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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Os dez mandamentos da mesa saudável

 

Estes 10 mandamentos foram levados a sério por quem os seguia, de tal modo que chegou a encaixilhá-los. O quadro esteve provavelmente numa sala de jantar para lembrar os preceitos sobre alimentação que deviam ser seguidos. A avaliar pelo caixilho, devem ter pelo menos 50 anos.

Depois destes saíram muitos outros, designados Mandamentos para a Alimentação saudável; para a Vida saudável, etc. Todos eles assimilando as correntes da época, adaptaram-se a novas tendências. Na realidade, aquilo que é importante é a diversidade alimentar e as noções de bom senso. Seguindo este caminho, sem correr atrás das novas modas, mas tirando delas o mais sensato, estamos sempre bem, mesmo sem regras ou mandamentos.

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

As primeiras letras

 

Apresento aqui uma folha de um livro escolar As primeiras letras, que me atraiu pelo tema e que me fez descobrir o seu autor, na época, sobejamente conhecido.

Trata-se do professor Manuel António Janeiro Acabado, nascido na aldeia de Pias (Serpa), em Novembro de 1888. Foi um nome importante nas áreas da didáctica e da pedagogia, sobretudo aplicadas às primeiras letras, tendo criado um método que tomou o seu nome.

Ficou conhecido principalmente pela autoria de dezenas de manuais escolares (mais de 40), de que o ABC dos pequeninos é um deles, tal como o aqui apresentado. São todos muito interessantes e com um grafismo facilitador da leitura.

Fundou em 1956, em Beja, a Escola do Magistério Primário, de que foi director até à data da sua morte, em 1970.

ABC dos pequeninos
A minha homenagem a quem ensinou tanta gente a ler, num período de grande analfabetismo.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Memórias esquecidas: o duplicador

Ao consultar um jornal antigo, um suplemento do Diário de Lisboa de 1963, deparei-me com uma notícia espantosa: a explicação do que era um duplicador. 
Hoje em dia não seria necessário um artigo para explicar como se faz uma fotocópia, de tal modo o processo se encontra divulgado.
Lembrei-me então dos anos 60 quando eu estava nos últimos anos do Liceu. Eu era uma boa aluna a História, mas a maioria da turma não conseguia ler os livros compactos de “História do Matoso”. O autor destes livros era António Gonçalves Matoso (1895-1975), pai do historiador José Matoso. Foi professor liceal e autor de manuais de História para o ensino liceal, desde 1938. 
O seu Compêndio de História de Portugal, e o Compêndio de História Universal, acompanharam gerações de estudantes. Extremamente bem-feitos, do ponto de vista histórico, não tinham em conta a população a que se destinavam e eram detestados por todos e … simplesmente não eram lidos. Em conclusão as reprovações eram imensas. 
 
O meu pai havia-me ensinado a importância de resumir os textos e foi o que eu fiz a História. Escrevi uma pequena História, baseada no compêndio de leitura obrigatória do Matoso. Os meus colegas de turma quiseram ter acesso a ele, mas então não havia ainda fotocópias.  Acontece que num dos empregos do meu pai existia uma máquina duplicadora. Lembro-me que tinha uma tina com um líquido de onde saía uma folha idêntica ao original, mais grossa e brilhante. Fiz umas cópias destinadas a venda aos meus colegas. Distribui-as pelos interessados que deviam pagar-me uma insignificância, para compensar o preço das folhas. Mas isso nunca aconteceu. 
Just in Time, or a Short History of Production (2010), instalação do artista Xavier Antin.Cadeia de impressoras de diferentes épocas: magenta (Stencil duplicator, 1880), cyan (Spirit duplicator, 1923), preto (Laser printer, 1969) e amarelo (Inkjet printer, 1976).

Foi o meu primeiro negócio e logo ali devia ter percebido que não tinha jeito para ganhar dinheiro. Ao longo da vida viria a confirmar isso. 

Mas esta história não serve para me queixar, mas para descrever uma memória perdida do tempo em que surgiram as primeiras máquinas duplicadoras. Um objecto que já quase ninguém recorda. Como a modernidade é efémera.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Uma ementa de origem improvável

 

Agradeço ao meu amigo Pedro a oferta desta ementa que me atraiu logo pelo grafismo, mas que me surpreendeu pela proveniência.

Não se pode saber como chegou a Lisboa esta ementa de 1944, desenhada à mão, desdobrável (tipo pop-up), feita pacientemente em Moçambique na Missão da Imaculada Conceição de Amatongas.

