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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Interior de ourivesaria no século XVII

 
Estou a preparar uma comunicação sobre saleiros que farei na Casa Museu Anastácio Gonçalves (CMAG) em Outubro. Ainda falta muito tempo mas aprendi que as comunicações se fazem pelo menos com um mês de antecedência e depois se fecham para só tornar a pegar nelas perto da altura da apresentação.
 
O título será «Saleiros: simbologia e funcionalidade» e o tema será o desenvolvimento deste assunto a propósito dos saleiros da CMAG. Quando nos debruçamos sobre um assunto descobrimos que não sabemos nada. Depois vamos, lentamente, construindo um puzzle. O resultado final, quando as peças se começam a encaixar é fantástico.
Para abrir um pouco o véu mostro-lhes esta pintura holandesa do final do século XVII, de autor desconhecido, em que a cliente, acompanhada de uma criança, escolhe um saleiro, no interior de uma ourivesaria.
Saleiros de prata do séc. XVIII. Alemanha
Na mão um exemplar coberto do tipo caixa circular, com pé, atrai as suas atenções. Um outro semelhante, ligeiramente mais alto e elaborado, encontra-se dentro de uma vitrina. A escolha contudo será feita entre o primeiro e o pequeno saleiro aberto, descrito como cilíndrico com as extremidades alargadas, que foi muito comum no século XVII, depois de 1630 e na primeira metade do século XVIII.
A peça que se encontra na extremidade do balcão poderia igualmente ser um saleiro, mas a suas dimensões, coloração (estamos numa ourivesaria) remetem-nos mais para uma caixa de pesos, em que alguns deles se encontram no exterior.

Em tempo de férias é uma forma de viajar até à Holanda do século XVII e entrar sorrateiramente numa pequena loja sombria. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Centro de Mesa Veyrat. Um bom filho à casa torna.

Centro de Mesa da baixela Veyrat- Foto Vasco Cunha Monteiro, Cabral Moncada Leilões
Para quem gosta da história da mesa a notícia não pode ser ignorada. A chegada ao Palácio Nacional da Ajuda do centro de mesa da baixela de prata Veyrat é como o regresso do filho pródigo a sua casa.
Agora novamente sobre a mesa da sala-de-jantar vem completar o conjunto de quase 300 peças da mesma proveniência, de que fazem parte várias peças de mesa, um faqueiro e um serviço de chá e café. Este conjunto, designado  “prata de casamento”, foi provavelmente oferta de Victor Emanuel II, rei de Itália, pai de D. Maria Pia, e terá sido trazido por esta para Portugal aquando do seu casamento com o rei D. Luís I, em 1862.
Sala de jantar do PNA (Foto AMP)
Se as restantes peças se mantiveram no Palácio, o centro-de-mesa, mais valioso, foi entregue ao Banco de Portugal em 1903, para pagamento de dívidas da rainha D. Maria Pia, e leiloado em 1912. Em mãos privadas até ao final de 2014, foi readquirido pelo Estado e pode agora ser visto sobre a mesa da sala de jantar.
Centro de mesa Veyrat (Foto AMP)
O centro de mesa, em prata, apresenta as Armas Reais de Portugal e Sabóia, e é formado por um conjunto de 5 meninos (“Putti”) que seguram grinaldas de flores, de onde se suspendem três cestos encanastrados,  onde eram colocadas taças de vidro. O conjunto assenta sobre um plateau recortado.  
A baixela, de que o serviço faz parte foi feita por Augustin Pierre Adolphe Veyrat, com loja localizada na Rue de Malte, 20 , em  Paris. Era filho de um outro ourives francês Jean Francois Veyrat, a quem se seguiu no negócio em 1840, altura em que registou a sua marca. Em 1849 a firma tomou a designação Veyrat Fils.  

