Acabado de nascer!
Tudo começou com uma factura bonita mas que se veio a revelar, para além disso, muito informativa.
Vejamos
em primeiro lugar o que nos diz essa factura. A proprietária Maria Nogueira
Caruncha é identificada no cimo do cabeçalho, mas a existência deste
estabelecimento era antiga: a casa fora fundada em 1785. Em 1903, de acordo com
o mesmo documento, situava-se na Rua de S. Lázaro, 397-391 e tinha uma filial
na Rua de Cima de Vila, 86-88, no Porto.
A
mesma anunciava que vendia: ”Pão fino especial, bolacha e biscoito”.
E devia ser de qualidade porque não era qualquer um que aí comprava. Esta factura enunciava a venda de pães de todo o mês de Dezembro de 1903, de 382 pães vendidos ao sr. J. Pinto Leite. Francisco Queiroz publicou um artigo na revista O tripeiro[1] intitulado “Os Pinto Leite. Uma família influente no Porto Romântico” em que falava sobre o seu papel como negociantes no Brasil, no Porto, em Lisboa e em Inglaterra. Eram vários irmãos e o mais velho, Joaquim, foi quem mandou construir no Porto uma das casas mais importantes da arquitectura do século XIX: a Casa do Campo Pequeno.
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| Palacete Pinto Leite no Porto |
Nesta
data não sei se a Maria Caruncha era viva mas num anúncio publicado em 1881 no
jornal O indicador[2]
à antiga Padaria da Caruncha surge o nome de João Marques Pereira. Este meu
homónimo nalguns locais vem designado como “Caruncho”, não nos tendo sido
possível perceber se adquiriu este nome por filiação ou se por ter adquirido a
padaria com esse nome, tomando a alcunha de empréstimo. 
Publicidade no jornal O indicador. Fonte: Blogue"Comer por escrito"
Sabemos apenas que João Marques Pereira foi um abastado proprietário que fez fortuna na indústria da panificação. Era dono da Padaria Bijou situada na Rua Duque de Loulé, esquina com a Rua Alexandre Herculano, no Porto. Em Março de 1898, pediu uma licença para edificar nesse local uma padaria, que seria inaugurada em 1902, com a designação referida.

Padaria Bijou. Foto Google maps.
Em
1906, pediu para construir nos seus terrenos anexos um armazém destinado a depósito de
farinhas.[3]
Em
1909, apresentou à Câmara do Porto o licenciamento para a sua casa de habitação
no mesmo local. Em 15-7-1910, devendo correr-lhe bem a vida,[4] solicitou novo projecto de
alterações à construção da sua habitação própria, destinado a ampliar o
projecto, tornando a casa mais rica, sobretudo a zona do hall de entrada.
Ambas
as construções continuam a existir no Porto e a qualidade do projecto[5] fez com que em 2018 fosse
apresentado à Câmara um pedido de classificação do conjunto do Palacete Bijou,
numa tentativa de protecção do edificado.
Bem ficamos por aqui. Esta beleza de factura acabou por me dar mais trabalho do que esperava. Acho que vou comer um bijou.
Hoje os locais comerciais estão ávidos de história. Ter um passado valoriza o local e o produto. Nalguns países é assim há muitos anos, mas os portugueses forma-se esquecendo disso e paulatinamente foram destruindo sem qualquer apego as antigas lojas, cafés, drogarias, livrarias, etc. Foram registadas já tardiamente as “lojas históricas”, mas nem isso as salvou da destruição. Em seu lugar surgiram lojas turísticas algumas semelhando um passado que não tinham.
Esta introdução vem a propósito do bolo-rei e da sua introdução em Portugal hoje atribuída à Confeitaria Nacional, por Baltazar Roiz Castanheiro, na década de 1870. Esta antiga confeitaria tem sabido manter-se e apresenta uma história que hoje dificilmente pode ser rebatida e que lhes permite com orgulho vender um produto com passado.
Mas as origens de doces ou de pratos que os restaurantes e pastelarias hoje tomam como suas com o tempo pode revelar-se diferente. Em História, como na Medicina, o que hoje é verdade amanhã pode não o ser. É isso que ambos os ramos do conhecimento têm de entusiamante.

Pastelaria Lisbonense. Foto Guedes AHCMP
Passemos então ao Porto onde a
primeira introdução do bolo-rei terá tido lugar em 1890 na Confeitaria Cascais, na Rua de S. António, de acordo com os autores
do blogue Porto de Antanho.
Num papel publicitário de 1897, o proprietário da Confeitaria e Pastelaria Lisbonense, J. Augusto Ferraz de Menezes, que tinha loja na Rua Formosa 404, no Porto, onde também existia uma refinação de açúcar e onde eram feitas conservas de frutas, contava a história do bolo-rei em forma de lenda.
A lenda explicava a história
do bolo que fora encontrado por uma fada nos jardins do seu palácio. Tocado
pela sua varinha mágica revelou-se ser o bolo-rei da Confeitaria Lisbonense. A
fada, proclamada rainha do bolo-rei pela sua comitiva, fez saber aos seus
vassalos que incorriam num crime de lesa-majestade se deixassem de comprar o
bolo-rei da Confeitaria Lisbonense nos dias 3, 4, 5 e 6 do mês de Janeiro de
1897.
Embora não saibamos as datas do início da produção do bolo-rei ficamos assim esclarecidos da sua origem, e bem mais descansados. A Confeitaria parece datar de 1882, mas a presença de duas medalhas ganhas em Exposições no Palácio de Cristal, no Porto, a da Exposição Hortícola que teve lugar em 1877 e a Industria Portuguesa em 1897, situam-na, provavelmente como conservaria ou refinaria, pelo menos na década de 1870.
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| Pormenor das medalhas ganhas em Exposições |
O que percebemos é que este
bolo era no final do século XIX vendido apenas no início de Janeiro, destinando-se
a ser consumido no dia de Reis. Num anúncio publicado em 23 de Dezembro de 1900
no jornal "Voz Pública" a Confeitaria
Lisbonense disponibilizava já o bolo-rei a partir dessa data e até ao dia de Reis, fazendo crer que então o hábito se estendia já ao Natal.
Voz Pública, 23 de Dezembro de 1900
Curiosamente na mesma
publicidade era dito que já fabricavam aquele bolo há vários anos e que tinham
sido os primeiros a produzi-lo no Porto.
Confusos? O tempo esclarecerá
as contradições.
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| Foto tirada do blog Ruin'Arte |
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| Rua das Flores, 224-6, no Porto, onde se situava a casa de J. B. Carlos das Neves |
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| Imagem tirada do site da firma |
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| Rua Galeria de Paris, Porto. Fotografia tirada da internet |
| Fotografia tirada da internet |