Ementa montada
Pintada com aguarela sobre cartolina verde, apresenta no plano de fundo a ementa (já lá iremos), anunciada por dois pretinhos, vestidos à ocidental, o menino com livros no braço e a menina com um estandarte. Ambos têm ao pescoço um fio com uma medalha que se adivinha religiosa. Seriam, como supomos, alunos da escola da Missão. No plano frontal um galeão recortado tem numa das suas velas a expressão “Bem Vindo” e a data numa vela superior.

Falemos primeiro nesta missão, inaugurada em 1914, e dirigida por padres franciscanos. Nela se ministrou o ensino primário, para além de vários ofícios. Mas especial relevância teve o ensino agrícola que foi subsidiado pela Companhia de Moçambique. De tal modo que nos anos 20 foi chamada Escola agrícola de Amatongas. Em 1930 deu origem à missão de vila Pery.

Casa da Missão de Amatongas.ANTT
Foi lá que cursou o Cardeal Dom Alexandre dos Santos (1924-), que foi o primeiro sacerdote negro, o primeiro Bispo e primeiro Cardeal Moçambicano. Em Setembro de 1939, deu entrada no Seminário Menor de Maria Imaculada de Amatongas, na actual província de Manica, onde fez o nível básico do ensino secundário, tendo concluído o 5º ano em 1944.

Igreja. Padre e alunos. ANTT
Por esta altura era dirigido pelo Padre Joaquim Marques que fora nomeado em 1942. Estranhamente o seminário parece ter acabado em 1944, consoante consegui apurar nos escritos na revista Missões Franciscanas, de 1948. Este facto torna mais difícil compreender a quem se destinava esta refeição de recepção.

Alunos da Missão de Amatongas 1925. ANTT.

Vejamos então a Ementa:

Começava com “Canja à Musungo” que, em linguagem bantu significa homem branco, o que nos faz algum sentido. Seguia-se “Peixe frito com salada”; depois “Costeletas de galinha à portuguesa” e por fim “Bifes de Mpala-mpala à africana”, que presumo fosse impala. A terminar a refeição “Creme – Pudim”; queijo e frutos colhidos na Missão.

Maquete geral apresentada na Exposição Colonial de Paris em 1931. ANTT
Os alimentos referidos eram todos locais e explicam-se pela abundante produção agrícola aí existente. O padre Santos Denis considerava que “Em toda a colónia não existia nenhuma outra missão em que as árvores de fruto estivessem tão desenvolvidas”.[1] De tal modo que a Missão chegou a influenciar o nome das plantas. No mesmo artigo era dito: “A banana do Natal, por nós introduzida nesta região, tem em algumas povoações o nome de Mutigu ná padiri, por ter sido levada da Missão. E os europeus com quintas cultivavam o abacate, cujas sementes foram dadas pela Missão, chamando-lhes do “tipo Amatongas”.

Sobre a pecuária o mesmo padre dizia que a maior influência sobre a economia indígena fora a criação de galináceos. Embora entre os indígenas ainda se encontrasse a pequena galinha cafre, muitos levaram exemplares mais apurados da Missão.

Que a Missão era pródiga nestes animais não há dúvidas, a avaliar pela ementa!.

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Bibliografia:

- Missões franciscanas portuguesas, 1898-1949: no seu cinquentenário. Director P. E José Alves Pereira. Braga: Missões Franciscanas. Número 62. Junho-Setembro de 1948.

- Blog Delagoabayworld - https://delagoabayworld.files.wordpress.co

 [1] Missões Franciscanas, p. 53.

domingo, 18 de outubro de 2020

Uma toalha (quase) com assinatura

Uma das maiores dificuldades no que respeita os trabalhos de rendas e bordados é atribuir-lhes uma autoria. Mesmo as rendeiras e bordadeiras de fama nada lhes garante o reconhecimento do seu trabalho, excepto por quem adquiriu directamente a peça, informação que com o tempo se vai perder. Com algumas pequenas excepções, nem as heranças permitem saber por quem foi feita aquela toalha que veio de casa das nossas mães ou tias. Eu própria tenho dificuldade me lembrar-me dos pequenos trabalhos que fiz durante a infância e adolescência.

Illustração Portuguesa 1910
Foi por isso que me entusiasmou uma pequena toalha, com aplicações de várias cores, representando cachos e parras de uvas. Foi-me dada pelo meu amigo António que me disse que teria vindo da casa dos Bordalo Pinheiro. Na verdade foi oferecida por Maria Augusta Bordalo Pinheiro a uma sua aluna de pintura Palmira Lagoa, que foi professora de Desenho e Línguas e mãe do já falecido pintor Lagoa Henriques.

A luva cinzenta. Pintura de Mª Augusta por Columbano. MNAC. Museu do Chiado.

