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terça-feira, 7 de abril de 2020

A Casa Oásis

Este folheto publicitário, que encontrei nas minhas arrumações, descreve em pormenor o que hoje seria uma instalação hoteleira (com dormidas), restaurante, barbearia e leitaria. 
Quem o guardou escreveu em cima a data (1922?) e o local em que se situava (Entroncamento).

O seu proprietário António Lopes Leitão explicava a localização da casa, perto da Estação de Comboios do Entroncamento, onde existia um candeeiro que iluminava a porta e uma tabuleta onde se representava uma vaca, em alusão ao serviço de leitaria, tal como se podia ver no folheto.
Além de salientar «o esmerado serviço» o texto mencionava a “higiene” e a “limpeza”, noções que hoje tendemos a sobrepor.
Na altura eram conceitos distintos e importantes sobretudo atendendo às grandes preocupações desenvolvidas com a Higiene, resultantes dos conhecimentos adquiridos com a pandemia de gripe pneumónica de 1918-1919.
Os atractivos da Casa Oásis não se ficavam por aqui e, no que respeitava à alimentação servia em exclusivo os afamados leite, queijos e manteiga da Quinta da Cardiga, pães moletes e bolos, para além de enchidos e conservas e diversas bebidas, como era descrito em pormenor. 

Por fim a barbearia, que rivalizava com as de Lisboa e do Porto e em que se utilizavam máquinas de desinfecção, para satisfação dos clientes. 

Não me parece nada mal.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Hotel Alexandria em Menton

Ao folhear um exemplar da revista La Constrution Moderne de 1885 deparei-me com a planta de um hotel de grandes dimensões em Menton. O livro apresentava apenas as gravuras com legendas. Na apresentação do edifício era designado como «Hotel de Voyageurs à Menton», mas seria mais tarde conhecido como Hotel Alexandra.
Nunca tinha ouvido falar de Menton e, no entanto, é uma cidade muito antiga, situada nos Alpes Marítimos e cuja topografia em anfiteatro do mar às montanhas a transformou num procurada colónia balnear. Esteve primeira ligada a Itália, depois ao principado do Mónaco até 1848 e passou para a posse da França em 1860.
Planta do subsolo onde se encontrvam as cozinhas
Entrou na moda como estância de veraneio no século XIX com a chegada de viajantes ingleses e russos à Côte d’Azur. Serviu de encontro de príncipes e viajantes endinheirados que aproveitavam passar o Inverno junto ao mar em grandes hotéis de luxo como o "Winter Palace", o "Riviera Palace" e claro este Hotel Alexandra. 
Planta do rés-do-chão onde se situava a sala de jantar
São construídos os primeiros hotéis “à inglesa” em Nice e Menton, de inspiração oriental, por influência colonial, rodeados por jardins que acolhiam os viajantes, sobretudos vindos do outro lado da Mancha, inicialmente (na segunda metade do século XVIII) para fazer o Grand Tour, as viagens em Itália. Com a chegada do comboio á região no século XIX começaram a instalar-se e modificaram a vida local.
Planta do 1º piso com o jardim de Inverno
Menton deve muito do seu desenvolvimento a um médico inglês James Henry Bennett que aí chegou em 1859 para se tratar de tuberculose. Tendo tido sucesso publicou dois livros sobre o tema: Sur le traitement des maladies pulmonaires, par l’hygiène, le climat, et la médecine, et ses rapports avec les doctrines modernes e L’hiver et le printemps sur les côtes de la Méditerranée.
Corte do Jardim de Inverno
Estas obra, traduzidas em várias línguas, levaram a que o número de residentes tenha aumentado consideravelmente o mesmo acontecendo com as instalações hoteleiras. E, se em 1861 a pequena vila não tinha mais de 2 ou 3 hotéis em 1875 passava para 30.

