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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Palavras esquecidas: Ladrilhos de marmelada

Nos últimos tempos algumas casas de doçarias retomaram a comercialização dos ladrilhos de marmelada.

Em Odivelas, local de origem de uma das mais famosas marmeladas, com receita primitiva no Convento de S. Dinis, sete pastelarias locais (1) associaram-se e começaram a comercialização desta doçaria de uma forma coordenada, de modo a uniformizarem as características. Uma das formas de apresentação da marmelada, na variedade branca, é em ladrilhos.
As recordações da minha infância trazem-me à memória as imagens da marmelada a secar em taças de louça, ao sol, cobertas com um papel vegetal. Lembro-me de a minha mãe dizer que para se obter marmelada branca havia que a bater muito mais tempo. Hoje há quem o faça com Bimby, esse aparelho adorado pelos portugueses.
Não havia o hábito de a servir em “quadradinhos”, ou “quartas”, sinónimos de ladrilhos, mas fazia-se um doce de marmelo aos quadrados pequenos metidos numa calda, que ficavam ligeiramente rijos e que continua a ser o meu doce de marmelo preferido.
Quanto aos ladrilhos, vim a encontrá-los mais tarde, já em Lisboa, e remetem-me imediatamente para as ceias do Hospital ou para os longos dias de urgência em que, para matar a fome, recorria a um desses quadradinhos. Vinham embrulhados em papel vegetal transparente com a identificação do produtor em letras coloridas. Eram também distribuídos aos doentes nas pequenas refeições e foram piorando de qualidade, tornando-se mais secos e um dia desapareceram.

É verdade que no Porto se manteve esta tradição em casas como a confeitaria Costa Moreira e provavelmente outras de que não conheço o nome. É nesta cidade que se associam ao vinho do Porto.
O mais interessante é que quando pesquisei a origem da palavra «ladrilho», vi que este vem do espanhol ladrillo (2) e este do latim laterrellu, que significa «tijolo, ladrilho». Contudo, para nós hoje a palavra ladrilho é sinónimo de mosaico e apresenta-se com a forma rectangular. Para os espanhóis, ladrilho é um tijolo e se meterem a palavra ladrillo no goggle vai-lhes aparecer a imagem de tijolos.
Mas os nossos ladrilhos de marmelada, obtido por cortes simétricos de um tabuleiro com o doce seco, são cúbicos.
Dá que pensar, não dá?
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1) Carolina Pinho, Pastelaria Espiga Doce, Ide vê-las, Pastelaria Viriato, Pastelaria El rei D. Dinis, Pastelaria Faruque e o Forno da Cidade.
2) Machado, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Marmelada de Belém

Este post podia chamar-se também «Na pista de uma tábua de madeira». Costumo comprar ou guardar caixas de transporte ou acondicionamento de alimentos. Esta, de Marmelada de Belém, trazia uma história por revelar.
São muitas as referências aos pastéis da Fábrica de Pastéis de Belém, mas poucas aos outros produtos que aí foram sendo fabricados ao longo do tempo, para além destes. É o caso da marmelada que ainda hoje fazem e vendem na sua época.

Esta face de uma caixa de madeira para transporte e envio de marmelada traz as referências da fábrica, com a data da fundação em 1837, a morada na Rua de Belém, 88, em Lisboa e ainda a menção à «Refinação de Assucar e Confeitaria de Belém, Lda», que esteve na sua origem, por acção do seu proprietário Domingos Rafael. Tem ainda de um dos lados, infelizmente cortado, o símbolo, com a cartela central onde se vê a imagem do Mosteiro dos Jerónimos, as cordas manuelinas e as esferas armilares, que escolheram para identificar a confeitaria.
Do outro lado da caixa estava ainda colado o autocolante com o nome e endereço do destinatório. Omito o nome, por a família ainda ser viva, curiosamente iniciado por Mr. (de Mister) em vez de Sr. (de Senhor). Quanto ao endereço foi enviado para o Sanatório das Flamengas, em Vialonga, na Póvoa de Santa Iria.
A caixa deve datar do início do século XX. Não consegui apurar até quando existiu este sanatório. O edifício que ainda hoje existe, foi uma antiga casa de recreio dos Condes de Vale de Reis, herdada pelo 1º Duque de Loulé, Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, gentil-homem da Câmara de D. João VI e seu estribeiro-mor, que faleceu em 1875. Foto tirado do site da Freguesia de Vialonga

