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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Objecto mistério Nº 67. Resposta: Pegas de bules

 

Os objectos mostrados correspondem a pegas de bule. São sobretudo usados em bules metálicos que aquecem mais do que os feitos em cerâmica. Na imagem, a sua utilização é exemplificada com um bule de chá e um de café.

Feitos em feltro grosso, o isolamento é também acentuado com um material interior (sumaúma?) que preenche a peça e a torna mais resistente e macia. Internamente encontra-se forrado com um feltro rosa, a lembrar o interior do animal, e tem uma mola que o permite fixar à asa do bule.

Os detalhes são interessantes, com olhos em vidro, fixos por pontos de bordado em ponto pé-de-flor. As plumas são simuladas com pontos largos.

Não sei dizer a época com precisão, mas penso tratar-se de um trabalho caseiro da década de 1940 ou 1950.

Úteis e bonitos, chegam mesmo a ser simpáticos.

domingo, 12 de março de 2023

Five O'clock Tea

 

Não resisti a este pequeno livrinho publicitário da Omega, editado em 1912. O título, muito apelativo para este blogue, transforma-se na verdade numa história de fadas adaptada a uma realidade moderna que nos enfatiza a força da publicidade e nos afasta do tema.

O livreto publicitário intitulado Five O'clock Tea foi escrito em francês por Jean Richepin (1849-1926), um prolixo autor e ilustrado por Maurice Lalau (1881-1961), com um apuro estético belíssimo.   

Conta-nos uma história cujos protagonistas são a pequena Didi e o gnomo Exacto. Pelo meio entra a figura do médico de família que aconselha a avó da pequena Didi que, enfeitiçada pelos contos de fadas, as deseja ver. Queixando-se de que estas figuras só apareciam quando ela estava a dormir combinam um chá (five o' clock tea).


O médico fala-lhe no progresso e de como os gnomos as representam, em especial um gnomo novo que diz as horas exactas. Criando um ambiente feérico, com fumos e luzes, apresenta o coração do gnomo, um coração em metal. E a pequena Didi acreditava ver todos as personagens que povoavam os contos dos seus sonhos, no seu five o’clok tea, presentes à hora marcada.

Intervalando a história surgem folhas com imagens dos belos relógios e, no final, uma representação da fábrica Omega. Destinado a ser distribuído pelos vendedores da marca mostra-nos como a publicidade era abordada no início do século passado. Mais uma forma de vender sonhos, para crianças e adultos!

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Há chá em Ponte de Lima

Diz-se habitualmente que os Açores são o único local da Europa onde se cultiva a planta do Chá. Na realidade será o único onde se cultiva com produção extensa e transformação comercial.

Foi assim, com surpresa, que durante a minha última visita ao meu amigo Álvaro Teixeira de Queirós, que descobri uma outra realidade. Em Ponte de Lima, na sua bela propriedade, nos jardins da casa do Cruzeiro ou de Nossa Senhora da Piedade, cresce um tipo de camélia especial, a Camellia sinensis.

Bordejando os dois lados de uma álea do jardim cresce, há quase cem anos, uma variedade Assamica, trazida de Moçambique por um tio do dono da casa. Esta variação, diferente da var. chinesa sinensis, é endémica na Índia, em Assam, e a base da maioria dos chás pretos indianos como o Oolong, o Preto e Pu-erh. Distingue-se da variante chinesa por ter folhas maiores e por apresentar maior concentração de polifenóis, menor concentração de aminoácidos e serem menos aromáticas.

Embora a sua função, com as belas flores brancas e amarelas, tenha sido durante décadas decorativa, o dono da casa recolhe, desde há algum tempo, os seus rebentos que depois de secarem e macerarem manualmente servem para consumo da casa.

À hora do chá, um ritual diário sagrado para mim, tive oportunidade de beber o resultado da sua cultura. Efectivamente um chá suave e pouco aromático, que constitui uma experiência surpreendente.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Objecto Mistério Nº 61. Resposta: Infusor de chá para caneca


O desafio parecia-me fácil sobretudo porque, apesar de lavada a peça, ficaram ainda alguns vestígios da teína. 

