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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A Casa Pereira em Lisboa

Há imenso tempo que não entrava na Casa Pereira. Esta loja de chás e cafés situa-se na R. Garrett, 38, em Lisboa, e existe desde 1930, devendo o seu nome ao fundador José Francisco Pereira. 
É uma daquelas lojas com montras sempre apetitosas, onde passamos e pensamos: oxalá que se mantenha. Está ali há tantos anos e apetece-nos continuar a vê-la.
Esta voragem que atinge a Baixa lisboeta, transformando todos os edifícios em hotéis está a destruir a parte antiga da cidade. Os lisboetas já não contam, só os turistas importam e a Baixa assemelha-se cada vez mais a uma Disneylândia.
É verdade que nalguns casos somos culpados por não frequentarmos estes locais que queremos continuar a ver. 
Entrei na Casa Pereira por impulso. Não precisava concretamente de nada. Resolvi perguntar se tinham chá «espírito de Natal». Eu bebo este chá aromatizado todo o ano e com ele faço misturas de chás, com outras variedades. Costumava comprar esta variedade de chá da Mariage Fréres que é caríssimo. Disseram-me imediatamente que era importado da Índia. Cheirei-o e percebi que era igual ao chá que eu comprava noutra loja. A surpresa foi descobrir que o preço era cinco vezes mais barato. Comecei a olhar para as montras e vi que vendiam a granel as bolachas da Fábrica Paupério.
Infelizmente não têm as bolachas de milho porque não se vendem, mas tinham bolachas de araruta cobertas de chocolate que comprei e me fizeram voltar à minha meninice.
Descobri igualmente bolachas tipo barquilho, dobradas em triângulos, com as bordas revestidas a chocolate, que eram feitas pela antiga fábrica Elba. No pacote têm escrito «Bolachas Altesse com chocolate» e a fábrica que as produz, situada em Odivelas chama-se igualmente Elba. 
Pelo que percebi é uma nova fábrica, fundada em 2006, que retomou o nome e alguns dos sucessos da antiga Elba. Ainda as não provei porque cá em casa primeiro fotografa-se e só depois se pode comer, o que atrasa sempre as provas, mas espero que sejam semelhantes às antigas.
O atendimento foi muito agradável e fiquei cliente. Vou lá voltar para fazer mais compras. Pode-se por exemplo comprar também ao peso ameixas cristalizadas de Elvas, para acompanhar a sericaia ou para outras associações culinárias. E aposto que da próxima vez, com mais tempo, terei ainda mais coisas para descobrir.

domingo, 13 de abril de 2014

O restaurante e casa de chá «Vela Azul» em Caxias

Depois de algum trabalho e comparando as imagens do  google maps com o exterior visível nos postais consegui finalmente concluir que o Restaurante Vela Azul, em Caxias, se situava no local onde veio a ser construído o restaurante Mónaco.
Os livros comerciais que consultei confirmam que já não existia nos anos 60. Efectivamente o restaurante Mónaco foi inaugurado em 1956 pelo que o Vela Azul existiu na época de 1940-1950.
Deve ter sido inaugurado em 1946 porque é dessa data a decoração feita pelo arquitecto Filipe Nobre de Figueiredo (1913-1989). Este arquitecto esteve sempre muito vocacionado para o mar e para as actividades aquáticas, como a vela e a pesca, e chegou a construir uma embarcação em madeira. Foi também sócio fundador do Clube Naval de Cascais. Autor de vários projectos importantes, alguns com José Segurado, como o edifício do Vá-Vá e o Casino do Estoril, parece aqui ser apenas responsável pela decoração.
No exterior e a toda a volta do edifício podia-se ler, em grandes letras, «Restaurante - Vela Azul - Casa de Chá». E a lembrar novamente o nome existia no interior um grande barco com velas desfraldadas de que os postais, a preto e branco, não  permitem saber a cor. A imagem do barco fotografado sobre o balcão externo, que se vê também no interior na sala de refeições, faz parte de um conjunto de postais que nos revela o seu interior e o exterior.
Para além de funcionar como restaurante e casa de chá tinha também «quartos confortáveis com casa de banho e águas correntes quentes e frias», recomendado para passar férias com «comodidade, conforto e um bonito panorama» ou apenas para tomar qualquer refeição e «gosar ao mesmo tempo um lindo panorama».
Situado num local privilegiado e com uma decoração moderna para a época teve, no entanto, uma vida curta. 
P.S. Já depois de publicado o poste o meu pai disse-me que tinha estado em 1953 no «Vela Azul», embora referindo-se a ele como «Casa Branca». Na realidade este foi o seu nome anterior. Ambos os restaurantes foram da iniciativa de um galego Manuel (Manolo) Outurela Costa, que seria também sócio da Choupana. Nessa altura existia o projecto de unir várias casas da linha que incluíam as já referidas, o «English Bar» e o «Restaurante Aquário» célebre restaurante de marisco que ficava em Lisboa na Rua Jardim do Regedor. Nessa época Shegundo Galarza tocava na Choupana e no Vela Azul. Seria com ele que Manuel Outorela Costa iria fundar o «Mónaco» em 1956.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Uma ementa de "A Garrett"