Da “Quinta da Flamenga”, para além do edifício do século XVII, faziam parte uma capela, fontes e belos jardins. No séculos XIX e XX o edifício sofreu alterações tendo sido adaptado a hospital. Abandonado posteriormente foi depois vandalizado. Parte dos terrenos serviram já para a construção de um empreendimento com o mesmo nome.
Mas voltemos à caixa de marmelada. O seu envio para um sanatório não foi acidental. No início do século XX a marmelada era considerada um bom alimento para tuberculosos.
Consultei o livro «A Alimentação dos doentes», da autoria de João Novaes, publicado em 1910. Lá vem explicado o fundamento desta teoria. Considerava-se que doente com tuberculose precisava de «ser superalimentado, para acudir ao seu gasto físico». Baseando-se nas teorias de Laufer que defendia que o açúcar exercia uma acção de poupanças e economia de azoto, tinha uma acção importante sobre o peso e forças do doente, pelo que se devia juntar à ração alimentar ordinária 60 a 90 gramas de açúcar, o que permitia, segundo o autor, obter um aumento de 20 a 100 g por dia no peso.
Referindo-se depois ao livro de Louis Renon «Traitement pratique de la tuberculose pulmonaire» apresentava dietas adaptadas a esta patologia.
Na ementa de 2 de Novembro de 1907, que aqui reproduzo, pode ver-se que a ceia, nome então dado ao jantar, terminava com marmelada.

Fica assim explicado o envio da grande caixa de Marmelada de Belém para um sanatório.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A goiabada brasileira, uma herança portuguesa

A goiabada está bastante divulgada em Portugal, onde é utilizada da mesma forma que a marmelada. Pode-se encontrar em qualquer supermercado desde há vários anos, mesmo antes de os brasileiros viverem em Portugal.
O que me levou a escrever sobre ela foi o facto de me ter surgido uma caixa antiga de goiabada. É uma caixa da marca Regina, que interessantemente copia um pouco o “lettering” da nossa conhecida fábrica de chocolates Regina.

A goiaba, fruto mais difícil de encontrar em Portugal continental, é o fruto da goiabeira, uma árvore da espécie Psidium guajava, da família Myrtaceae e existem mais de 2.800 espécies. Para nós leigos, chega-nos saber que existem duas variedades, de polpa branca e vermelha, sendo esta última a mais frequentemente utilizada.
Pensa-se que o seu local de origem corresponde à área que se estende do México até à América central e transformou-se numa das árvores de fruto mais comuns na América do Sul.
Foi cultivada pelos Incas e já existia no Brasil antes dos portugueses lá chegarem. Foram os navegantes europeus que levaram a goiaba da América do Sul e Central, para as suas colónias africanas e asiáticas, com clima tropical. É por essa razão que na Ilha da Madeira se encontram tantas goiabas, agora transformadas em fruto local.
Gabriel Soares de Sousa, um português que emigrou para o Brasil e que se transformou em agricultor e empresário, escreveu em 1587 o «Tratado Descritivo do Brasil». Nele se refere à goiaba afirmando que se chamava “araçaguaçu”. Ainda hoje no Brasil ela tem vários nomes como araçaíba, araçá-guaçu, araçá-goiaba. O autor do Tratado Descritivo foi também proprietário de um engenho de açúcar. Foi a estes proprietários de engenhos de açúcar, e a outros colonos portugueses, que se atribuiu a origem da goiabada, como substituto da marmelada.

Embora a investigadora Rosa Belluzzo, especialista em história da alimentação e autora do livro Os Sabores da América e co-autora de Cozinha dos Imigrantes e de Doces Sabores, afirme que a mistura da goiaba com o açúcar nasceu nos engenhos cubanos, não é esta a opinião mais aceite. Podem ter sido feitas compotas, associando a fruta ao açúcar, mas não goiabada. Ainda hoje na Ilha da Madeira a goiaba é utilizada para a confecção de doces, mas não para goiabada, porque dificilmente competiria com a marmelada.
A marmelada é uma doçaria tipicamente portuguesa e que foi sempre muito apreciada.
É natural que os portugueses no Brasil tenham utilizado a sua receita, substituindo o marmelo por goiaba. Ficava assim aliviada a saudade da marmelada.
No livro “Açúcar”, de Gilberto Freyre, a goiabada é mencionada como um dos grandes doces das casas-grandes no período colonial.

O que é considerado brasileiro é a associação da goiabada-cascão (a forma mais sólida em que se incluem algumas cascas), acompanhada de queijo branco ou de requeijão, que Gilberto Freyre refere ser “saborosamente brasileira".
Esta sobremesa é hoje em dia conhecida no Brasil por "Romeu e Julieta". Este nome deve-se a uma campanha publicitária feita por Maurício de Sousa, nos anos 60, para um anúncio da goiabada «Cica», em que o queijo era Romeu e a goiabada Julieta. A associação foi tão perfeita que o nome ficou.
Nada de estranho para um português que esteja habituado a comer queijo com marmelada.
Será que também aqui não andou mão portuguesa?