O Hotel Alexandra foi inaugurado em 1884 de acordo com um projecto do arquitecto parisiense Gustave Rives, que rompeu com as tradições do hotel maciço. Embora de grande dimensões apresenta recortes em que sobressaem as áreas sociais. 
No subsolo situavam-se as grandes cozinhas e áreas de serviço como era moda no século XIX, todas as dependências possuindo janelas. 
A sal de jantar
No rés-do-chão ficava a grande sala de jantar, precisamente sobre a cozinha, uma pequena sala de refeições, os salões, a sala de bilhar, a sala de leitura, etc. Era aqui que tinha início o jardim de Inverno que se estendia para o piso superior. Nos andares superiores ficavam os quartos.
Um dos salões
Foi o jardim de Inverno que me fez começar a escrever este poste. Esta forma de interiorização da Natureza, tão ao gosto oitocentista, servia também para tomar refeições nalgumas situações e habitações.
Jantar em Casa da Princesa Matilde
Sobre este tema recordo a bela pintura de Charles Giraud o jantar em casa da Princesa Matilde Bonaparte, onde a refeição teve lugar num jardim de Inverno e sobre o qual tanto há a dizer.
Jardim de Inverno do Hotel Krasnapolsky
E agora que se aproximam as férias recordo o Jardim de Inverno do Hotel Krasnapolsky, em Amesterdão, onde eu comi o melhor pequeno-almoço de que me lembro. Não terá sido influência do espaço?

Bibliografia:
Bottaro, Alain. La villégiature anglaise et l’invention de la Côte d’Azur. Consulta em linha em: http://journals.openedition.org/insitu/11060
Planat, P. (Director). La Construction Moderne. 24 de Outubro de 1885

quinta-feira, 21 de março de 2019

Mensagens de amor

Não há uma única palavra amorosa no texto destes postais. No entanto, no espírito de Abel, que no dia 22 de Maio de 1904 foi passear para os arredores de Lisboa, está constantemente a lembrança da sua amada, Mademoiselle Zinia Andrade que se encontrava em Vila do Conde.
Nesse dia escreve-lhe quatro postais. No primeiro relata que são 9 horas da manhã, que havia tomado um almoço ligeiro, e que ia partir acompanhado (as frases estão no plural) para Mafra onde lanchariam (lunchariam, no texto). Informa que tencionam jantar em Sintra e que viriam dormir a Lisboa.
No segundo postal relata: «São três horas. Escrevo-te da Biblioteca de mafra voltado para D. João V. Estamos bem.».
O terceiro postal é já escrito da Ericeira, às quatro horas, e a informação é sucinta: apenas local e hora. 
Por fim no quarto postal, que tem atrás o carimbo do «Hotel Nunes. Cintra», o autor das mensagens relata: «São 6 horas. Estamos em Cintra no Hotel Nunes. Vamos jantar. Fizemos bela digressão desde a praia da Ericeira. Depois de jantar vamos para Lisboa».
Os postais foram entregues nas próprias localidades e apresentam os carimbos de Mafra e da Ericeira e dois deles são elegíveis, mas é de crer que o último terá sido enviado de Sintra. A apaixonada recebeu as mensagens em Vila do Conde nos dias 24 e 25 de Maio, certamente com imenso prazer porque percebeu o que não estava dito: a sua presença constante mesmo estando ausente.
Os postais são de extrema beleza, em estética Art Nouveau, em cores violeta e cinzenta, pontilhados por dourados, presentes também nos filetes circundantes, dificilmente visíveis nestas imagens. Para além do que sugerem esclarecem-nos também sobre o horário e designação das refeições no início do século XX. Percebe-se que antes das nove horas já haviam tomado o almoço, designação então dada ao pequeno-almoço. Em Mafra teve lugar o almoço então designado lunch, que às três horas já havia terminado uma vez que foi a essa que teve lugar a visita à Biblioteca. Por fim o jantar teve lugar em Sintra no Hotel Nunes[1] às 6 horas da tarde, a que se seguiu o regresso a Lisboa.
Hotel Nunes
Ao constatar esta sequência de informações não pude deixar de me lembrar dos novos meios de comunicação (telefones portáteis, mensagens escritas, etc.) e das redes sociais que, estou certa, Abel ia adorar.
Muitas informações tiradas apenas de postais. É o que dá estar a organizar os postais que se foram acumulando. Já cá estão há muito tempo mas descobri-os agora e devo dizer que depois destes me apetece falar noutros. Espero que gostem destas descobertas simples.


