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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A minha vida (actual) em poucas imagens

     Resumo da minha vida em confinamento.





Ah! Já me esquecia. Também investigo e escrevo mas, como a Anita não faz nada disso, não posso exemplificar com bonecos.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Um livro “bom de assoar”

A expressão “bom de assoar” estava já esquecida na minha memória. Usa-se raramente, o que é fácil de explicar: as pessoas conhecem cada vez menos ditados, expressões idiomáticas, ditos regionais, etc. Antigamente os livros na Escola não só nos ensinavam estas expressões, como nos estimulavam ao conhecimento de mais. Era uma alegria conhecer novos termos e ditados.
A frase usa-se habitualmente na negativa “não ser bom de assoar” e aplica-se a uma pessoa de difícil tracto, o que significa ter mau feitio; ter maus fígados. 
Pode parecer absurdo mas este livro infantil que inclui três lencinhos que acompanham a história sugeriu-me este título. É um livro espanhol, sem identificação do autor ou da data. 
Tem seguramente mais de 50 anos e é espantoso que tenha chegado até hoje íntegro, com os seus lenços que, além disso, nos obrigam a retirá-los para ler a história. 
O livro, de forma resumida, conta-nos o diálogo entre um leão e um mosquito em que o último é afastado e insultado pelo rei da selva. Desafiado o mosquito aceita o combate e pica o leão em todo o lado, uma vez que este não consegue defender-se de um inimigo invisível.
O mosquito é vencedor e sai triunfante da luta mas, cego pela vitória, vai contra uma teia de aranha e perde a vida.
É no final uma história triste mas que tem uma moral (como então era costume) e que era a seguinte: «Nunca devemos perder a cabeça com os nossos triunfos».

Como as vitórias são relativas e que falta faziam estes ensinamentos a muitas pessoas!
P.S. Podíamos ainda acrescentar outra expressão: «Pois assoem-se a este lenço», que é com quem diz : ora toma lá. Expressão pelos vistos mais rara porque não faz parte da lista do Dicionário referido. 

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Bibliografia:
Almeida, José João. (2019). Dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas José João Almeida. Disponível em https://natura.di.uminho.pt/~jj/pln/calao/dicionario.pdf

sábado, 16 de junho de 2018

O famoso Agar-Agar

No nosso dicionário gastronómico «Do comer e do falar…» definimos ágar-agar como: «Goma ou colóide hidrofílico extraído de algas marinhas da classe das rodofíceas, tais como Gelidium L., Gracilaria L. e de outras algas vermelhas; apresenta-se sob a forma de barra ou em flocos e é uma mistura de polisacáridos de agarose e agaropectina; serve como gelificante rápido mesmo à temperatura ambiente; derrete a 85ºC e após a dissolução deve ferver 3-5 minutos. 
Do ponto de vista nutricional, funciona como uma fibra alimentar, por ter baixa digestibilidade e consequentemente um valor energético baixo. Gelose.»
Algas vermelhas. Foto tirada do blog Plant Life
Informativo mas pouco atraente sobretudo se o compararmos com a deliciosa história infantil intitulada «O famoso Ágar-ágar».
Achei curioso este pequeno livrinho de histórias, de pequenas dimensões, da colecção Juvenil Bambina. A narrativa é maravilhosa e nas suas 6 folhas, sem gravuras, conta-nos como o pobre Agar-Agar, cordoeiro, casado e com cinco filhos passou a rico na sequência da aposta de dois amigos Set e Sat. A história passa-se na Índia onde o grande califa Casbá foi tomado de curiosidade ao ver um grande palácio que pertencia ao nosso herói.
Embora no início tenha recebido um saco de moedas de ouro de um dos apostadores, rapidamente o veio a perder, quando um milhano lhe roubou o turbante onde havia guardado as moedas. Sucedem-se várias peripécias que justificam o enriquecimento deste homem com nome de gelatina, que manteve contudo a sua simplicidade.
História da autoria de Feral Só
A história demasiado longa para aqui a contar é da autoria de Henriette, provavelmente um nome fictício tal como os dos restantes autores desta colecção, cujos outros nomes: Agallogay, Feral Só e Jovit completam o elenco misterioso.
Além deste livro Henriette escreveu «Baniko e as suas malaguetas» e «A princesa do mar verde», todos publicados em 1955 pelas edições H.G., 1955.
A colecção completa tinha 10 volumes e cada um dos livros incluía um pequeno cromo para recortar, colorir e colar no Albúm Gigante da História de Portugal, que provavelmente nunca chegou a existir.
 Este livro simples, de uma colecção que deve ter tido pouca divulgação, estranhamente não vem mencionado no livro «A literatura Infantil em Portugal» de Domingos Guimarães de Sá, mas daqui não posso tirar qualquer conclusão.  É bom ficarem alguns mistérios por resolver.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

