
Começou por ser um restaurante mas depois transformou-se em marisqueira quando o dono decidiu alugar uma outra parte do prédio e estender o espaço, acompanhando uma tendência de consumo de mariscos que entretanto se estendera a outros restaurantes da terra.
Foi neste restaurante que começou por trabalhar Henrique da Silva Torres que, mais tarde, iria abrir a Esplanada Marisqueira, igualmente em Matosinhos e posteriormente outras casas marisqueiras na Póvoa de Varzim.
Em 1960, quando encomendou para oferta aos seus clientes um pequeno livro de gravuras com imagens de Matozinhos, o negócio devia estar próspero.

Com um total de 6 vistas, tipo pequeno postal, mostrava os pontos mais interessantes da terra onde desenvolvia o seu negócio. Mas não se ficou por aqui. Nas traseiras de cada postal podem ler-se os principais pratos que então servia, designados Especialidades da Casa e que aqui mostramos.

O restaurante, situado na Rua Roberto Ivens, 603, tinha também acesso pela Rua do Godinho n. 343, o que sugeriu uma quadra promocional, com que encerrava a vasta ementa.

Nota:
A informação sobre o restaurante é escassa mesmo depois de consultarmos o livro «História da Restauração em Matosinhos (1800-2015)» disponível online.

sábado, 15 de junho de 2019

Monólogo gastronómico no «Restaurante Sua Excelência»


 No meio de alguns papéis com receitas que me deram vinha uma fotocópia de um artigo de um jornal não identificado intitulado «Monólogo gastronómico».
O papel mostrava a fotografia de Francisco Queiroz e reproduzia na íntegra uma das suas recitações da ementa que antecediam a refeição. O nome do restaurante não era referido no recorte (possivelmente incompleto), mas imediatamente fui transportada para o interior de «Sua Excelência». O restaurante, que já não existe, ficava em Lisboa na Rua do Conde, nº 38, onde na altura eu vivia, um pouco mais abaixo.
Rua do Conde, 38, já com o resturante fechado. Foto tirada do Google Maps.
Fui lá algumas vezes, talvez não tantas como se justificava, porque era um lugar onde nos sentíamos em casa. Morando eu tão perto ficava com a sensação de não tinha saído de casa e que aquela era a minha sala de jantar. Coisas da juventude, porque as refeições eram realmente diferentes das dos outros restaurantes. Em primeiro lugar a comida era excelente, o ambiente acolhedor e o seu proprietário, Francisco Queiroz, recitava-nos as receitas dizendo, por exemplo, «nabos à moda da minha avó». A propósito, eu que não gostava de nabos fiquei tão encantada com a descrição da receita que resolvi experimentar. Os nabos vinham numa frigideirinha de cerâmica cobertos com fiambre e molho branco e iam ao forno gratinar com queijo. A sua confecção era descrita passo a passo e a experiência era sempre positiva. 
A recitação da ementa era uma das características da casa. Francisco Queiroz descrevia todos os pratos em pormenor, referindo logo que não havia ementa escrita e a que ementa era ele.
Francisco Queiroz
A demorada descrição fazia impacientar algumas pessoas. Mas não havia volta a dar. Era um ritual que fazia parte da refeição e que para ele fazia parte do prazer do momento. Quem lá ia já sabia ao que ia e se fosse bom ouvinte tirava disso prazer.
Tendo vindo de Angola nos anos 70 começou por abrir o restaurante «Varina da Madragoa» onde já fazia esta “actuação”. Quando frequentei este restaurante já ele lá não estava e não o posso confirmar pessoalmente.
O artigo que reproduzo fala apenas das entradas, podem imaginar o resto. Mas tudo isto valia a pena. Já não há restaurantes destes!

