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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O convite de Luís XIV a Molière


 A maior parte das vezes olhamos para as coisas e só vemos uma parte. Isto é, recebemos a mensagem e aceitamo-la como se nos apresenta. É a diferença entre olhar e ver. Este “ver” pressupõe análise.
Foi o que me aconteceu com uns cromos publicitários de chocolate em que se reproduz um almoço do rei Luís XIV com Molière.
François-Jean Garneray.
Os cartões pecam pela incorrecção histórica com a imagem do rei de costas, o rei sentado no lado mais estreito da mesa, ou a presença de copos sobre a mesa, entre outras. 
Mas onde é que os publicitários da época foram buscar a inspiração? No final do século XIX e início do século XX havia um gosto pelo historicismo, com o uso de imagens “à antiga” em cartazes publicitários. Dois dos cartazes de publicidade ao vinho do Porto Rainha Santa, que fazem parte da minha colecção, apresentam essas mesmas características.
Jean Hégesippe Vetter
Mas neste caso concreto a origem é mais remota. A história desta refeição, que provavelmente nunca teve lugar, foi transmitida por Madame Henriette Campan que foi leitora das filhas de Luís XV e a partir de 1774 foi nomeada camareira-mor de Maria Antonieta. Nas suas Memórias, publicadas pela primeira vez em 1822 conta esta história, tal como fora contada por um médico da corte, M. Lafosse, ao seu padrasto.
O pai de Molière era tapeceiro e camareiro na corte. Por sua morte o cargo ficou para o seu irmão Jean. Por morte deste, em 1660, Molière teve que deixar a vida de comediante e exercer o cargo familiar. O seu passado ligado ao teatro fazia com que os restantes camareiros não o aceitassem bem. Sabendo disso, um dia Luís XIV ao tomar a sua refeição matinal ordenou a Molière que se sentasse para comer com ele. Fez então entrar a corte que assistiu à refeição com estupefação, comentando o rei que estava a comer com uma pessoa que os outros camareiros não consideram boa companhia, dando-lhes assim uma lição.
O livro Mémoires de Madame Campan, première femme de chambre de Marie-Antoinette foi um sucesso imediato e teve quatro edições em dois anos. Mas de todas as histórias relatadas esta foi a que foi considerada mais notável, uma vez que humanizava a figura do Rei Sol, lhe tirava a conhecida sobranceria e recompensava o trabalho de Molière.
O sucesso do livro foi seguido por representações imaginadas por vários pintores. Assim, no salão de 1824, podiam-se já admirar duas versões desta refeição: a de Édouard Pingret e a de de François-Jean Garneray. O tema foi retomado posteriormente por Ingres em 1857 e por vários outros pintores, entre os quais Jacques-Edmond Leman, em 1863 e Jean Hégesippe Vetter, em 1864.
Reprodução do quadro de Ingres que desapareceu num incêndio
Vendo agora os quadros, e comparando-os com os cartões publicitários, torna-se claro onde teve origem cada uma destas imagens.
No final, os erros históricos já não podem ser atribuídos aos encarregados de divulgar as marcas de chocolate, mas aos pintores que, no século XIX, imaginaram o cenário deste improvável acontecimento. Molière seguramente que encenaria melhor esta cena.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um Santo António em brinde de 1907

À primeira vista parece um santinho mas é um brinde comercial oferecido pela Casa J. B. Carlos das Neves, em 1907.
Tenho um fascínio por estes brindes que de forma simples faziam lembrar aos clientes que eram importantes e que pensavam neles. Consistia numa forma de divulgação das empresas e foi um mercado próspero até o país ter entrado em crise.
Claro que os mais bonitos são do século XIX mas durante o século XX, até talvez aos anos 90, continuavam a ser oferecidos. Com as preocupações de restringir gastos as firmas deixaram de os encomendar e acabou-se este tipo de ofertas.
Sei que devia esperar pelo próximo Santo António para o mostrar mas até lá ia seguramente esquecer-me, como já me aconteceu com outros temas. Assim, aqui lhes mostro este pequeno livrinho que no seu interior tem uma pequena biografia do Santo e um calendário com o nome de todos os santos, dia a dia.
Da firma J. B. Carlos das Neves não consegui saber nada apesar da sua longevidade. A casa foi fundada em 1776 e situava-se no Porto, na Rua das Flores 224-226. Em 1907 contava já com 131 anos, mas acabou por fechar em data que desconheço.
Rua das Flores, 224-6, no Porto,  onde se situava  a casa de J. B. Carlos das Neves
No verso do folheto anunciavam que a sua especialidade era o chá, o café e o açúcar de todas as qualidades e preços. Vendia também chocolate nacional e estrangeiro, incluindo os «croquettes de chocolate», em caixinhas de fantasia próprias para brinde. Dentro do reino alimentar vendiam também massas alimentícias e conservas. Como era habitual neste tipo de lojas comercializavam também objectos da Índia e da China.
Este brinde não ficou contudo na mão da cliente que o recebera. Ofereceu-o a uma amiga que o guardou cuidadosamente. Na face posterior, a toda a volta, pode ler-se numa letra com tinta já muito sumida: «À minha muito querida amiga Ernestina offerece Paulina porque bem sei que gostas muito de Santo António. 31-1-907».
A beleza do presente deve ter enternecido Ernestina que o conservou religiosamente.


