Mostrar mensagens com a etiqueta Rebuçados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rebuçados. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Dos rebuçados brancos

Ontem no final do almoço trouxeram no prato a conta e alguns rebuçados brancos envoltos em celofane encarnado. Era uma gentileza habitual nalguns restaurantes, mas foi desaparecendo e agora só se encontra na província.
Estes tinham escrito no papel «Bolas de neve» Nazaré e o dono do restaurante disse-me que devido ao aumento do imposto sobre o açúcar ia deixar de os oferecer. Mostrou-me uns outros, igualmente envoltos em papel idêntico, mas sem qualquer impressão.
Não aprecio especialmente rebuçados mas quando ouço falar em desaparecimento ficou logo em estado de alerta. Lembrava-me de uns rebuçados semelhantes mas que eram de côco e em forma de bola e que penso também já desapareceram.
Quando comecei a pesquisar descobri que imensas pessoas tinham nostalgia destes rebuçados e associavam-nos à infância. Seguramente pessoas muito jovens porque, como vim a descobrir, a sua produção é muito recente em Portugal.
As chamadas «Bolas de neve» são produzidas pela empresa Nazaré, de J. Diniz e Filho, uma fábrica fundada em 1955 em Afife, Viana do Castelo. O pedido de registo desta marca foi feito em Agosto de 2001, mas viram-se envolvidos na oposição do uso da marca por uma outra empresa até 2006, tendo perdido o processo.
A outra empresa era a Vieira de Castro, que teve o seu início em Famalicão em 1943 e que registou um produto semelhante, os «Flocos de neve», em 1991. Com uma produção variada de produtos alimentares, inicialmente mais ligados à confeitaria e posteriormente ao fabrico de bolachas, apresenta hoje um leque variado de produtos que passa pelas amêndoas cobertas e pelos rebuçados. Dentro destes os «Flocos de neve» têm um papel de destaque pelo volume de vendas.
Descobri depois que também o Continente vende uns rebuçados semelhantes chamados «Lágrimas de neve», possivelmente os tais sem letras no papel de que falei anteriormente. No meio das informações surgiram ainda uns rebuçados deste tipo, chamados «Flocos de nieve» Diana e que seriam produzidos em Espanha.
Não me foi possível descobrir o raciocínio por detrás da criação destes rebuçados que, em comum, têm a brancura do produto que o liga à neve e o invólucro transparente encarnado que devia remeter para o Natal, numa época em que ainda se associavam os doces às festas. Mas para haver tanta competição entre os vários rebuçados é porque se trata de um produto de sucesso. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Os Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi


O Dr. Guilherme Centazzi (1808-1875) foi um médico que nasceu em Faro e, embora tenha iniciado a sua carreira em Coimbra, acabou por se doutorar em Paris. Sobre este período de estudante, em Portugal, de onde foi obrigado a afastar-se pelos seus ideias liberais e, posteriormente, em Paris, publicou, em 1849, um livro de memórias intitulado: «O Estudante de Coimbra ou relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838». Além desta, escreveu outras obras, entre as quais «Hygiene e medicina popular».

Na segunda metade do século XIX e na primeira do século xx, os rebuçados do Dr. Centazzi foram muito famosos. Na época, o fabrico de rebuçados em farmácias era frequente, porque eram sobretudo medicinais. Deve ter sido o que aconteceu neste caso, embora não tenhamos informação sobre o modo de fabrico inicial.

Eram recomendados «muito especialmente aos cantores e oradores». Eram vendidos a peso e não continham essências artificiais.

Em 1924 os irmãos Alberto e Arnaldo Pereira fundaram a A. F. Pereira Lda, que daria origem à Salutem.  Em 1925 adquiriram uma fábrica de rebuçados e criaram a marca Centazzi, com pedido de registo em 9 de fevereiro desse ano (1) e formaram a sociedade Centazzi Lda.
A comercialização destes rebuçados foi acompanhada por algumas preocupações de publicidade e a imagem desta mãe a dar ao filho um xarope, feito com estes rebuçados, data de 1925. Para obter o xarope diluíam-se 6 rebuçados em dois decilitros de leite ou café e tomava-se, de preferência, ao deitar.
Numa das suas imagens usadas para publiciade dizia-se: «Pedir em toda a parte», e realmente a sua venda estava divulgada.
No jornal O Cezimbrense (2), de 1929, a publicidade à Mercearia, Café e Cervejaria da Viúva de Francisco Pinto Coelho & Filho, para além dos seus inúmeros produtos, informava que tinha sempre em depósito «os afamados Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi».
A lata que aqui se apresenta levava 4 kg de rebuçados «contra tosses, bronquites, rouquidões e afecções das vias respiratórias».
Estes rebuçados eram « feitos com um xarope especial e aromático segundo fórmula do Dr. Centazzi».
Nesta altura, década de 1940-1950, eram feitos em exclusivo por esta fábrica da Sociedade Centazzi Lda, situada na Rua da Aliança Operária, Nº 4, Pátio do Cardoso 8, em Santo Amaro, Lisboa.
Embora hoje as pessoas só conhecem os rebuçados do Dr. Bayard, é importante recordar outras marcas que foram igualmente, ou mais, famosas.

(1) Boletim da Propriedade Industrial, 1925, Nº 2, pp. 62-63 e Nº 4, p. 166.
(2) O Cezimbrense, n.º 157, 28.4.1929.