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sábado, 14 de janeiro de 2012

Table for 100's

"Table for 100’s" é um projecto sobre o diálogo entre pessoas e culturas à volta de uma Mesa que, ao mudar de escala, de forma, de dimensões, reuniu em Fukuoka, Japão, saberes e sabores sobre Portugal e o Japão.

"Table for 100’s" surgiu da vontade de apropriar espaços públicos sub-aproveitados, re-utilizar materiais que, de outra forma, seriam desperdício criando um espaço temporário construído com aqueles que contribuiram para a sua criação, com participantes activos, agentes transformadores do espaço público.

| Debate |
A apresentação de [Table for 100’s] será seguida de um debate, com a participação do Arquitecto Graça Dias, sobre a importância de projectos participativos para a reabilitação de espaços públicos na cidade e para a inserção socio-cultural de comunidades imigrantes usando, por vezes, a gastronomia como elo unificador. 

| Jantar |
Será servido um leve jantar onde os convidados poderão degustar algumas das especialidades gastronómicas que cruzam as culturas Japonesa e Portuguesa.

Esta é a última proposta do Centro de Artes Culinárias, que terá lugar no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, dia 18 de janeiro às 19,30.
Parece interessante e eu já reservei lugar.

Para mais informações pode consultar http://www.tablefor100s.wordpress.com/

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Castella ou kasutera, o Pão-de-ló japonês

Quando os portugueses chegaram ao Japão no século XVI, tiveram na cultura japonesa uma influência importante. Embora seja frequentemente referida a introdução das armas de fogo, houve outros  aspectos que foram mais marcantes, entre os quais está sem dúvida a influência na língua. A língua japonesa chegou a ter, segundo Armando Martins Janeira, mais de 40.000 vocábulos de origem portuguesa(1).
Variedade de Castella com chá verde
Muitos desapareceram, tal como iria acontecer com a influência religiosa exercida pelos nosso missionários, mas permanecem ainda muitas palavras no uso comum.
 Experimentem dizer em alto kasutera e está-se mesmo a ver um japonês a dizer castella.
É que uma das heranças portuguesas, que os japoneses mantiveram até hoje, foi o fabrico de um bolo, semelhante ao pão-de-ló, introduzido pelos portugueses no século XVI. É produzido na província de Nagasaki, onde é considerado um bolo tradicional. É feito com farinha, ovos, açúcar e xarope de milho e, tal como o nosso pão-de-ló, tem que ser demoradamente batido.
O bolo sofreu algumas alterações, com variantes que incorporam elementos agradáveis ao gosto japonês, como o chá verde, o côco, ou chocolate. Mas a sua base mantém-se fiel ao preparado inicial e continua a ser produzido pela mesma casa de Nagasaki, a Casa Shooken, fundada em 1681 e que se mantém até ao presente.
Em Portugal, existem variedades regionais de pão-de-ló que se tornaram características das regiões de origem, como o de Alfeizerão, o de Ovar, o de Margaride e o de Arouca. À excepçaõ do de Arouca, todos são feitos em forma redonda com buraco. Contudo o de Arouca, em especial o da freguesia de Burgo, distingue-se por ser preparado em formas rectangulares. É o que acontece também com o pão-de-ló japonês ou castella, o que lhes permite serem vendidos em fatias individuais.
Em Portugal é possível experimentar o castella, graças ao empreendorismo de Paulo Duarte um português que estagiou em Nagasaki, na casa Shooken e que em Lisboa abriu um salão de chá luso-japonês, a  «Castella do Paulo». Fica na Rua da Alfândega e vende vários tipos de doces japoneses. Aí se podem provar três variedades de castella: normal, com chá verde e com chocolate.
Pessoalmente, prefiro o nosso pão-de-ló de Alfeizeirão ou de Margaride, mas não posso deixar de elogiar, e de experimentar com prazer, este regresso à Pátria de um doce nosso tão antigo, interpretado pelos japoneses.

(1) Armando Martins Janeira (1914-1988) foi embaixador de Portugal no Japão e um estudioso das relações luso-nipónicas. O seu livro O Impacte Português sobre a Civilização Japonesa, marcou-me imenso. Infelizmente emprestei-o um dia e nunca mais o vi, pelo que não posso confirmar o número que refiro, que nos parece inacreditável, mas que fixei como verdadeiro.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Peixes perigosos comestíveis

Foram dois peixes embalsamados que comprei que me levaram a uma reflexão sobre peixes perigosos usados na alimentação.
Os dois peixes em causa, de pequenas dimensões, são um peixe balão e uma piranha.
Sobre a piranha sempre me foi transmitida a ideia de que comem pessoas, o que é verdade. Nunca no entanto tinha pensado que também são usadas em culinária. A piranha é um peixe de água doce, carnívoro, com uma capacidade para detectar quantidades ínfimas de sangue à distância. Por isso mesmo é também fácil de apanhar utilizando animais sangrantes como isco.
O modo mais comum de utilização é em caldo, isto é, como sopa de peixe, sendo o mais conhecido o “caldo de piranha matogrossense”. Mas é também usado em filetes.
Em 2006, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (Inpa), em Manaus, assinou um registo de patente de uma sopa de piranha solúvel. Baseada em estudos levados a cabo pelo pesquisador Edison Lessi, destinava-se a ser comercializada industrialmente. A patente foi comparada por um empresa, a Manausrio Alimentos Orgânicos Ltda, do Rio de Janeiro. A intenção era distribuir o produto no mercado asiático, com o atractivo do seu suposto poder afrodisíaco, como acreditam os indígenas localmente.
Uma tragédia, porém, veio parar este projecto. No regresso da assinatura do contrato, em 29 de Setembro de 2006, o empresário da Manausrio, Márcio Aquino de Oliveira, foi uma das vítimas do maior acidente aéreo do Brasil. Depois disso não encontrei mais qualquer informação sobre esta comercialização de sopa de piranha, que continua a ser uma especialidade da região de Mato Grosso.

Quanto ao segundo peixe trata-se do “peixe balão”, nome que se deve ao facto de inflar o seu corpo, em situações de perigo, tomando a forma de um balão e apresentando então os múltiplos espinhos, que lhe dão um aspecto ameaçador. Dá também pelo nome de “fugu”, sendo conhecido que é extaordináriamente apreciado na Coreia e Japão.
Se não for correctamente preparado pode levar a uma morte cruel, que se deve ao efeito de uma toxina que se encontra nos órgãos internos, em especial no fígado, e que é 1200 vezes mais mortal que o cianeto, Apesar de se saber do risco desta neurotoxina (tetradotoxina) que, pode levar a paragem respiratória, sem alterações da consciência, e de que não se conhece antídoto, nada faz desistir os seus apreciadores de darem somas elevadas para o saborearem. Apresentado de várias formas é como «sashimi», que é mais apreciado.
O Japão tem desde o século XVI legislação que restringe o seu consumo e presentemente apenas chefes de cozinha credenciados o podem preparar. O facto de apenas a contaminação dos tecidos com a toxina poder levar à morte, faz com que, apesar de todos os cuidados,  todos os anos morram pessoas por o consumirem. Gostos perigosos!