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segunda-feira, 17 de julho de 2023

As primeiras letras

 

Apresento aqui uma folha de um livro escolar As primeiras letras, que me atraiu pelo tema e que me fez descobrir o seu autor, na época, sobejamente conhecido.

Trata-se do professor Manuel António Janeiro Acabado, nascido na aldeia de Pias (Serpa), em Novembro de 1888. Foi um nome importante nas áreas da didáctica e da pedagogia, sobretudo aplicadas às primeiras letras, tendo criado um método que tomou o seu nome.

Ficou conhecido principalmente pela autoria de dezenas de manuais escolares (mais de 40), de que o ABC dos pequeninos é um deles, tal como o aqui apresentado. São todos muito interessantes e com um grafismo facilitador da leitura.

Fundou em 1956, em Beja, a Escola do Magistério Primário, de que foi director até à data da sua morte, em 1970.

ABC dos pequeninos
A minha homenagem a quem ensinou tanta gente a ler, num período de grande analfabetismo.

domingo, 12 de março de 2023

Five O'clock Tea

 

Não resisti a este pequeno livrinho publicitário da Omega, editado em 1912. O título, muito apelativo para este blogue, transforma-se na verdade numa história de fadas adaptada a uma realidade moderna que nos enfatiza a força da publicidade e nos afasta do tema.

O livreto publicitário intitulado Five O'clock Tea foi escrito em francês por Jean Richepin (1849-1926), um prolixo autor e ilustrado por Maurice Lalau (1881-1961), com um apuro estético belíssimo.   

Conta-nos uma história cujos protagonistas são a pequena Didi e o gnomo Exacto. Pelo meio entra a figura do médico de família que aconselha a avó da pequena Didi que, enfeitiçada pelos contos de fadas, as deseja ver. Queixando-se de que estas figuras só apareciam quando ela estava a dormir combinam um chá (five o' clock tea).


O médico fala-lhe no progresso e de como os gnomos as representam, em especial um gnomo novo que diz as horas exactas. Criando um ambiente feérico, com fumos e luzes, apresenta o coração do gnomo, um coração em metal. E a pequena Didi acreditava ver todos as personagens que povoavam os contos dos seus sonhos, no seu five o’clok tea, presentes à hora marcada.

Intervalando a história surgem folhas com imagens dos belos relógios e, no final, uma representação da fábrica Omega. Destinado a ser distribuído pelos vendedores da marca mostra-nos como a publicidade era abordada no início do século passado. Mais uma forma de vender sonhos, para crianças e adultos!

 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

As criadas

Esta publicidade, que não é fácil de interpretar tal o sentido humorístico da mesma, foi publicada na revista O Senhor Doutor, em 1937.

Na verdade esta revista é mais um jornal e foi publicada entre 1933 e 1944, isto é, em pleno Estado Novo. Sob a direcção de Carlos Ribeiro era um semanário para crianças e nele colaboraram muitos autores e ilustradores da época.

Neste caso o desenho é da autoria de Francisco Valença (1882-1962), um prolixo ilustrador e caricaturista português. Começou a sua actividade como director da revista O Chinelo, ao lado do humorista André Brun e participou depois em várias publicações como em O Gafanhoto, Ilustração Portuguesa, Diário de Notícias Ilustrado, O Comércio do Porto Ilustrado, e Sempre Fixe, entre outros.

Neste jornal O Senhor Doutor surge como um anúncio em que se mencionam as características de três tipos de criadas: a recém-chegada da província; a criada fina, lida e cinéfila, a mais cara e a e a criada fiel, confidente e fixe, a mais barata.

Na realidade esta criada para todo o serviço é um telefone, com o corpo esguio e o feitio usual na época, identificável por quem se lembra ainda destes modelos. E para se obter mais informações podiam-se pedir esclarecimentos à Companhia dos Telefones.