É minha preocupação utilizar os termos correctos das palavras, neste caso dos utensílios de uso doméstico.
A designação “infusor” pareceu-me adequada, descrevendo-a como um tipo de filtro para o chá. No seu interior são colocadas as folhas secas e é introduzido na água quente para fazer o chá e este ficar sem folhas. Pessoalmente, apesar de os achar muito atraentes, dispenso-os e prefiro utilizar as folhas soltas e aguardar que assentem no bule.
Pode-se considerar os infusores de chá como os percussores das saquetas de chá. Foram muito utilizados no século XIX, em especial pelos ingleses que usavam um tipo de chá proveniente da Índia, mais moído, se comparado com as folhas dos chineses. Podem ter formas variadas, as mais frequentes em bola ou ovo, mas podem apresentar-se com imensos modelos. Gosto especialmente das casinhas. 
Durante o século XX surgiram modelos de design extremamente divertidos, como o preguiçoso, o submarino amarelo ou o escafandrista, por exemplo.
Embora o mais frequente seja apresentarem-se suspensos por uma cadeia, podem ter a forma de uma colher dupla ou outro tipo de suportes, como braços ou argolas, que permitem suspendê-los no bordo do recipiente.
Dadas as grandes dimensões deste robot experimentei-o em vários utensílios para descobrir de que tipo de infusor se tratava.
Como podem ver não se destina a bules, porque não permitiria colocar a tampa. Também não serve para colocar numa chávena, porque o corpo do robot é grande demais.
Por fim experimentei com uma caneca e confirmei que é um infusor de chá para canecas. Foi muito utilizado e apresentava-se castanho, tanto no exterior como no interior. Ainda hoje se encontra à venda e é um produto de design Kikkerland.
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P. S. Não confundir com outro tipo de filtro, o passador de chá, muito mais antigo, usado de modo diferente e que tem sempre uma forma aberta.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Museu Virtual: Caixa para Chá



Nome do Objecto: caixa para chá (tea caddy)

Descrição: Caixa em madeira com seis gomos e tampa. Lacada em castanho e com desenhos e reservas em dourado. Estas representam seis cenas diferentes com figuras masculinas e femininas sentadas, envolvidas por plantas (de chá?). No interior encontra-se caixa em estanho com tampa dupla, a interior com pequeno botão central em marfim. Assenta em três pés trabalhados e dourados. Apresenta fechadura e chave para evitar furtos.
 
Material: Madeira lacada e dourada e estanho.

Época: Início do século XIX (primeira metade, c. 1840)

Marcas: Não apresenta.

Origem: Mercado português.

 Grupo a que pertence: Recipientes para guardar ou transportar alimentos

Função Geral: Recipiente para serviço e consumo de bebidas.

Função Específica: Preservar as folhas de chá, sem humidade e manter o cheiro.

 Nº inventário: 3300

Objectos semelhantes: Não inventariados.

 

Notas:

Durante o século XVIII foram usadas em Portugal caixas para chá em porcelana da China ou em prata, com o mesmo fim, muitas vezes com as armas dos encomendadores.
 Este tipo de caixa para chá em chinoiserie é extremamente raro, em especial com esta tipologia. Designado em inglês melon tea caddy, devido à sua forma em melão, existem com outras formas de frutas como as caixas com formatos de pêras ou de maçãs. Surgiram no início do século XIX. Depois de 1850 as caixas para chá apresentam-se mais frequentemente em madeira, com cavidades duplas ou triplas.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Chá anti-caspa

 À primeira vista ficamos surpreendidos com um chá anti-caspa. As capacidades que se atribuem aos chás, mais precisamente às infusões, porque é disso que se trata, são inúmeras.
Mas uma infusão ser eficaz na caspa pareceu-me demais. Afinal este chá não é bebível mas, como era explicado na embalagem, depois de feito era aplicado no couro cabeludo.
Parece-me melhor. O chá deve assim ser considerado como uma alternativa aos shampoos anti-caspa. Este seguramente que não fez efeito porque a embalagem, dos anos 90, manteve-se intacta.
Imagem tirada da internet

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Museu virtual: Cafeteira eléctrica em porcelana

Nome do Objecto: Cafeteira eléctrica.

Descrição: Pequeno bule em porcelana de cor creme contornado a dourado. Tem filtro interior perfurado na base e tampa condizente.

Material: Porcelana.

Época: entre 1953 e 1975 (de acordo com as marcas).

Marcas: Aromator. Bavaria. Germany.

Origem: adquirido no mercado português.

