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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Teoria da relatividade aplicada aos piques

Ainda mergulhada na fase de ilustração do livro Vestir a Mesa, chegaram-me às mãos dois cartões perfurados para rendas de bilros, normalmente conhecidos como piques.
Após o primeiro momento de contentamento virei os cartões e constatei que tinham recortado um belo cartaz da Empreza das Águas de Vidago para este efeito. Os dois pedaços não permitem datação mas serão certamente do final do século XIX-início do século XX.
Fiquei triste por se ter perdido uma imagem publicitária tão interessante. Contudo após reflexão pensei: provavelmente o cartão não teria chegado aos dias de hoje se não tivesse tido uma utilização prática.
Com este pensamento alegrou-me pensar que, no que restava do cartaz, entrevia a beleza da buvette e das medalhas de ouro ganhas nas exposições internacionais que as empresas da época se orgulhavam de ostentar.
Realmente é tudo relativo e depende da forma como encaramos os factos.
A minha dúvida agora é a forma de arquivar estes cartões. Em Rendas ou em Termas?

sábado, 3 de maio de 2014

Os Biscoitos de Água de Karlsbad

  

Chamou-me à atenção um anúncio aos «Biscoitos de Água de Karslbad», publicado no Diário de Notícias de 12 de Dezembro de 1935. 

Publicitados como «o único pão digerível» para doentes do estômago, fígado e intestino, eram recomendados também aos diabéticos. Eram vendidos nas farmácias, pastelarias e boas mercearias e tinham um representante em Lisboa e um depósito no Porto na Farmácia Central.
Que tipo de pão era este? Trata-se das ainda existentes «Wafers de Karslbad», ou mais concretamente de obreias, também designadas oblatas. Karlsbad (Karlovy Vary) faz parte de um famoso triângulo de termas da Boemia (Karlsbad-Marienbad-Franzensbad). 
Situa-se na República Checa e tem uma longa história no que respeita a estes dois produtos: águas minerais e obreias, conhecidos desde há séculos. A associação de ambos, isto é, as obreias confeccionadas com água das termas tornou-se parte da terapêutica dos seus visitantes e constituíam um bom presente para trazer no regresso.
Conhecidas desde 1640 as obreias eram feitas com duas placas de ferro quente, mas industrializaram-se em 1856. Tornaram-se afamadas e chegaram à mesa de reis e presidentes, numa época em que a estância termal entrou também em moda. Foi visitada por Pedro o Grande, pelo Imperador Francisco José e por músicos famosos como Beethoven, Liszt e Chopin e escritores como Goethe e Tolstoi. Tal como outras termas passaram a ser um local de vista obrigatória da sociedade abastada nos séculos XIX e início do século XX, que intervalava as curas de águas com passeios, bailes e jantares.
Os banhos por imersão e a ingestão das suas águas eram recomendadas para um grande número de patologias. Daí a extensão à sua utilização no fabrico das obreias que lhes conferia um gosto específico mas tinha também um efeito terapêutico.

E foi assim que, sob a designação de biscoitos ou pão, chegaram a Portugal, o que mostra a importância do termalismo nesta época e a influência que os spas internacionais exerceram no nosso país.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma ementa com história do Palace Hotel da Curia

Quando olhei pela primeira vez para esta ementa da Curia comecei apenas por achar interessante o grafismo Art-deco. Na capa uma jovem, com vestido de cocktail, abre descontraidamente uma garrafa de champanhe cuja rolha atinge a ponta do nariz do seu acompanhante, quase lhe fazendo saltar a cartola da cabeça. Um humor inofensivo e ligeiro.
Em título podia ler-se “Paraíso- Piscina Bar» e em baixo um escudo com um cisne e as iniciais CPSC.
No interior encontrava-se a ementa do almoço do dia 8 de Julho de 1935, constituída exclusivamente por pratos portugueses. Após os Aperitivos Variados seguia-se uma Sopa à Portuguesa, Sardinhas Assadas, Caldeirada da Murtosa, Pato da Curia com Arroz, Leitão da Bairrada, um Creme à Portuguesa e frutas da região. Como bebidas foram servidos vinho branco e tinto das Caves da Piscina e espumante da Bairrada. No final foram servidos café e cigarros.
Na página oposta, em branco, surgia a uma dedicatória onde se podia ler: «Bem hajam os que trabalham para o bem de todos nós e para o engrandecimento da Pátria».
Seguia-se a assinatura, que me deu algum trabalho a identificar, até perceber que se tratava de «Alexandre d’Almeida».
Fez-se luz no meu espírito e percebi que se tratava de um almoço de homenagem aos trabalhadores do Palace Hotel da Curia, feito por Alexandre de Almeida.
Alexandre de Almeida (1885-1972) foi um grande industrial hoteleiro português, cuja início de actividade na hotelaria se situa em 1917. Contudo só em 1921 adquiriu o Palace Hotel da Curia. Nos anos seguintes, entre 1922 e 1926, o edifício já existente seria ampliado, num novo projecto da autoria do arquitecto Norte Júnior.

