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sábado, 28 de julho de 2018

O talher de D. João V (cadinet ou cadenas) - 2


Cadinet Augsburg. Gottlieb Menzel. 1718. MET. 
O cadenas, tal como a naveta, foi um objecto simbólico do poder real. Eram habitualmente feitos de metal nobre: ouro, vermeil ou prata. Na zona mais elevada ou caixa fechada guardava-se o sal, o açúcar e a pimenta e os talheres propriamente ditos.
Cadinet do rei Guilherme III. Royal Collections Trust. UK
A porção horizontal servia para colocar o pão, sobre um guardanapo, sendo depois coberto com um segundo guardanapo montado, isto é, armado numa construção com bicos. A sua posição na mesa era sempre à direita do prato do rei, como se pode constatar no Plan du premier service du Grand Couvert à Versailles[1].
Pormenor da mesa de casamento de Napoleão com o seu cadinet e o do Maria Luísa em 1810.
Cadinet do Imperador Napoleão. Henry Auguste. Museu Napoleão . Fontainebleau.
Em França, desde o século XIII, existiu um oficial da Casa Real francesa designado «Grand panetier». Servia apenas nas grandes cerimónias, enquanto nos restantes dias eram os «Panetiers» que colocavam a toalha, a naveta e preparavam os trinchos ou os cadinets com pão e sal. Para além destas funções, e até 1711, tinha competência sobre os locais de fabrico de pão em Paris, aplicando uma taxa sobre a sua produção.
Em França a partir do século XVI este cargo passou a ser hereditário e esteve até 1792 na família de Cossé de Brissac. Um aspecto interessante é que nas suas armas, como se pode ver nas de Jean-Paul-Timoléon de Cossé de Brissac (1698-1780), que era «Grand Panetier» em 1730, se pode ver, como atributo das suas funções, uma naveta de ouro e o cadenas do rei.
Pormenor da cópia do cadinet de D. João V. Concepção fictícia da minha autoria.
Não existiu esta função em Portugal e no documento em que se descreve o banquete de casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria, em 1708, constata-se que foram os Reposteiros da Câmara quem trouxe o cadinet (talher) para a mesa real.



[1] Pereira, Ana Marques. Mesa Real. Dinastia de Bragança. p. 70.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas»

Tem início no dia 30 de Outubro o curso acima mencionado que terá lugar na casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa. 
Trata-se de um curso pós-laboral ministrado por mim e terá a duração de 2 horas com um pequeno intervalo a meio. 
Estão programadas 4 sessões, às 5ª feiras, excepto no último dia que será à 6ª feira.
As inscrições estão já abertas e são limitadas ao espaço da sala.
Faço votos para que acham o tema aliciante e compareçam.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Associação de ideias: cesteiras algarvias

Esta gravura de Mário Costa (1902-1975) trouxe-me à ideia uma boneca que representa esse ofício.
Sentada num banco, feito com um pedaço de tronco de árvore, a boneca feita em pano, foi-me oferecida há alguns anos por amigos que sabiam que eu a ia apreciar. Foi feita por Filipa Faísca, hoje octagenária que, na serra algarvia, em Querença perto de Loulé, reproduz figuras populares.
 
Iniciou a sua actividade em pequenina fazendo estas bonecas de pano que então se chamavam «bonecas de trapos». Os modelos recordam-nos profissões rurais locais caídas em desuso e os trajes são reproduzidos com rigor. Para acompanhar cada boneca a sua autora criou unas quadras que exemplificam a actividade.
Neste caso:
«Num pisador com geito
o esparto vou pisando,
faço baraço a preceito
e alguns tostões vou ganhando».


E desta maneira simples se vai conservando a memória de um povo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

As "Sopeiras" de Lisboa

A palavra “sopeira” é uma das provas de que a língua não é estática.
Utilizada inicialmente com o sentido de vaso para conter e servir a sopa na mesa, apresentava uma forma circular, de fundo arredondado e tinha sempre tampa. Era usada frequentemente com um prato inferior. Parece ter só surgido no século XVIII. O seu predecessor, a terrina, apresentava uma forma oval ou rectangular e, apesar de anterior, também apenas no século XVIII passou a ser exposta sobre a mesa. Mas voltemos à “sopa” que, no seu sentido inicial, era um prato de legumes fervidos, espessado com pão, e daí o nome. Falta-nos em português o termo que em França, na Idade Média, correspondia à “potage” e que se referia aos alimentos que eram cozidos num pote. Tudo o que diz respeito à sopa pode, nalgumas regiões, em especial em Trás-os-Montes, tomar a expressão de "sopeiro". Por exemplo aplica-se a prato sopeiro, para indicar que serve para a sopa, a colher sopeira ou mesmo a panela sopeira.
Com o tempo passou a aplicar-se às pessoas que faziam a sopa, que passaram a ser designadas por sopeiras. Embora a expressão sopeira se utilizasse sobretudo para as cozinheiras, isto é, as que faziam a sopa, foi também usada para as criadas que exerciam outras funções domésticas.
Esta designação foi muito usada no finais do século XIX e na primeira metade do século XX, passando depois a ser substituída por criadas ou cozinheiras consoante as funções exercidas. A expressão sopeira foi caindo em desuso, em especial após o 25 de Abril, altura em que passou a ser considerada pejorativa. Embora por vezes chamadas carinhosamente «sopeirinhas», passaram a chamar-se “criadas” e posteriormente “empregadas domésticas”. A função era a mesma, embora mais simplificada com a chegada dos electrodomésticos, mas a designação tinha deixado de ser adequada.
A imagem de sopeira surgia sempre associada à do “magala”, com quem frequentemente namorava. É uma dessas fotos que faz a contracapa da revista agora apresentada -
As fotos que utilizei foram publicadas no «Notícias Ilustrado» de 3 de Agosto de 1930 e são atribuídas a Batista. O texto intitulava-se «As sopeiras da Capital». Nele se exaltavam as novas sopeiras, mais modernas e alegres quando comparadas com a figura de Juliana retratada por Eça de Queirós, no «Primo Basílio», publicado em 1878.
São imagens de uma Lisboa mais provinciana, mais calma e simples, que fica apenas a 80 anos de distância de nós.