sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Associação de ideias

 

Vi, há algum tempo, uma pintura com galinhas com cabeças humanas, que me fez estabelecer uma associação de ideias com uma peça que existe cá em casa. A pintura a que me refiro retrata um grupo de pessoas com corpos de galinha e chama-se "O Quadro das Galinhas". Foi pintado em 1747 pelo artista sueco Johan Pasch, por encomenda do conde Karl Tessin.

O próprio encomendador é visível no quadro, mais atrás, como um galo preto, rodeando-se de cinco galinhas, que representam as damas. O quadro seria uma obra reservada, privada, já que Tessin tinha a reputação de ser um voyeur. O quadro resultaria, diz-se, numa inspiração sua após observar as damas da corte "num estado natural, enquanto se vestiam".

Tessin teria acrescentado à pintura, um verso que explicava a situação: “Que galo maldito não cantaria, ao ver, ó galinhas, os vossos traços e os vossos encantos?”. No Natal de 1747, Tessin presenteou-se a si mesmo com esta obra, que hoje integra o acervo do Nationalmuseum, na Suécia.

A outra peça que me fez lembrar este quadro é uma peça estranha, não portuguesa, onde, sobre um cesto de asas, se encontram três galinhas muito próximas. Tão próximas que quase se atropelam. É em porcelana pintada, provavelmente alemã, embora seja difícil excluir uma origem inglesa. Deve ser do século XIX e não tem qualquer utilidade, uma vez que não tem espaço para tal. Como peça decorativa é, no entanto, controversa. Gosta-se dela ou não?

Não servindo para nada, a mim serviu-me para me lembrar deste quadro, igualmente estranho.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O órgão da Covilhã

Não, não vou falar de música, mas de doçaria. Neste caso covilhanense.

Há mais de 10 anos, em 2015, escrevi sobre um doce que se tornou típico da Covilhã, a Garganta de Freira. O texto terminava com uma promessa minha, em que mencionava o órgão: “Sobre essa raridade, demasiada trabalhosa para ser feita nos dias de hoje, falarei outra oportunidade”. Nunca cumpri essa promessa e por isso me sinto obrigada a reviver esta memória.

Há poucos dias fui contactada por uma pessoa da Covilhã, que não conhecia, e que me perguntava sobre doces tradicionais nessa cidade. Interrogava-me mesmo sobre o “Órgão”. Senti-me então na obrigação de dar seguimento à minha antiga palavra.

A minha ideia sobre este doce perde-se já na bruma do tempo. Do que eu me lembrava era apenas da imagem do conjunto e a visão da fita de seda que rodeava a doçaria e que terminava num lacinho.

Falei com a minha amiga Cilinha Alçada, que se lembrava de uma pessoa da família Pereira Nina que sabia fazer este doce. Quanto à receita, remeteu-me para o livro Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lurdes Modesto.

 Lá vem a receita que reproduzo aqui. Para fazer este bolo é preciso ter uns canudos, de diferentes tamanhos, feitos em cana ou em folha de Flandres. A massa é enrolada à volta desses canudos, em espiral, e é frita.   Recheiam-se depois os canudos com um creme de ovos com amêndoa. No topo colocam-se fios de ovos. 

A montagem dos canudos é feita do centro para a periferia, com o canudo maior no centro, que é rodeado por outros, progressivamente menores. No final o conjunto é suportado por uma fita de seda, tal como eu me lembrava.

Para quem tiver coragem: mãos à obra. É bom que estes doces não desapareçam.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Os noivos da fábrica de Licores Esmeralda

 

Ando há anos a falar de licores e de garrafas de licor, publiquei um livro, dois folhetos, fiz três exposições de garrafas e, contudo, constato que muito há ainda por descobrir. Apresento hoje estas duas garrafas de um casal de noivos. Fazem parte de um total de garrafas figurativas de licor que excedem já o número das três centenas. Foram sendo compradas a pouco e pouco e espero um dia poder apresentá-las novamente em exposição, como já fiz anteriormente.

Acontece que agora o seu número aumentou muito. Por volta de 2020, isto é, antes da pandemia, tive a sorte de consegui comprar um lote fabuloso que pertenceu a Amadeu Rocha. São assim referidas por terem na sua base as iniciais AR, mas correspondem a garrafas concebidas e encomendadas pela empresa lisboeta Amadeu & Rocha, Lda. Foi fundada em 1942, de acordo com o registo comercial e dedicava-se ao trabalho especializado em vidro técnico e, mais tarde, ao fabrico e restauro de candeeiros e lustres. Inicialmente localizava-se em Lisboa, na Avenida 5 de Outubro e mais tarde na Rua Prof. Eduardo Araújo Coelho.