domingo, 10 de julho de 2016

O chocolate em Hampton Court

Modo como era feito o chocolate (bebida) no século XVIII no Palácio de Hampton Court, perto de Londres. Cozinha do Chocolate, onde era confecionado o chocolate para a primeira refeição do rei Jorge I, o primeiro rei da dinastia Hanover.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Chocolate Hórfeiçal

Intrigou-me esta designação do «Chocolate Hórfeiçal», vendido em caixas sob a forma de pastilhas embrulhadas em papel. As pastilhas, em forma de bastonete eram embrulhadas em papel e acondicionadas em caixas, com o rótulo na tampa e as instruções na face posterior
Eram depois dissolvidas em água, ou leite a ferver, que se agitava bem para desfazer e a que se adicionava açúcar. O chocolate como bebida ficava rapidamente pronto, embora, o produtor, não identificado, também recomendasse que o chocolate se podia comer directamente da caixa.
Embora tenha conhecimento de quem o devia ter comercializado, a falta de confirmação e a fraca divulgação que teve, levam-me a crer que foi um negócio falhado que ficou nas mãos da família, cuja identificação nada traz à história.
O nome Hórfeiçal era-me estranho e pensei tratar-se de um anagrama. Mas também não consegui resolvê-lo. Acabei por decompor a palavra em vários elementos e associando a palavra  imagem acabei por perceber que era uma alusão ao rei Faiçal I (1883-1933) que, em 1921, foi aclamado rei do Iraque. 
Faiçal em 1918, ainda príncipe
O meu amigo António, do blog «Herdeiro de Aécio» , já falou sobre esta figura importante para a história da dissolução do Império Otomano e para o aparecimento dos novos países árabes, representada no cinema por Alec Guiness no filme Lawrence da Arábia.
Capa do livro sobre Faiçal I do Iraque
Presumo que este chocolate tenha sido feito nas décadas de 1920-1930 em que à Europa chegavam relatos do surgimento dos novos países e dos encontros com os representantes ocidentais.
Descoberto parte do anagrama fica por explicar o «Hór» inicial que ficará para cabeças mais elaboradas.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Desventuras de um Chocolateiro

A história é contada em três cartões comerciais do final do século XIX. Os cartões comerciais funcionavam como um cartão de visita da empresa e existem desde o século XVII em Inglaterra. Hoje conhecem-se alguns do século XVIII, mas foi no século XIX que mais se divulgaram. Apresentavam-se muitas vezes como colecções que contavam uma história ou tinham fins didácticos. Na realidade eram uma forma de publicidade que ajudava a divulgar o negócio.
 