Já anteriormente falei na minha dificuldade em acompanhar o humor do século XIX. Neste caso devo dizer que, à primeira vista, pensei tratar-se de um verdadeiro anúncio a criadas, mas estranhei o endereço para dar informações. Isto leva-me a concluir que também a interpretação do humor início do século XX  nem sempre é fácil.

É isso que torna a História do quotidiano tão difícil. Temos que recuar no tempo e pensar como se estivéssemos no passado. 

sábado, 6 de agosto de 2022

A sardinha perfumada

 

Dentro de 3 anos faz um século que este pequeno jornal foi publicado. Trata-se de um suplemento infantil do Diário de Notícias que teve início em 1924. A revista Notícias Miudinho era assim anunciada: «É a revista infantil mais barata de Portugal. Lê-se de graça quem leia o DN».

Na primeira metade do século XX várias revistas publicavam suplementos infantis com grande sucesso. Foi o caso O Gafanhoto, com início em 1903, mas em 1921 apareceu o ABCzinho que se ficou a dever a Cottinelli Telmo. Ainda durante esta década surgiu o Pim-Pam-Pum, um suplemento infantil de O Século e as Notícias Miudinho de que apresentamos um exemplo, para além de várias outras, que ficaram muito famosas e que faziam a alegria das crianças.

Esta história de uma sardinha vaidosa que se perfuma só por ir ser servida na mesa de um Marquês, ao lado de outros peixes mais prestigiados.

Contada como uma história, começa por «Era uma vez..», o que nos remete logo para a nossa infância.

E a história é simples. Conclui a nossa sardinha que o que a prejudicava era o cheiro (como eu lhe dou razão). Assim sendo resolveu o problema perfumando-se, o que segundo ela «já lhe permitia ser recebida em qualquer mesa, …. rica de bens ou de nobreza».

Lemos esta história simples e sorrimos. E eu que me espanto sempre com a falar de graça das histórias humorísticas do século XIX, revejo-me aqui num tipo de humor diferente, de um século XX mais familiar.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Um fogão para bonecas, oferta de O Mosquito

 

O Mosquito foi um semanário infantil que começou em 1936. O director editorial foi Raúl Correia e o artístico Cardoso Lopes. Até 1942 manteve esta periodicidade semanal pelo que, apesar de não ter a data deste suplemento, Nº 229, penso que date de 1939.

Este tema é interessante por várias razões: em primeiro lugar mostra-nos que então nos lares portugueses predominavam ainda os fogões a lenha e em segundo como as meninas copiavam, nas suas brincadeiras, as acções das suas mães e reproduziam esses exemplos com as próprias bonecas.

Nestes suplementos podiam encontrar-se recortes com muitas tipologias de casas, de fábricas, etc. e que quase permitiam fazer um "Portugal dos Pequeninos", ainda em mais pequeno. Espero que gostem!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O Pote de Ouro

Podia colocar este pote como Objecto Mistério e, provavelmente, a maioria das pessoas não estabeleceria qualquer relação.
Pensava eu que era do conhecimento geral que em cada uma das extremidades do arco-íris se encontra um pote de ouro. Não que eu alguma vez o tenha encontrado: excepto este, claro. E se encontrasse os Leprechaun, ou os pequenos gnomos verdes, não me iam deixar trazê-lo.
Depois de falar com várias pessoas descobri que desconheciam a história. É verdade que se trata de uma lendas irlandesa, mais conhecida pelas sociedades de língua inglesa, mas como os livros infantis não tem pátria achei que todos conheciam a história.
Os leprechaun são uns pequenos seres que vivem nas florestas irlandesas. Vestem-se de verde com um grande chapéu e passam o dia a remendar sapatos. A sua principal função é proteger os potes de ouro que se encontram no fim do arco-íris, que os homens, sempre gananciosos, querem roubar.
Há imensos livros sobre o tema com histórias variadas destes seres mitológicos. Até encontrei um com uma capa que parece que nos diz qualquer coisa, a nós portugueses.
Pois o que desencadeou esta conversa foi este pote de plástico, repleto de moedas de escudo e centavos dos anos 60 e que era um mealheiro. Seguramente feito em Portugal, não está infelizmente identificado.
Agora que o plástico está ameaçado preservemos estes belos exemplares. Não vai haver outros!.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A mesa dos banquetes dos Irmãos Grimm