ABC Illustrado Nestlé

Este raro livro para crianças deve ter sido publicado logo no início do século XX, de acordo com a grafia que apresenta e que não obedece ainda à proposta feita em 1904 por Gonçalves Viana, que viria a ser oficializada em 1911.
Tem contudo todas as características do século XIX, data em que deve ter sido concebido na Suíça e traduzido posteriormente para outras línguas. Numa época de raros livros infantis este era oferta dos proprietários da farinha láctea Nestlé. No prologo é introduzida a ideia de que a vida de uma criança, que no início é constituída por carícias, dádivas, brinquedos e farinha Nestlé, no futuro tem maiores exigências, sendo necessário alicerçar a cultura para a qual contribui este abecedário.
Esta farinha láctea resultava da investigação do farmacêutico alemão Henri Nestlé cuja maior aspiração era solucionar o problema da desnutrição infantil. Grassava na Europa a fome e as crianças apresentavam-se mal alimentadas e em muitos casos corriam o risco de adquirem tuberculose através do leite.
Na segunda metade do século XIX os estudos sobre tuberculose obtiveram grandes progressos. Em 1865 Villemin tinha verificado, pela primeira vez, a capacidade de transmissão da doença para os animais, a partir de material proveniente de humanos e em 1882 Robert Koch identificou o agente infecioso. o Mycobacterium tuberculosis que tomaria o nome do seu descobridor como bacilo de Koch. Só mais tarde, em 1897, Smith conseguiu a diferenciação entre o bacilo humano, o bovino e o aviário.
A Nestlé é uma indústria alimentícia que foi fundada em 1866 e na sua primeira fase foi este leite, sobre a forma de farinha, que Henri Nestlé produziu com o seu nome, designando-o um alimento completo para crianças. Foi com este produto que ganhou dezenas de medalhas em exposições nacionais e internacionais que ostenta na capa posterior deste livro.
Farinha produzida em Portugal pela Soc. de Produtos Lácteos AVANCA para a Nestlé
Em Portugal foi em 1923 que ocorreu a Fundação da Sociedade de Produtos Lácteos, Lda., que tinha como principal sócio o Prof. Egas Moniz. A primeira fábrica portuguesa de leite em pó simples foi fundada em Avanca, no concelho de Estarreja, no distrito de Aveiro. Era nela que eram produzidos os produtos Nestlé que então já eram publicitados como alimentos completos para crianças, adolescentes e pessoas idosas.
Mas à época da edição deste livro a produção era ainda feita exclusivamente em Vevey, na Suíça. Neste abecedário o texto apenas nos remete para descrições directamente relacionadas com a produção, consumo e indicações da farinha alimentícia.
As gravuras, de vários autores, são na maior parte feitas por Harry Rountree (1878–1950) um notável ilustrador nascido na Nova Zelândia mas que em 1901 já se encontrava em Londres. Foi responsável por um número enorme de ilustrações de livros infantis, entre eles, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Foi também reconhecido como ilustrador de cartazes publicitários; trabalhou para a revista Punch e ilustrou livros para adultos como os de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes.

