Descobrir a origem desta ementa
não foi uma missão fácil. Demorou-me vários dias de investigação e ficaram
ainda por esclarecer alguns pormenores.
É uma ementa do século XIX, feita à mão, com o
feitio do que me pareceu ser um balão e, quando aberta se transforma num leque. Não posso no entanto confirmar a associação ao balão porque no ano a que se refere a ementa todas as tentativas de voos em
balão resultaram em insucessos completos, que finalizaram em acidentes graves.
As capas da ementa são revestidas no exterior a seda e no
interior a cetim. Dentro contém 5 folhas cartonadas onde está escrita a ementa
acompanhada de desenhos alusivos aguarelados à mão.
A primeira surpresa deve-se ao
facto de não ter títulos nas várias folhas como era habitual numa refeição
servida “à russa”, em que a ordem dos alimentos no Menu era
a seguinte: Potage, Hors d 'œuvre; Relevés,
Entrée chaude; Entrée froide; Roti; Legume; Entremets e Sucrés.
A ementa data de 1875 e
seria de esperar que nos Estados Unidos não se encontrasse esta ordem de
alimentos em data tão precoce e ainda por cima numa casa particular, quando a
divulgação desta forma de apresentação dos alimentos à mesa se deu na Europa, primeiramente nos restaurantes.
Mas a resposta deve-se ao
facto de estarmos perante um jantar dado por uma das principais socialites da época, famosa em Nova
Iorque pelos jantares e festas que organizava.
O seu nome era Annette
Wilhelmina Wilkens Hicks e descendia de uma antiga família colonial de origem
inglesa, na linha directa de Sir Francis Rumbolt. Annette nasceu no Suriname,
um país da América do Sul onde se fala holandês, em 1835, filha de Wilco Peter
Wilkens, um rico plantador holandês e de Adelina Schenck, descendente da
família Rumbolt. A família foi viver para Nova York até à morte do pai.
Foi nessa
cidade que conheceu e casou com um homem com o dobro da sua idade, Thomas Hicks,
de quem tomou o apelido[1]. O
casal foi viver para Manhattan até à morte de Hicks em 1866. A viúva Hicks,
como era conhecida, foi depois viver para o nº 10 West da 14th Avenida, onde
dava magníficas recepções que a tornaram famosa não só pelos entretinimentos que oferecia
mas também pela sua beleza e elegância no vestir.
Annette viajou também
pela Europa onde foi apresentada nos mais selectos círculos de Paris e Londres. Em
Londres ocupava as melhores suites do Hotel Claridge e em 1874 foi apresentada
à rainha Victoria pelo ministro americano general Robert Schenck. Mais tarde em
1877 esteve presente na recepção e jantar oferecido pela rainha ao presidente
americano Ulisses Grant, dado em Londres, no Guildhall. Foi apontada como noiva de vários pretendentes nobres britanicos, um dos quais pode ter sido o convidado de honra deste jantar, que não consegui identificar .
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| NYC Marriage & Death Notices 1843-1856. NY Society Library. |
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| Pagina em que se lê no recorte de jornal a notícia do casamento. NY Society Library. |
Em 1877 Annette casou secretamente
com Thomas Lord, um rico comerciante, já octogenário o que levantou problemas
com os filhos deste e foi objecto de comentários nos jornais da época. Em 1879[2] o marido estava já muito doente e viria a falecer pouco depois.
| Casa Hicks-Lord - Imagem tirada da internet. |
No final do século
Annette deixaria a sua casa na 14th avenida e foi viver para uma outra casa,
construída em 1850, que ficou conhecida como a Casa Hicks-Lord, localizada em 32 Washington Square West. A casa foi destruída
em 1925 para ser construído um edifício de 16 andares.
Annette viria a falecer em 6 de
Agosto de1896[3].
[1] Casamento 1851: Na quarta-feira, 7 de inst, na igreja holandesa do Norte, pelo Rev. Dr. Schenck, de New Jersey, o Sr. Henry W. Hicks, a Miss Annette Wilhelmina, filha do falecido Wilco Peter Wilkens.