Grupo a que pertence: Equipamento culinário.

Função Geral: Confecção e serviço de bebidas.

Função Específica: Confeccionar e servir café.

Nº inventário: 2292.

Objectos semelhantes: Não catalogados.
Observações:

Estas máquinas eléctricas de café, em porcelana, foram feitas em Oberkotzau na Baviera (Bavaria) durante as décadas de 1950 a 1970. A máquina usa um filtro de porcelana que evitava os filtros de papel. A água era aquecida e bombeada através de uma tubagem de elevação para dentro do filtro e, em seguida, fluía como café para o interior da jarro. O café assim feito era na época muito apreciado.
A fábrica designou-se Porzellanfabrik Neuerer K.G. de 1943 até 1953. Foi fundada no ano de 1943 por Hans Neuerer. Teve grandes dificuldades durante a II Guerra Mundial, mas em 1949 já tinha 200 pessoas a fazer os serviços de chá e café, bem como porcelanas decoradas.
Imagem tirada da internet
Em 1953 passou a designar-se Elektroporzellanfabrik Hans Neuerer tendo passado a produzir sobretudo porcelana técnica, como os bules eléctricos, com as marcas Aromator e Aromat. A fábrica fechou em 1982.
Esta fábrica também produziu bules eléctricos idênticos, mas de maiores dimensões para chá, bem como serviços de chá e café e pratos com decorações concordantes. Não se conhece a razão para as duas marcas: «Aromator» e «Aromat», e para complicar, neste caso concreto, o filtro tem uma das marcas e o bule a outra.

sábado, 13 de agosto de 2016

O Chá Lig

As duas caixas de «Chá Lig Extra Fino» da minha colecção pareciam-me iguais, à primeira vista e inicialmente pensei tratar-se de uma repetição.
O estado de conservação de uma delas é melhor do que o da outra, tendo a melhor conservada na base uma marca em relevo identificativa de ter sido feita na Casa da Viúva Ferrão em Lisboa, ao que se junta na tampa, escrito a preto «Vª Ferrão, Lda».
A que suponho mais antiga não está identificada mas foi seguramente feita na mesma Litografia, dada a semelhança. Nesta mesma lata pode ler-se na face posterior: «Único importador José Domingos Gil, Porto, Portugal».
Acontece que este Chá Lig foi registado em 25 de setembro de 1943 por Olinda do Espírito Santo Gil que se identificava como comerciante, estabelecida em Mira de Aire.
Estes dados levam-me a pensar que Olinda Gil, que procedeu ao registo em 1943, possa ser viúva de José Domingos, tendo mudado de local de habitação.
Registo da embalagem
Infelizmente não consegui juntar quaisquer outros dados para esclarecer esta situação. 
De qualquer modo não esperava que duas caixas tão semelhantes se completassem e só por isso fico contente.

sábado, 18 de julho de 2015

Objecto Mistério Nº 46. Resposta: Apanha gotas para bule

Imagem tirada da internet (Pinterest)
A resposta parecia-me fácil mas o facto de ninguém terá certado mostra que este utensílio é pouco conhecido. É verdade que na imagem falta a pequena esponja que o devia acompanhar, ausente não porque eu tenha querido aumentar o grau de dificuldade, mas porque a sua fragilidade as faz desaparecer. No único exemplar em que esta ainda persiste tenho que lhe pegar com cuidado porque se desfaz.
Na realidade este tipo de objectos dão resposta a uma dificuldade constante que consiste em evitar que após servir o chá uma gota desta bebida caia sobre a toalha. Este fenómeno designado «teapot effect» foi inicialmente atribuído a tensão superficial mas experiências feitas em 1956 por Markus Reiner mostraram que era outra a razão. Uma delas devia-se à velocidade do líquido no bico e que quando mais lenta esta era maior a possibilidade deste pingar.
A este assunto voltou Joseph Keller, professor de Matemática e Engenharia Mecânica da Universidade de Stanford, vencedor do prémio Nobel, que atribuiu a causa a uma combinação do princípio de Bernoulli com o efeito da pressão de ar que empurra a água para dentro do bico do bule.
Em 2009 foram os cientistas franceses que atribuíram outra causa: o efeito da humidificação (wettability), isto é, o modo como um líquido adere a uma superfície sólida. O uso de materiais hidrofóbicos, baseados no efeito lotus (em que a folha da flor de lotus repele a água da sua superfície) tornou-se conhecido com o aparecimento de roupa em que os líquidos escorregam e não se impregnam.
Pois este mesmo efeito pode vir a ser usado para cobrir o interior dos bicos dos bules com um material superhidrofóbico, dividindo a corrente do chá em gotas e impedindo estes de pingarem.