domingo, 19 de maio de 2019

A «Taberna Vendaval» em Setúbal


Descobri-a apenas hoje mas as pessoas da terra conhecem bem este espaço. O prédio, situado numa rotunda, está ladeado por edifícios novos e encontra-se coberto por grandes painéis pintados modernos, onde foram desenhadas as entradas de uma pizzaria, que se encontra ao lado, e da própria taberna. 
Esta cobertura, com imagens de pessoas felizes a comer, deve-se à transformação do edifício onde irá nascer, presume-se, um novo prédio. No alto visualiza-se um pequeno terraço, com plantas, junto a uma chaminé, que devia servir para os habitantes da casa, espraiarem os olhos pela zona envolvente, cada vez mais citadina.
Parte da antiga taberna
Entra-se e observam-se duas pequenas salas que correspondem à zona da antiga taberna e uma outra maior que era a antiga mercearia. Esta última está cercada por armários de madeira, pintados com tinta de esmalte creme, que antes se destinavam a colocar as mercearias para venda e hoje servem de abrigo a peças decorativas. Ainda lá estão as tulhas que serviam para colocar os cereais para venda a granel. O chão está coberto por mosaicos hidráulicos da época. Nas paredes alguns objectos decorativos e, logo à entrada, um quadro em lousa, escrito a giz, informa-nos dos pratos que são servidos no dia.
Zona das antigas tulhas
A ementa é simples: carne ou peixe grelhados na brasa, acompanhados de batatas e salada mista escolhida e temperada pelo cliente, a seu gosto, na mesa. As sobremesas são as tradicionais portuguesas como o travesseiro de noiva, as farófias, etc.
Local da antiga mercearia
Peixe e carne de boa qualidade satisfazem os apetites de quem procura esta taberna, de nome e de origem. Não há marcações e forma-se bicha para conseguir comer.
Há mais de 30 anos que passou para as mãos de Ângela Duarte e depois para as suas duas filhas Vera e Cátia, que nos servem à mesa. Antes de ser restaurante era um local de petiscos como acontecia com as tabernas tradicionais.
Agora vai fechar. Deram-nos um cartão para visitarmos a «Nova Taberna Vendaval» onde anunciam «O melhor peixe assado». Dizem que vão levar os objectos que a decoram. Espero que não matem a galinha dos ovos de ouro aqui representada pela autenticidade, simplicidade e qualidade.
Espero que cumpram. Vou voltar para ver.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Audoire, charcutier-traiteur em Paris


O requinte do interior desta loja chamou-me à atenção. Trata-se de um anúncio publicado numa revista francesa de antiguidades «abc decor» de 1968.
Podemos observar uma montra no interior da casa Audoire, charcutier-traiteur, em Paris, que presumo já não exista porque não consegui encontrar qualquer informação na internet.
Na montra, decorada com extremo gosto e cuidado, podemos ver travessas de pequenos salgados, canapés, patés, aspics, assados, etc., que se presumem serem produtos relacionados com a arte de charcutaria. Na realidade o proprietário identifica o seu nome ao ofício de charcutier-traiteur. Procurei encontrar tradução correcta para o português, mas embora tenhamos tido charcutarias finas (estou a lembrar-me dos Três Porquinhos, ao Rato), não corresponde exactamente ao mesmo.
Traiteur ambulante in Costumes de toutes les Pays
Vejamos: existe uma diferença entre restaurateur (“restaurador” no sentido antigo de proprietário de restaurante: o que restaurava as forças) e traiteur. O primeiro, tradicionalmente, serve as refeições no local, a troca de pagamento, enquanto o segundo, embora realize as mesmas funções estabelece um contracto de serviço que lhe permite realizar essas refeições em casa do cliente, numa instituição, ou onde for acordado. Mais modernamente diríamos que é uma pessoa que fornece catering. Na realidade este profissional está preparado para servir, de forma completa um grande número de refeições, mas também prepara iguarias que podem ser encomendadas no local e levadas para casa. Assim é um fornecedor de alimentos mas a que se associa a ideia de delicatessen.
Empregada de Traiteur. Costumes de Ouvriers. In Gallica
No século XIX em França existiam vários tipos de traiteurs, como o traiteur-rôtisseur, que tinham também nos seus estabelecimentos uma table d'hôte. Isto significava que tinham uma mesa com menu fixo para servir clientes, o que acontecia também em Portugal, na mesma época em hotéis e restaurantes.
No caso presente o proprietário era um charcutier-traiteur, o que significa que podia servir no local, ou ao domicílio, produtos relacionados com a charcutaria. No próprio anúncio é exemplificado que, no que respeita ao local, dispunham de: sala, material, roupa de mesa, louça e serviço de vidros.
Book of Buffets, 1968
Publicitavam as suas especialidades que eram as seguintes: terrines de aves, de patos ou de coelho em porcelana d’Auteuil*, mas também o foie-gras, salsichas em brioches e toda a pastelaria. Tinham capacidade para servir pequenos jantares, almoços (lunchs) até 100 pessoas, em especial para festejos de comunhões, baptizados e casamentos.
Poulard á la Godard, Joules Gouffé.
A apresentação das iguarias fazem lembrar as imagens publicadas no livro, The Professional Chef's Book Of Buffets, de 1968, ainda na linha das elegantes construções do século XIX da autoria de Joules Gouffé. Como as apresentações elaboradas de hoje nos parecem simples.

