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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Encontro no Café Martinho

 

O Café Martinho foi um dos locais frequentado por Rafael Bordalo Pinheiro, tal como descrevi no meu último livro Rafael de Faca e Garfo.[1] Era um local famoso onde se podiam encontrar várias figuras importantes da época, como Almeida Garrett, Bulhão Pato, Júlio de Castilho, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, Guerra Junqueiro entre outros. Até Eça de Queirós, no livro A Relíquia nos relatou a sua importância.

A mesma ideia transmitiu também Rafael Bordalo Pinheiro, ao publicar em A Paródia de 5 Fevereiro de 1902 uma imagem de “Os três parlamentos” que eram, nem mais nem menos que São Bento, São Carlos e o São Martinho, numa referência humorística à influência das pessoas que se cruzavam nesses espaços.

Este café devia o nome ao facto de ter sido fundado por Martinho Bartolomeu Rodrigues, em 1846. Era considerado o mais importante café de Lisboa, situando-se no actual Largo D. João da Câmara (antigo Largo Camões). Inicialmente tinha uma grande sala com arcos, sendo as colunas revestidas com espelhos de Veneza.

Era conhecido pelas torradinhas feitas com pão de Meleças, o chá verde com limão e a neve. Bulhão Pato nas suas Memórias conta-nos que “as senhoras atravessavam até à sala interior, para tomarem neve n’uma estufa!».

Esta neve era proveniente de um depósito que o proprietário possuía, uma vez que era contratador oficial de fornecimento de gelo, pelo menos desde 1829. Fornecia também um outro local de comércio do mesmo proprietário, o Café da Arcada. Mais tarde, mudaria o seu nome ficando conhecido pelo actual “Martinho da Arcada”, situado numa esquina da Praça do Comércio.

Em 1905 entrou em obras o que gerou controvérsia e críticas. Mas apesar disso as imagens de 1910 mostram a sua beleza, ao gosto Art Nouveau.

Arquivo fotográfico da CML: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LSM/000820

Esta peça, que tive a sorte de adquirir há poucos dias, será da fase anterior ao período das obras. Trata-se de uma fruteira de pé, em porcelana branca com o nome deste café na taça e na base, onde se pode ler “Martinho” em dourado. 

A marca na base Limoges. WG & Co, indica-nos que foi feita em França por Wilhelm Guérin (1838-1912), natural de uma local perto de Limoges, que começou por alugar uma oficina, em 1836, em Limoges, onde produzia peças para exportação.

Marcas na base
Por volta de 1872, Guérin assumiu a direcção da oficina de porcelana de Lebron & Cie e, em 1877, comprou uma outra fábrica de porcelana na Rue du Petit-Tour, igualmente em Limoges. A fábrica desenvolveu-se e, em 1903, os dois filhos de Guérin, William e André, entraram empresa, de onde provém o “Co” da marca. Em 1911 esta empresa fundiu-se com a fábrica Pouyat, e tornou-se na Guérin & Cie.

Assim sendo, e para abreviar a história, podemos concluir que esta peça faria parte do serviço em utilização no Café Martinho, tendo sido adquirida antes das obras. Segundo um pormenor da fotografia existente no Arquivo fotográfico após a remodelação um serviço idêntico continuava  a ser usado, na sala de jantar. 

Pormenor da fotografia com um prato com cartela idêntica

Pode ver-se um prato sobre a mesa em porcelana branca como o desenho e a palavra Martinho, idêntica à da fruteira aqui mostrada.  Felizmente esta escapou e foi parar a boas mãos.



[1] Museu Bordalo Pinheiro. EGEAC. 2024: 17-21.

sábado, 14 de outubro de 2023

Bonecas recortadas


 Não consigo recordar-me se brinquei com bonecas de papel recortadas, o que torna pouco provável que tal tenha acontecido. Mas sei que os livros infantis com figuras de meninas e meninos, com os seus múltiplos fatinhos, que se cortavam laboriosamente com uma pequena tesoura e que permitiam depois, através de pequenas aletas, adaptá-las ao corpo das figuras, exerceram sempre sobre mim uma grande atracção. 
Figura recortada e aguarelada. Laço em papel

