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terça-feira, 16 de abril de 2019

Dois irmãos-de-leite


Esta fotografia enternecedora, e ao mesmo tempo surpreendente, foi transformada em postal ilustrado e representa dois irmãos-de-leite em Angola, em 1932, no Vicariato de Huambo. O espantoso é que um é uma criança de raça negra e o outro uma cabrinha de tenra idade. Ambos sem mãe que lhes desse leite foram alimentados com o leite existente na garrafa que se encontra entre eles.
A legenda, na face posterior do postal é clara: «Dois irmãos de leite. Vicariato do Huambo, 1932». Esta designação de irmãos-de-leite, isto é, irmãos não consanguíneos a que eram atribuídos laços de familiaridade pelo facto de serem amamentados pela mesma mulher, também era conhecida por «irmãos colaços». D. Francisco Manuel de Mello, na Feira de Anexins, usa-a com esse sentido (p. 30).
Mãe preta. Fotografia tirada da internet
No Brasil essa função competia muitas vezes às escravas negras e mais tarde às criadas que haviam tido filhos. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, refere-se a esse facto que considerava explicar «muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas». Mas este hábito foi usado em muitos países e cortes europeias, facilitando assim maternidades mais precoces (a amamentação impede a fertilização) e uma maior liberdade da mulher de sociedade.
Em oposição situava-se a «ama-seca» expressão aplicada à mulher que trata das crianças, sem as amamentar.
Ama-de-leite. Fotografia tirada da internet
Para enquadrar esta imagem quero acrescentar que a informação sobre este Vicariato e a Acção Missionária Angolana na região do Huambo é escassa antes de 1940. Há referência a um Seminário de Caála no Huambo, fundado em 1921 sob a responsabilidade do Padre Joaquim Alves Correia. Em África as várias estruturas missionárias religiosas foram afectadas pela implantação da República em 1910 e estes missionários deixaram de ser considerados funcionários públicos. Em 1921 um Decreto do Ministro das Colónias, Rodrigues Gaspar, enquadrou os missionários na sua função, sendo utilizados pelo Estado para fins civilizadores, mas dependentes da Igreja católica e da sua disciplina. No entanto apenas em 1926 seriam publicados o Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas em África.
Irmãos-de-leite. 1883. Foto tirada da internet.
No Huambo os missionários, em especial os padres da Congregação do Espírito Santo, exerceram a sua acção sobretudo sobre os Ovimbundu, com uma expansão agrícola regional na década de 1920, que viria a decair na década de 1940 com as fazendas mais produtivas a tornaram-se propriedade dos colonos brancos.
Na década de 1930 o Huambo ainda era o paraíso, com irmãos-de-leite diferentes a partilharem o leite de um outro animal desconhecido.
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Bibliografia:
LECOMTE Padre Ernesto, (1937 - 6.ª edição), Cartilha da doutrina cristã em portuguez e mbundu. Huambo, Tipografia da Missão.
DULLEY, Iracema, «Cristianismo e distinção: uma análise comparativa da recepção da presença missionária entre os «Ovimbundu» e os «Ovakwanyama» de Angola », Mulemba [Online], 5 (9) | 2015, consultado a 16 abril 2019 em http://journals.openedition.org/mulemba/404 ; DOI : 10.4000/mulemba.404
MELLO, Francisco Manuel de, (1875). Feira dos anexins obra posthuma de D. Francisco Manuel de Mello / ed. dirigida e revista por Innocencio Francisco da Silva. Livraria de A.M. Pereira: Lisboa.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Modo Simples de Preparar Pratos de Comida Caseira

Este pequeno e singelo (que palavra tão adequada) livro foi escrito pelo Padre António Maia, missionário em Angola, e publicado pela primeira vez em 1960.
Este missionário angolano nasceu em Ovar em 1905 e estudou nos seminários da Missões de Cucujães no Porto e dos Olivais de Lisboa. A escrita e publicação de livros não era um campo novo. Anteriormente havia já publicado 14 livros religiosos.
Chegou a Ambriz em 1935 já como subdiácono para professor auxiliar da Missões. Celebrou o 25º ano da sua chegada a Luanda com a publicação deste livrinho. 
Padre António Maia. Foto tirada do Jornal João Semana
O autor explica que quando chegou a Luanda começou a tomar rápidas notas de culinária europeia e angolana, que acabou por publicar com a intenção de ser útil nas suas viagens de evangelização através do mato e sertão africanos.
O livro com 83 receitas esgotou-se rapidamente e na 4ª edição já haviam sido feitos 10.000 exemplares. Esta que eu tenho é a 5ª edição, publicada em 1961, de 2500 exemplares. Isto é, ao fim de um ano, haviam sido distribuídos, presumo, 12.500 livros, o que é verdadeiramente espantoso.
Os pratos são bastante básicos, como fazia sentido, com um predomínio de pratos de sopas (ou não fosse português), de pratos de arroz e de feijão, mas também pratos com carne e peixe. Mas também sobremesas como arroz-doce, cremes, aletria, merengues, doces de coco, de amendoim, de caju, de banana, etc.
Os pratos angolanos são vários e mostram a sua integração local, mas também o desejo de ensinar coisas básicas como o «Modo de fazer farinha de mandioca», de fazer «fuba de bombó», «Como cozinhar funji ou pirão», a par de receitas que remontavam à sua juventude como o modo de fazer broa de milho, ou, a partir da 4ª edição, uma receita nova de Ovar, a sua terra natal, ou o modo de fazer marmelada, entre outras.
No final no «Apêndices» há ainda lugar para um pequeno glossário de «Conhecimentos úteis e vocabulário», o «Modo de fazer hóstias para o Culto Divino», «Modo de purificar óleo de palma», «Utensílios de cozinha», etc.
Foto tirada do Jornal João Semana
O Padre António da Silva Maia deve ter sido um bom evangelizador da doutrina cristã nas terras de Angola, mas foi seguramente um bom professor de coisas práticas que ajudaram a mudar a vida das pessoas. O seu pequeno livro é uma doçura pela sua simplicidade e mostra-nos como coisas simples podem fazer a diferença. Com ele alguém ficou a saber mais, nem que seja, aquilo que nos parece tão elementar como «Preparar leite condensado ou em pó», produtos então desconhecidos.