Agora pergunto eu como apreciadora de chá: será que esta alteração da tensão superficial não vai alterar o gosto do chá?
Não será mais fácil usar um objecto deste tipo, caso este seja um problema para o apreciador desta bebida?
É que além disso permite escolher um dos belos modelos de que apresento alguns exemplos e que nos permitem concluir que os pássaros e as borboletas são os mais populares. Mas no campo dos apanha gotas figurativos há um grande número de interessantes modelos,  de que ficam algumas amostras.
Outra forma de segurar os apanha gotas. Foto tirada da internet

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Padaria Ingleza representante do Chá Horniman's

Regresso ao tema da Padaria Ingleza, de que já falei anteriormente, a propósito do chá Horniman’s. Por coincidência, na minha última ida ao Porto, onde faço sempre um périplo por alfarrabistas e velharias já meus conhecidos, consegui encontrar um «Guia Ilustrada de Lisboa», com um anúncio da Padaria Ingleza e uma caixa de chá da Horniman’s.
Sendo ambas da mesma época, isto é, dos finais do século XIX, é forçoso que as relacione.
O chá Horniman’s tem uma história muito educativa e o comércio original deste famoso produto foi iniciado por um comerciante inglês John Horniman (1803- 1893) que fundou a empresa com o seu nome, em Newport na ilha de Wight, em 1826.
John e o seu irmão foram educados numa escola Quaker e logo após o seu casamento aderiu a esta forma de protestantismo, o que é relevante nesta história, por justificar o seu envolvimento social como benemérito e a sua honradez comercial que lhe granjearam um bom nome.
Imagem tirada da internet
Na altura em que John fundou a “Horniman's Tea Company” o chá era vendido avulso e frequentemente adulterado para proveito dos seus vendedores. Para provar a sua honestidade Horniman começou a vender o seu chá selado, embalado por processos mecânicos, o que baixou o preço da produção e melhorou a qualidade do produto que passou a ser vendido em pacotes e caixas que impediam a manipulação posterior do produto.
Imagem tirada da internet
Contudo um grande incremento de vendas deu-se quando começaram a surgir na revista médica «The Lancet» uma série de artigos sobre adulterações de alimentos. Publicados entre 1851 e 1854 foram estudados muitos dos alimentos consumidos na época e entre eles o chá. E os ingleses descobriram, aterrorizados que até o seu sagrado chá era manipulado, sendo-lhe adicionado vários outros produtos para lhes alterar a cor e aumentar o lucro. Com surpresa constataram que dos chás analisados, apenas o Horniman’s estava imaculado. É por essa razão que nas embalagens e na publicidade ao produto aparece a expressão «pure tea».
As vendas não pararam de crescer e a empresa mudou-se para Londres, logo em 1851, para junto do porto e começaram a exportar. No final do século eram já a maior empresa de comércio de chá mundial.
O prestígio do chá Horniman's (imagem tirada da internet)
É aqui que entra John Broomfield que juntamente com a sua mulher Ann, que depois lhe seguiu no negócio, se tornaram os primeiros representantes e vendedores do chá Horniman’s em Lisboa.
No século XIX os portugueses ainda bebiam preferentemente chá verde, mas rapidamente, por influência do comércio inglês iriam passar para o chá preto. Na Padaria Ingleza era vendido o chá preto e verde da então designada Horniman &  Co. 
Após o afastamento voluntário de John que entregou o negócio aos seus filhos William Henry (1831-1900) e Frederick John (1835-1906), passando a firma a ser identificada pelas iniciais “'W.H. & F.J. Horniman” que são as que surgem na tampa desta caixa, o que a data em 1889, aproximadamente.
 Ignoro se a lata foi feita em Inglaterra e destinada a exportação, uma vez que em duas das faces surgem rótulos em francês e em português e não está identificada. Nessa segunda hipótese atrevo-me a pensar que poderia ter sido feita na latoaria da Viúva Ferrão, à época vizinha de rua da Padaria Ingleza original.
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