Fotografia antiga de  Henrique Nunes
Este tipo de centro de mesa tem a designação de “épergne”, uma palavra sem tradução para português. A palavra usada em inglês “epergne” significa «economia» e teve anteriormente a forma mais inglesa de «aparn». É uma corruptela do francês “épargne”, uma alteração que terá surgido em meados do séc. XVIII. Na 4ª edição do Dictionnaire de L’Academie,  de 1762, diz-se que esta era a forma antiga para «Tesouro Real», onde se colocava a prata do rei. 
Épergne feito por Thomas Pitts, V &A Museum, séc. XVIII
Passou depois a designar uma peça ornamental que servia de centro de mesa da sala-de-jantar constituída por vários cestos ou taças, geralmente destacáveis (é o caso dos dois cestos laterais do centro Veyrat) e que serviam para colocar flores, frutos, bonbons ou  doces. Eram geralmente feitos em prata, bronze ou outro metal e apresentavam um número varíavel de taças em vidro. Estes conjuntos podiam ser ornamentados por figuras (casos dos putti na baixela Veyrat).
Para não me alongar sobre o centro de mesa chamo apenas à atenção para o pormenor interessante do menino sentado num balouço florido, debaixo do cesto central, peça que podia ser trocada por um globo de cristal com tampa perfurada em prata, onde se podia colocar um pequeno peixinho.
Pormenor do aquário do centro de mesa Veyrat (Foto AMP)
A evolução dos centros de mesa é um assunto muito interessante, muito do meu gosto, mas que não pode ser desenvolvida num blogue. Para quem quiser saber mais pode ir ouvir a Drª Cristina Correia Neiva no dia 21 de Março, às 11,30, no Palácio da Ajuda.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Objecto Mistério Nº 43. Resposta: Fonte de vinho

 
Talvez que a designação de «Fonte de vinho» não seja a mais apropriada por se prestar a confusões. Pareceu-me contudo mais adequada do que «Fonte para vinho» para traduzir a expressão «Wine fountain».
Na realidade trata-se de uma fonte com água no seu interior, destinada à lavagem dos copos durante uma refeição de cerimónia ou banquete, no século XVIII. 
Nessa época os copos nunca eram colocados sobre a mesa e era o criado ou copeiro que levava o copo com vinho, sobre uma salva, quando o conviva fazia sinal. Este, depois de beber o vinho simples ou com água, devolvia o copo ao criado. Como o número de copos era inferior ao número de convidados, e cada copo servia para várias pessoas, estes eram passados por água, para serem utilizados por outra pessoa.
Estas fontes são extremamente raras e o exemplar apresentado pertence ao Museu Victoria & Albert. É em prata e foi executada por Pierre Platel em 1713. Esta peça tem de altura 64 cm e pesa 12,8 Kg.
Platel foi um dos mais famosos ourives da sua época em Inglaterra. Foi o mestre do mais considerado ourives do século XVIII, Paul de Lamerie, francês huguenote que, tal como o seu mestre saíram de França para trabalhar em Inglaterra.

Esta fontes podiam fazer parte de um «serviço para servir vinho» constituído por um refrescador de grandes dimensões, em prata, colocado no chão, onde se introduziam as garrafas no gelo. Estes refrescadores faziam-se acompanhar por uma fonte do tipo da apresentada, que ficava colocada numa copeira e a que se associava uma cisterna semelhante ao refrescador mas de menores dimensões, destinada a receber a água de enxaguar os copos.

Apresenta-se um exemplo desse tipo de serviço para servir vinho da autoria de Anthony Nelme, datado de 1719-20. Foi feito para Thomas Parker, 1º conde de Macclesfield, Lord Chanceler de Inglaterra e apresenta as suas armas gravadas na prata.
Este tipo de fontes de vinho são diferentes das utilizadas como lavabos, para lavagem das mãos antes das refeições, embora o princípio seja o mesmo: um reservatório com torneira e uma taça para recolha da água. Igualmente do século XVIII são estas fontes em porcelana da China que fazem parte do espólio da Casa Museu Anastácio Gonçalves, que se apresentam como exemplos destes últimos. 
China, Dinastia Qing, Período Kangxi, CMAG,  invº 132-133
China, Dinastia Qing, Período Kangxi, CMAG, invº 182-183
Estes reservatórios de água são completamente diferentes, em forma e função, das «urnas para chá», bem como dos «samovares», utilizados para manter a água quente e de que falaremos noutra oportunidade. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Objecto Mistério Nº 43

Pela primeira vez o objecto mistério apresentado não pertence à minha colecção. Trata-se de um objecto existente num museu que, como compreendem, não posso nesta fase nomear.