Pormenor do ramo de noiva

O lote de garrafas que vieram acrescentar a colecção, provêem de um depósito, esquecido, com vários modelos originais de garrafas pintadas e que se encontravam em mau estado. Armazenadas num sótão, numa localidade com grande humidade, sofreram variações de temperatura que levaram à queda de grande parte da tinta. Depois de quase um ano de conversações foi possível adquiri-las e resgatá-las da sua deterioração progressiva.  Durante meses a minha mesa de trabalho foi submersa por garrafas com tinta a cair e, a pouco e pouco recuperei, cerca de metade das mesmas. Quando veio a pandemia outras actividades se meteram e o trabalho foi interrompido. Espero ainda voltar a esse trabalho.

Ramo de noiva com espargo pluma. Final dos anos 40.

Para já resolvi pintar este casal que não se encontrava pintado. É um casal de noivos em que reproduzi com rigor os vestidos, os penteados, e sobretudo o ramo de flores de noiva da época. 

Publicidade. Gazeta dos CF 1949.
 Não vou aumentar este texto, mas quero apenas dizer que as mesmas foram concebidas para a Fábrica de Licores A Esmeralda, que se situava na rua Poço dos Negros Nº 156-160. Apesar da sua proximidade com a Fábrica de vidros Gaivotas foi na Marinha Grande que estas e muitas outras foram. Voltaremos a este tema mais tarde.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Os sais de fruta ENO

 

Ao folhear a revista Ilustração de 1928 deparei-me com vários anúncios aos sais de fruta ENO. Lembro-me, na minha infância, de ver os sais ENO, acondicionados em frasco de vidro, ligeiramente achatados e de tampa branca. Funcionavam como antiácidos e existiam em todas as casas. Quando alguém ficava enfartado, depois de um grande almoço, ou maldisposto, tomava um copo de água com os sais efervescentes e ficava como novo.

O produto não era novo. Inventado no século XIX em Newcastle, na Inglaterra, por um jovem farmacêutico James Crossley Eno, cujo apelido daria o nome à marca ENO’S FRUIT SALT em 1873. O pó efervescente continha bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e ácido cítrico e foi um enorme sucesso. Em Portugal, no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), só encontrei menção a um Fruit Salt da Glaxo em 1898, mas apenas com registo em Outubro de 1946. Também o Sal de Fructa da Haleon Up, Ltd, datado de 1898, surgiu apenas registado também em 1946.

Acontece que o produto já era comercializado pelo menos desde 1928, como se confirma pela publicidade na Ilustração. Era importado directamente pela firma Robinson, Bardsley & Co. Ltd.  uma importante firma comercial que o representava e que se situava no Cais do Sodré, nº 8, em Lisboa. Embora importasse outros produtos este foi o mais famoso e como se pode constatar era designado pelos dois nomes já referidos "Fruit Salt" e “Sal de Fructa”. Provavelmente não o registaram porque não encontramos referência ao seu nome nos registos do INPI.  


Para o publicitarem usaram desenhos internacionais em especial do designer gráfico francês Jean Carlu (1900-1997).  As várias publicidades estão assinadas com a indicação “At. Carlu”, uma abreviatura de atelier Carlu, que foi uma das mais importantes figuras do design gráfico Art Deco.

De acordo com a publicidade, de que apresentamos alguns exemplos, as suas indicações eram inúmeras. Enumeramos algumas para além das já referidas e que são as principais. Assim, era um laxativo muito suave e tomado de manhã e à noite restabelecia o bom funcionamento do tubo digestivo.


 Noutro anúncio afirmava-se que fazia desaparecer o mau humor e a melancolia. Levava a uma boa digestão e consequentemente a um sono reparador. Numa outra era afirmado que a vida moderna levava a “comer depressa”, logo devia “modernizar-se o estomago” tomando o Fruit Salt. Havia também dois sintomas que não enganavam e que eram a língua branca e o mau hálito ao acordar. Eram efeitos de uma má digestão e o remédio simplíssimo, isto é, sais Eno.

Ainda há eu referir os sintomas depois da festa, isto é, de um lauto jantar. A cabeça e o estomago estão pesados. Já sabem que fazer. Outro aviso semelhante era “ O reverso … dos banquetes”, isto é, a exposição à fadiga de uma lauta refeição, com pratos complicados.

E a terminar (devem me ter escapado alguns), como “tratamento para a obesidade”, de que se referiam bons resultados com este produto de reputação mundial.

Apesar de todos estes resultados excelentes, a determinada altura, começou a constatar-se que não era a melhor maneira de tratar estes sintomas, em especial à medida que surgiam outros medicamentos.

Hoje, ainda se encontra à venda, e de certeza que terá ainda fiéis defensores. Por mim nada posso dizer. Nunca experimentei.

domingo, 9 de agosto de 2026

Sempre a aprender! A flor do pavio.

 

O espaço da cozinha

Na minha última ida a Vila de Rei visitei o Museu Municipal e fiquei surpreendida. Em primeiro lugar porque é de longe um dos mais interessantes museus etnográficos que se pode visitar na província. Bem organizado e com várias temáticas muito interessantes, longe de muitos museus rurais que existem em várias terras, por esse país fora.

