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sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Fábrica de Produtos Coração

A Fábrica de Produtos Coração foi instalada no Porto em 1928, por Albrecht Löbe. As escolhas do nome «Coração», bem como da insígnia com um coração trespassado por uma seta, feitas por este cidadão alemão, atribuem-se ao facto de se ter apaixonado em Portugal. Se este facto é verdadeiro é agora difícil comprová-lo mas fica sempre bem no início de uma história.
Embalagem do período de Alberto Guimarães
Sem qualquer fundamento, não posso deixar de pensar que Löbe de algum modo poderá ter conhecido, ou trabalhado com estes produtos destinados ao lar, em Berlim, onde então estava em actividade  a firma Solarine Gessellechaft Meyers, registada em Portugal desde 1906. Mas sob este tema falarei mais tarde.
O que se sabe é que Albrecht Löbe se interessava por produtos dedicados à limpeza doméstica e já em 1929 tinha registado em Portugal o pó para facas «Luis de Camões», embora só em 1930 registasse a marca Coração. 
Encontrava-se nessa altura estabelecido no Porto na Travessa da Fábrica, nº 46 e a insígnia da marca seria o belo coração encarnado sangrante trespassado por uma seta que iria iluminar as suas latas de limpa metais.
 E o mesmo se passaria com as latas de pó «Trigo Rato» que igualmente se apresentavam nas cores verde e vermelha. Nesse mesmo ano registou também um insecticida denominado «Durma Bem» acompanhado por um cartaz publicitário que seria eficaz para a época mas que  hoje consideraríamos pouco ecológico.
Postal da Edições 19 de Abril
Em 1933 Albrecht fez o registo do nome da «Fábrica de produtos Coração» que então se situava na Travessa da França, nº 229, no Porto (antiga designação da rua D. António Barroso). Em 1935 registou uma marca de tinta para tecidos chamada «Papagaio».
Em 1938, a fábrica passou a ser gerida pela empresa Albrecht Löbe & Companhia e, a partir de 1945, em nome individual por Alberto Guimarães.
Nos anos 50 esta fábrica, nas mãos de Alberto Guimarães, encontrava-se no Porto na Rua de D. António Barroso nº 229 onde se manteve até quase aos anos 80. São deste período as facturas apresentadas e pelas quais ficamos a saber que tinha um representante em Lisboa: «Ernesto Brochado» na Rua dos Fanqueiros, 196, 2º.
Depois desta data foi feita uma cedência de quotas a Antonio Queiroga que passou a fábrica para Braga onde se manteve até 2012, data da insolvência desta firma.

Tendo o registo da marca «Limpa Metais Coração» ficado caduco registou-se como seu titular, em 2008, Paulo José Carvalho dos Santos, que em 2011, com novo sócio, constituiu a empresa «Solarine Coração», em Braga, perto do local da anterior fábrica (1).
Embalagem actual
  Manteve-se assim a produção deste conhecido limpa metais de atractivas embalagens que nos remetem para o imaginário nacional.
(1) Informações sobre a actualidade fornecidas pelo próprio.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Fábrica de Bolachas Paupério - 2. As embalagens.

 Como prometi no último poste, vou falar das embalagens de Bolachas da Fábrica Paupério.
 A razão deste tema prende-se com o meu gosto por caixas mas tem sobretudo a ver com os novos modelos de embalagens que esta fábrica pôs agora à venda e que se baseiam em modelos antigos.
Existem ainda na fábrica 4 modelos de tampas das primitivas embalagens, encaixilhados, quando a venda de bolachas e biscoitos era feita em caixas de folha-de-flandres revestidas a papel. Por serem menos resistentes que as embalagens em folha de lata litografadas são hoje mais difíceis de encontrar.
 Através de um antigo catálogo pudemos também constatar os modelos utilizados nas décadas de 1950-1960, caixas ao gosto da época, em folha de flandres, sextavadas, com cartelas com paisagens e outras mais clássicas cúbicas em dois tamanhos.
Desde há cerca de três anos começaram a produzir caixas em cartão branco e azul, bem como pacotes mais pequenos, em cartolina nas mesmas cores, que reproduzem um dos modelos iniciais.
Nelas são visíveis as medalhas ganhas na Exposição de Filadélfia em 1876, da Exposição do Rio de Janeiro de 1879 e da Exposição Horticola-agrícola que teve lugar no Porto, em 1877, no antigo Palácio de Cristal, cuja imagem se pode ver em posição central.
Este ano, antecipando o Natal, lançaram dois novos modelos em lata, em tronco de cilindro, uma reproduzindo um dos modelos anteriores em amarelo e laranja (que Gianni Versace se ainda fosse vivo não desdenharia) e uma outra mais clássica, ao gosto inglês, com a imagem de dois meninos novecentistas.
Já estão à venda e eu fui comprá-las só para lhes mostrar. O que eu faço pela indústria nacional!.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Fábrica de Bolachas Paupério -1