Por tudo isto, este livro resultou tão bem do ponto de vista gráfico, informativo e publicitário.

domingo, 20 de março de 2016

Campbell's soup: um lata icónica

No final do século XIX as sopas enlatadas faziam o seu aparecimento comercial. É verdade que foram precedidas pelos trabalhos sobre conservação dos alimentos em vácuo levados a cabo por Nicolas Appert, em França, feitos a aprtir de 1790. Mas então os alimentos apresentavam-se em frascos.
Ladies Home Journal 1923
Em 1810 o inglês Peter Durand registou um novo método de conservação em latas seladas que iria modificar a industria alimentar. Nas décadas seguintes o método chegaria à colónia inglesa australiana e aos Estados Unidos.
Em Portugal a fábrica a vapor de José da Conceição Guerra, fundada em 1894 em Elvas, produzia sopa juliana e afirmava ser então a única em Portugal. Esta firma, mais conhecida pela produção e comercialização de frutas, em especial a ameixa de Elvas, apresentou uma grande variedade de embalagens, mas no que respeita às destinadas a sopa nunca vi nenhuma e desconheço de que material seriam feitas.
Nos Estados Unidos, em 1897, John T. Dorrance, um químico que havia estado na Europa, inventou a sopa condensada para a Companhia de Sopa Campbell, em que após a adição de água era possível obter rapidamente uma sopa. Esta empresa, que também era conhecida de forma abreviada por Campbell's, havia sido fundada um ano antes por Joseph A. Campbell e Abraham Anderson, para produzirem vários tipos de alimentos enlatados. Em 1898 os rótulos das latas, por sugestão de Herberton Williams, passaram a apresentar-se nas cores encarnado e branco que as tornariam famosas.
A publicidade em revistas americanas das décadas seguintes mostram-nos donas de casa felizes a darem essas sopas aos seus filhos, representados com rostos risonhos.
A cultura americana, conhecida pelo pouco apreço pela comida caseira, rapidamente adaptou este produto industrial, a par de muitos outros e transformou-o num sucesso.
 
Na década de 1940 surge uma nova campanha publicitária às sopas Campbell's agora dirigidas a homens, a fazer lembrar-nos aquele anuncio a um bacalhau pré-peparado, vendido em Portugal nos anos 70-80, cuja embalagem dizia «destinado a homens temporariamente sós».
É provável que Andy Warhol fosse um apreciador do paladar das ditas sopas. Era-o pelo menos da estética das suas embalagens. E em 1962 utiliza a representação monótona, repetitiva, mas igualmente variada, das 32 das variedades de sopa existentes e reproduz o conjunto em serigrafia, numa manifestação de pop art. 
Ainda na década de 1960 e nos anos de 1970 retomaria este tema, em cores variadas, que a própria fábrica, com sentido de oportunidade, viria a comercializar mais tarde em edição limitada.

sábado, 13 de setembro de 2014

Desenhos fabulosos de... «Fábulas»

O mundo encantado das fábulas vive não só das narrativas mas sobretudo das imagens que nos ficam na memória.
No livro «Fables» de Anatole de Ségur (1823–1902) publicado em 1864, o editor J. Hetzel, juntou os dois primeiros livros de fábulas, publicados em 1847, e os outros dois publicados em 1863. O autor foi um conhecido escritor de fábulas nas horas vagas da sua actividade burocrática.
A enriquecer o livro encontram-se gravuras em madeira feitas por Lorenz Froelich (1820-1908). Este pintor e desenhador dinamarquês salientou-se sobretudo na ilustração infantil e os seus desenhos podem encontrar-se nos principais livros deste tipo de literatura, da época.
Escolhi imagens de duas fábulas que permitem observar a riqueza de pormenores das ilustrações e que se adaptam ao tema deste blog. A primeira fábula intitula-se «A raposa convertida» e a segunda «A miséria à procura da fortuna».
Para terminar uma das imagens do livro «O circo em casa», com texto de P.-J. Stahl e que foi igualmente ilustrado por Froelich, desta vez a cores. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A noite de Natal

O livro «A noite de Natal» foi publicado em Portugal em 1938 pela Lello & Irmão. O conto e as ilustrações eram extraídos do célebre filme de Walt Disney «The night before Christhmas». 
Este tema apelativo serviu igualmente como título para livros de autores portugueses como Sophia de Mello Breyner Andersen, Raul Brandão e Jorge de Sena (A noite que foi de Natal).
Os oito meninos da história aguardam a chegada do Pai Natal
No livro de Walt Disney eram apresentadas as aventuras do Pai Natal para conseguir entregar as prendas aos oito meninos da casa que ansiosamente aguardavam deitados, todos na mesma caminha. 
A tradução para português da obra foi feita pelo professor Francisco José Cardoso Júnior(1884-1969) e, além desta edição chamada popular, foi feita uma outra de luxo, em formato grande e profusamente ilustrada. 