[1] O Hotel Nunes, um dos mais conhecidos da então vila de Sintra, na segunda metade do século XIX, situava-se junto ao Palácio da Vila e foi destruído para dar lugar ao incaracterístico Hotel Tivoli Sintra.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Museu Virtual: Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro

Nome do Objecto: Conjunto de mesa composto por Saleiro, Pimenteiro e Paliteiro.
Descrição: Objectos em forma de pequenos livros perfurados no topo.
Material: Cerâmica vidrada.

Época: Década 1950-1960

Marcas: Não tem. Caldas? Secla?

Origem: adquirido no mercado português.
Grupo a que pertence: Equipamento culinário.

Função Geral: Condimentar comida na mesa.

Função Específica: Um destina-se a sal, outro a pimenta e o maior a palitos.

Nº inventário: 2291.
Objectos semelhantes: Outros livros em cerâmica destinados a servir como paliteiros e outros objectos com a mesm aforma mas de maiores dimensões destinados a conter e servir bebidas alcoólicas.

Observações: 
Estes objectos foram usados na estalagem do Gado Bravo que se situava na Recta do Cabo, perto de Vila Franca de Xira. Em 1951 era descrito como um tendo quartos, salão de festas e uma adega ou taberna. Teve também anexo uma praça de touros. Foi seu gerente José Carlos Batista, juntamente com a sua mulher Maria José e mais tarde o seu filho Victor que aí estiveram até 1974. Na década de 1980  caiu no abandono encontrando-se hoje em ruinas.
Foto tirada do blog Retratos de Portugal
O hotel chegou a ter quatro estrelas e era considerado um estabelecimento de grande qualidade, em especial o restaurante, frequentado por pessoas ligadas à tauromaquia, fadistas como Amália Rodrigues, Hermínia Silva e outros artistas e pessoas famosas. Em 1951 aquando da visita da rainha Isabel de Inglaterra a Vila Franca de Xira foi junto à bomba de gasolina da Shell que fazia parte do empreendimento que foi montado o palanque. 
Paul Mcartney e Jane na estalagem gado Bravo. Foto tirada do site de Jane Asher.
Entre as muitas visitas menciona-se também a de Paul Mcartney que em junho de 1965 aí passou parte do dia antes de regressar a Londres com a sua namorada Jane Asher.
A decoração interior era rustica e de influências ribatejanas e estes objectos de mesa integram-se nesse gosto da época.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O Hotel Astória em Coimbra

Podendo escolher opto sempre por hotéis antigos. Podem ser menos práticos, com quartos mais pequenos e menos funcionais mas quando ganharam charme com a idade são, como as pessoas, mais interessantes.
Numa ida a Coimbra foi o Hotel Astória o escolhido. Já lá tinha ficado anteriormente mas vejo agora que a última vez foi há muito tempo porque a minha memória estava já um pouco esbatida. O hotel existe desde 1925 e o edifício, projecto do arquitecto Adães Bermudes, construído entre 1915-1919,  não foi concebido inicialmente para esse fim.
Quando Alexandre de Almeida o adquiriu para hotel pediu ao arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira que o adaptasse a essa nova função. Este espaço de tempo explica porque a sua fachada tem características Arte Nova enquanto no interior predomina a Art Deco. 
A cadeia de hotéis que Alexandre de Almeida, um homem de visão para o turismo, viria a construir incluía além deste o Palace Hotel do Bussaco, o Palace Hotel da Curia, e em Lisboa o Hotel Europa (de que já falei a propósito de uma ementa), o Hotel Metróple e o Hotel Francfort.
O Hotel Astória já viveu melhores dias. O restaurante, onde me lembro de ter jantado algumas vezes, está agora fechado. A sua beleza pode contudo apreciar-se pela manhã, uma vez que é aí que são servidos os pequeno-almoços. A sala não sofreu grandes alterações mas desapareceram os belos candeeiros de tecto Art Deco, visíveis em fotografias antigas, substituídos por candeeiros modernos.
As salas de entrada mantém a sua beleza com alguns apontamentos de época, como as pequenas secretárias onde as pessoas escreviam os seus bilhetes postais durante as viagens, ou a zona de leitura situada na mezzanine.
Precisa contudo de algum investimento. Nem precisa de obras ou de gastar muito dinheiro. O que é necessário é uma mão sensível que enriqueça os quartos com quadros Art Deco e colchas condizentes para tornar o ambiente mais quente. Que retire do armário de souvenirs a louça de Coimbra que, aposto, nenhum turista alguma vez comprou. E pouco mais será necessário para acentuar o ar de época para que os quadros com postais antigos da cadeia de hotéis nos remetem.
A experiência de subir num antigo elevador sentado no seu banco de madeira é hoje rara e recorda-me algumas lojas de Lisboa da minha infância, quando o tempo era mais lento.
O serviço é discreto mas impecável com uma disponibilidade do responsável pelo hotel nos ouvir quando o abordamos na recepção. 
Em conclusão: uma experiência positiva, mas que deixa um amargo de boca, como quando olhamos para uma pessoa bonita mas descuidada. Quando afinal é preciso tão pouco para melhorar. Foi-nos dito que aguardam obras. Não é preciso. Retomando a analogia da pessoa, um novo penteado e um baton nos lábios e a imagem modifica-se imediatamente. Alexandre de Almeida não gostaria de ver assim o seu hotel.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O Grand Hotel Continental em Lisboa