Não sei se esta colecção está completa mas a história é bem perceptível. Uma menina de ar doce aproxima-se de um menino chocolateiro que com a sua colher de pau mexe uma grande caçarola de cobre onde o chocolate borbulha. A chávena na mão da menina dos lacinhos azuis faz-nos compreender que deseja beber o doce néctar. Mas não chegam a acordo e lutam em cima de um pequeno banco que facilita o acesso à bebida. 
Desequilibrados fazem a chávena voar e o chocolateiro fica todo coberto com a bebida entornada, transformando-se num “chocolateiro de chocolate”, enquanto a menina foge a correr.
Estas histórias costumam ter um final moral que não se adivinha aqui. É apenas distrativa e serve de publicidade à «Pharmacia e Drogaria Félix & Filho», no Porto.
Situada no Largo de S. Domingos 42 a 44 vendia: Pastilhas digestivas de Moura para o sofrimento do estômago, Pastilhas vegetais de Moura para os vermes, cápsulas antiténicas de Moura para a bicha solitária, Peitoral de Moura para a tosse, Balsamo e Licor anódino de Moura para as dores e o Licor de Barreswill de efeito certo no “fluxo diarrheico da hectasia tuberculosa” (1).
Hoje no local desta farmácia situa-se a «Farmácia Moreno» que na sua fachada ostenta a data de início em 1804. Em 1894 no Comercio do Porto Ilustrado surgia a designação comercial «Pharmacia de S. Domingos» e o seu proprietário era o Dr. Moreno, médico e farmacêutico pela Escola Médico Cirúrgica do Porto que terá sido sucessor de Félix & Filho. Tratava-se do Dr. Rodrigo de Sousa Moreno, uma figura conceituada no Porto, que foi lente da Faculdade de Cirurgia do Porto e administrador do Concelho de Gondomar. Era filho de pai espanhol, que casou com uma portuguesa e foi-lhe concedida carta de naturalização em 1886(2).
Fotografia tirada da internet
Nos anos que se seguiram a farmácia teve vários directores técnicos e, a partir de 1961 e até 1974, surgiu nessas funções António Moreno Júnior (3). Presentemente uma nova firma tomou a seu cargo a função de manter esta farmácia que se inclui no roteiro das farmácias históricas do Porto e cuja bela fachada em ferro, em estética Art Nouveau, com o símbolo de Hígia (a taça que representa a cura) e a a serpente (que representa a sabedoria), aqui em duplicado, merece uma visita.
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(1) Charles Louis Barreswil (1817-1870), químico francês, uma figura fascinante que morreu ignorado. Em 1846 criou um reagente cupropotássico para determinar a glicose em soluções, sendo precursor do estudo da glicemia. Trabalhou com Claude Bernard sobre substâncias alimentares e fenómenos químicos da digestão. Foi também precursor de processos químicos para fotografia.
(2) ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 41, f. 151.
(3) Agradeço ao actual Director Técnico, João Alexandre Almeida, as informações complementares sobre a farmácia.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Calendário dos Chocolates Regina

 
Olhando rapidamente não se percebe o que faz uma fotografia de um diligente empregado de escritório neste blog.

A fotografia, tirada em Agosto de 1952, retrata o interior de um escritório na FNAT da Costa da Caparica, em que são visíveis os objectos destinados a essa actividade. Mas, como era habitual nos escritórios, não podia faltar um calendário de parede. 
Este era uma oferta dos Chocolates Regina, representando o que parece ser uma tampa de uma caixa de bombons, com a imagem de um menino, e que era  utilizado como forma de publicidade.
Está explicado o mistério.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Os ovos da Páscoa

A tradição dos ovos na Páscoa tem origens pagãs, cuja interpretação é variável mas que nos remete para a a ideia de renovação.
Nos séculos XVIII e XIX usavam-se em cartão moldado e em “papier-maché” forrados com papel, renda, veludo e atados com laçinhos. Lá dentro podiam encontrar-se pequenos presentes.
Durante o século XIX, com os avanços nas técnicas de fabricação de chocolate começaram a fazer-se ovos de chocolate. Inicialmente eram compactos mas com os progressos da industria  e o conhecimento da moldagem passaram a ser ocos.
Embora os primeiros tenham tido origem em França e na Alemanha não consegui saber quais as marcas que os produziam. Mais organizados, os ingleses afirmam que os primeiros “Ovos de Chocolates Cadbury” foram feitos em 1875. Os primeiros  eram feitos com chocolate preto cheios de drageias, mas em 1905 começaram a produzir chocolate de leite que muito contribuiu para a divulgação dos dois: do chocolate e dos ovos de Páscoa que desde então são predominantemente fabricados com este tipo de chocolate.
Não sei dizer quando chegaram a Portugal os ovos de chocolate da Páscoa. Posso assegurar a sua existência desde a década de 1950. É possível que tenham existido anteriormente mas ainda não encontrei provas.
Os exemplares aqui apresentados são dessa época. O chocolate da Regina manteve-se intacto até aos dias de hoje e espero nunca saber qual o tipo de chocolate de que é feito. As outras embalagens de feitio de ovos, em diferentes materiais, feitos por várias fábricas como a Aliança e a SIC, deviam conter amêndoas.
Em qualquer das apresentações o que contava era o simbolismo e a alegria com que eram recebidos. O ovo de chocolate intacto prova que não era o paladar do chocolate que era importante mas a ideia.
Para todos uma Páscoa Feliz!.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Natal com Chocolates Regina

Durante o ano vou guardando imagens sobre o Natal esperando a época natalícia para as mostrar.
Constato depois que o tempo é pouco para tudo o que há que fazer e não dá para pensar no blog.
Os chocolates eram ofertas raras e sofisticadas destinadas a momentos especiais, que ocuparam nas últimas décadas um espaço importante nos Natal.
Em meados do século passado a Fábrica Regina não perdia a oportunidade de publicitar os seus produtos na época principal de vendas.
A publicidade de 1946 e 1947 na revista «Voga» são um exemplo. O requinte chegava ao ponto de usar artistas internacionais, como Audrey Totter e Lucious Maxwell, artistas da Metro Goldwin Mayer, cujos nomes hoje nada nos dizem.
Em 1950 a Regina, mais à medida das nossas possibilidades, registou a marca «Natal Feliz», para tabletes de chocolate.