Os irmãos Grimm (Jacob e Guilherme) nasceram respectivamente em 1785 e 1786 na pequena cidade de Hanau, na Alemanha.
Foram os responsáveis pela recolha de inúmeras histórias de fadas que se tornaram populares e entraram no imaginário das crianças de todo o mundo. Compilaram contos tradicionais tornando famosas histórias como A Bela Adormecida, A Branca de Neve, o Capuchinho Vermelho, a Cinderela, O Pequeno Polegar e muitos outros.
1ª edição. Imagem tirada da internet.
Passaram a maior parte da sua vida em Kassel, trabalhando como linguistas e recolhendo as histórias maravilhosas que foram publicando. É por essa razão que existe um Museu em Kassel dedicado às suas obras, onde a minha amiga Conceição Montez tirou esta fotografia da mesa que me levou a este poste.
Todos os países tiveram inúmeras edições das suas histórias e mostro-lhes aqui um livro meu da Folio, lindíssimo como são todas as suas edições.

Em Portugal foram também publicados vários livros em Português e sobre isso foi feito um livro: «Os irmãos Grimm em Portugal» com coordenação e pesquisa de Manuela Rego e Luís Sá e textos de Luísa Ducla Soares, Maria Teresa Cortez e Rita Taborda Duarte. Feito em formato digital é uma edição conjunta do Museu Grimm em Kassel, (onde se encontra a mesa referida) e da BNP.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Natal em Portugal

 
Os meus votos de Feliz Natal deste ano são dados pela mãos de Laura Costa. Natural do Porto, onde estudou na Escola de Belas Artes, Laura Nogueira Costa (1910-1992), foi ilustradora de livros infantis e desenhou uma série de postais de Natal que foram publicados pelos CTT durante vários anos, na década de 1940. 
Como ilustradora infantil publicou na Editorial Infantil Majora, mas em muitas outras editoras como a Livraria Chardon de Lelo & Irmão, Livraria Lello, Livraria Chardon, Bertrand, Civilização, Empresa de Publicidade do Norte, Porto Editora e Figueirinhas, pelo menos, podendo encontrar-se mais de 150 registos só na Biblioteca Nacional. Em 1977 desenhou para a Oliva, num catálogo de oferta da máquina de costura, uma série de desenhos com trajes regionais, um tema que muito apreciava, e que utilizou em muitos dos seus desenhos.
As crianças que surgem nos postais de Natal, que podiam ser citadinas, apresentam-se muitas vezes com trajes minhotos remetendo para a zona norte do país onde viveu.
Mas aqui a surpresa é a utilização de um desenho seu para a capa de um disco de Natal de Shegundo Galarza, onde vai novamente buscar o seu gosto pelo desenho infantil por um lado e, por outro, pela ilustração etnográfica com crianças vestidas com fatos minhotos a fazerem rabanadas. Seguramente que para este gosto e conhecimento não seria indiferente a convivência com Fernando de Castro Pires de Lima (1908-1973), médico e etnólogo, de que foi ilustradora de vários livros infantis adaptados de histórias populares por este.
Shegundo Galarza (1924 – 2003), de origem espanhola, estreou-se em Portugal no Natal de 1948, no Casino Estoril onde actuou até Maio de 1950. Depois e até 1951 actuou nos restaurantes "A Choupana" e "Aquarium". Teve um percurso variado até Novembro de 1956, data em que abriu o restaurante Monaco (ver O restaurante Vela Azul em Caxias), onde se manteve durante 18 anos.
Este músico publicou discos com música de natal durante vários anos e foi-nos impossível saber a data exacta da publicação deste. Comparando contudo com outros discos, e cruzando as datas de actividade de Laura Costa, é possível que este álbum seja do início da carreira de Galarza, provavelmente dos primeiros anos de 1950.
O texto já vai demasiado longo e pretendia apenas deixar os votos de um Feliz Natal, de preferência adoçado com rabanadas.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Ilha dos Cozinheiros

