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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A exposição “Um cento de cestos”

Felizmente esta é uma exposição de longa permanência, porque os meus adiamentos podiam-me ter feito perde-la. Encontra-se no Museu de Arte Popular, um edifício maravilhoso, com ar abandonado, como se tivéssemos vergonha do que foi a estética do Estado Novo.

Entrada

 Faço votos para que ainda vamos a tempo de recuperar o que nos ficou dessa época e onde tantos e tão bons artistas colaboraram.

Parte do painel da sala
Utilizando exemplares do Museu de Arte Popular e do Museu de Etnologia, e tendo por base os estudos de Fernando Galhano, podemos ver mais de 300 cestos que, em grande parte, já não se fazem. As peças  são apresentadas por regiões e com indicação da sua utilidade.

Para mim uma exposição é mais do que um deleite visual, qualquer que seja o tema. Quero aprender com o que vejo. Por isso me irritam as exposições grandiosas, por vezes internacionais, com legendas mal traduzidas, informações superficiais e identificação que fica a um metro da obra, em que os curadores acham que a obra vale só por si.

Nesta exposição o conjunto de cestos tem placas que os identificam de forma fácil. Estão perto das obras, seguem o mesmo modelo em todas as vitrines e percebe-se, mesmo num conjunto grande de cestos, qual o seu nome, a região de proveniência e para o que serviam. Parece simples, mas para quem, como eu, já viu tantas exposições sabe que nem sempre é assim.

Pequeno cestinho para figos e doces
 Mostro aqui alguns modelos, alguns que eu já conhecia, mas a grande maioria foi uma agradável descoberta. Esta uma amostra de utensílios tão humildes, mas que foram tão úteis e que faz as pessoas olhar para eles com prazer e vontade de os preservar.

Não deixem passar, porque por vezes as exposições de longa duração são as mais fáceis de perder porque pensamos que vai lá estar mais tempo e quando damos por isso acabou. Vão ver!



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um condessa de ameixas de Elvas

Chama-se condessa a um pequena cesta redonda ou oval de vime ou verga, com tampa e sem asa. Como normalmente não é muito grande a palavra condessinha, que devia indicar um diminutivo, é aqui sinónimo.
Na realidade esta expressão também se aplica a outras cestas com tampa e com asa, apesar desta última não fazer parte da definição. É uma designação antiga que se foi perdendo e quando a encontrava em textos antigos interrogava-me como seria o seu formato.
Foto tirada da internet
Mas ao olhar para esta pequena cesta destinada a conter ameixas de Elvas percebi que esta era uma verdadeira condessa. O seu formato faz-me lembrar uma das variantes de cestas feitas com canas em Odeleite, Algarve. A variedade de cestas aí feitas é grande mas refiro-me a uma com forma cilíndrica, asa e tampa rotativa que Jane Birkin usou como carteira e que fez grande sucesso na época.
A embalagem aqui apresentada, que preserva ainda o rótulo e os papéis recortados interiores, destinava-se a conter ameixas de Elvas confitadas que eram produzidas na fábrica de Manuel Joaquim Candeias, fundada em 1919. Além da transformação da ameixa dedicava-se igualmente à preparação de azeitonas de Elvas. Na década de 1960 dedicou-se à exportação, como o rótulo desta embalagem nos diz. Em 1970 foi comprada pelo encarregado da fábrica, Mário Renato da Conceição que era, afilhado de Manuel Candeias. Presentemente o seu filho Luís Silveirinha é o actual proprietário.
A associação desta ameixa de Elvas, da variedade rainha-claúdia, à sericaia foi, segundo Luís Silveirinha, uma criação do seu pai Mário Conceição e do Director da Pousada de Elvas, na década de 1970. O resultado foi brilhante porque hoje quando se come sericaia achamos que está mesmo a pedir ser acompanhada por ameixas de Elvas.

PS. Este texto surgiu como consequência de um pedido de Mário Cabeças para o arquivo comunitário AIAR (ver facebook) para eu divulgar as minhas caixas de doces de Elvas. Aqui fica a minha primeira contribuição.


domingo, 17 de julho de 2011

Cesteiro que faz um cesto....faz um cento


Numa pequena travessa junto à Casa do Paço, na Figueira da Foz, deparo-me com um vendedor de cestos. Recolhido, aproveitando a sombra do edifício, expõe os seus produtos no chão.
Olho e reconheço modelos antigos. Meto conversa com ele para recolher informações. É o sr. António Silva Leopoldo, nascido há 88 anos na aldeia de Mata Mourisca, no concelho de Pombal.
É bem conhecido pelas pessoas da Figueira, como venho a confirmar depois com um transeunte. Não admira, já desde os 14 anos que sai da sua aldeia para ir vender cestos à Figueira. Conta-me que nessa altura vinha com a irmã mais velha, a pé, descalço, acompanhado por um burrico que trazia os cestos. Aponta para o sítio onde amarrava o burro junto ao cais agora transformado em passeio. Depois mais tarde arranjou uma bicicleta. Agora vem de comboio. É um homem rijo e diz que as pessoas lhe dizem que é são por ter andado tanto a pé.

No chão encontra-se uma variedade de artigos de cestaria feitos de dois materiais: capachos, cestos, bases de tachos em esparta ou bracejo e cestas, cestos e canastas feitas em castanho.
As peças feitas em bracejo (Brachypodium Phoenicoides para quem quiser saber mais) são primeiro entrançadas e depois manuseadas para lhes dar várias formas e este é um trabalho de mulher. É a sua mulher quem as faz. Olhando bem, os pequenos círculos decorativos que circundam a borda são realmente femininos.

Já a cestaria em castanho é trabalho de homens. É preciso escolher os ramos de castanheiros novos, pô-los de molho em água, cortá-los e entrançá-los para fazer os cestos, que quando têm asas se chamam cestas.
O casal é o último da aldeia e quando morrerem já ninguém mais vai fazer esta cestaria. Um senhor que o conhece diz-me isso mesmo quando passa: «Olhe que quando acabar não há mais».

Prometo-lhe que um dia destes vou visitá-lo à aldeia. Compro-lhe todos os modelos que traz e deixo-o feliz. Mais feliz fico eu por ter encontrado a tempo um dos últimos representantes destas profissões que vão desaparecendo.