Cartaz em vidro existente na loja (década de 1940-1950)
Aproveitei uma ida ao Porto para me deslocar a Valongo e visitar a Fábrica de Bolachas Paupério. Fui acompanhada por uma das suas zelosas funcionárias, a Ana Soares, que me foi explicando as várias fases de produção das bolachas.
Fachada actual da fábrica em Valongo
Esta empresa, que começou com uma parceria entre António de Sousa Paupério e Joaquim Carlos Figueira surgiu em meados do século XIX, mas foi em 1874 que se registou como «Paupério &  Companhia».
Fotografia antiga. Note-se a semelhança com as actuais.
Como então era habitual, a firma participou em várias exposições internacionais como a Exposição de Filadélfia em 1876, e a do Rio de Janeiro em 1879, cujas medalhas se iriam juntar à anteriormente ganha na Exposição Hortícula e Agrícola que teve lugar no Porto, no Palácio de Cristal.

Após a morte de António Sousa Paupério, em 1907, os seus herdeiros venderam a sua parte ao outro sócio fundador. Hoje a fábrica encontra-se nas mãos da 5ª geração da família Figueira.

Em 28/6/1935 a firma Paupério & Cª Sucessores, pediu o registo do nome «Fábrica Paupério, Biscoitos e Bolachas»[1], com despacho em 27/4/1936[2].

Em 1938 registaram as seguintes variedades: Roscas Inglesas, Bolacha Comum, Biscoitos de Viseu, Morgadinhos e Provincianos. Alguns meses depois registaram as bolachas «Mocidade»[3], de feitio quadrado e tendo impresso as cinco quinas. No ano de 1941 foi registada a marca «Bolo Rei Paupério»[4], que continuam a produzir. Em 1946 foi feito o registo da marca «Paupério» para compotas, conservas e geleias de frutos e marmelada[5]. 
Registo do modelo de Bolachas Mocidade

Na década de 1950 a fábrica foi apetrechada com moderna maquinaria e, embora posteriormente tenham adquirido novas máquinas, em que se inclui a que faz chocolate, muitas das resistentes máquinas mantém-se ainda hoje ao serviço.
Conscientemente guardaram as máquinas que já não se encontram a trabalhar, num projecto para a instauração de um museu sobre a fábrica, que faço votos se venha a concretizar.

Presentemente produzem cerca de 32 variedades de bolachas e biscoitos, para além do Pão-de-Ló Paupério e do Bolo-rei Paupério produzidos nas épocas festivas. Algumas das receitas mantém-se inalteráveis como é o caso da «Tosta Rainha» fabricada em 1886 em homenagem à rainha D. Amélia.
Ver o funcionamento da fábrica foi um prazer para mim. Pude observar a saída ininterrupta das bolachas, de vários feitios, modeladas por um rolo em metal brilhante e colocadas depois em tabuleiros transportados pelas operárias para serem levadas aos forno, num movimento contínuo coordenado. Uma imagem que não se modificou muito ao longo dos anos, como nos mostram as fotografias antigas.
Apesar da sua idade continua impressionante o grande forno de 9 metros, onde entram os tabuleiros com as bolachas, numa viagem calma, para saírem na outra extremidade ao fim de cerca de 7 minutos, já douradinhas e prontas a embalar.
Zona Final de Embalamento
A fábrica possui uma loja de venda dos seus produtos, aberta ao público, onde recorrem as pessoas da terra para comprar as suas bolachas preferidas a peso. A avaliar pelo movimento não tenho dúvidas que são de grande agrado na região. E serão seguramente no resto do país se se divulgar mais a sua venda.
Um aspecto da loja da fábrica
Estão já a ser vendidas por várias lojas, em embalagens que reproduzem as caixas antigas ou, nos modelos mais pequenos, representando adaptações ao gosto da época.
Este ano vão reproduzir um outro modelo de caixa que já se encontra à venda. Para não me alongar mais falarei sobre as embalagens no próximo poste.



