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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Frek o esfregão mágico


O conjunto encontrava-se ainda no seu saco de plástico original, gasto e já sem a transparência inicial. Ligeiramente dobrado foi necessário retirá-lo, submetê-lo a uma atmosfera húmida e endireitá-lo. Um tratamento de luxo para um simples papel publicitário, na realidade a promoção de uma amostra de esfregão de cozinha.
Desconhecia a marca Frek e não encontrei qualquer registo sobre ela. O número de telefone remetia-nos para os anos 60 e efectivamente encontrei no Diário de Governo de 13-12-1967 uma alteração de estatuto, com a entrada de novos sócios, da sociedade fundadora a «Transformadora de arames Ibérica», com sede em Sacavém.
Com o preço de 6,50 escudos o Frek, era «um produto são e higiénico e económico pela sua duração» e anunciava-se o ideal para as baterias de cozinha, louça e outro vasilhame. Era o período áureo dos objectos de cozinha em alumínio que as donas de casa gostavam de mostrar a brilhar, mas os produtores avisavam que só se devia usar com esse fim quando estivesse na «macieza adequada».
Foi um precursor dos esfregões verdes que hoje utilizamos e os promotores escolheram uma imagem do Gato Felix, o gato antropomórfico nascido em 1919, para o promover irradiando alegria ao ver a sua imagem espelhada no fundo brilhante de um fundo de tacho, seguramente de alumínio.
Sinceramente, não posso perceber como este «esfregão mágico», saído da indústria nacional, não teve o sucesso que merecia.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Fascínio dos Alumínios. Parte 3

Brinquedos em alumínio. Museu de Penafiel
Não podia terminar estas minhas memórias sobre alumínios sem falar na visita à última fábrica do Município de Penafiel, a Rodrigo Ribeiro de Magalhães, Lda. Muitas das antigas fábricas da região foram construídas por trabalhadores que haviam aprendido o ofício na Fábrica de Talheres de João Abrantes Ferreira, na década de 1950. Concentravam-se em Irivo e foram fechando a pouco e pouco.
Foto da exposição de alumínios do Museu de Penafiel
Resta a fábrica do sr. Firmino Magalhães, cuja memória dos factos passados nos permite reconstruir mentalmente a vida na época e compreender a importância daquela indústria para a região.
Fotografia dos pais de Firmino Magalhães. Museu de Penafiel.
O projecto recebeu-o do seu pai Rodrigo Ribeiro de Magalhães, nascido em 1918, e que foi um dos trabalhadores de João Abrantes Ferreira, na fábrica de cutelaria que apresentava a marca JAFE e que ajudou muitos dos seus funcionários a estabelecerem-se. Num dos catálogos presentes na exposição de alumínios, de 1954, podemos ver muitos dos modelos que então aí eram produzidos. 
Cartão comercial. Museu Municipal de Penafiel
Depois de uma tentativa sem sucesso de fundar uma primeira fábrica com um sócio, juntamente com a sua mulher Emília Cândida Antunes, com quem havia casado em 1938, começou a produzir talheres num anexo junto à casa onde viviam e em 1953 registava uma empresa designada Rodrigo Ribeiro de Magalhães, Lda.
O sr. Firmino Magalhães à entrada da fábrica.
A seu filho Firmino Magalhães, com quem falámos, cresceram-lhe os dentes na indústria do alumínio e foi o continuador da obra do pai. Na década de 1960 construiu no mesmo local a fábrica ainda hoje aí existente. A indústria foi progredindo com exportações para o estrangeiro e sobretudo para o mercado colonial.
Facturas. Museu de Penafiel.
Com o 25 de Abril todo esse comércio foi suspenso e passaram-se tempos difíceis. Chegou a ter 30 empregados e agora tem apenas dois. Mas a alegria, versatilidade e disponibilidade da sua funcionária Maria Joaquina que salta da fundição para as outras máquinas com a maior facilidade, suprimem as lacunas que possam existir.
Fase de fundição
O alumínio fundido é colocado manualmente em moldes e arrefecido com um jacto de água. Depois das peças feitas passam por várias fases de tratamento. Começa-se por as separar ou cortar o que é feito numa máquina. 
Fase inicial para cortar as peças
Em seguida, utiliza-se uma outra máquina para tirar as rebarbas, o que funciona já como um polimento e permite fazer uma selecção da peça. Noutros casos é feito um polimento com esferas, para maior perfeição. Por último, em peças que necessitam furação, são furadas para colocar os rebites. 
Fase de tirar rebarbas
Na altura que visitámos a fábrica estavam a ser feitas pegas ou asas para tachos e portanto essa fase era indispensável. O tempo da produção de talheres já vai longe. Perdura na memória das pessoas e na presença dos moldes que o sr. Firmino ofereceu ao Museu Municipal de Penafiel.
Fase de furação
Graças ao trabalho e tenacidade do sr. Firmino a sua fábrica mantém-se em actividade, pensando o proprietário em fazer alguma reestruturação, não a ampliando, que os tempos não estão para essas aventuras. 
Ao partirmos despedimo-nos fazendo votos para que continue com sucesso e a fábrica se mantenha. É uma luta do passado contra o futuro e uma adaptação às novas necessidades de uma sociedade de consumo impiedosa.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O fascínio dos alumínios. Parte 1