Este livro infantil faz parte da colecção Manecas, o texto é de Henrique Marques Júnior (1881-1953) e os desenhos são da autoria do ilustrador José Félix (1908-1962). Foi publicado pela Romano Torres em 1939 e novamente em 1947.
O nome de Henrique Marques Júnior surge na Biblioteca Nacional em 226 registos, mas a grande maioria são traduções e adaptações. É possível que também este texto tenha sido uma adaptação dada a prevalência de nomes italianos das personagens. O pai do nosso herói, Cesaro, era o duque de San Severo que havia sido favorito do rei de Nápoles e sua irmã chamava-se Teresina.
A narrativa é muito interessante e mostra-nos Cesaro a sair de Itália para tentar ter êxito na vida a fim de evitar a entrada de sua irmã num convento, uma vez que após a morte de seu pai, em desgraça na corte, ficaram sem dinheiro.

A chegada a uma ilha diferente em que todos são cozinheiros e a própria rainha se chamava Marmita e se encontrava rodeada por uma corte com nomes de comestíveis e em que a moeda corrente eram filhós de ouro, introduz-nos num mundo mágico.
Ao apresentar-se à rainha, de forma adequada, não diz ter vindo de Nápoles mas da «Cidade do Macarrão». Esta afirmação levará a rainha que desconhece a massa a pedir-lhe para a executar.
Após grandes esforços consegue finalmente fazer um macarrão tão bom que a rainha o recompensa enchendo de presentes (filhós de ouro, preciosos tecidos e raros frutos) uma caravela para Cesaro poder partir com os seus acompanhantes. 
O nosso herói regressa rico a Nápoles, o que lhe permite adquirir o antigo palácio de seu pai, que oferece a sua irmã, juntamente com um dote para casar com o seu apaixonado.
Para si, que entretanto conseguira os mais elevados cargos, construiu um novo palácio a que deu o nome de «Palazzo Marmitoni» (Palácio dos Cozinheiros).
Uma história de encantar do tempo em que ainda havia cozinheiros. Hoje são todos chefes e deve ser por isso que se perdeu a magia e já não existem ilhas como esta.

domingo, 28 de junho de 2015

As festa populares no «Poema de Lisboa»

Augusto de Santa-Rita, nasceu em Lisboa em 1888 e aqui faleceu em 1956.
O livro «O Poema de Lisboa», edição da Câmara Municipal de Lisboa, é a sua última obra, publicada no ano da sua morte. Nele surge esta imagem que retrata as festas populares de Lisboa, com uma cena colorida e alegre que nos transporta para os bairros antigos da cidade.
Terminava com um livro para adultos, quem tanto colaborou, com sucesso, nos projectos de educação infantil propostos pelo Estado Novo.
Em 1920 publicou «O Mundo dos Meus Bonitos» com  ilustrações de Cotinelli Telmo. Em 1925 entrou para o jornal O Século, para director do suplemento infantil, Pim-Pam-Pum, que teve publicação semanal durante os 15 anos que se seguiram. Para além do pequeno jornal surgiu uma colecção de livros infantis intitulados  Biblioteca Pim-Pam-Pum, em que o próprio colaborou.

Refiro apenas o P Á-T Á-P Á, publicado em 1928, livro de poesias infantis, com ilustrações de Eduardo Malta e o CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, igualmente ilustrado por Eduardo Malta, dois livros belíssimos.

A estes seus interesses não seria alheia a amizade com Fernanda de Castro, cuja casa frequentava com outros autores e artistas da época.
Ao livro CÓ-CÓ-RÓ-CÓ, agora em exposição no Centro de Artes Culinárias, voltarei um dia.
Hoje ficamos pelo mundo dos crescidos com os dias de festas populares que se prolongam nos próximos dias.