[1] BPI, 1935, Nº 6, p. 237.
[2] BPI, 1936, Nº 4,p. 182.
[3] BPI, 1938, nº9, p. 400.
[4] BPI, 1941, nº 7, p. 233.
[5] BPI, 1946, nº1, p. 55.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Definitivos ou Provisórios?


«Vale mais fumar “Definitivos” provisoriamente do que “Provisórios” definitivamente.»
Aqueles que se lembram desta frase sabem que não era um slogan publicitário mas um trocadilho com graça aplicado a estes dois tabacos concorrentes.

Os “Definitivos” foram lançados pela Tabaqueira em 1928, ao mesmo tempo que a marca “Três Vintes (20-20-20)”. Esta empresa tinha sido fundada em 1927 por Alfredo Silva (CUF), era privada e concorria com as Manufacturas do Estado.
Inicialmente apresentava-se em embalagem de 12 cigarros, que não deve ter durado muito tempo e é praticamente desconhecida.
A embalagem mudou para a que todos conhecemos, em data que não identifiquei, apresentando-se nas cores azul, encarnado e dourado, mas sofreu modificações em 1983, com a perda do dourado e em 1997, de acordo com os registos. A caixa aqui mostrada apresentava-se em caixa cartonada, como era habitual, tinha 24 cigarros e custava 1$70.

Quanto aos “Provisórios” foram lançados pela Companhia Portuguesa de Tabaco em 1938. Esta é uma caixa cartonada que, numa das faces laterais diz ter 24 cigarrilhas e custava 1$80. Existiu também em maços mas apresentou-se sempre com este fundo de listas cremes e grenats. Identificava-se como «tabaco francês», embora ninguém soubesse o que isso significava. É possível que se destinasse a contrariar a incial expressão dos cigarros “Definitivos” que, no início, diziam «tabaco de tipo português».
Estas foram provavelmente as marcas de tabaco que mais nostalgia deixaram nos portugueses e há muito que deixaram de fazer mal à saúde.

domingo, 26 de setembro de 2010

Cromos de Caramelos e Fábricas de Caramelos

Falo hoje nos cromos de caramelo.
Chamam-se cromos de caramelo àqueles que eram utilizados para envolver os caramelos. Serviam ao mesmo tempo de protecção e de objecto de coleccionismo, fazendo com que as vendas aumentassem, por qualquer uma das vias. Quando as cadernetas ficavam completas eram apresentadas aos fabricantes, o que permitia receber um ou mais brindes à escolha. Noutros casos as cadernetas eram numeradas ficando o seu possuidor habilitado a um brinde mais valioso.
A grande maioria dos cromos de caramelo eram cromos de futebol, que provocavam um entusiasmo enorme no sexo masculino, mas outras apresentavam outros temas, como por exemplo uniformes militares, ciclismo, ou no caso das agora apresentadas, e que me levaram a escrever este poste, aves e artistas de cinema.
Desaparecidos naturalmente os caramelos, que segundo algumas versões não apresentavam a melhor das qualidades, ficaram os cromos. Mas para o tema deste blog aquilo que interessa são as confeitarias e fábricas de caramelos que os produziram. Com enorme surpresa descobri vários blog em que este tema foi falado e de que me servi para obter algumas informações. Na Santa Nostalgia é feita uma introdução à divulgação dos cromos de caramelos em Portugal.

