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sábado, 6 de abril de 2019

Bolsa Minhota (ou algibeira?)

A palavra algibeira vem do árabe al-jibairâ, que significa pequeno saco. Nos dicionários a palavra é descrita como sendo uma peça do vestuário destinada a guardar pequenos objectos, como moedas, lenço, terço, etc., e nesse sentido é um bolso.
Mas é também um pequeno saco ou bolsa que se usa atada à cintura. Antigamente era um acessório interior mas passou a ser usado exteriormente o que justificou uma maior beleza. 
Algibeira minhota do início do século XX. Palavra VIANNA em cima e no centro a palavra AMOR bordada com vidrilhos 
Em Portugal foram usadas em todo o país, e até há pouco tempo encontrávamo-las sobretudo penduradas à cintura de vendedoras em feiras e mercados.
Temos que reconhecer contudo que nenhumas atingiram a beleza das algibeiras minhotas. Claro que as mais belas são de festa, versões melhoradas das de trabalho. Personalizadas pelas suas possuidoras compunham o traje e davam-lhe maior beleza.
Hesitei em chamar a esta bolsa «algibeira», mas apesar de não ir à cintura, mas pendurada no braço, tem idêntica função. Deixo para os entendidos estabelecer a diferença, se é que existe.
Neste caso a bolsa em linho tem bordada na frente dois corações trespassados por setas e a palavra AMOR, dividida pelos dois corações, encimados por uma coroa. Na parte detrás, agora menos visível porque cometi o erro de a lavar, uma quadra:
Sino coração d’aldeia
Coração sino da gente
Um a sentir quando bate
Outro a bater quando sente


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Ó amor, ajunta a roupa.......

Foto da minha autoria para o futuro livro «Vestir a mesa»
Ó amor, ajunta a roupa,
Que eu ta quero ir lavar,
Já me dói o coração
De te ver assim andar.

De te ver assim andar,
De te ver andar assim.
A roupa do meu amor
É lavada no jardim.

É lavada no jardim,
Coradinha na roseira,
Ó amor ajunta a roupa,
Vai-a dar à lavadeira.*

*Canção tradicional portuguesa recolhida na freguesia de São Paio. Publicada no Cancioneiro Popular do Concelho de Oliveira do Hospital, por Francisco Correia das Neves. 2005.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O cardo nos Santos Populares

O uso do cardo, ou alcachofra brava, foi uma das práticas que mais se perdeu nos Santos Populares. A tradição dizia que se devia queimar na fogueira a parte florida do cardo que posteriormente era colocado num vaso. Quando este floria novamente era sinal de que o amor era correspondido, provocando uma alegria serena e antevendo na imaginação da jovem a possibilidade de um casamento futuro. 


Nesta capa do livro «Poeira das Cantigas» de 1939, escrito por José Castelo e ilustrado por Mário Costa (1902-1975) representam-se as festas populares com danças à volta da fogueira e, em primeiro plano, o vaso com o manjerico onde desponta o cravo e o cardo.
Hoje resta-nos o manjerico com os cravos com quadras de amor!

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Os figos secos do Algarve

Foto do Museu de Portimão
Numa visita a o Museu de Portimão deparei-me com imagens da seca dos figos algarvios.
Caixas de figos secos algarvios. Museu de Portimão
É verdade que me interessava sobretudo ver a transformação da Fábrica de conservas La Rose, transformada em Museu mas preferi deixar esse assunto para falar sobre ele numa próxima vez. Mostro aqui algumas fotos, infelizmente de fraca qualidade, porque a pressa é inimiga da perfeição.

Esteira de cana. Museu de Portimão
A produção de figos secos, hoje infelizmente muito reduzida, foi uma das principais riquezas do Algarve, referida desde o século XVII. Integrada na agricultura de sequeiro, tal como a amêndoa e a alfarroba, a ela estavam associados vários objectos tradicionais. A colheita do fruto era por varejo e os frutos acondicionados em cestas de vime e cana. 
Os figos eram depois secos sobre esteiras de cana ou funcho em eiras designadas almanxares ou almeixares. Mais modernamente quando a produção reduziu eram também secos nas açoteias das casas algarvias.
No século XIX a exportação de figos secos era ainda importante. Em forma de homenagem a um natural da terra, o 7º Presidente da República Manuel Teixeira Lopes, descobrimos no Museu de Portimão uma outra faceta deste homem multicultural, como produtor e exportador de figos secos. 
Biografia de Manuel Teixeira Lopes. Museu de Portimão.
Na realidade esta actividade recebeu-a de seu pai José Libânio Gomes que em 1845 visitou Ruão para aprender os segredos do comércio de figos secos. Em 1849 começou em Portimão o seu negócio. Da boa qualidade destes atestam os prémios recebidos em Exposições Internacionais como a de Londres de 1851, a de Paris de 1855 e em 1894 fez parte da Comissão da secção Portuguesa à Exposição Universal de Anvers[1]
Variedades de figos secos. Museu de Portimão
Entretanto formou com outros sócios locais, em 1891, uma sociedade intitulada "Sindicato de Exportadores de Figos do Algarve", que durou três anos.
Banquete de homenagem a Teixeira Lopes em Londres aquando da sua nomeação para Presidente da República. Museu de Portimão
Foi na qualidade de negociante de frutos secos que Manuel Teixeira Lopes viajou pela Europa, mas também pela Ásia Menor e pela África do Norte. É provável que este conhecimento tenha estado na origem da sua decisão de abandonar a Presidência da República e exilar-se em 1931, em Bougie, na Argélia, onde viveu os seus últimos dez anos.