 
Alumínios. Exposição no Museu Municipal de Penafiel
O título, apresentado no plural, foi escolhido para falar especificamente nos utensílios domésticos de alumínio. A descoberta deste metal, o elemento 13, é recente. Produzido pela primeira vez em Copenhaga por Hans Christian Oersted, em 1825, era um produto impuro que continha potássio. Dois anos depois um químico alemão, Friedrich Wöhler, aperfeiçoou o método substituindo o sódio pelo potássio.
Escória de Alumínio. Museu Municipal de Penafiel
Este metal teve um período de grande admiração chegando uma barra de alumínio a estar exposta na exposição de Paris de 1855. Napoleão chegou mesmo a dizer que os talheres de alumínio eram reservados para os convidados de maior cerimónia. Em 1886 Charles Martin Hall conseguiu desenvolver o primeiro processo de extração do alumínio e iniciou-se a sua divulgação. No início do século XX o alumínio já tinha suplantado o cobre graças às suas propriedades. As suas virtudes são imensas: é leve, maleável, forte, resistente à corrosão, apresenta grande condutividade ao calor e à electricidade e pode ser totalmente reciclado.
Mesa com alumínios. Museu Municipal de Penafiel
Talvez por isso mesmo tenha sido o metal escolhido para ficar na lua a primeira obra de arte humana: uma estatueta de um astronauta deixado pela Apolo 15, em 1971.
Mas este metal, o terceiro em abundância na natureza, tem também um lado negro. Na sua forma solúvel (+3) é tóxico para as plantas. Não entra na constituição do corpo humano e, embora possa estar presente em alguns alimentos em pequenas quantidades, é prejudicial em maiores quantidades, como pode acontecer com o consumo de alguns aditivos alimentares ou no uso de alguns desodorizantes que são colocados sobre a pele. Ultimamente tem surgido estudos que implicam o alumínio como um factor de risco para a doença de Alzheimer, mas isso nunca foi provado.
Que seria de nós sem as ligas de alumínio indispensáveis ao fabrico de aviões e em tantos metais condutores.
Medidas de alumínio. Colecção da autora.
Contudo o alumínio deixou de ser usado nos utensílios de cozinha. De metal fascinante e moderno passou a maldito. Passou de moda. Vieram novos metais para usarmos nos talheres e na baixela de cozinha e o alumínio foi sendo esquecido. Nalguns dos tachos que usamos hoje nas nossas cozinhas ele está lá escondido na base no meio de outros metais, usado pela sua extraordinária capacidade condutora de calor que nenhum outro metal possui. Isto eu aprendi ao falar com o sr. Firmino, dono da última fábrica de alumínios de Penafiel. 
Consola com caixas para especiarias. Colecção da autora.
Este entusiasmo veio-me da visita à Exposição de alumínios que esteve presente no Museu de Penafiel e que infelizmente já acabou. Sobre isto eu falarei no próximo poste.
Devo contudo dizer que todo este meu interesse não existiria sem o fascínio que a cozinha da minha vizinha, na Covilhã, exerceu sobre mim. Quando era criança vivia ao ao lado da nossa casa o chefe dos Bombeiros, o sr. Garcia que, quando havia fogo, os Bombeiros vinham buscar num carro de incêndios. Ele descia as escadas a coxear, herança de um antigo acidente, e dirigia-se rapidamente para o carro que o aguardava já fardado com um fato escuro, um cinto de cabedal largo que lhe pronunciava o abdomen e um chapéu de bombeiro em metal dourado. Antes tocava a sirene e todas as pessoas ficavam em silêncio. Se tocava interruptamente o fogo era na cidade, se a sirene interrompia o som era nos arredores. As pessoas ouviam e diziam: “é fora”, quando era o caso e ficavam mais aliviadas.
Caixas para detergentes de louça. Ao centro a areia. Colecção da autora.
Visitei algumas vezes a cozinha desses meus vizinhos, pessoas de idade, de ar respeitável e ambos um pouco obesos para a época, fazendo sugerir que a alimentação era importante naquela casa. Das comidas nada sei mas o que ficou para sempre na minha memória foram as travessas de madeira em que se penduravam as panelas, onde estas se alinhavam em medidas crescentes e com um brilho inacreditável. Nunca mais na minha vida vi alumínios tão bem areados, palavra que espelha a forma inicialmente usada (com areia) para os tornar resplandecentes. O seu brilho era outra das características que os tornavam atraentes e nunca mais existiu baixela de cozinha tão bela.