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terça-feira, 30 de junho de 2026

Receitas para quê?

Quando vi, pela primeira vez, este livro de despesas, pensei que era uma pena não ter as receitas originais. Depois comecei a ver os registos com atenção e percebi que estava lá tudo. Embora não esteja identificado estava junto com papéis de uma família do Estoril, sendo provável que quem escreveu estes apontamentos fosse uma senhora chamada Baldomera, cujo marido foi proprietário de uma loja de modas na Baixa, chamada Casa Paris.

Viviam numa vivenda e seguramente que não eram pessoas necessitadas que precisassem de fazer pastéis para fora para venda. Eram outros tempos e eu própria conheço outros exemplos de pessoas que, no início do século XX fizeram o mesmo. Era uma forma de a mulher ajudar ao pecúlio da família e, tendo conhecimento e gosto, dedicavam-se a estas vendas particulares, numa altura em que este tipo de comércio era incipiente.

Como é evidente, eram sempre boas cozinheiras ou doceiras. Tenho outros livros e papéis soltos do mesmo género. O que não tenho são as receitas originais que eram tão familiares a quem as fazia que já não era necessário recorrer ao seu registo.

Neste caso, para o registo das Despesas, nome atribuído ao livrinho, foi usado um caderno comercial que tinha no rótulo a data de 1907. As primeiras folhas foram arrancadas e a data mudada para 1925, embora os primeiros registos digam respeito a Dezembro de 1924.

Nos primeiros tempos faziam sobretudo Empadas de galinha, Azevias e Nogados. De cada vez eram feitas 3 ou 4 dúzias de cada e as despesas totais eram registadas ao pormenor. De tal modo que ficamos a saber o peso da galinha, as quantidades de cada elemento e até o preço do papel para as embrulhar. Deste modo pode perceber-se o que compunha cada receita e daí deduzir como eram feitas.

Em 1926 a autora dos registos acrescentou vários doces como: Bolo Finíssimo; Súplicas; Carícias de Dama; Paraísos; Raivas; Bolas de prata; Palitos e Casa Rica.

A partir de 1927 surgiram as Frituras de Camarão, que devem ter sido um sucesso porque saíam às dúzias.

Em Abril de 1928 terminam os registos abruptamente. Várias folhas por preencher mostram-nos que não terá sido por ter existido um novo livro. Cansaço quase ao fim de quatro anos de intensa actividade? A causa fica por esclarecer. Quanto às receitas basta olhar para as quantidades usadas e o número de exemplares obtidos com as mesmas para se compreender as receitas. Fica o mistério.

 

 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Separadores de pratos

Confesso que nunca tinha visto separadores de pratos feitos especialmente para esse fim. Em tecido branco, de piqué de um lado e feltrado do outro, ou com belos tecidos coloridos, todos se apresentam orlados. Mais frequentemente com fita de seda, por vezes com gorgorão, ou mesmo com franja.

Outros modelos são duplos, abertos num dos lados, e com fitas que permitem acondicionar no seu interior um prato especial que se quer proteger. Embora a maioria sejam circulares, existem também ovais para travessas.

Hoje em dia as pessoas colocam, de forma prática, folhas de rolos de papel de cozinha para separar os pratos que se desejam empilhar. Funciona, mas não corresponde ao mesmo efeito protector. Podem também encontrar-se, em raras lojas, protectores em feltro, mas não têm a beleza destes exemplares.

Datados alguns do final do século XIX e outros do início do século XX, são espelho de um requinte e cuidado de protecção de pratos de qualidade.

Para mim, foi uma descoberta e um encantamento pelas coisas simples, cuidadas. Sempre a aprender!



