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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Audoire, charcutier-traiteur em Paris


O requinte do interior desta loja chamou-me à atenção. Trata-se de um anúncio publicado numa revista francesa de antiguidades «abc decor» de 1968.
Podemos observar uma montra no interior da casa Audoire, charcutier-traiteur, em Paris, que presumo já não exista porque não consegui encontrar qualquer informação na internet.
Na montra, decorada com extremo gosto e cuidado, podemos ver travessas de pequenos salgados, canapés, patés, aspics, assados, etc., que se presumem serem produtos relacionados com a arte de charcutaria. Na realidade o proprietário identifica o seu nome ao ofício de charcutier-traiteur. Procurei encontrar tradução correcta para o português, mas embora tenhamos tido charcutarias finas (estou a lembrar-me dos Três Porquinhos, ao Rato), não corresponde exactamente ao mesmo.
Traiteur ambulante in Costumes de toutes les Pays
Vejamos: existe uma diferença entre restaurateur (“restaurador” no sentido antigo de proprietário de restaurante: o que restaurava as forças) e traiteur. O primeiro, tradicionalmente, serve as refeições no local, a troca de pagamento, enquanto o segundo, embora realize as mesmas funções estabelece um contracto de serviço que lhe permite realizar essas refeições em casa do cliente, numa instituição, ou onde for acordado. Mais modernamente diríamos que é uma pessoa que fornece catering. Na realidade este profissional está preparado para servir, de forma completa um grande número de refeições, mas também prepara iguarias que podem ser encomendadas no local e levadas para casa. Assim é um fornecedor de alimentos mas a que se associa a ideia de delicatessen.
Empregada de Traiteur. Costumes de Ouvriers. In Gallica
No século XIX em França existiam vários tipos de traiteurs, como o traiteur-rôtisseur, que tinham também nos seus estabelecimentos uma table d'hôte. Isto significava que tinham uma mesa com menu fixo para servir clientes, o que acontecia também em Portugal, na mesma época em hotéis e restaurantes.
No caso presente o proprietário era um charcutier-traiteur, o que significa que podia servir no local, ou ao domicílio, produtos relacionados com a charcutaria. No próprio anúncio é exemplificado que, no que respeita ao local, dispunham de: sala, material, roupa de mesa, louça e serviço de vidros.
Book of Buffets, 1968
Publicitavam as suas especialidades que eram as seguintes: terrines de aves, de patos ou de coelho em porcelana d’Auteuil*, mas também o foie-gras, salsichas em brioches e toda a pastelaria. Tinham capacidade para servir pequenos jantares, almoços (lunchs) até 100 pessoas, em especial para festejos de comunhões, baptizados e casamentos.
Poulard á la Godard, Joules Gouffé.
A apresentação das iguarias fazem lembrar as imagens publicadas no livro, The Professional Chef's Book Of Buffets, de 1968, ainda na linha das elegantes construções do século XIX da autoria de Joules Gouffé. Como as apresentações elaboradas de hoje nos parecem simples.

 À frente de quem esteve Jacques Lobjoy que, em 1968, lançou o primeiro serviço de mesa designado Chambord, recuperando imagens do séc. XIX, tal como na série «Caça», com desenhos de Jean Charles François Leloy (1774-1846), que seriam mais provavelmente os escolhidos para a casa Audoire.

domingo, 28 de abril de 2013

Portugal Gastronómico na Exposição de Paris de 1937

Este folheto desdobrável intitulado «Le Portugal Gastronomique» foi feito para a Exposição Internacional de Paris de 1937. A verdadeira designação desta mostra, de acordo com o tema, foi a de Exposição Internacional de Artes e Técnicas e teve lugar entre 4 de maio e 27 de novembro desse ano.
Os pavilhões dos vários países participantes foram construídos ao longo do rio Sena e representaram projectos dos mais destacados nomes da arquitectura da época, como Alvaar Aalto que desenhou o pavilhão da Filândia e Mallet-Stevens que desenhou o Pavilhão da Electricidade.
Portugal fez-se representar ao mais alto nível com um belo pavilhão de pendor nacionalista, com o projecto do arquitecto Keil do Amaral.

 O edifício com dois pisos, tinha uma sala destinada às colónias, uma exposição de artesanato, uma sala com as descobertas científicas, outra com produtos agrícolas e uma destinada ao Turismo, entre outras. Em frente do pavilhão estavam atracados dois barcos: um rabelo e um saveiro.
A decoração interior esteve a cargo de Carlos Botelho (1899-1982), mais conhecido como pintor, em especial pela sua visão poética da cidade de Lisboa. Mas Botelho era plurifacetado e foi também ilustrador e caricaturista. Foi um dos pioneiros da banda desenhada em Portugal sendo da sua responsabilidade, entre 1926 e 1929, as imagens do ABCzinho.
Trabalhou em várias mostras internacionais.como no pavilhão de Portugal na Exposição Internacional e Colonial de Vincennes, Paris, 1930-1931, no stand de Portugal na Feira Internacional de Lyon, 1935, etc.
A partir de 1937 passou a fazer parte do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), mais tarde denominado SNI (Secretariado Nacional de Informação), juntamente com Bernardo Marques e Fred Kradofler. Foi com estes que trabalhou em vários pavilhões de Portugal, como neste da Exposição Internacional de Artes e Técnicas em Paris, onde chegou a ganhar um prémio.
Com este folheto percebemos que a sua acção foi mais vasta e que participou também no grafismo da propaganda distribuída. Este folheto extraordinariamente bem concebido, com capas a encarnado e verde em que o local do escudo é ocupado por produtos alimentares portugueses, tem a sua assinatura.
O texto é da autoria de Albino Forjaz Sampaio e é uma elegia à comida tradicional portuguesa, descrita por regiões, a começar pelo norte do país. Terminava com um convite desafiador aos estrangeiros, onde dizia que se os portugueses tinham partido à descoberta do mundo em pequenas naus, que esperavam para também eles partirem à descoberta de uma gastronomia quase desconhecida.

Uma visão de Lisboa por  Carlos Botelho
No lado oposto ao texto surgia um mapa de Portugal onde se podiam ver as imagens típicas dos habitantes das várias regiões acompanhados pelos alimentos tradicionais de cada uma delas. As representações, ordenadas e explícitas, onde predominam vários tons de verde e encarnado, são belíssimas. Regozijo-me por ter chegado às minhas mãos um exemplar em tão perfeito estado, que partilho com imenso prazer.