Fui-os juntando: os livros e as peças. Num dossier foram, a pouco e pouco, entrando as várias imagens. Na primeira metade do século XX usaram-se publicações próprias para esse fim, adaptadas ao gosto e modas de então.
Mas comecei a perceber que no século XIX, mesmo famílias abastadas, usavam bonecas recortadas de revistas ou modelos feitos de raiz. Usando modelos já conhecidos ou copiados de revistas eram desenhados a papel e os vestidos eram depois pintados, a lápis ou com aguarelas. 
Alguns vestidos, como os de baile, apresentavam mesmo purpurinas coladas. Num último achado, juntamente com as bonecas vinham amostras de papel de embrulho, que permitiam uma outra variante que era fazer os vestidos com os padrões desse papel. Nalguns casos serviam apenas de base, noutros, sobretudo nas cores mais claras, eram desenhados pormenores por cima. 
Mas o mais interessante foi encontrar papéis que tinham sido forros de envelopes de carta. Esses forros eram habitualmente muito discretos, mas ao mesmo tempo encantadores. Feitos de papel muito fino elevavam a categoria da correspondência, sendo usados em situações de maior cerimónia. Que tivessem sido reutilizados para fazer vestidos de bonecas, nunca tal me ocorrera. 
Em cima vestido feito com papel de embrulho e desenho aguarelado e picotado e em baixo vestidos feitos com forro de envelope de carta

 Gosto de descobrir coisas simples do passado, de imaginar a mãe a orientar a filha nesse trabalho, numa forma de reciclagem tão intuitiva. Era um tempo em que não existia a abundância de hoje, em que tudo se valorizava. Não se tratava de reciclar, apesar da expressão antes empregue, mas apenas de aproveitar o que havia ao dispor. Nesta sociedade de excesso de consumo ficam alguns exemplos que nos transportam para uma época com outras noções de brincadeira, de ocupação de tempo e de reutilização de materiais.

Papel de embrulho em cima e em baixo forros de envelopes.

sábado, 4 de setembro de 2021

Modelos de desenhos do séc. XIX


Estes modelos de desenhos, de origem alemã, do século XIX, fazem parte de um caderno em papel onde foram colados.

Agrupados dois a dois, preenchem várias folhas, a maioria com temática Arte-nova, mas também neoclássicos.

Foram pacientemente coligidos e guardados por alguém que os guardou como modelos, para utilização posterior nalgum projecto.

Pelo que percebi, graças ao meu amigo “Google tradutor”, destinavam-se a ser utilizados como pintura de painéis em salas de jantar ou afins ou, para outros trabalhos menores, como pinturas e menus.

Escolhi quatro modelos belíssimos que ficariam bem em qualquer sala, de preferência na sala de café para onde as pessoas depois de jantar se deslocavam, no século XIX, para continuar a conversação e beber café e licores.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O gastrónomo Charles Monselet

Charles Monselet. Paris Musées
Já anteriormente me havia cruzado com o nome de Charles Monselet (1825 – 1888), jornalista, poeta e romancista, mas sobretudo um escritor epicurista francês. Em 2010, a propósito de alguns livros portugueses, havia mencionado uma das suas obras: «La cuisine des familles» (ver poste), mas sem mencionar o seu nome.

Ao adquirir vários outros números do jornal referido vejo a sua imagem numa cartela associada às de Brillat-Savarin e de Alexandre Dumas Pai e interroguei-me como nunca o havia investigado.
O seu papel como escritor na área da gastronomia valeu-lhe na época o nome de «Rei dos Gastrónomos»[1]. Foi, juntamente com Grimod de la Reynière, o Barão Brisse e Joseph Favre, um dos primeiros jornalistas franceses de gastronomia.
Como escritor tem uma vasta lista de publicações mas centrem-nos apenas nas que dizem respeito às áreas da culinária e da gastronomia. Publicou entre outros:
·     La Cuisinière poétique, 1859, com outros autores
·      Almanach des gourmands, 1862-1870, 6 vol.
·     Teofilo Barla, cuisinier de la Maison de Savoie: à propos de sa vie et de sa mort, Paris, 1873.
·      Gastronomie. Récits de table, 1874.
·       Lettres gourmandes. Manuel de l’homme à table.1877.
  Prefaciou a obra de Joseph Favre, Dictionnaire universel de cuisine et d'hygiène alimentaire : modification de l'homme par l'alimentation. 1889-91.
Prefaciou igualmente a obra de Brillat Savarin. Physiologie du goût. 1879.
No que respeita a periódicos fundou o Le Gourmet: journal des intérêts gastronomiques, em 1858, que publicava receitas detalhadas a par de comentários gastronómicos.
Colaborou no já referido La Cuisine des Familles. Recueil hebdomadaire de Recettes d'Actualité très clairement expliquée, très faciles à exécuter (de 1905 a 1908), onde surge a foto que despertou a minha curiosidade. Este jornal era dirigido por Mme Jeanne Savarin (1854-1907), um nome feminino a justificar uma divulgação do tema também junto das donas de casa.
Foi com surpresa que descobri que se tratava de um pseudónimo de Gabriel-Antoine Jogand-Pagès, jornalista anticlerical e antimaçónico, que usou muitos outros pseudónimos, adaptando-os ao tipo de escrita.
Foi com este nome femenino que publicou vários livros de receitas como:
  • La bonne cuisine dans la famille. Recettes choisies. 1905.
  • L'art de bien acheter. 1904.
  • Guide de la ménagère pour tous ses achats journaliers. 
Madame Jeanne Savarin a preparar a Bomba Tiara Persa
Afinal não foi apenas Monselet que descobri. A falsa Mme Jeanne, que chegou a ser descrita como filha de Jean-Anthelme Brillat-Savarin,  veio como prémio adicional. È que para além do nome chegou a ter uma pretensa imagem física, divulgada nas suas obras.