Aqui ficam estas imagens como curiosidades natalícias doces antes da vulgarização do chocolate a que chegámos hoje.

domingo, 13 de novembro de 2011

Objecto Mistério Nº 27. Resposta: Molinilho ou batedor de chocolate

O objecto apresentado é um molinilho, designação que vem do castelhano molinillo, e esta do latim
molinus.
Embora a palavra molinilho também se utilize para designar um «moinho pequeno movido à mão», usa-se para designar uma haste de madeira, com dentes na extremidade, que se destina a bater o chocolate. 
Este utensílio foi inventado pelos espanhóis que colonizaram o México, no final do século XVII.
Antes desta invenção, que tinha por fim misturar a bebida de chocolate, os autóctones do chamado Novo Mundo, vertiam o chocolate de um recipiente para outro, bem afastados, para o emulsionar e dar-lhe espuma.
Gravura pertença do Museu da América, em Madrid, reproduzida no livro «Sabores da América», de Rosa Belluzzo
Foram os espanhóis quem trouxe o chocolate para Espanha onde se tornou numa bebida da corte. Foi também nesse país que foi publicada a primeira receita de chocolate, como bebida, no livro de , Chocolata Inda; opusculum de qualitate et natura Chocolatae, em 1644.
Só depois, no século XVIII, as restantes cortes europeias adoptaram o chocolate, mas nunca com o fervor que os espanhóis ainda hoje mantêm.
A utilização do molinilho, cuja haste passava por um orifício da tampa da chocolateira, permitia dar-lhe um movimento de rotação, esfregando-o entre as as duas mãos.
O molinilho era normalmente em madeira e o seu tamanho dependia das dimensões da chocolateira. Ainda hoje é usado pelos espanhóis e pelos mexicanos.
Há alguns anos fotografei um raro, com as pás em cerâmica de Deltf, que espero um dia lhes mostrar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um livrinho da Fábrica de Chocolates Regina

Quando eu andava na escola havia uma menina que se chamava Regina e que era filha de um jogador de futebol de nome Cabrita, numa altura em que o Clube de Futebol da Covilhã esteve na primeira divisão.
Constava que se chamava Regina porque era afilhada dos donos da Fábrica de Chocolate com o mesmo nome. Nunca confirmei esta informação mas pensei sempre que devia se priviligiada e que devia comer mais chocolates que qualquer um de nós. Nessa altura apenas se ofereciam e comiam chocolates na altura das festas.
Mais tarde, já na época do liceu, lembro-me de ter de decidir, de acordo com a minha semanada, entre um chupa-chupa cilíndrico, verde ou encarnado embrulhado num papel transparente com riscas da mesma cor, diagonais, que custava 5 tostões e uma tablette de chocolate, com um recheio cremoso, com sabor a frutas, que custava 10 tostões.

Pelo caminho ficavam ainda os lanches em que abríamos os «pães de quartos», semelhantes a carcaças, e colocávamos lá dentro uma barra de chocolate Coma com Pão.
Fundada em Novembro de 1927, a Fabrica de Chocolates Regina, logo nos anos 30 , lançou uma caderneta de cromos de rebuçados com figuras do football.

O pequeno livrinho (8,5 x 5,5 cm) que aqui apresento é na realidade uma caderneta de cromos, uma vez que deixa espaço para a colocação dos mesmos. Embora pareça anterior, deve datar do início dos anos 50, data em que Walter Disney produziu o filme infantil de grande sucesso «Cinderela».
Das várias versões da Cinderela esta corresponde à de Walter Disney como se pode ver pelos nomes dos participantes, onde se encontra o rato Jac (tradução de Jak), Lúcifer o rato e Bruno, o cão.
Na contracapa podem observar-se estes vários intervenientes e a publicidade ao chocolate «Reizinho», que era uma novidade da Regina.
Nunca foi colado qualquer cromo e o possuidor da caderneta resolveu o problema desenhando a lápis a sua versão da história.