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segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Padaria Ingleza representante do Chá Horniman's

Regresso ao tema da Padaria Ingleza, de que já falei anteriormente, a propósito do chá Horniman’s. Por coincidência, na minha última ida ao Porto, onde faço sempre um périplo por alfarrabistas e velharias já meus conhecidos, consegui encontrar um «Guia Ilustrada de Lisboa», com um anúncio da Padaria Ingleza e uma caixa de chá da Horniman’s.
Sendo ambas da mesma época, isto é, dos finais do século XIX, é forçoso que as relacione.
O chá Horniman’s tem uma história muito educativa e o comércio original deste famoso produto foi iniciado por um comerciante inglês John Horniman (1803- 1893) que fundou a empresa com o seu nome, em Newport na ilha de Wight, em 1826.
John e o seu irmão foram educados numa escola Quaker e logo após o seu casamento aderiu a esta forma de protestantismo, o que é relevante nesta história, por justificar o seu envolvimento social como benemérito e a sua honradez comercial que lhe granjearam um bom nome.
Imagem tirada da internet
Na altura em que John fundou a “Horniman's Tea Company” o chá era vendido avulso e frequentemente adulterado para proveito dos seus vendedores. Para provar a sua honestidade Horniman começou a vender o seu chá selado, embalado por processos mecânicos, o que baixou o preço da produção e melhorou a qualidade do produto que passou a ser vendido em pacotes e caixas que impediam a manipulação posterior do produto.
Imagem tirada da internet
Contudo um grande incremento de vendas deu-se quando começaram a surgir na revista médica «The Lancet» uma série de artigos sobre adulterações de alimentos. Publicados entre 1851 e 1854 foram estudados muitos dos alimentos consumidos na época e entre eles o chá. E os ingleses descobriram, aterrorizados que até o seu sagrado chá era manipulado, sendo-lhe adicionado vários outros produtos para lhes alterar a cor e aumentar o lucro. Com surpresa constataram que dos chás analisados, apenas o Horniman’s estava imaculado. É por essa razão que nas embalagens e na publicidade ao produto aparece a expressão «pure tea».
As vendas não pararam de crescer e a empresa mudou-se para Londres, logo em 1851, para junto do porto e começaram a exportar. No final do século eram já a maior empresa de comércio de chá mundial.
O prestígio do chá Horniman's (imagem tirada da internet)
É aqui que entra John Broomfield que juntamente com a sua mulher Ann, que depois lhe seguiu no negócio, se tornaram os primeiros representantes e vendedores do chá Horniman’s em Lisboa.
No século XIX os portugueses ainda bebiam preferentemente chá verde, mas rapidamente, por influência do comércio inglês iriam passar para o chá preto. Na Padaria Ingleza era vendido o chá preto e verde da então designada Horniman &  Co. 
Após o afastamento voluntário de John que entregou o negócio aos seus filhos William Henry (1831-1900) e Frederick John (1835-1906), passando a firma a ser identificada pelas iniciais “'W.H. & F.J. Horniman” que são as que surgem na tampa desta caixa, o que a data em 1889, aproximadamente.
 Ignoro se a lata foi feita em Inglaterra e destinada a exportação, uma vez que em duas das faces surgem rótulos em francês e em português e não está identificada. Nessa segunda hipótese atrevo-me a pensar que poderia ter sido feita na latoaria da Viúva Ferrão, à época vizinha de rua da Padaria Ingleza original.
Marcador de livros mais tardio com publicidade ao Chá Horniman's

domingo, 5 de maio de 2013

Uma chávena de Horniman's na Padaria Ingleza

 

 Neste poste estabeleço uma ligação entre a Padaria Ingleza, de que falei anteriormente  e o Chá Horniman's.
 Encontrei este interessante anúncio nas folhas de um jornal publicitário, sem nome nem data e que presumo, por outros anúncios, que terá sido publicado em 1895. Nele a Padaria Ingleza surge apenas com uma única morada, na Travessa Nova do Cais do Tojo, nº 15, e o seu proprietário era John Broomfield.
A firma era também designada por «English Bakery», nome que provavelmente seria mais adequado à colónia inglesa. Apesar de ter ficado conhecida pela designação portuguesa, não há dúvida que fazia jus ao seu nome. 
Na loja da Travessa do Cais do Tojo, o proprietário vendia o chá Hornimans, nas variedades verde e preto, vindo directamente de Londres, mas também «um grande sortimento de buns e bolos para lunch, sobremesa e chá».  
Vendia também biscoitos secos; pastéis de carne e peixe; bolos grandes; vol-au-vents (sistema inglês), o «genuíno brown bread muito recomendado pelos médicos para diabéticos»; pãezinhos para jantar e uma grande variedade de vinhos.
Estes dados levam-me a especular que Mary Ann Bloomfield, uma cidadã inglesa, comerciante e residente em Lisboa, que registou o nome «Padaria Ingleza» a 4 de Março de 1898, seria viúva de John Broomfiled. Seria ela que continuaria a obra de seu marido ampliando o negócio com a abertura de um segundo espaço comercial, como já dissemos anteriormente.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As Padarias Inglezas