Só mais tarde, nos jardins circundantes ao Hotel perto do campo de ténis foi projectada pelo arquitecto Raul Martins uma piscina de dimensões olímpicas. Este arquitecto foi também o responsável pelos projectos lisboetas do Cinema Jardim e pelo antigo Cinema Europa.
O conjunto da piscina e edifício com as áreas de apoio ao seu serviço, de linhas modernistas, foi concebidas para dar a ideia de se estar no convés de um grande navio, em que a “torre”, alberga os chuveiros, o restaurante, um bar, etc. Designado “Paraíso’ ou ‘Piscina Praia’ foi inaugurado em 1934.
Alexandre de Almeida foi um precursor no campo hoteleiro nacional com preocupações de qualidade e modernidade e uma visão internacional que fez com que o conjunto dos seus hotéis atingissem um alto nível. Quando morreu deixou aos seus descendentes, agora na terceira geração, um importante conjunto de hotéis icónicos, de que o Palace Hotel da Curia faz parte.
Esta homenagem aos trabalhadores no primeiro ano da existência da moderna piscina, em 1935, se estou certa na minha interpretação, revela-nos também um homem com preocupações humanísticas e de liderança de pessoal, que à época, era também seguramente inovador.

Nota: Sobre este hotel sugiro que leiam o artigo no blog Restos de Colecção

domingo, 6 de março de 2011

Leque Publicitário de Vidago e Pedras Salgadas

Júlio César Machado na introdução ao livro de Ramalho Ortigão “Banhos de Caldas e Águas Minerais” afirmava: «D’antes o costume em Portugal, nos meses de verão, era tomar ares». O livro foi publicado em 1875 e nele se dizia que era difícil alguém distrair-se em Lisboa de Abril a Outubro.
A solução passava então pela ida às “caldas”, como então se chamavam as termas. Estas conciliavam tudo: «Mudança de ares, exercício ameno, banhos, copinho, peregrinação, entretenimento, vita nueva». Esta moda intensificou-se no final do século XIX e início do século XX com a presença da família real. D. Luís esteve no Vidago, em 1875, e D. Fernando em 1884. Em 1906 foi a vez do rei D. Carlos que esteve instalado em Pedras Salgadas para tratamento de águas.
A Companhia das Águas de Vidago foi instituída em 1870 e nas décadas seguintes a fama dos efeitos terapêuticos das águas da região não parou de aumentar. Para acompanhar esta procura foram construídos vários hotéis e pensões que davam apoio às termas.
Em Vidago o primeiro hotel a ser construído foi o Grande Hotel de Vidago que foi inaugurado em 1874.
Em 1910 foi inaugurado o Vidago Place Hotel e em 1918 o Hotel Salus, que mais tarde se passou a chamar Hotel do Golf.
São estes os três hotéis representados no leque onde se designava Vidago como a «Vichy portuguesa», numa alusão à qualidade das suas águas alcalinas. Na face do leque que publicita estes hotéis pode ver-se que para além do tratamento das doenças do estômago os veraneantes podiam também distrair-se no campo de golf ou ainda na praia fluvial.
No outro lado do leque estão representados os três principais hotéis de Pedras Salgadas, «a estância da alegria»: o Hotel Avelames, o Hotel do Norte, o Grande Hotel e ainda a Pensão do Parque. Nesta face divulgava-se também a existência do casino, ténis, patinagem, o lago e a possibilidade de fazer hipismo.
Foi a partir dos anos de 1910-1920 que começou este tipo de propaganda que apresentava Vidago como sendo a "Vichy portuguesa”.
Esta ideia viria a manter-se durante algumas décadas, de tal modo que, em 1949, foi apresentada uma “Marcha de Vidago”, com letra do Padre Adolfo Magalhães, cujos versos diziam: «Ai, o Vidago, Vichy portuguesa, cheia de beleza, termas sem rival,...».
Nota:
Para mais pormenores sobre este tema consultar os blogues: