terça-feira, 29 de setembro de 2026

Os noivos da fábrica de Licores Esmeralda

 

Ando há anos a falar de licores e de garrafas de licor, publiquei um livro, dois folhetos, fiz três exposições de garrafas e, contudo, constato que muito há ainda por descobrir. Apresento hoje estas duas garrafas de um casal de noivos. Fazem parte de um total de garrafas figurativas de licor que excedem já o número das três centenas. Foram sendo compradas a pouco e pouco e espero um dia poder apresentá-las novamente em exposição, como já fiz anteriormente.

Acontece que agora o seu número aumentou muito. Por volta de 2020, isto é, antes da pandemia, tive a sorte de consegui comprar um lote fabuloso que pertenceu a Amadeu Rocha. São assim referidas por terem na sua base as iniciais AR, mas correspondem a garrafas concebidas e encomendadas pela empresa lisboeta Amadeu & Rocha, Lda. Foi fundada em 1942, de acordo com o registo comercial e dedicava-se ao trabalho especializado em vidro técnico e, mais tarde, ao fabrico e restauro de candeeiros e lustres. Inicialmente localizava-se em Lisboa, na Avenida 5 de Outubro e mais tarde na Rua Prof. Eduardo Araújo Coelho.

Pormenor do ramo de noiva

O lote de garrafas que vieram acrescentar a colecção, provêem de um depósito, esquecido, com vários modelos originais de garrafas pintadas e que se encontravam em mau estado. Armazenadas num sótão, numa localidade com grande humidade, sofreram variações de temperatura que levaram à queda de grande parte da tinta. Depois de quase um ano de conversações foi possível adquiri-las e resgatá-las da sua deterioração progressiva.  Durante meses a minha mesa de trabalho foi submersa por garrafas com tinta a cair e, a pouco e pouco recuperei, cerca de metade das mesmas. Quando veio a pandemia outras actividades se meteram e o trabalho foi interrompido. Espero ainda voltar a esse trabalho.

Ramo de noiva com espargo pluma. Final dos anos 40.

Para já resolvi pintar este casal que não se encontrava pintado. É um casal de noivos em que reproduzi com rigor os vestidos, os penteados, e sobretudo o ramo de flores de noiva da época. 

Publicidade. Gazeta dos CF 1949.
 Não vou aumentar este texto, mas quero apenas dizer que as mesmas foram concebidas para a Fábrica de Licores A Esmeralda, que se situava na rua Poço dos Negros Nº 156-160. Apesar da sua proximidade com a Fábrica de vidros Gaivotas foi na Marinha Grande que estas e muitas outras foram. Voltaremos a este tema mais tarde.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Os sais de fruta ENO

 

Ao folhear a revista Ilustração de 1928 deparei-me com vários anúncios aos sais de fruta ENO. Lembro-me, na minha infância, de ver os sais ENO, acondicionados em frasco de vidro, ligeiramente achatados e de tampa branca. Funcionavam como antiácidos e existiam em todas as casas. Quando alguém ficava enfartado, depois de um grande almoço, ou maldisposto, tomava um copo de água com os sais efervescentes e ficava como novo.

O produto não era novo. Inventado no século XIX em Newcastle, na Inglaterra, por um jovem farmacêutico James Crossley Eno, cujo apelido daria o nome à marca ENO’S FRUIT SALT em 1873. O pó efervescente continha bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e ácido cítrico e foi um enorme sucesso. Em Portugal, no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), só encontrei menção a um Fruit Salt da Glaxo em 1898, mas apenas com registo em Outubro de 1946. Também o Sal de Fructa da Haleon Up, Ltd, datado de 1898, surgiu apenas registado também em 1946.

Acontece que o produto já era comercializado pelo menos desde 1928, como se confirma pela publicidade na Ilustração. Era importado directamente pela firma Robinson, Bardsley & Co. Ltd.  uma importante firma comercial que o representava e que se situava no Cais do Sodré, nº 8, em Lisboa. Embora importasse outros produtos este foi o mais famoso e como se pode constatar era designado pelos dois nomes já referidos "Fruit Salt" e “Sal de Fructa”. Provavelmente não o registaram porque não encontramos referência ao seu nome nos registos do INPI.  


Para o publicitarem usaram desenhos internacionais em especial do designer gráfico francês Jean Carlu (1900-1997).  As várias publicidades estão assinadas com a indicação “At. Carlu”, uma abreviatura de atelier Carlu, que foi uma das mais importantes figuras do design gráfico Art Deco.

De acordo com a publicidade, de que apresentamos alguns exemplos, as suas indicações eram inúmeras. Enumeramos algumas para além das já referidas e que são as principais. Assim, era um laxativo muito suave e tomado de manhã e à noite restabelecia o bom funcionamento do tubo digestivo.


 Noutro anúncio afirmava-se que fazia desaparecer o mau humor e a melancolia. Levava a uma boa digestão e consequentemente a um sono reparador. Numa outra era afirmado que a vida moderna levava a “comer depressa”, logo devia “modernizar-se o estomago” tomando o Fruit Salt. Havia também dois sintomas que não enganavam e que eram a língua branca e o mau hálito ao acordar. Eram efeitos de uma má digestão e o remédio simplíssimo, isto é, sais Eno.

Ainda há eu referir os sintomas depois da festa, isto é, de um lauto jantar. A cabeça e o estomago estão pesados. Já sabem que fazer. Outro aviso semelhante era “ O reverso … dos banquetes”, isto é, a exposição à fadiga de uma lauta refeição, com pratos complicados.

E a terminar (devem me ter escapado alguns), como “tratamento para a obesidade”, de que se referiam bons resultados com este produto de reputação mundial.

Apesar de todos estes resultados excelentes, a determinada altura, começou a constatar-se que não era a melhor maneira de tratar estes sintomas, em especial à medida que surgiam outros medicamentos.

Hoje, ainda se encontra à venda, e de certeza que terá ainda fiéis defensores. Por mim nada posso dizer. Nunca experimentei.