 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O fogão norueguês

 

Quando há dois dias o José Daniel falou na marmita norueguesa, a propósito de uma notícia publicada em O Universo Ilustrado, de 1880, tinha acabado de me chegar às mãos um folheto com receitas para a mesma. Achei que já tinha falado sobre o tema, o que é verdade, mas com o nome de “fogão norueguês”. Ver aqui no blogue 👈

Já tinha vontade de falar neste tema desde que o o italiano Giorgio Parisi, Prémio Nobel de Física de 2021, defendeu que cozinhar a massa com o fogão desligado, depois da água ferver, permite consumir menos energia. O cientista da Universidade Sapienza, de Roma, calculava que "pelo menos oito minutos de consumo de energia" eram economizados com este método. Nada de novo, uma vez que algum tempo antes a associação Unione Italiana Food, que representa os fabricantes de massas, argumentou que manter a tampa na panela durante a fase de fervura acelerava o processo de cozedura e permitia poupar "até 6% de energia e emissões de CO2". Isto é, desligar o fogo após dois minutos de fervura, deixando a tampa, economiza energia e emissões de CO2 que podem chegar a 47%. Claro que estas noções desagradaram a chefes de cozinha. Antonello Colonna, italiano, detentor de uma estrela Michelin, disse que o método tornaria a massa borrachuda.

Já experimentei com o esparguete e não ficou mal. Mas para o arroz e outros cozinhados é perfeito. A minha técnica, sem fogão norueguês, consiste em deixar ferver o alimento alguns minutos no máximo e depois de ligeiramente cozido, retiro, coloco dentro da caixa do microondas (apagado), com tampa, e uma protecção de cortiça por baixo e tapo com uma mantinha, que reservei para o efeito.  Fica perfeito.

É interessante que este tipo de cozimento, tenha sido dado a conhecer no final, do século XIX, tenha tido grande divulgação durante a guerra (este folheto é dessa altura) e passado todo este tempo voltamos a ter preocupações energéticas, não por necessidade absoluta, mas por consciência. O que parecia um retrocesso é na realidade um grande avanço.

terça-feira, 26 de julho de 2022

O mistério da Agenda Doméstica sem capa

 

Muitas das agendas domésticas antigas, mantém-se em branco, ou apenas com as primeiras páginas com registos, traduzindo uma vontade de organização que não se chegou a concretizar.

Apesar de serem interessante por si só, quer pelo grafismo, quer pelos conselhos dispersos ao longo das páginas, ou ainda pelas receitas que apresentam, são os apontamentos nelas registados que mais me entusiasmam.

Mas hoje o assunto é outro. Chamou-me à atenção a ausência de revestimento. Interroguei-me porque razão teriam arrancado a capa. Trata-se aqui da “Agenda Doméstica de 1976”, publicada pela Porto Editora e que tinha muitos apreciadores. A autoria era atribuída a Maria Raquel, um nome inventado e que, segundo os editores tanto o título como o pseudónimo «estavam legalmente registados».

Quando procurei identificar qual seria a capa daquele ano deparei-me com um livro de Francisco Seixas da Costa, intitulado Cidade Imaginária. Publicado em 2021 em Vila Real, é uma compilação de vários textos seus e entre eles, um intitulado “Agenda Doméstica”, escrito em 2013.

O autor, recordando tempos da sua infância analisava a preferência, em sua casa, pela edição da Porto Editora, em detrimento das outras da época, como a Agenda do Lar ou a editada pelo O Século. E embora esta se destinasse à sua mãe, como era habitual, mal chegava a casa era tomada pelas mãos do pai e do avó materno. Como resultado «o volume brochado era acaparado imediatamente após a compra» pelos elementos masculinos da casa. A razão para este procedimento impróprio, que não cedia aos protestos femininos, era apoderarem-se dos «12 problemas de palavras-cruzadas que a Agenda trazia».

Estes, não só eram dos mais difíceis que eram publicados em Portugal, como depois de resolvidos os problemas eram enviadas as soluções para a Editora que retribuía os esforçados charadistas com presentes como livros de culinária, dicionários, etc.


