quinta-feira, 14 de abril de 2022

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A Padaria Caruncha no Porto


Tudo começou com uma factura bonita mas que se veio a revelar, para além disso, muito informativa.

Vejamos em primeiro lugar o que nos diz essa factura. A proprietária Maria Nogueira Caruncha é identificada no cimo do cabeçalho, mas a existência deste estabelecimento era antiga: a casa fora fundada em 1785. Em 1903, de acordo com o mesmo documento, situava-se na Rua de S. Lázaro, 397-391 e tinha uma filial na Rua de Cima de Vila, 86-88, no Porto.

A mesma anunciava que vendia: ”Pão fino especial, bolacha e biscoito”.

E devia ser de qualidade porque não era qualquer um que aí comprava. Esta factura enunciava a venda de pães de todo o mês de Dezembro de 1903, de 382 pães vendidos ao sr. J. Pinto Leite. Francisco Queiroz publicou um artigo na revista O tripeiro[1] intitulado “Os Pinto Leite. Uma família influente no Porto Romântico” em que falava sobre o seu papel como negociantes no Brasil, no Porto, em Lisboa e em Inglaterra. Eram vários irmãos e o mais velho, Joaquim, foi quem mandou construir no Porto uma das casas mais importantes da arquitectura do século XIX: a Casa do Campo Pequeno. 

Palacete Pinto Leite no Porto

Nesta data não sei se a Maria Caruncha era viva mas num anúncio publicado em 1881 no jornal O indicador[2] à antiga Padaria da Caruncha surge o nome de João Marques Pereira. Este meu homónimo nalguns locais vem designado como “Caruncho”, não nos tendo sido possível perceber se adquiriu este nome por filiação ou se por ter adquirido a padaria com esse nome, tomando a alcunha de empréstimo.

Publicidade no jornal O indicador. Fonte: Blogue"Comer por escrito"

Sabemos apenas que João Marques Pereira foi um abastado proprietário que fez fortuna na indústria da panificação. Era dono da Padaria Bijou situada na Rua Duque de Loulé, esquina com a Rua Alexandre Herculano, no Porto. Em Março de 1898, pediu uma licença para edificar nesse local uma padaria, que seria inaugurada em 1902, com a designação referida.

Padaria Bijou. Foto Google maps.

Em 1906, pediu para construir nos seus terrenos anexos um armazém destinado a depósito de farinhas.[3]

Em 1909, apresentou à Câmara do Porto o licenciamento para a sua casa de habitação no mesmo local. Em 15-7-1910, devendo correr-lhe bem a vida,[4] solicitou novo projecto de alterações à construção da sua habitação própria, destinado a ampliar o projecto, tornando a casa mais rica, sobretudo a zona do hall de entrada.

Ambas as construções continuam a existir no Porto e a qualidade do projecto[5] fez com que em 2018 fosse apresentado à Câmara um pedido de classificação do conjunto do Palacete Bijou, numa tentativa de protecção do edificado.

Bem ficamos por aqui. Esta beleza de factura acabou por me dar mais trabalho do que esperava. Acho que vou comer um bijou.

 


[1] Nº 7, Julho de 2207.
[2] Publicado no blogue “Comer por escrito”.
[3] Licença de obras pedida por João Marques Pereira, em 17 de Jan de 1906
[4] Em 1914 o João e Arlindo Marques Pereira Caruncho pediram uma licença para edificar no Porto uma outra padaria na Av. Rodrigues de Freitas, 373, na freguesia da Sé. E, em 1916, um Fernando Marques Pereira pediu também uma licença para a construção de um edifício para padaria na Rua da Cedofeita, nº 340, fazendo-nos pensar que a família se dedicaria a este ramo de negócio de forma mais extensa.
[5] Da autoria do arquitecto Eduardo da Costa Alves Júnior (1872-1918).

quarta-feira, 30 de março de 2022

A sopeira espertalhona

Não resisti a partilhar este simples folheto de cordel. Estes folhetos, embora já existissem nos séculos anteriores, tiveram grande divulgação no século XIX. A designação ficou a dever-se ao facto de serem vendidos pendurados em cordéis, nas bancas de venda ou mesmo à volta da cintura de vendedores ambulantes.

Os temas eram sempre populares, com versos ou com textos teatrais, destinando-se muitas vezes a ser lidos em voz alta por quem tinha alguns estudos para pessoas que não sabiam ler.

Tinham sobretudo sucesso os textos jocosos e humorísticos, sendo que a noção de humor, como tenho vindo a constatar, é totalmente diferente da dos nossos dias.

Neste caso, o texto obedece a essas características glosando o tema das criadas, que então abundavam nas cidades e que são sempre caracterizadas como pessoas que não são de confiança e enganam os seus patrões.

Datado de 1881 e publicado em Lisboa, apresenta o título sugestivo “Conselho que uma sopeira espertalhona dava a um criado há pouco chegado da província com quem podia casar e a maneira delle vir a ser rico em pouco tempo”.