[1] Mais tarde, em 1927, Curnosky seria apelidado de «Príncipe dos Gastrónomos».

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O Grand Hotel Continental em Lisboa

Este hotel situava-se no Largo de S. Domingos 14, no palácio Regaleira. O edifício, construído no século XVIII, pertenceu durante mais de um século aos barões da Regaleira. Foi herdado por D. Ermelinda Allen (1768-1858), família de origem britânica estabelecida no Porto, que casou em 1791 com José Monteiro Almeida de quem tomou o nome. Em 1840 receberia o título de baronesa da Regaleira.
Escadaria do Palácio Regaleira. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Com uma vida social intensa recebia e dava festas na sua casa de Lisboa, vivência que repartia por outros locais como o palácio do Beau-Séjour, uma residencia de veraneio ou a Quinta da Regaleira em Sintra, entre outros. Foi sua herdeira a sobrinha Maria Isabel Allen, 2ª baronesa da Regaleira (1808- 1889) que casou com João Carlos de Morais Palmeiro e que viria a efetuar a venda destas propriedades progressivamente. Em 1898 seria a vez do palácio da Regaleira em Lisboa.
Largo de S. Domingos, 1968. Foto de Armando Serôdio. Arquivo Municipal de Lisboa
O edifício foi ocupado por vários estabelecimentos comerciais como uma vacaria e foi nele que se instalou também, no final do século XIX, o Grande Hotel Continental. Já aí existia em 1892 e continuava em funcionamento no final de 1897, não me tendo sido possível determinar com exactidão a data de encerramento. 
Era seu proprietário Manuel Gonçalves que se orgulhava, na publicidade ao hotel, da sua situação central junto ao Rossio e perto da estação de caminhos de ferro. Anunciava também que desde sempre existiam no hotel filtros Chamberland. Este “sempre” referia-se seguramente ao início do hotel uma vez que o filtro de porcelana Pasteur-Chamberland, fora inventado por Charles Chamberland em 1884. Destinava-se à purificação da água, eliminando bactérias, preocupação muito moderna na época.
Foto tirada da internet
O Grande Hotel Continental tinha um restaurante onde eram servidas refeições e cujos menus eram publicitados no jornal Diário Illustrado. Analisaram-se as ementas de 1892, 1894, 1896 e 1897 de que se apresentam como exemplos os menus de 7 de julho de 1892 e o de 29 de Março de 1896. Eram constituídos por potage, sendo a mais habitual a de crevettes e a canja de galinha. Seguiam-se os hors d’oeuvre com petits pâtes à la parisienne ou outros; o relevé com peixe em filetes ou outro; a entrée com fricandeau de veau ou lombo à jardineira; nos legumes eram servidos espargos, ervilhas ou favas; no rôti era frequente o peru assado. Seguiam-se depois os entremets e o dessert, onde surgiam os gelados e os choux variados.
As ementas eram quase sempre escritas em francês, como então eram moda, mas encontraram-se alguns pratos em português ou num misto das duas línguas ou ainda com palavras francesas aportuguesadas.
Os almoços, a primeira refeição do dia, eram servidos entre as 9 e as 12 horas e custavam 500 réis. Quanto aos jantares, eram servidos entre as 4 e as 8 horas e custavam 600 réis, incluindo meia garrafa de vinho e café. O restaurante possuía também gabinetes onde podiam ser servidos os jantares por 800 réis. Quanto aos aposentos o seu preço diário situava-se nos 1000 réis e acima e aceitavam também pensionistas.
É provável que o hotel já não funcionasse em 1901. Aí se alojou em 1902, o Liceu Nacional de Lisboa, que viria a dar a actual Escola Secundária de Camões, que chegou a partilhar o edifício com uma vacaria e uma loja de mobílias. O projecto de uma nova construção para o Liceu, por Ventura Terra, em 1907, levou à mudança do estabelecimento de ensino deste local.  Mais tarde aí esteve também em funcionamento um teatro (Teatro Rocio Palace).
Interior do Regaleira Club. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Nos anos 20, no mesmo local, funcionou o Regaleira Club que tinha igualmente serviço de restaurante que começava às 19 horas e que era acompanhado de variedades e musica de Jazz-bands. A partir das 20 horas podia ouvir-se musica tocada por um quinteto dirigido pelo violinista F. Remartinez. Foi um dos mais famosos clubes de Lisboa com uma grande beleza interior documentada em fotografias da época
Desde Maio de 1939 aí funciona a ordem dos advogados que recuperou o edifício.
Pelos escritos que foram consultados deduzo que existia um total desconhecimento deste hotel, havendo apenas referência no local ao Regaleira Club, pelo que achei importante, dá-lo a conhecer.
Bibliografia: 
- ABC , 7 de Junho de 1921.
- Vaz, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa, Tese de mestrado, 2008.
- Teixeira, Manuel Domingos Moura, Mundanismo, transgressão e boémia em Lisboa dos anos 20 – o club nocturno como paradigma, Tese de licenciatura, Universidade Lusófona, 2012.
- Diario Illustrado, 1892- 1900.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas»