Afinal existia uma razão para este achado da “Agenda sem capa”.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O livro «Le Menagier de Paris»

Falar deste livro num poste é demasiado ambicioso, como veremos. Contudo, não resisti a mostrar a beleza desta minha última aquisição.
O manuscrito foi escrito entre 1392-1394 e só foi publicado em 1846 pelo Barão Jérôme Pichon em 1846. Adquirido por este num alfarrabista viria a detectar a existência de dois outros manuscritos, um da primeira metade do século XV e outro na Biblioteca da Bélgica, que poderá ter pertencido aos Duques de Borgonha.
Publicado pela primeira vez pela Société des Bibliophiles François o livro tinha como subtítulo «Tratado de moral e economia doméstica composto cerca de 1393, por um parisiense burguês. Contendo preceitos morais, alguns factos históricos, instruções sobre a arte de administrar uma casa, informações sobre o consumo do rei, dos príncipes e da cidade de Paris, no final do século XIV, conselhos sobre jardinagem e a escolha dos cavalos; um tratado de culinária muito extenso e outro não menos completo sobre a caça ao falcão».
A edição de Pichon foi limitada a 324 cópias, tendo-se tornado muito rara. Mas teve várias reedições posteriores até aos dias de hoje.
Em 1981 a Oxford University Press publicou uma nova versão, trabalho de mais de 20 anos de Georgine Brereton, professora no St. Hilda’s Colllege, que uma morte precoce não permitiu completar, o que foi feito por Janet M. Ferrier. Adquiri este livro há alguns anos mas nuca me debrucei sobre ele, apesar da sua utilidade e rigor, como constato agora.
Há pouco tempo vi uma outra edição à venda a que não resisti. Apresenta apenas uma versão parcial do texto, com dois textos introdutórios, um dos quais sobre a cidade de Paris no século XIV, acompanhado por um plano da cidade de grandes dimensões desdobrável.
É que o autor do manuscrito era um burguês parisiense abastado, que havia casado com uma jovem de 15 anos a quem era necessário ensinar as regras de respeito para com o seu marido, mas também os conhecimentos que tornariam a sua casa organizada e honrada. É isso que justifica no livro temas tão vastos como noções de moral, a par de jardinagem, culinária, etc.
Esta edição, patrocinada pelo Credit Lyonnais, em 1961, para alguns dos seus clientes, apresenta-se dentro de uma caixa forrada de tapeçaria, considerada uma forma de expressão da Idade Média e cuja imagem traduz o caracter ”doméstico” da obra, como explicam.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O Concurso Lépine de 1927

Guarda queijo Camambert rotativo
Ainda hoje existe o Concurso Lépine, um concurso para invenções que teve a sua origem em França em 1901, no Parque de Exposições, em Paris. No início designava-se «Exposição de brinquedos e artigos de Paris» mas mais tarde e, fazendo jus ao gosto francês de pôr nomes pessoais em tudo, tomou o nome do seu fundador Louis Lépine (1846-1933).
Guarda Camambert para impedir o queijo de escorrer
Ficou célebre por aí terem sido apresentados um aspirador em 1907, um passador de legumes manual a partir do qual a empresa Moulinex se desenvolveu, a primeira esferográfica, o ferro de passar a vapor (1921), etc.
Centrifugador de salada
As décadas de 1920 e 1930 foram de grande desenvolvimento das Artes Domésticas pelo que não admira que tenham sido apresentados em 1927  tantas novidades ligadas à casa.
Protege garrafas metálico
Aqui deixo alguns exemplos que, vistos agora à distância, não deixam de ter graça.
Suporte para panos de cozinha

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Varinas em Arte Aplicada

 
Este modelo de varinas, carregando a sua canastra de peixe à cabeça, foi publicado na revista «Lavores e Arte Aplicada», em 1946. Estas figuras populares, que haviam chegado à capital em meados do século XIX, vindas das regiões de Ovar e terras próximas, inspiravam simpatia nos lisboetas e a sua imagem disseminou-se até em toalhas e panos de cozinha.
Esta publicação de lavores, como então se designavam este trabalhos manuais, tinha uma periodicidade mensal e apresentava desenhos para bordados e arte aplicada em pano e teve o seu início em 1945 tendo sido editada até 1962.
Era sua directora Laura Santos Catita e, tanto a redacção como a administração, a cargo de Jerónimo Pinteus de Sousa, ficavam à época sediados na Rua do Jardim do Tabaco, 33, 1º andar, em Lisboa.

