quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo

 É este o título do meu último livro. Baseando-me na vida de um dos nossos maiores escritores do século XX, fui buscar um lado menos conhecido da sua actividade. Descobri a sua obra na minha adolescência, comprando os seus livros proibidos, vendidos na Livraria Nacional, na Covilhã.

Mais tarde, em Lisboa, acompanhei a sua actividade jornalística como gastrónomo lendo religiosamente as suas críticas que recortava dos jornais e que guardei até aos dias de hoje.

Devo-lhe muito do que aprendi de culinária numa época em que estava a descobrir os novos pratos. Se hoje nos parece banal uma receita italiana ou uma referência a um restaurante chinês ou indiano, na época era completamente inovador.

Tive a sorte de mais tarde comprar num alfarrabista os seus cadernos dactilografados com apontamentos históricos em que se apoiava para escrever os seus artigos. Isso permitiu-me identificar muitos escritos da sua autoria não assinados.

Numa altura de perseguições políticas que o levaram à prisão, até estes escritos se apresentavam assinados com pseudónimos, de que identifiquei pelo menos catorze.

Um escritor que era um homem insinuante, de inteligência acutilante e de humor especial, talvez british, para descobrir ou reencontrar.

 O livro tem grafismo do nosso melhor gráfico português; o Jorge Silva, muito bem adaptado ao gosto da época e a edição é minha. Decidi tomar mais uma vez essa decisão e acho que não me vou arrepender.

Para quem quiser adquiri o livro em pré-venda com preço mais baixo contacte-me através do mail do blogue: garfadasonline@gmail.com.

 Posteriormente estará à venda em poucos sítios, como na Wook, Livraria Ferin e Vida Portuguesa. A maior parte das livrarias não aceita edições de autor.

Espero que gostem, eu acho-o uma beleza e estou muito orgulhosa.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Rainha Isabel II. Recordações portuguesas

Na data da morte da Rainha Isabel II de Inglaterra vieram-me há memória recordações antigas da sua visita a Portugal. Não que eu me recorde disso. Era muito pequena e não vivia em Lisboa.

A história é outra e tem a ver com uma compra que não fiz há muitos anos. Ia frequentemente à loja do Castanheira, que ficava perto do Largo de S. Roque, e que era a única que vendia Ephemera, memorabilia, coleccionismo e também livros e revistas. Ainda hoje não há mais nenhuma que a tenha substituído. Era um exemplo de organização e paciência para os pequenos papéis.

Ementa e programa de música do Palácio da Ajuda

Deve dizer que nunca me arrependi do que comprei, mesmo das más compras, mas sempre me arrependi do que não comprei e ficou na minha memória. 

À cabeça está uma torradeira em baquelite verde que não comprei em Lugano e um caderno com todas as revistas e notícias relativas à visita da rainha Isabel II a Portugal, à venda na loja do Castanheira. 

Ementa do almoço no Mosteiro de Alcobaça
Devia ter sido compilada por uma senhora que cuidadosamente a mandou encadernar e forrar com uma chita de flores, como eu tanto gosto. Não a comprei na altura porque achei o preço muito alto, mas fiquei sempre com pena.

Lista de convidados e ementa da recepção a bordo do Iate Britannia

De tal modo eu ao longo dos anos comecei a juntar tudo o que aparecia sobre essa visita. Daí resultou um espólio interessante que inclui as ementas, os convites, as revistas e jornais, os programas e até fotografias assinadas pela própria rainha.

Programa de música e ementa do jantar oferecido no Iate Britannia
Nunca pensei em fazer nada desses elementos mas hoje pensei que seria um bom momento para divulgar algumas imagens.

Program da recepção no Teatro de S. Carlos
Assim partilho imagens da sua chegada e recepção pelo general Craveiro Lopes, alguns menus de recepção, como o do Palácio da Ajuda, o que a rainha ofereceu a bordo do Iate Britannia, e o almoço que teve lugar no Mosteiro da Batalha e onde foram recordadas as palavras de Wiiliam Beckford, sobre o mesmo.