Este hotel situava-se no Largo de S. Domingos 14, no palácio Regaleira. O edifício, construído no século XVIII, pertenceu durante mais de um século aos barões da Regaleira. Foi herdado por D. Ermelinda Allen (1768-1858), família de origem britânica estabelecida no Porto, que casou em 1791 com José Monteiro Almeida de quem tomou o nome. Em 1840 receberia o título de baronesa da Regaleira.
Escadaria do Palácio Regaleira. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Com uma vida social intensa recebia e dava festas na sua casa de Lisboa, vivência que repartia por outros locais como o palácio do Beau-Séjour, uma residencia de veraneio ou a Quinta da Regaleira em Sintra, entre outros. Foi sua herdeira a sobrinha Maria Isabel Allen, 2ª baronesa da Regaleira (1808- 1889) que casou com João Carlos de Morais Palmeiro e que viria a efetuar a venda destas propriedades progressivamente. Em 1898 seria a vez do palácio da Regaleira em Lisboa.
Largo de S. Domingos, 1968. Foto de Armando Serôdio. Arquivo Municipal de Lisboa
O edifício foi ocupado por vários estabelecimentos comerciais como uma vacaria e foi nele que se instalou também, no final do século XIX, o Grande Hotel Continental. Já aí existia em 1892 e continuava em funcionamento no final de 1897, não me tendo sido possível determinar com exactidão a data de encerramento. 
Era seu proprietário Manuel Gonçalves que se orgulhava, na publicidade ao hotel, da sua situação central junto ao Rossio e perto da estação de caminhos de ferro. Anunciava também que desde sempre existiam no hotel filtros Chamberland. Este “sempre” referia-se seguramente ao início do hotel uma vez que o filtro de porcelana Pasteur-Chamberland, fora inventado por Charles Chamberland em 1884. Destinava-se à purificação da água, eliminando bactérias, preocupação muito moderna na época.
Foto tirada da internet
O Grande Hotel Continental tinha um restaurante onde eram servidas refeições e cujos menus eram publicitados no jornal Diário Illustrado. Analisaram-se as ementas de 1892, 1894, 1896 e 1897 de que se apresentam como exemplos os menus de 7 de julho de 1892 e o de 29 de Março de 1896. Eram constituídos por potage, sendo a mais habitual a de crevettes e a canja de galinha. Seguiam-se os hors d’oeuvre com petits pâtes à la parisienne ou outros; o relevé com peixe em filetes ou outro; a entrée com fricandeau de veau ou lombo à jardineira; nos legumes eram servidos espargos, ervilhas ou favas; no rôti era frequente o peru assado. Seguiam-se depois os entremets e o dessert, onde surgiam os gelados e os choux variados.
As ementas eram quase sempre escritas em francês, como então eram moda, mas encontraram-se alguns pratos em português ou num misto das duas línguas ou ainda com palavras francesas aportuguesadas.
Os almoços, a primeira refeição do dia, eram servidos entre as 9 e as 12 horas e custavam 500 réis. Quanto aos jantares, eram servidos entre as 4 e as 8 horas e custavam 600 réis, incluindo meia garrafa de vinho e café. O restaurante possuía também gabinetes onde podiam ser servidos os jantares por 800 réis. Quanto aos aposentos o seu preço diário situava-se nos 1000 réis e acima e aceitavam também pensionistas.
É provável que o hotel já não funcionasse em 1901. Aí se alojou em 1902, o Liceu Nacional de Lisboa, que viria a dar a actual Escola Secundária de Camões, que chegou a partilhar o edifício com uma vacaria e uma loja de mobílias. O projecto de uma nova construção para o Liceu, por Ventura Terra, em 1907, levou à mudança do estabelecimento de ensino deste local.  Mais tarde aí esteve também em funcionamento um teatro (Teatro Rocio Palace).
Interior do Regaleira Club. Foto Serra Ribeiro. ABC 1921
Nos anos 20, no mesmo local, funcionou o Regaleira Club que tinha igualmente serviço de restaurante que começava às 19 horas e que era acompanhado de variedades e musica de Jazz-bands. A partir das 20 horas podia ouvir-se musica tocada por um quinteto dirigido pelo violinista F. Remartinez. Foi um dos mais famosos clubes de Lisboa com uma grande beleza interior documentada em fotografias da época
Desde Maio de 1939 aí funciona a ordem dos advogados que recuperou o edifício.
Pelos escritos que foram consultados deduzo que existia um total desconhecimento deste hotel, havendo apenas referência no local ao Regaleira Club, pelo que achei importante, dá-lo a conhecer.
Bibliografia: 
- ABC , 7 de Junho de 1921.
- Vaz, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa, Tese de mestrado, 2008.
- Teixeira, Manuel Domingos Moura, Mundanismo, transgressão e boémia em Lisboa dos anos 20 – o club nocturno como paradigma, Tese de licenciatura, Universidade Lusófona, 2012.
- Diario Illustrado, 1892- 1900.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Hotel Bragança em Cascais