Laura Santos Catita, que havia começado a trabalhar numa pequena tabacaria em Alvalade, seria mais tarde conhecida apenas por «Laura Santos». Juntamente com Mariália Marques publicou em 1955 a revista «Actualidades femininas: grande revista mensal para a mulher e para o lar» que teve apenas dois números, em 1952.  
A sua obra mais conhecida seria contudo «O mestre cozinheiro» que começou por ser vendido em fascículos na década de 1950 e que teve múltiplas reedições já na forma de livro. A este se seguiu «A Mulher na Sala e na Cozinha», «Culinária Prática», «Livro de Ouro da Doçaria Tradicional», «Arte Culinária Portuguesa», entre outros.
Tanto a autora como a editora destinavam as suas edições a uma dona-de-casa burguesa, com conselhos de economia doméstica e orientação de jovens para o casamento.
Apesar de à época ter tido grande divulgação, devo dizer que nunca me entusiasmaram os seus livros, talvez pela conotação pequeno burguesa e pela simplicidade dos textos, demasiado tradicionalistas e conservadores, em que o papel da mulher se remetia apenas à casa e à cozinha. 
Descubro agora, com surpresa, que a editora foi reactivada (agora MEL editores) e que os seus livros tornaram a ser reeditados.

O tempo tudo apaga e o nosso olhar interpretativo é agora saudosista.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Fábrica de Produtos Coração

A Fábrica de Produtos Coração foi instalada no Porto em 1928, por Albrecht Löbe. As escolhas do nome «Coração», bem como da insígnia com um coração trespassado por uma seta, feitas por este cidadão alemão, atribuem-se ao facto de se ter apaixonado em Portugal. Se este facto é verdadeiro é agora difícil comprová-lo mas fica sempre bem no início de uma história.
Embalagem do período de Alberto Guimarães
Sem qualquer fundamento, não posso deixar de pensar que Löbe de algum modo poderá ter conhecido, ou trabalhado com estes produtos destinados ao lar, em Berlim, onde então estava em actividade  a firma Solarine Gessellechaft Meyers, registada em Portugal desde 1906. Mas sob este tema falarei mais tarde.
O que se sabe é que Albrecht Löbe se interessava por produtos dedicados à limpeza doméstica e já em 1929 tinha registado em Portugal o pó para facas «Luis de Camões», embora só em 1930 registasse a marca Coração. 
Encontrava-se nessa altura estabelecido no Porto na Travessa da Fábrica, nº 46 e a insígnia da marca seria o belo coração encarnado sangrante trespassado por uma seta que iria iluminar as suas latas de limpa metais.
 E o mesmo se passaria com as latas de pó «Trigo Rato» que igualmente se apresentavam nas cores verde e vermelha. Nesse mesmo ano registou também um insecticida denominado «Durma Bem» acompanhado por um cartaz publicitário que seria eficaz para a época mas que  hoje consideraríamos pouco ecológico.
Postal da Edições 19 de Abril
Em 1933 Albrecht fez o registo do nome da «Fábrica de produtos Coração» que então se situava na Travessa da França, nº 229, no Porto (antiga designação da rua D. António Barroso). Em 1935 registou uma marca de tinta para tecidos chamada «Papagaio».
Em 1938, a fábrica passou a ser gerida pela empresa Albrecht Löbe & Companhia e, a partir de 1945, em nome individual por Alberto Guimarães.
Nos anos 50 esta fábrica, nas mãos de Alberto Guimarães, encontrava-se no Porto na Rua de D. António Barroso nº 229 onde se manteve até quase aos anos 80. São deste período as facturas apresentadas e pelas quais ficamos a saber que tinha um representante em Lisboa: «Ernesto Brochado» na Rua dos Fanqueiros, 196, 2º.
Depois desta data foi feita uma cedência de quotas a Antonio Queiroga que passou a fábrica para Braga onde se manteve até 2012, data da insolvência desta firma.

Tendo o registo da marca «Limpa Metais Coração» ficado caduco registou-se como seu titular, em 2008, Paulo José Carvalho dos Santos, que em 2011, com novo sócio, constituiu a empresa «Solarine Coração», em Braga, perto do local da anterior fábrica (1).
Embalagem actual
  Manteve-se assim a produção deste conhecido limpa metais de atractivas embalagens que nos remetem para o imaginário nacional.
(1) Informações sobre a actualidade fornecidas pelo próprio.