A visita incluiu também uma ida ao Teatro de S. Carlos e um encontro com Salazar que aprece sorridente na foto menos formal dessa vista.

É apenas um resumo dessa visita, uma homenagem a uma mulher extraordinária que soube assumir o seu papel com dedicação e profissionalismo, que é o que se espera de uma pessoa inteligente e honesta, em qualquer actividade. Não existem contos de fadas senão nos livros. 

terça-feira, 30 de agosto de 2022

As rendas de plástico

 

Há alguns anos publiquei uns postes em que apresentava peças em plástico que imitavam o vidro e chamei-lhes “plásticos pretensiosos”.

Hoje ao encontrar estes naperons e toalhas em plástico, não me ocorreu a mesma designação. Não sei porquê, mas imagino que quando surgiram devem ter feito um sucesso enorme e olho para estes exemplares mais antigos como os antecessores dos modernos plásticos.

É verdade que algumas pessoas ainda não conseguiram distinguir entre os plásticos descartáveis e os reutilizáveis, que continuam a ter uma função importante.

Neste caso alguns já estavam gomosos e outros apresentavam manchas. Qualquer outra pessoa agarrava neles e mandava-os para a reciclagem. E lá ia uma parte da evolução dos hábitos domésticos.

Eu lavei-os, restaurei os que tinham rasgos (como se fossem papel porque não conheço outra técnica), endireitei-os, coloquei-lhes pó de talco para se não colarem e separei-os com folhas de papel de seda. Depois meti-os num saco de plástico e vão ficar guardados à espera de melhores dias.

Talvez no futuro possam ser usados como exemplos da evolução dos hábitos domésticos. E as donas de casa mais antigas vão olhar para eles com um sorriso.

domingo, 21 de agosto de 2022

Rótulos de vinho

 


Escolhi este rótulo pela sua beleza simples, muito Estado Novo e muito minhoto.

O “Casal da Seara” que ainda hoje se vende, mas seguramente de outro produtor, era um vinho verde da freguesia de Louro (região demarcada), que pertence ao Município de Famalicão, distrito de Braga.

No início do séc. XVII (1607) o lugar de Casal da Seara aparecia já como uma propriedade foreira que fornecia vinho verde para abastecer a casa monástica do mosteiro de Santo Tirso.

No rótulo salienta-se o xaile minhoto franjado, encarnado, com flores amarelas e verdes e uma vinheta, que se repete no rótulo do gargalo com a palavra “Vencer” à volta de uma cruz. Não consegui informações sobre a data mas deve ser da década de 1940-50.

Não o provei, pelo que não posso dizer nada sobre o seu sabor, mas presumo que na época devia ser um vinho “Destalo”, como o aqui apresentado, neste rótulo da Companhia Velha.

sábado, 6 de agosto de 2022

A sardinha perfumada

 

Dentro de 3 anos faz um século que este pequeno jornal foi publicado. Trata-se de um suplemento infantil do Diário de Notícias que teve início em 1924. A revista Notícias Miudinho era assim anunciada: «É a revista infantil mais barata de Portugal. Lê-se de graça quem leia o DN».

Na primeira metade do século XX várias revistas publicavam suplementos infantis com grande sucesso. Foi o caso O Gafanhoto, com início em 1903, mas em 1921 apareceu o ABCzinho que se ficou a dever a Cottinelli Telmo. Ainda durante esta década surgiu o Pim-Pam-Pum, um suplemento infantil de O Século e as Notícias Miudinho de que apresentamos um exemplo, para além de várias outras, que ficaram muito famosas e que faziam a alegria das crianças.

Esta história de uma sardinha vaidosa que se perfuma só por ir ser servida na mesa de um Marquês, ao lado de outros peixes mais prestigiados.

Contada como uma história, começa por «Era uma vez..», o que nos remete logo para a nossa infância.