[1] http://arepublicano.blogspot.pt/2016/10/jose-libanio-gomes.html

quinta-feira, 14 de maio de 2015

5ª feira de espiga: a passagem do testemunho

Para os mais distraídos fica a chamada de atenção: hoje é  5ª feira de espiga. 
Compra-se a nova espiga (infelizmente já não dá para ir apanhar) e deita-se fora a do ano anterior.
O ramo de espiga de 2014
Cumpre-se a tradição.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

É Quinta-feira de Espiga

Para recordar a tradição, de que já falei anteriormente,  comprei um raminho e vou deitar fora o do ano passado. 
Vendem-se agora em vários pontos da Baixa. Mais pequenos, mais caros, com menos simbolismo, como tudo o que vai surgindo neste país. 
Daqui a uns anos faço um estudo comparado dos vários ramos.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O licor, uma bebida de Natal

É verdade que se foi perdendo esta tradição de beber licores na época natalícia. 
A grande excepção encontra-se nos Açores onde está bem vivo este costume chamado «O menino mija?» e onde as pessoas vão visitar os seus amigos e familiares repetindo esta pergunta. É uma ronda onde se vão provando os licores caseiros ou industriais regionais e se aproveita para desejar as Boas Festas.
No resto do país foi-se perdendo o hábito de associar estas bebidas à época natalícia. Mas que este existiu é-nos provado por várias manifestações materiais, desde a forma das garrafas, aos rótulos e à publicidade.
Mostro-lhes alguns exemplos como a garrafa em forma de casa, a cuja porta o pai Natal bate para oferecer os presentes.
Foi desenhada por Adolfo e Rocha em 1955 e encontra-se na forma não pintada ou com pintura manual onde são realçados todos os pormenores incluindo a neve.
Uma outra forma popular de garrafa era a do próprio Pai Natal que existe em várias versões e de que já apresentei em anos anteriores um exemplo. 
Algumas distinguem-se pela pintura que identifica o produtor, enquanto noutras essa identificação era feita apenas através de um rótulo colocado nas costas.
Por ultimo mostro-lhes uma garrafa do Licor Natal, de forma cónica, que está ilustrada num cartaz publicitário em que o próprio Pai Natal viaja numa dessas garrafas e que eu reproduzi em postal.
Espero que gostem. Servem para eu lhes desejar Boas Festas e lembrar que a exposição onde estão estas garrafas e  outros objectos deste tema vai estar no Mercado de Santa Clara até Fevereiro de 2014.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Festival Internacional de Licores e Aguardentes Tradicionais

Há imensas actividades interessantes que têm lugar em Portugal e que nos passam muitas vezes ao lado.
Se não me tivessem convidado para apresentar o meu trabalho eu também não daria por este festival de licores tradicionais, numa zona de grande tradição de produção de destilados. 
Foi na Serra do Caldeirão que os árabes implantaram as primeiras destilarias no século X, na região que posteriormente viria a ser o reino de Portugal e dos Algarves.  
Aqui fica a divulgação.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Carnaval de 1973 no Cinema Paris

Parece recente, mas já passaram 40 anos. Festejava-se o Carnaval no Cinema Paris e no programa afirmava-se ser uma tradição com muitas dezenas de anos. O edifício em estilo Art-Deco tinha sido inaugurado em 1931. Será que a tradição remontava a essa data?

Nas soirées havia comédias de sábado a terça, a que se seguiam na plateia e no balcão bailes até de madrugada. A música ficava a cargo dos «Panteras Negras» e de «Faria e o seu conjunto».
Quanto ao programa das soirées passavam-se filmes divertidos para maiores de 6 anos e no palco havia espectáculos todos os dias.
 Apresentavam-se momentos de magia com a presença de «Sotam», bonecos dançantes apresentados por «Gaby», e a «Rolling Star», uma sensacional equilibrista sobre rolos. E em todas as matinées participavam os mais afamados palhaços «Armand, Lisboa & Cª».
Querem saber os preços? As soirées eram mais caras e na plateia variavam entre 17$50 e 25$00, enquanto no balcão esse preço subia para 50 a 70$00, consoante as filas.
Quanto às matinées custavam menos de metade destes preços, para facilitar a vida às crianças.  Estas eram ainda beneficiadas com um presente (tinha que meter comida): tabletes de chocolate oferecidas pela Fábrica Regina. Tempos de grande inocência perdidos, tal como o próprio cinema.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Festividades alimentares do dia de Todos-os-Santos