Para terminar fica a versão original que deu origem ao livro. 
Se mantiverem o espírito infantil vão gostar.
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O menino de pão de ló

Os livros com partes móveis existem há centenas de anos. Um dos primeiros exemplos surgiu no século XIII tendo sido concebido por Ramon Llull, de Maiorca (1232-1316), que escreveu livros de alquimia e botânica. Foi o criador de um disco designado volvelle ou círculo Lulliano, que consistia em dois ou mais círculos de papel com com letras ou símbolos que rodavam e que tantas aplicações teve no futuro (ainda me lembro de usar em Obstetrícia uns discos para calcular a data de nascimento das crianças baseados nesta técnica).
No século XVIII Robert Sayes produziu livros de «metamorfoses», em 1765, também chamados «turn-up» ou «harlequinades» que eram compostos por folhas impressas e dobradas. Quando desdobradas noutras posições apareciam outras imagens que contavam uma diferente história.
Entre 1810 e 1816 uma empresa inglesa dedicada a produtos infantis, a firma S. & J. Fuller, produziu um série de livros que tinham bonecas de papel com cabeças móveis e fatos variados para as vestir. Não tinham histórias e eram considerados brinquedos. Os livros móveis para crianças surgiram apenas em 1860 e foram publicados por Dean and Son.
Em 1890 Ernest Nipers concebeu uns livros em que as figuras eram recortadas e surgiam automaticamente quando se abria o livro. Vários exemplos se seguiram até chegarmos ao trabalho de Julian Wehr que publicou o primeiro livro móvel designado «As excitantes aventuras de Finnie e Fiddler». 
Wehr registou a patente do seu dispositivo, muito simples, que consiste numa única paleta, na parte inferior do livro, que mexia para a frente e para trás e que fazia mexer mais do que um mecanismo e fez com esta técnica mais de trinta livros. Estava-se na época que antecedeu os livros pop up, que desabrochou nos anos 60 e de que já falámos anteriormente.
Este livro aqui apresentado foi publicado nos Estados Unidos em 1943 com o título «The Gingerbread Boy», o que revelava as origens alemãs do escritor norte-americano. Traduzido para português como «O menino de Pão de Ló» o que fazia todo o sentido numa época em que os portugueses não sabiam sequer o que era o gengibre e as bolachas de gengibre, de influência inglesa, era pouco conhecidas (exceptua-se a sua produção na Madeira pela Fábrica de Santo António, como produto localizado) .
A história, os desenhos e a animação saíram todos da mesma pena. A narrativa é um bocado sinistra, mas com a insensibilidade que caracteriza as crianças, deve fazer sentido. Conta a história de um casal idoso muito feliz em tudo excepto no facto de não terem um filho. Um dia a velhinha resolve fazer um bolo com o feitio de um menino para viver com eles. No forno o menino de bolo toma vida e sai a correr recusando-se a viver com o casal. Seguem-se as desventuras que resultam do encontro do menino bolo com uns lavradores, com uma vaca, um porco e uma gata selvagem, todos procurando-o comer. Desanimado o menino volta a casa do casal. Muito contente a velhinha abraçou-o «mas, de repente,... zás. O menino de pão de ló partiu-se em dois pedaços iguais». O que mostrava que os meninos de pão de ló serviam para serem comidos e «o velhinho e a velhinha acabaram por comer inteirinho este menino de pão de ló».
Acaba assim a história de um forma que nos deixa de olhos abertos, sobretudo quando estamos à espera de um final feliz. Para além das ilustrações no meio do texto o livro tem 5 folhas com mecanismos móveis por meio de um paleta, como era hábito do autor, e que delicia as crianças e alguns adultos, como é o meu caso.