Refiro-me às
lampreias de ovos que comemos pelo Natal, numa tradição relativamente recente, possivelmente
apenas presente nas grandes cidades. Em Lisboa é um hábito que tem mais de um
século. A Pastelaria Suíça, que sempre fez bons doces de ovos (que
saudades das trouxas de ovos), vendia-as também por esta época.
Já no século
XIX era um presente requintado, tal como hoje. Uma mesa de doces fica enriquecida
com esta decorativa iguaria e há quem a não dispense, a par dos chamados doces
tradicionais.
Acontece que
desde que escrevi o livro Rafael de Faca e Garfo nunca mais consegui
olhar para uma lampreia doce sem me lembrar da história contada por Rafael
Bordalo Pinheiro. Publicada em O Antonio Maria, em
30 de Dezembro de 1880,
em jeito de banda desenhada, Rafael conta-nos uma história de Natal
extraordinária, intitulada “A viagem de uma lampreia no país do compadrio. Scenas
do Natal.”
Esta lampreia é na realidade
uma lampreia de ovos comprada ao Cócó, isto é, na Confeitaria da rua
de S. Nicolau, que pertenceu à família Rosa Araújo.
A dita lampreia era descrita
como sendo feita de ovos de fio, dentes de cidrão, olhos de ginja e rabo de
compota de pêra. Esta iguaria começou por ser oferecida pelo Comendador
Possidónio ao professor de Belas Artes de seu filho, que por sua vez a foi
oferecer a outro e, assim sucessivamente, passando pelas mãos de cerca de uma
dúzia de pessoas, que se pretendiam influenciar. Pelo caminho, foi perdendo
alguns atributos, gulosamente saboreados, como um olho de ginja, depois o
outro, a pêra, etc., mas, em compensação, passou a ser embrulhada num
guardanapo, num lenço de seda e finalmente embelezada com fitas, para acabar por
fim como uma decoração de chapéu, feito pela chapeleira D. Cecília.

É com ele
que uma dama da sociedade vai à missa ao Loreto, passeia pelo Chiado, e vai à
noite ao Teatro D. Maria. No dia seguinte, a lampreia de ovos ainda foi vista
no Passeio Público, mas ao chegar a casa a dama, que se fazia acompanhar por um
jovem audaz, constata a ausência da mesma. O pretenso apaixonado havia comido
finalmente a lampreia do Cócó! Num remate atrevido, envia um bilhete para casa
da chapeleira, dizendo: “Gostei do chapéu. Aconselharia, que não carregassem
tanto no cidrão”.Foi ao comer um dos olhos da lampreia
deste Natal, uma meia cereja cristalizada, que o meu imaginário me levou para
as memórias Bordalianas. Nunca mais vou conseguir olhar para uma lampreia doce
sem me lembrar desta extensa e rocambolesca história.
Aqui ficam algumas imagens,
mas não posso deixar de recordar uma afirmação do Vasco Santana, no filme Canção
de Lisboa no papel de Vasquinho da Anatomia, onde dizia: “Chapéus há muitos…!”.
Neste caso “Lampreias há muitas!”