O autor do blog Cromos-de-Caramelo, desde 2008 sem actualizações, refere que as primeiras fábricas de caramelos surgiram no Montijo, nos anos 20. Uma dessas fábricas foi “ A Trinfadora do Montijo” fábrica de confeitaria de Nunes & Brito Cª, que se situava na Rua França Borges e produzia caramelos de fruta. Também se situava no Montijo a “Fábrica de Rebuçados Joneca, Ldª”, na Rua Agostinho Fortes, bem como a “Fábrica Montijense”.
No Porto existiu a “Fábrica de Rebuçados Victoria”e em Vila Nova de Gaia a "Fábrica de Chocolates Celeste", situada na Rua da Rasa. Na Amadora referimos os “Divertimentos Nelito” que também vendia cromos de caramelo e a “Carsel”, no Rossio ao Sul do Tejo .
A grande maioria situavam-se contudo em Lisboa como a “Fábrica de Confeitaria de Produtos Altesa”, na Rua Tenente Raul Cascais, nº 13; a “Confeitaria Universo” que deu origem à “Confeitaria Universal” de António E. Brito, situada na Rua da Alegria, 22; “A Francesa” na Travessa de Santo António a Santos, nº3; a “ Fábrica Águia”, com depósito geral na Rua da Madalena, 32; A “Fábrica Brazileira” na Rua da Cruz da Carreira, 13; a “Confeitaria Alex”, situada na Rua da Alegria, 126; António Gomes da Silva, na Calçada do Tojal, lote 2. Ficam por falar muitas outra, cuja localização não detectei, como a de “Rebuçados Cotovia” ou a “Sociedade Lisbonense de Confeitarias”.
Por último, para quem se interessa por este assunto, pode sempre consultar a base de dados bibliográficos do Mistério Juvenil e ver todas as cadernetas de cromos publicadas em Portugal, para além das de caramelos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Plásticos Pretensiosos

A indústria de plásticos tem já mais de um século de história. O grande desenvolvimento deu-se contudo nas décadas 30-40 do século XX.

Em Portugal a primeira fábrica surgiu em 1935. Era a Nobre & Silva e situava-se na região de Leiria. Outras se lhe seguiriam em 1945. E para quem quiser acompanhar a história dos plásticos em Portugal aconselho o livro de Maria Elvira Callapez «Os Plásticos em Portugal. A origem da indústria transformadora». A grande vantagem do plástico foi sempre a sua versatibilidade e a capacidade de resistência, quando comparada com outros materiais como o vidro e a cerâmica.

Quando nos anos 50-60 se deu a grande divulgação do plástico para uso doméstico, não era ainda claro o seu posicionamento. De repente todos os objectos domésticos eram produzidos em plásticos. Ao olhar para alguns desses objectos ocorreu-me a expressão que usei no título: «plásticos pretensiosos». Chamei-lhes assim porque pretendiam imitar o vidro ou a cerâmica.

Hoje estão na moda copos de plástico, com vantagens em diversas situações, como por exemplo para uso nas piscinas. Ao caírem não há o problema de ficarem fragmentos de vidro dispersos. Mas são evidentemente de plástico. Não pretendem parecer que são de vidro.
Estes objectos a que chamei plásticos pretensiosos são cópias de vidros lapidados e existe uma extensa gama que inclui copos, pratos, compoteiras, caixas, etc. Há ainda outros que semelham a cerâmica.
Fizeram-me lembrar algumas peças em faiança do século XVIII, como as terrinas, moldadas ou copiadas de peças em prata. Também estas, na altura, não tinham ainda descoberto o seu caminho. Apesar do nome que lhes chamei acho-as agora objectos encantadores na sua ingenuidade. Aqui ficam alguns exemplos que fui guardando. Espero que gostem.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Pudim Flan Jané

A embalagem que se apresenta é de um pudim instantâneo da marca Jané.
Pouco consegui apurar em relação à fábrica que o produziu. Através de um comentário publicado pela sua neta, Carla Jané, fiquei a saber que a fábrica de seu avó se situava em Porto Salvo, perto do local onde hoje fica o Tagus Park.
O comentário dizia respeito a um anúncio apresentado pela T, no blog «Rua dos Dias que Voam, em Abril de 2009, que havia sido publicado na Revista Eva em 1933.
Publicitava-se o Pudim instantâneo Jané, «a sobremesa mais deliciosa e barata», feita apenas com meio litro de leite, 4 colheres de açúcar e o conteúdo do pacote .
A fábrica de Produtos Jané foi fundada por Januário Palhares Mesquita Jané, nascido em Lisboa, na Pena, em Dezembro de 1898 e falecido em Novembro de 1983. A leitura do pacote faz-me crer que iniciou a sua actividade no dia 2 de Janeiro de 1922. Produzia também sopa de tomate, como se encontra escrito na mesma embalagem. A fábrica viria a fechar no início dos anos 80, após a morte do seu fundador.
Nada mais consegui saber, mas aqui fica a informação disponível, à espera de novas achegas.