Dito assim, no plural, «As Padarias Inglezas» afiguram-se como um mistério que, no início, não foi fácil de resolver.

A 4 de Março de 1898 a cidadã Mary Ann Broomfield, de naturalidade inglesa, comerciante, residente em Lisboa, fazia o pedido de registo do nome «Padaria Ingleza», estabelecida na Rua Cais do Tojo, 15(1). Ao mesmo tempo pedia também o registo do nome «English Bakery». Contudo, seria pelo primeiro nome que a sua padaria ficaria conhecida em Lisboa.

Hoje no local, só resta um prédio desinteressante mas foi uma loja considerada pelos seus produtos e ponto de encontro de muitos lisboetas. Entre eles salientava-se Fernando Pessoa que ali se encontrava com a sua amada Ofélia.

Em carta datada de 2 Agosto de 1920, Fernando Pessoa escrevia: «Querida Nininha pequena: Estarei no Conde Barão à tua espera das 8 às 8 1/2. Estou escrevendo de onde vês pelo papel, e o Osório vai fazer-me o favor de te levar isto, a casa da tua irmã.
Olha: estarei no Conde Barão, mas no recanto da Padaria Ingleza entre as duas horas citadas, que, creio, te serão convenientes» (2).
Numa outra carta, de 12 de Agosto de 1920, Ofélia respondia:
«Meu Nininho, Afinal hoje estive à tua espera desde as 5 para as 5 até às 6 h, e não houve forma de te ver, nem tão-pouco te interessaste em combinar forma de nos falarmos amanhã....
Estarei também às 8 horas no Cais do Tojo, ao pé da Padaria Ingleza...»

Foi o sucesso desta Padaria que fez abrir uma outra loja, com o mesmo nome, no Largo de S. Julião, 19. Num prédio pombalino foi feita uma adaptação num estilo “Arte Nova” puro, com uma fachada em ferro e apresentando vitrais no mesmo estilo, ao nível do 1º piso. Estas alterações, realizadas em 1907, ficaram a cargo do construtor Carlos Mestre Rodrigues.
A antiga Padaria Ingleza do Largo de São Julião foi mais tarde comprada para filial do Banco Borges & Irmão, que seria adquirido pelo BPI em 1991, e encontra-se presentemente fechada.

O reconhecimento da qualidade  dos produtos da Padaria Ingleza era grande, como podemos ver pelo anúncio publicado na Gazeta de Coimbra, de 1927, que anunciava a venda de Bolo Rei na Leitaria Conimbricense e um sortido variado de doces e bolos, em que se salientavam os «Bolos ingleses da conhecida e acreditada Padaria Ingleza de Lisboa».
No Natal de 1930, existia ainda a Padaria Ingleza no Cais do Tojo como o mostra a fotografia da sua montra num concurso de Montras Nestlé, publicado na Ilustração Portuguesa, no número de Natal(3).
Em conclusão, existiram ao mesmo tempo, em Lisboa, duas lojas, pertença da mesma proprietária, com o nome de «Padaria Ingleza», como nos revela a peça em cerâmica, produzida pela Fábrica de Sacavém.
Assim termina o mistério da Padaria Ingleza, com duas moradas, correspondendo uma delas a uma filial. Numa época em que estas ainda eram pouco frequentes traduzia, sem dúvida, um negócio de sucesso.

(1) Pedido de registo publicado no Boletim da Propriedade Industrial de 30 de Novembro de 1898, p. 76.
(2) Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo de Maria da Graça Queiroz), Lisboa: Ática, 1994.
(3) Illustração Portugueza, No. 120, Natal, 16 de Dezembro,1930.