Segundo afirma Cecília Barreira, as pastelarias mais importantes dos anos vinte, em Lisboa, eram a Bénard, a Bijou, a Ferrari, a Pastelaria dos Grandes Armazéns do Chiado e a Garrett.
É sobre esta última que falaremos a propósito de uma ementa.

A refeição foi servida em Torres Vedras a 22 de Agosto de 1926. Ainda muito ao gosto francês, que imperara no século XIX nas mesas requintadas, apresenta-se toda escrita em francês. Era constituída por Poisson, Entrée, Entremet e seguida de Dessert, e os pratos que a compunham encontram-se descriminados no verso.
A face anterior da ementa tem um grafismo Art Deco e foi feita na Litografia de Portugal, em Lisboa. Nela a “Garrett” é designada por Patisserie et Restaurant.

Qual era esta Garrett?
Mário Costa no «Chiado Pitoresco e Elegante» refere-se à Casa Garrett, situada no Chiado, no local onde viria a instalar-se o Hotel Borges, uma pastelaria do italiano Rembado que, em 1885, se transferiu para a Rua dos Capelistas tomando o nome Patisserie Garrett.
Mas em 1918 foi inaugurado no Chiado, no Largo das Duas Igrejas, a Pastelaria Garret, também conhecida por A Garrett do Chiado. Situava-se no prédio onde esteve a livraria do Diário de Notícias e está hoje a Maison Hermes.
Foi restaurante, pastelaria e casa de chá sendo um local muito concorrido pela sociedade lisboeta, onde era servido chá e havia concertos diários de boa música. Este local de encontro das «primeiras elegâncias femininas», nas palavras do Dr. João Ameal, foi à falência em 1934.

Para mim está instalada a dúvida, tanto mais que desconheço quando terminou a Patisserie Garrett da Rua dos Capelistas.
Por coincidência encontrei em arquivo menção a uma partitura de um fox trot “Foxy Maid”, da autoria de José Maria Navarro, publicado pela Sassetti e que foi um grande êxito do Quinteto Iberia, da Patisserie et Restaurant A Garrett.
Este achado faz-me pensar que é provável que a nova Pastelaria Garret, acompanhando a moda da utilização de língua francesa nas actividades sociais, tenha absorvido a designação da anterior casa, provavelmente já desaparecida. A falta de tempo para uma avaliação mais profunda, pode vir a revelar-me estar enganada. Se tal acontecer darei a mão à palmatória.

domingo, 2 de agosto de 2009

A Bolacha Francesa

O meu bolo de pastelaria preferido é a Bolacha Francesa. Encontra-se em muito poucas pastelarias e, de longe, o melhor é o da Confeitaria Cister.
A pastelaria Cister mudou a decoração, modernizou-se de uma forma discreta, mas mantém alguns dos mimos a que estávamos habituados, para além das ditas bolachas. Refiro-me à geleia e à marmelada que continuam a vender e que tem que ser comprada na época porque esgota. Infelizmente ficou um pouco arredada do meu caminho e é difícil estacionar no local. Mas sempre que posso dou lá um salto para comprar uns exemplares. Havia um outro local em que as referidas bolachas eram óptimas. Apenas quem teve a felicidade de o conhecer pode avaliar como Lisboa ficou mais pobre com o seu fim. Era a «Salão de Chá Imperium» e ficava nas Escadinhas de Santa Justa. Era um local requintado, espaçoso, onde se ia beber chá servido por empregados muito antigos, vestidos a rigor. Funcionava como ponto de encontro e descanso para as pessoas que iam fazer as suas compras à Baixa.
Lembro-me de um dia ter pedido as bolachas por «Olho de Boi», outro nome porque também são conhecidas, e de o empregado me olhar com ar reprovador e dizer que o seu nome era « Bolacha Francesa ou Bolacha Confiture».

Estas minhas recordações, perdidas no tempo, foram suscitadas por um desdobrável com uma pequena história em que vêm representadas as referidas bolachas francesas e que apresentarei no próximo post.


Para já deixo-os com a imagem das ditas bolachas e a recomendação para as experimentarem de preferência acompanhadas por um bom chá.