Em 15 de maio de 1895 o novo proprietário, Victor Lestage, anunciava a mudança de mãos de um dos principais hotéis de Cascais.
Na segunda metade do século XIX surgiram nesta vila alguns hotéis como o Hotel União, que pertencia a Bernardo Soutelo e o Hotel Lisbonense também conhecido por Hotel Neto, do nome do seu proprietário. No final do século, em 1893, existiam o Lisbonense, o Globo e o Central.
No Anuário Comercial de 1894 surge referido o Hotel Bragança pela primeira vez. Na realidade não era um novo hotel. Tratava-se do Hotel Central que pertenceu a Felice Petracchi que o vendeu a Victor Lestage, que então lhe terá alterado o nome.
Cascais no final do Século XIX
Neste papel de propaganda, o novo proprietário informava que o hotel estava muito bem localizado, embora não mencionasse o local, mas dizia ter magníficos quartos com vista para a baía. No que se refere à alimentação não deixou o novo dono cair a boa fama que Petracchi tinha dado ao restaurante do Hotel, havendo referências que continuavam a ser bem servidos os fregueses.
As refeições podiam ser servidas em reservados, para quem desejasse, na sala de jantar ou mesmo no exterior no jardim. No restaurante servia-se «à la carte», isto é, por escolha da lista, mas tinha também «meza redonda». A mesa redonda era um tipo de serviço com hora e prato fixo. À hora determinada, no caso deste restaurante às 6 horas da tarde, era servido um prato já confeccionado, igual para todos. A expressão mesa redonda significava que as pessoas se sentavam todas numa mesma mesa, à medida que iam chegando, mas podia não ser assim. O preço era fixo e no restaurante do Hotel Bragança era de 600 réis ao almoço, incluindo meia garrafa de vinho, e de 800 réis ao jantar.
Em 1907, no «Manual do Viajante em Portugal», Cascais era referida como uma pequena vila cuja importância lhe advinha de ser o balneário marítimo da sociedade elegante de Lisboa e nele vinha mencionado o Hotel Bragança, seguido do Central e do Globo, e confirmando que ainda existia.

Não me foi possível encontrar alguma foto do hotel para ilustrar o texto, mas voltarei ao tema para explicar porque razão se deu esta transferência de propriedade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma fatura do Palace Hotel da Matta do Bussaco

 
Uma simples papel, neste caso uma fatura do «Palace-Hotel da Matta do Busaco», pode fornecer imensas informações.