Por outro lado, é um prazer visitar um local destes em que nos cruzamos com peças simples, mas interessantes e onde aprendemos alguma coisa. Foi o caso.

Apresento assim uma planta que, depois de seca, serve de pavio. Chama-se precisamente “flor do pavio”, porque era usada como pavio para alumiar as figuras religiosas. A Sagrada Família, alojada numa pequena caixa, ou oratório com portas, era assim iluminada. Lembro-me de ver em casa da minha avó, quando eu era pequena, um pequeno oratório deste tipo que viajava de casa em casa. Talvez ficasse uma semana, para abençoar a casa, e depois seguia para outra. Já me tinha esquecido dessa tradição, cuja memória agora recuperei com a imagem de um pequeno oratório presente no Museu.

 

A planta em causa, para além da simples designação já referida é conhecida como Falso-ditamno ou Balota. O nome científico é Ballota pseudodictamnus ou Pseudodictamnus mediterraneus. É um pequeno arbusto com folhas aveludadas, esbranquiçadas, depois de secas. Apresenta-se com umas estruturas em forma de pequeno funil ao longo dos caules, que abrigam pequenas flores rosadas. Trata-se de uma planta de origem mediterrânica, extremamente resistente à seca e ao calor.

Depois de seca é usada como Pavio de Lâmpada, sendo colhidas as estruturas em formato de taça que envolvem a flor e usadas como pavio flutuante para lâmpadas a azeite. O cálice seco flutua na superfície do azeite, absorve a gordura por capilaridade e acende-se facilmente ficando com uma chama constante.

 

No exterior do Museu, num pequeno jardim, pode ver-se a planta num canteiro, rodeada de outros arbustos. Esqueci-me de pedir um pezinho, mas vou querer ter uma. Sempre a aprender!.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Convite: apresentação do livro "Receitas de Copa e Cozinha" em Vila de Rei

Durante a Feira dos Enchidos, Queijo e Mel, em Vila de Rei, farei na Biblioteca local, dia 31 de Julho, às 21 horas,  uma apresentação do livro "Receitas de Copa e Cozinha" e uma pequena exposição com objectos antigos de cozinha, em especial ligados à doçaria. 

Aqui fica o convite e os pormenores.



terça-feira, 30 de junho de 2026

Receitas para quê?

Quando vi, pela primeira vez, este livro de despesas, pensei que era uma pena não ter as receitas originais. Depois comecei a ver os registos com atenção e percebi que estava lá tudo. Embora não esteja identificado estava junto com papéis de uma família do Estoril, sendo provável que quem escreveu estes apontamentos fosse uma senhora chamada Baldomera, cujo marido foi proprietário de uma loja de modas na Baixa, chamada Casa Paris.

Viviam numa vivenda e seguramente que não eram pessoas necessitadas que precisassem de fazer pastéis para fora para venda. Eram outros tempos e eu própria conheço outros exemplos de pessoas que, no início do século XX fizeram o mesmo. Era uma forma de a mulher ajudar ao pecúlio da família e, tendo conhecimento e gosto, dedicavam-se a estas vendas particulares, numa altura em que este tipo de comércio era incipiente.

Como é evidente, eram sempre boas cozinheiras ou doceiras. Tenho outros livros e papéis soltos do mesmo género. O que não tenho são as receitas originais que eram tão familiares a quem as fazia que já não era necessário recorrer ao seu registo.

Neste caso, para o registo das Despesas, nome atribuído ao livrinho, foi usado um caderno comercial que tinha no rótulo a data de 1907. As primeiras folhas foram arrancadas e a data mudada para 1925, embora os primeiros registos digam respeito a Dezembro de 1924.

Nos primeiros tempos faziam sobretudo Empadas de galinha, Azevias e Nogados. De cada vez eram feitas 3 ou 4 dúzias de cada e as despesas totais eram registadas ao pormenor. De tal modo que ficamos a saber o peso da galinha, as quantidades de cada elemento e até o preço do papel para as embrulhar. Deste modo pode perceber-se o que compunha cada receita e daí deduzir como eram feitas.

Em 1926 a autora dos registos acrescentou vários doces como: Bolo Finíssimo; Súplicas; Carícias de Dama; Paraísos; Raivas; Bolas de prata; Palitos e Casa Rica.

A partir de 1927 surgiram as Frituras de Camarão, que devem ter sido um sucesso porque saíam às dúzias.

Em Abril de 1928 terminam os registos abruptamente. Várias folhas por preencher mostram-nos que não terá sido por ter existido um novo livro. Cansaço quase ao fim de quatro anos de intensa actividade? A causa fica por esclarecer. Quanto às receitas basta olhar para as quantidades usadas e o número de exemplares obtidos com as mesmas para se compreender as receitas. Fica o mistério.