 A festa do dia de Todos-os-Santos é celebrada a 1 de Novembro, em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não, numa tentativa da igreja para não esquecer nenhum.
Ligada a esta festa existem rituais e hábitos alimentares que, em Portugal, variam de região para região, mas que têm muito em comum, em especial o peditório cerimonial feito por crianças. A esse peditório feito porta-a-porta respondia a população com ofertas alimentares, consoante as suas possibilidades e os hábitos da terra.
Embora tenha desaparecido em muitas regiões, era tradicional um grupo de crianças andar pelas terras a cantar canções às portas e a pedir o “Pão por Deus”. As pessoas que abriam as suas portas ofereciam maçãs, romãs, castanhas, rebuçados, nozes, bolos, como broas de milho, chocolates e até dinheiro.
Já no século XV a festa de Todos-os-Santos era designada Dia de Pão por Deus[1]. Nalgumas regiões também se chama a este dia o “Dia dos bolinhos”.

Na Beira Baixa era costume os padrinhos oferecerem aos seus afilhados o Santoro. Este é um pão comprido que se tornou uma oferta cristã, mas que deriva de um costume pagão, a oferenda dos mamphula ou pão Sírio, usada pelos romanos[2].
No Tortozendo, perto da Covilhã, esse bolo era alongado e levava azeite, mas por toda a Beira Baixa existia o hábito de fazer um pão deste tipo, nalguns locais em forma de ferradura. É a este pão que se deve a expressão «Pedir o Santorinho», usado nesta região, com o mesmo sentido de «Pão por Deus». Na freguesia do Castelo (Sertã) estes «bolos dos Santos» levam farinha de trigo e milho, ovos, mel ou açúcar, canela e erva-doce[3].
Em Castelo Branco, para além dos Santorinhos, é também tradição nesse dia comer as “papas de carolo” ou “papas de milho”, decoradas com canela.
Em Coimbra estas festividades têm o nome de «Bolinhos e bolinhós» e apresentam características diferentes no comportamento das crianças, que se estendem a toda a região. Nos anos 50-60 ainda havia crianças que passeavam por Coimbra com abóboras recortadas a cantarem a cantilena com o mesmo nome[4]. Em alternativa utilizavam uma caixa de sapatos, em papelão, em que faziam recortes que semelhavam os olhos, o nariz e a boca e com uma vela lá dentro. Este costume pagão, que parece ter origens celtas, não existia só na Irlanda, mas noutras regiões europeias, e viria a dar origem ao Hallowen.

 No Alentejo em Santa Luzia (Cercal do Alentejo) o dia chama-se «Dia dos bolinhos», sendo estes feitos com pão e preparados de propósito para oferecer às crianças que andam pelos montes[5].
Também no Algarve, em Odeceixe, eram feitos estes peditórios cerimoniais e oferecidas às crianças castanhas e broas, que levavam erva-doce, mel e azeite e que estas agradeciam com cantigas[6].

Em Trás-os-Montes e até na Ilha da Madeira e Açores existia este costume, pelo que podemos dizer que era generalizado, mas que se foi perdendo em especial nas grandes cidades.

As crianças quando vão fazer o peditório de porta-em-porta cantam várias melopeias. E a letra muda consoante a aceitação do seu pedido. Estas são de agradecimento, favoráveis aos donos da casa, quando recebem oferendas ou, nos casos em que nada recebem, de insulto aos mesmos. Aqui se transcrevem algumas:

Quando pedem:

Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.

Ou:
Lá vai o meu coração
Sozinho sem mais ninguém
Vai pedir o Pão-por-Deus
A quem quero tanto bem

Pão por Deus
Que Deus me deu
Uma esmolinha
Por alma dos seus

Na região da Sertã, a cantilena é diferente:
Bolos, bolos,
Em honra dos Santos todos
Bolinhos, bolinhos,
Em honra dos Santinhos.

Ou na região de Coimbra:
Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz

Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de s'alevantar
P´ra vir dar um tostãozinho."

E a cantilena muda consoante recebem o seu donativo ou não :

Quando recebem alguma coisa:
"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
ou
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

Quando os donos da casa não dão nada:
Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
ou
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto
ou
Esta casa cheira a pão
aqui mora algum papão
ou
Esta casa cheira a breu
Aqui mora algum judeu[7]



[1] Braga, Teófilo, O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, vol II, p. 222.
[2] Braga, Teófilo, O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, vol II, p. 223.
[3] Dias, Jaime Lopes, Etnografia da Beira, vol VII, p. 155.
[4] Informações fornecidas pela minha amiga Cecília Rosa, que viveu em Coimbra.
[5] Oliveira, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, p. 183
[6] Oliveira, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, pp.182-183.
[7] Informação fornecida por uma senhora de 90 anos que dizia que se lembrava deste costume desde sempre e desta rima que tinha caído em desuso após a 2ª Guerra Mundial.