A perfeição da obra faz-me acreditar que teria sido a própria Maria Augusta Prostes Bordalo Pinheiro (1841 - 1915) que a teria feito. Maria Augusta ficou conhecida pela sua actividade dinamizadora no sector das rendas de bilros, mas dizer isso é ser demasiado redutor da actividade de uma mulher tal envolvida no campo das artes. Dissemos já que dava aulas de pintura e sabemos que foi autora de várias pinturas em que destacamos o tecto da sala de jantar do Palácio do Beau Séjour, onde trabalhou em colaboração com os seus irmãos Rafael e Columbano. Mas pintou também cerâmica, tendo deixado algumas obras, presentemente em Museus.

Prato pintado por Mª Augusta BP. Museu Bordalo Pinheiro.

A sua actividade em Peniche, onde criou uma escola que se dedicava exclusivamente ao ensino feminino das rendas de bilros da região, levou à recuperação de modelos antigos e à elaboração de novos desenhos. Apoiando-se nos conhecimentos de uma rendilheira da terra, aprendeu a arte deste tipo de renda de bilros e desenvolveu-a a um nível de maior erudição. Rodeou-se das melhores artífices da terra e após dois anos à frente deste projecto, deixou um caminho aberto e voltou a Lisboa.

Piques. Foto de Ana Montez para o livro Vestir a Mesa

O reconhecimento do seu trabalho levou a que a 1 de Setembro de 1887, fosse nomeada a primeira professora de desenho industrial da escola Rainha D. Maria Pia. Abriu posteriormente em Lisboa, na Rua das Taipas, um atelier, que era visitado pela rainha D. Amélia, que depois mudou para a Rua António Maria Cardoso. Os seus trabalhos foram apresentados em múltiplas exposições nacionais e internacionais tendo sido galardoados com prémios. 

Lenço com renda da autoria de Mª Augusta BP. Museu do Chiado. MNAC.

Cincinato da Costa, autor do Catálogo da Secção Portuguesa, de 1908, na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, fez a seguinte afirmação: "As rendas da Sra. D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro têm já hoje celebridade no país e no estrangeiro nas Exposições de Paris em 1900, e de S. Luís (Mo.), em 1904, na América do Norte, os seus trabalhos foram justamente reputados como dos melhores no género”[1].

Pormenor da toalha
Mas também os seus trabalhos na área dos bordados eram reputados e a ela se atribui o bordado de um leão num reposteiro para o Restaurante Leão de Ouro, em Lisboa. Nele se reuniam os intelectuais e artistas do «Grupo do Leão» de que fazia parte o seu irmão Columbano que o imortalizou numa pintura a óleo com o mesmo nome.

Sem provas da afirmação escrita em título, fica-me a esperança de que a atribuição seja verosímil. A perfeição e a beleza do bordado esses são inegáveis.

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[1] Pereira, Ana Marques, Vestir a Mesa/Dressing the Table, 2018.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Uma visita às Minas de S. Domingos

 A exploração de minerais como o ouro, a prata e cobre teve lugar na região de S. Domingos desde o período romano. No entanto, o grande desenvolvimento mineiro teria lugar durante o século XIX com a descoberta e registo do local por Nicolau Biava que em 16 de Junho de 1854 requereu à Câmara Municipal de Mértola o direito de explorar as minas de São Domingos. Com esse fim foi registada em 1855 uma empresa mineira espanhola La Sabina.
A moderna exploração da mina viria a dar-se em 1858 já por acção da companhia inglesa de mineração "Mason & Barry", mais tarde designada Mason & Barry Limited. Seria esta empresa que viria a fazer grandes progressos locais, como a construção de um ramal de comboio que conduzia o material extraído das minas até ao Rio Guadiana.
Do desenvolvimento local e da sua envolvente existem vários trabalhos de que ressalto os apresentados no site «The Restoration & Archiving Trust. Mina de São Domingos: Mason & Barry», entre outros.
A actividade da mina seria suspensa em meados da década de 1960 e hoje no local só se podem observar as ruínas. No início do século XX contudo as minas eram um local modelar a justificar visitas. Foi por isso que em 1913 foi organizada pelo Liceu Camões, de Lisboa, uma vista de estudo, no sentido de os alunos do 7º ano tomarem contacto com essa realidade industrial.
Oficinas ferroviárias. Foto de Rosário Silva publicada em RR.sapo.pt
Dessa visita foram feitas várias fotografias, aqui transformadas em postais, oferecidas pelos alunos como recordação do dia. Os três momentos que chegaram às minhas mãos fixaram a travessia do rio (provavelmente o Guadiana), as várias charretes que na margem aguardavam os visitantes e por último, como bons portugueses, o momento do almoço com os professores. Seguramente um dia bem passado para todos os intervenientes. Para quem conhece hoje o local abandonado revela-se uma visão nostálgica.