Vou apresentá-lo amanhã na segunda sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas» que terá lugar na Casa Museu Anastácio Gonçalves.
 O curso cobre os séculos XVIII e XIX e constará de quatro sessões, que têm início às 18,30, às 5ª feiras.
Para quem lá estiver já sabe que vai ser apresentado este desafio e ficará a conhecer a sua resposta.
Os outros terão que esperar um pouco mais pela solução do mistério. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O licoreiro da Casa Museu Anastácio Gonçalves (CMAG)

Para os que não puderam estar na apresentação da minha última palestra na CMAG, e se interessam pelo tema, aqui ficam alguns apontamentos sobre o objecto em si.

O licoreiro foi adquirido em 1963 pelo Dr. Anastácio Gonçalves (1889-1965), médico e amante de arte, para a sua casa de habitação em Lisboa, que adquiriu a José Malhoa em 1932 e onde reuniu uma diversificada colecção. A casa, hoje transformada em casa-museu, foi projectada inicialmente por Norte Junior para casa de habitação e atelier de José Malhoa.
Fotografia retirada do site da CMAG
Foi o interesse do coleccionador que fez surgir em Portugal um licoreiro francês do início do século XIX (1810?), com características interessantes. Integra-se no que os franceses designam como «cabaret à liqueurs», uma expressão para a qual nós não temos tradução, ficando-nos pela palavra «licoreiro», que tanto pode designar a garrafa em si como o conjunto desta, com ou sem cálices, integrado numa estrutura.
O licoreiro de que falamos é em prata e foi executado por um ourives de Lille, Theodore-Frederic Hardy, que trabalhou nesta cidade nos finais do século XVIII e início do século XIX. Sabe-se que trabalhou também com Seraphin Delahaye, cerca de 1800, mas não consegui apurar mais nada (1).
É constituído por um prato circular com 4 pés circundado por uma galeria arrendada e tem uma coluna central encimada por um vaso em forma de urna que serve de pega. Sobre a base apoiam-se cinco cestinhos de prata arrendada onde se inserem os cinco frascos destinados a licor. Estes são em cristal lapidado em todo o corpo e apresentam ainda restos de dourado, que os enriqueciam.
O facto de serem cinco os frascos licoreiros é já de si raro, um vez que estes habitualmente se apresentavam em número par. Mandava a etiqueta que se oferecesse aos convidados uma variedade de licores, de forma a estes poderem escolher os seus preferidos e, este tipo de utensílio, facilitava a sua apresentação, com evidentes vantagens estéticas.
Gravura existente no Museu de Artes Decorativas, Paris.
Um outro aspecto interessante diz respeito à existência de argolas adossadas aos cestinhos, destinadas à colocação das tampas, igualmente em cristal, quando se pretendia usar os frascos. Esta opção, que encontramos frequentemente nos galheteiros, é muito mais rara nos licoreiros. Torna-se contudo compreensível se pensarmos que a sua concepção saía das mesmas mentes de ourives que idealizavam as duas peças .
É o que podemos constatar neste desenho de um galheteiro e de um licoreiro, feito por um ourives francês entre 1814 e 1830 e que se encontra no Museu de artes Decorativas em Paris.
Galheteiro de Claude Delanoy. Foto de Antique Store 
Ou num outro galheteiro da autoria de Claude Nicolas Delanoy, com punção de Paris de 1789, em prata, da época Luís XVI em que apresenta a base oval mas, tanto os cestinhos como a coluna, apresentam semelhanças evidentes com o licoreiro da CMAG.

Este exercício de análise de um simples objecto faz-nos ver como é necessário pensarmos mais demoradamente sobre as coisas para melhor as compreender.

(1) Para quem estiver interessado no tema existe um livro de N. Cartier, Les orfévres de Lille, 2 vol, publicado em 2007, a que não tive acesso e que pode fornecer informação adicional.
(2) As fotografias não identificadas são minhas, feitas com autorização da direcção da CMAG.