[2]
Noticias sobre o seu estado de saúde saíram no jornal The Baltimore Daily News, January 13, 1879 e em muitos outros, que não
deixavam de continuara a comentar ainda as condições do casamento.
[3]
Óbito noticiado na Gazette of Alexandria.



Quando pela primeira vez tive a possibilidade de aí ficar, foi para mim a concretização de um sonho. Gosto de hotéis com história e este tem seguramente uma longa história, rica de detalhes.
Quatro anos depois o primo de Waldorf construiu, junto a este, um hotel de 17 andares chamado Hotel Astoria. Este primo viria a morrer no desastre do Titanic, em 1912, a que se seguiu a morte de Waldorf em 1919. Apesar de todo o luxo o progresso da vida moderna não o poupou. Em 1929 o Waldorf-Astoria fechava para ser destruído e dar lugar à construção do Empire State Building. 
Mas no dia 1 de Outubro de 1931 abria um novo Waldorf=Astoria, no local onde agora se encontra, isto é, entre a Park Avenue e a Lexigton. Era nessa data um moderno hotel com características Art Deco, projecto dos arquitectos Schultze e Weaver. Um hotel de luxo, mítico, que serviu de cenário a vários filmes o mais conhecido dos quais o “Fim de Semana no Waldorf”, com Ginger Rogers.
O hotel tem sido palco de luxuosas festas e por ele passaram os principais nomes da realeza, da sociedade internacional, bem como os mais proeminentes políticos mundiais. Para além disso o hotel foi sempre usado como base de actividades para promover eventos de empresas e pessoas consideradas importantes. Ainda hoje, num pequeno corredor perto da recepção, algumas montras, transformadas em museu, mostram-nos fotos de várias pessoas famosas como Julia Child ou o Duque de Windsor e sua mulher. Entre os nomes da realeza referimos a princesa Eulália da Espanha, o Principe do Sião, o principe Henrique da Prússia, entre outros.
Em Outubro de 1942 o Walforf=Astoria foi adquirido por Conrad Hilton e em 2006 passou para as mãos da empresa Hotel Hilton, mantendo sempre o seu nome e características. Apesar dos seus quartos pequenos para os conceitos actuais, o Hotel mantém todo o seu charme incial. Percorrer os seus corredores e salões ou sentar-se calmamente no hall a assistir ao movimento, mantém-se um prazer.

O meu interesse no quadro, vem não só da representação do quadro em si, mas também no produto representado. A embalagem, de forma original, com o gargalo inclinado para facilitar a saída gota-a-gota tornou-se num símbolo icónico, tal como a garrafa da Coca-Cola.
Desde o seu início os produtores apostaram em campanhas publicitárias para divulgar o produto. Isso fez com que se tornasse, nas primeiras décadas do século XX, no produto mais conhecido da Alemanha. Mas não ficou por aí a divulgação deste elixir. Foi também vendido nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. Tudo isto acompanhado de publicidade. E, se consegui encontrar publicidade nestes países, como por exemplo a existente na edição de Natal do “O Cruzeiro”, de 1928, com um anúncio ilustrado por Emiliano Di Cavalcanti, tal não foi possível até ao momento para Portugal.
Mas ficarão seguramente surpreendidos, como eu fiquei, quando descobri que um dos frascos em vidro branco coalhado que possuía era de Odol. Mais ainda quando soube que foi fabricado pela Fábrica Gaivotas de Lisboa. Seria apenas para o mercado nacional ou destinar-se-ia à exportação? Não sei responder. O frasco já não tem rótulo mas na sua base está escrito Odol, o que não deixa lugar a dúvidas.
Esta parece uma história daquelas que vemos na televisão em que contam um evento num país distante. No meio da notícia há referência a um português. Ficamos com a ideia de que há sempre um português presente. Foi o caso da fabricação deste frasco de Odol .