E a história é simples. Conclui a nossa sardinha que o que a prejudicava era o cheiro (como eu lhe dou razão). Assim sendo resolveu o problema perfumando-se, o que segundo ela «já lhe permitia ser recebida em qualquer mesa, …. rica de bens ou de nobreza».

Lemos esta história simples e sorrimos. E eu que me espanto sempre com a falar de graça das histórias humorísticas do século XIX, revejo-me aqui num tipo de humor diferente, de um século XX mais familiar.

terça-feira, 26 de julho de 2022

O mistério da Agenda Doméstica sem capa

 

Muitas das agendas domésticas antigas, mantém-se em branco, ou apenas com as primeiras páginas com registos, traduzindo uma vontade de organização que não se chegou a concretizar.

Apesar de serem interessante por si só, quer pelo grafismo, quer pelos conselhos dispersos ao longo das páginas, ou ainda pelas receitas que apresentam, são os apontamentos nelas registados que mais me entusiasmam.

Mas hoje o assunto é outro. Chamou-me à atenção a ausência de revestimento. Interroguei-me porque razão teriam arrancado a capa. Trata-se aqui da “Agenda Doméstica de 1976”, publicada pela Porto Editora e que tinha muitos apreciadores. A autoria era atribuída a Maria Raquel, um nome inventado e que, segundo os editores tanto o título como o pseudónimo «estavam legalmente registados».

Quando procurei identificar qual seria a capa daquele ano deparei-me com um livro de Francisco Seixas da Costa, intitulado Cidade Imaginária. Publicado em 2021 em Vila Real, é uma compilação de vários textos seus e entre eles, um intitulado “Agenda Doméstica”, escrito em 2013.

O autor, recordando tempos da sua infância analisava a preferência, em sua casa, pela edição da Porto Editora, em detrimento das outras da época, como a Agenda do Lar ou a editada pelo O Século. E embora esta se destinasse à sua mãe, como era habitual, mal chegava a casa era tomada pelas mãos do pai e do avó materno. Como resultado «o volume brochado era acaparado imediatamente após a compra» pelos elementos masculinos da casa. A razão para este procedimento impróprio, que não cedia aos protestos femininos, era apoderarem-se dos «12 problemas de palavras-cruzadas que a Agenda trazia».

Estes, não só eram dos mais difíceis que eram publicados em Portugal, como depois de resolvidos os problemas eram enviadas as soluções para a Editora que retribuía os esforçados charadistas com presentes como livros de culinária, dicionários, etc.


Afinal existia uma razão para este achado da “Agenda sem capa”.

 

terça-feira, 19 de julho de 2022

Das coisas simples – 01

 Quando se escreve num blogue com um nome como Garfadas online somos levados a pensar que devia escrever apenas sobre temática gastronómica.

Ao longo do tempo têm-me surgido outros assuntos sobre os quais me apetece falar e fui abrindo algumas rubricas. Embora o “Objecto mistério” seja o que desperta mais interesse, outras, como o “Museu virtual” permite-me ir mostrando algumas das peças interessantes que fazem parte da minha colecção e que, na impossibilidade material de fazer um museu real, vou mostrando.

Hoje, a propósito de um velho papel dobrado e rasgado, achei que devia abrir uma nova rubrica a que chamei “Das coisas simples”. Dou-lhe o nº 1 porque espero vir a falar sobre outros achados, igualmente sem importância, mas que, com o tempo, se revelam tão significativos.

A folha, dobrada em 12 partes, estava rasgada e em mau estado, pelo que tive primeiro que a restaurar. Devia conter no interior uma moeda, ou duas digamos. Não havia espaço para mais. O pai escreveu por fora o nome do filho: Raul. Identificado este orgulhosamente acrescentou: «O primeiro dinheiro que ganhou o meu filho Raul a dar conselhos. Dezembro de 1907. Bragança».

 Quem seria esta família? Que conselhos eram estes que rendiam dinheiro? Nada posso acrescentar. O resto fica a cargo da nossa imaginação.