A fatura em nome de Domingos Pestana, antecessor de pessoa ligada à minha família, data de 23 de Setembro de 1911. Sob o título do hotel surge o nome de Paul Bergamin, a quem o estado português o havia entregue em concessão.
O Palace Hotel do Buçaco é uma edificação neomanuelina e foi  construído a partir de 1888, ano da aprovação do projecto de Luigi Manini (1848-1936) e em que colaborariam também Nicola Bigaglia, Manuel Norte Junior e José Alexandre Soares.
Uma outra fatura anterior deste hotel surge no livro do meu amigo Jorge Tavares da Silva intilulado «Bussaco. Palace Hotel». Datada de 1891 mostra que já então o hotel estava em funcionamento sob a responsabilidade de Paul Bergamin, mas designava-se então «Hotel da Matta do Bussaco».
Paul Bergamin, de origem suiça, teve um hotel em Pampilhosa, num chalet que foi construído em 1886, e que era conhecido como o “Chalet suiço” ou «Hotel Bergamin». Este hotel situava-se perto da estação de caminhos de ferro, cujo bufete também era explorado por Bergamin e que serviu, em 1906, para efectuar a escritura para a construção do Teatro Grémio de Instrução e Recreio de Pampilhosa, em terrenos oferecidos por Paul Bergamin, tendo contribuído para a sua construção vários industriais locais, como sócios mecenas.
De Bergamin diz-se que tinha a formação de cozinheiro chefe e pasteleiro, mas não há dúvidas de que a sua função à frente do Palace Hotel do Busaco era bem mais vasta.
Com ele trabalhavam Conrad Wissman (1859-1947) e um seu familiar R. Wissman, cujos nomes surgem também na fatura referida.
Conrad Wissmann, era de origem alemã e trouxe para Portugal os seus sobrinhos. Para além do nome já referido veio também Emília Wissmann (1884-1979), que conheceu Afonso Rodrigues Costa (1875-1947) que trabalhava no Palace com quem veio a casar. Emília foi responsãvel pela criação de doçaria, entre as quais um pastel folhado recheado de doces de ovos moles, que presentemente foi recriado pela Confraria do Leitão da Bairrada e designado “Amores da Curia”, sendo apresentado em forma de coração, para justificar o nome.
Também Conrad Wissman é referido como cozinheiro-pasteleiro no Palace do Buçaco, mas do mesmo modo o seu papel foi muito maior. Em 1907, Conrad Wissmann e o casal Emília Wissmann e Afonso Rodrigues Costa, arrendaram a Villa Figueiredo, na Curia, que se iria converter no Grande Hotel da Curia. No parque das termas Emília Wissmann abriu a Pastelaria Bijou onde vendia os doces que confeccionava para o seu hotel e para o Palace da Curia, entre os quais o já referido.

Conrad Wissmann foi membro honorário da Sociedade de Propaganda de Portugal[1], proprietário do Hotel Central de Lisboa e do Hotel da Curia, gerente deste hotel, onde era coadjuvado por seus sobrinhos, também hoteleiros no Grande Hotel do Bussaco e também proprietário do Grande Hotel Avenida, em Vila do Conde.
Em 1911 quando decorreu o Congresso de Turismo em Portugal Conrad Wissmann era diretor do Hotel Central em Lisboa e vemos o seu nome surgir também no Palace Hotel do Bussaco.
Em 1916 Paul Bergamin convidou Alexandre Almeida para a gestão do Palace Hotel do Bussaco. Em 1922 assinou um contrato de trespasse iniciando remodelações no hotel que iriam durar até 1936 e que tornariam o hotel no que é hoje.
Aqui ficam as achegas à história deste hotel, onde entram muitos cozinheiros- pasteleiros em funções distintas das suas. Numa época de início de desenvolvimento do turismo em Portugal, tiveram um papel activo na hotelaria nacional.
Se também fizeram doces, não foi isso que lhes deu notoriedade. Nesse campo apenas Emília Wissmann deixou um doce com tradição.



[1]Primeira estrutura de incentivo ao turismo em Portugal.