 À frente de quem esteve Jacques Lobjoy que, em 1968, lançou o primeiro serviço de mesa designado Chambord, recuperando imagens do séc. XIX, tal como na série «Caça», com desenhos de Jean Charles François Leloy (1774-1846), que seriam mais provavelmente os escolhidos para a casa Audoire.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Restaurante A Floresta, em Lisboa

No local deste restaurante situa-se hoje uma óptica. Antes dele esteve o restaurante «Comodoro» que foi também bar e de que muitas pessoas ainda se lembram. Recuando mais um pouco existiu no mesmo local um restaurante chamado «A Floresta».
O local era o Largo D. João da Câmara, nº 20-23. Do seu lado direito ficou em tempos o famoso «Café Martinho».
Se procurarmos na net por este nome de restaurante aparecem-nos pelo menos nove restaurantes, o que nos parece estranho. Infelizmente a informação sobre este restaurante é praticamente nula.
Encontrei notícias da reabertura de «A Floresta» na revista «Vida Ribatejana», infelizmente já sem capa e portanto sem data. A avaliar pelas restantes que a acompanhavam deve tratar-se de uma edição do final dos anos 40.
Salão de jantar de «A Floresta»
O jornalista referia-se ao velho restaurante Floresta agora rejuvenescido o que nos mostra que já existia anteriormente. Adquirido por uma nova empresa a aposta foi feita no arquitecto Fernando Silva (1914-1983), autor de vários projectos, entre eles o Cinema S. Jorge, e que conseguiu ganhar três Prémios Valmor; o engenheiro Nuno Abrantes e o Construtor Columbano Santos. A fachada do edifício é ainda a que hoje se nos oferece ver.
 O seu interior ficou a cargo de dois pintores-decoradores: Manuel Lapa (1914-1979), que fez parte da equipe que decorou o interior do Museu de Arte Popular juntamente com Tom e Jorge Matos Chaves (1912-1988). Este último tinha ganho em 1945 um primeiro prémio num concurso organizado pelo SNI para um cartaz de Turismo. Foi autor de várias capas da revista Panorama, de ementas, como as do restaurante Folclore, de publicidade como às máquinas Oliva e de um painel publicitário às conservas ainda existente em Setúbal, entre muitos outros trabalhos. Os ferros forjados artísticos, tão ao gosto da época, ficaram a cargo da empresa «Stal».
Um canto do bar
A gerência era da responsabilidade do sócio José Vidal e o serviço de cozinha era considerado excelente, o que transformava o local num ponto de encontro de gourmets.
Em 1958 deu entrada na Câmara de Lisboa um novo projecto da autoria do arquitecto Rui Jervis D’Athouguia (1914-1979), com extensa obra em Lisboa de que a mais conhecida é a Fundação Calouste Gulbenkian, para o projecto de um restaurante «Bar D. João – New restaurante Portugal», no mesmo local, no primeiro piso, ficando «A Floresta» na cave, mas o projecto não teve seguimento.
Não me foi possível saber a data de início do Comodoro.