Aproxima-se a última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas» que terá lugar na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves. 
Esta semana terá lugar na 6ª feira (e não na 5ª feira como anteriormente), dia 21 de Outubro, às 18,30 horas e incidirá sobre o século XIX.
Serão analisadas as consequências sociais da ascenção da classe burguesa que utilizava a mesa como prova da sua riqueza e poder.
Baixela Victoria, desenho de Domingos Sequeira, oferecida ao Duque de Wellington
Veremos as principais alterações que ocorreram na mesa nesta época e como o «serviço à russa» introduziu modificações nas baixelas, nos centros de mesa, nos serviços de copos e talheres, etc.  Falaremos nas cozinhas e nas salas-de-jantar, entre outros temas. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Resposta ao Objecto Mistério Nº5: Base para espargos

O objecto mistério faz parte de um conjunto de prato para espargos.
Nesta base ou berço eram colocados os espargos, de forma a libertarem alguma água que sempre deles escorre.

O prato inferior que apresento não faz parte do conjunto, mas infelizmente já não consegui adquirir a travessa que o devia acompanhar.

Este é uma versão moderna da Fábrica Bordalo Pinheiro, que se extinguiu no mês passado, para desgosto de todos os verdadeiros portugueses.

Apresento um outro modelo em que o princípio é semelhante, isto é, tem um tabuleiro superior para colocar os espargos.
A maior parte dos pratos, porém, são circulares e caracterizam-se por terem saliências, que permitem separar os espargos dos molhos, que habitualmente os acompanham. Alguns têm orifícios numa placa central amovível, que permite também escorrer a água.













Os modelos são imensos e há coleccionadores apenas destes pratos, em especial em França.

Durante o século XIX os espargos estiveram muito na moda, pelo que a maioria dos pratos são dessa época. Mas existem outros, mais rústicos, em faiança, do século XVIII, que também têm muita procura.
São todos interessantíssimos e eu morro de inveja pelos vários modelos que gostaria de ter e não tenho. Agora os invejosos vão ser mais.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Objecto Mistério Nº 5


O objecto mistério de hoje é um utensílio de mesa.

Foi sobretudo utilizado no século XIX.

Podem apresentar-se em prata, em Christofle ou em qualquer outro metal.

O que se apresenta na foto mede 20 cm entre as extremidades das duas hastes.

É utilizado com um prato próprio inferior, demasiado óbvio da sua utilização, razão porque não o apresento.

Aceitam-se sugestões.