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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Os sais de fruta ENO

 

Ao folhear a revista Ilustração de 1928 deparei-me com vários anúncios aos sais de fruta ENO. Lembro-me, na minha infância, de ver os sais ENO, acondicionados em frasco de vidro, ligeiramente achatados e de tampa branca. Funcionavam como antiácidos e existiam em todas as casas. Quando alguém ficava enfartado, depois de um grande almoço, ou maldisposto, tomava um copo de água com os sais efervescentes e ficava como novo.

O produto não era novo. Inventado no século XIX em Newcastle, na Inglaterra, por um jovem farmacêutico James Crossley Eno, cujo apelido daria o nome à marca ENO’S FRUIT SALT em 1873. O pó efervescente continha bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e ácido cítrico e foi um enorme sucesso. Em Portugal, no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), só encontrei menção a um Fruit Salt da Glaxo em 1898, mas apenas com registo em Outubro de 1946. Também o Sal de Fructa da Haleon Up, Ltd, datado de 1898, surgiu apenas registado também em 1946.

Acontece que o produto já era comercializado pelo menos desde 1928, como se confirma pela publicidade na Ilustração. Era importado directamente pela firma Robinson, Bardsley & Co. Ltd.  uma importante firma comercial que o representava e que se situava no Cais do Sodré, nº 8, em Lisboa. Embora importasse outros produtos este foi o mais famoso e como se pode constatar era designado pelos dois nomes já referidos "Fruit Salt" e “Sal de Fructa”. Provavelmente não o registaram porque não encontramos referência ao seu nome nos registos do INPI.  


Para o publicitarem usaram desenhos internacionais em especial do designer gráfico francês Jean Carlu (1900-1997).  As várias publicidades estão assinadas com a indicação “At. Carlu”, uma abreviatura de atelier Carlu, que foi uma das mais importantes figuras do design gráfico Art Deco.

De acordo com a publicidade, de que apresentamos alguns exemplos, as suas indicações eram inúmeras. Enumeramos algumas para além das já referidas e que são as principais. Assim, era um laxativo muito suave e tomado de manhã e à noite restabelecia o bom funcionamento do tubo digestivo.


 Noutro anúncio afirmava-se que fazia desaparecer o mau humor e a melancolia. Levava a uma boa digestão e consequentemente a um sono reparador. Numa outra era afirmado que a vida moderna levava a “comer depressa”, logo devia “modernizar-se o estomago” tomando o Fruit Salt. Havia também dois sintomas que não enganavam e que eram a língua branca e o mau hálito ao acordar. Eram efeitos de uma má digestão e o remédio simplíssimo, isto é, sais Eno.

Ainda há eu referir os sintomas depois da festa, isto é, de um lauto jantar. A cabeça e o estomago estão pesados. Já sabem que fazer. Outro aviso semelhante era “ O reverso … dos banquetes”, isto é, a exposição à fadiga de uma lauta refeição, com pratos complicados.

E a terminar (devem me ter escapado alguns), como “tratamento para a obesidade”, de que se referiam bons resultados com este produto de reputação mundial.

Apesar de todos estes resultados excelentes, a determinada altura, começou a constatar-se que não era a melhor maneira de tratar estes sintomas, em especial à medida que surgiam outros medicamentos.

Hoje, ainda se encontra à venda, e de certeza que terá ainda fiéis defensores. Por mim nada posso dizer. Nunca experimentei.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Desventuras de um Chocolateiro

A história é contada em três cartões comerciais do final do século XIX. Os cartões comerciais funcionavam como um cartão de visita da empresa e existem desde o século XVII em Inglaterra. Hoje conhecem-se alguns do século XVIII, mas foi no século XIX que mais se divulgaram. Apresentavam-se muitas vezes como colecções que contavam uma história ou tinham fins didácticos. Na realidade eram uma forma de publicidade que ajudava a divulgar o negócio.
 
Não sei se esta colecção está completa mas a história é bem perceptível. Uma menina de ar doce aproxima-se de um menino chocolateiro que com a sua colher de pau mexe uma grande caçarola de cobre onde o chocolate borbulha. A chávena na mão da menina dos lacinhos azuis faz-nos compreender que deseja beber o doce néctar. Mas não chegam a acordo e lutam em cima de um pequeno banco que facilita o acesso à bebida. 
Desequilibrados fazem a chávena voar e o chocolateiro fica todo coberto com a bebida entornada, transformando-se num “chocolateiro de chocolate”, enquanto a menina foge a correr.
Estas histórias costumam ter um final moral que não se adivinha aqui. É apenas distrativa e serve de publicidade à «Pharmacia e Drogaria Félix & Filho», no Porto.
Situada no Largo de S. Domingos 42 a 44 vendia: Pastilhas digestivas de Moura para o sofrimento do estômago, Pastilhas vegetais de Moura para os vermes, cápsulas antiténicas de Moura para a bicha solitária, Peitoral de Moura para a tosse, Balsamo e Licor anódino de Moura para as dores e o Licor de Barreswill de efeito certo no “fluxo diarrheico da hectasia tuberculosa” (1).
Hoje no local desta farmácia situa-se a «Farmácia Moreno» que na sua fachada ostenta a data de início em 1804. Em 1894 no Comercio do Porto Ilustrado surgia a designação comercial «Pharmacia de S. Domingos» e o seu proprietário era o Dr. Moreno, médico e farmacêutico pela Escola Médico Cirúrgica do Porto que terá sido sucessor de Félix & Filho. Tratava-se do Dr. Rodrigo de Sousa Moreno, uma figura conceituada no Porto, que foi lente da Faculdade de Cirurgia do Porto e administrador do Concelho de Gondomar. Era filho de pai espanhol, que casou com uma portuguesa e foi-lhe concedida carta de naturalização em 1886(2).
Fotografia tirada da internet
Nos anos que se seguiram a farmácia teve vários directores técnicos e, a partir de 1961 e até 1974, surgiu nessas funções António Moreno Júnior (3). Presentemente uma nova firma tomou a seu cargo a função de manter esta farmácia que se inclui no roteiro das farmácias históricas do Porto e cuja bela fachada em ferro, em estética Art Nouveau, com o símbolo de Hígia (a taça que representa a cura) e a a serpente (que representa a sabedoria), aqui em duplicado, merece uma visita.
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(1) Charles Louis Barreswil (1817-1870), químico francês, uma figura fascinante que morreu ignorado. Em 1846 criou um reagente cupropotássico para determinar a glicose em soluções, sendo precursor do estudo da glicemia. Trabalhou com Claude Bernard sobre substâncias alimentares e fenómenos químicos da digestão. Foi também precursor de processos químicos para fotografia.
(2) ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 41, f. 151.
(3) Agradeço ao actual Director Técnico, João Alexandre Almeida, as informações complementares sobre a farmácia.