Se o título do pequeno folheto já é informativo, é ainda completado com umas quadras divertidas que ocupam quase 5 folhas, onde se explica como “Desviar” algumas moedas nas compras efectuadas e outros truques do género.

Embora de olho no novo criado, a quem transmite o seu conhecimento, não despreza a estima do patrão, o que justifica a gravura que nos mostra uma figura feminina com a legenda: “A sopeira namorando o patrão e o criado, sem a patroa saber”.

Fica tudo dito!

sexta-feira, 18 de março de 2022

Museu virtual: Manteigueira da Casa das Manteigas

 

Nome do Objecto: Manteigueira de mesa.

Descrição: Taça em cerâmica, redonda, ligeiramente tronco-cónica, canelada, com prato acoplado, igualmente canelado, com 12 cm de dimatro e 8 cm de altura. Tampa com pequena pega central. Num dos lados surge a imagem de duas vacas no campo e, no outro, a designação da loja vendedora do produto, a Casa das Manteigas e respectiva morada.

 Material: Porcelana branca vidrada, com rebordo dourado e com pintura mista, estampada e pintada à mão.

 Época: Início do século XX.[1]

 Marcas: não tem. (VA?)

 

Origem: adquirida no mercado português.

Grupo a que pertence: equipamento culinário.

 Função Geral: Guardar manteiga.

 Função Específica: servir manteiga na mesa.

 Nº inventário: 4560.

Objectos semelhantes: vários não identificados de momento.

 Observações:

Trata-se de uma peça publicitária, designada “brinde” destinada a ofertas aos clientes. A forma redonda era a mais frequente nesta época, tal como já acontecia no século XIX e, só mais tarde, com a industrialização, passariam a ter a forma rectangular.

Casa das Manteigas. Foto Joshua Benoliel . Espólio AFML.

A informação sobre este local de venda é escassa. Uma foto de Joshua Benoliel, de 1910, espólio do AFML, mostra-nos um aspecto da entrada, no nº 2161 da Rua da Prata, em Lisboa. 

Em 1910 foi publicada uma notícia no Diario Illustrado de um roubo efectuado através de um buraco, com entrada na Casa das Manteigas.

Encontrámos igualmente publicidade em 1935 no Diário de Lisboa, a uma Nova Casa das Manteigas, situada na mesma rua, então nos Nº 88-90 que aqui apresentamos. Não nos foi possível identificar se o proprietário seria o mesmo.



[1] A designação de Rua Bela da Rainha foi mudada para Rua da Prata em 1910.

terça-feira, 8 de março de 2022

Mostruário da Madeira

  

Este mostruário de pontos de bordados da Ilha da Madeira veio do outro lado do Oceano. Foi-me oferecido pela minha amiga Nina Sargaço, brasileira, e grande admiradora do nosso país, que a pandemia impediu de nos visitar nos últimos anos.

Conhecia-a apenas por telefone na sua última vinda a Portugal, quando comprou o meu livro “Vestir a Mesa”. Gostou tanto da minha obra que decidiu pedir o meu contacto e falámos sobre os nossos interesses comuns, neste caso no campo das artes manuais têxteis. Nunca nos chegamos a encontrar pessoalmente mas ficámos sempre em contacto frequente, sobretudo através do Facebook. Devo-lhe ter tornado mais abrangente a expressão “amigos do Facebook”, provando que muitos destes se podem tornar amigos na vida real.

 

A Nina Sargaço é uma mulher extraordinária, dinâmica e determinada, que tem em sua casa um museu dedicado à moda e às artes manuais têxteis em geral. Protege os vários objectos perdidos relacionados com este mundo, lavando-os e dando-lhes vida, bem com os catálogos, que restaura e objectos relacionados com a costura e os bordados, preservando-os.

Partilhamos em comum este gosto pela preservação do património, com a grande diferença de que ela tem uma “casa elástica” (digo eu), que lhe permite uma exposição dos objectos, enquanto eu tenho uma “casa armazém”, que se espalha por outros armazéns.

Mas hoje quero agradecer-lhe publicamente este mostruário que mandou fazer no Brasil, um para ela e outro para mim, com os pontos de bordados da Madeira, retirados de um livro sobre o mesmo tema que adquiriu. De resto, na sua cabeça, não há distinção entre os vários bordados, independentemente da nacionalidade e é com orgulho que mostra toda a influência portuguesa nesta área em que somos tão ricos.

Como nós os portugueses nos esquecemos disso, que somos dos países com mais variedades de rendas e bordados, fico orgulhosa que a minha esta amiga brasileira o tenha percebido de forma mais clara que qualquer um de nós. Obrigada Nina Sargaço!

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PS. Visitem o seu Facebook e os filmes no Youtube.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O doce de bagas de sabugueiro

 

Durante este fim-de-semana estive em Castelo Rodrigo e tive o prazer de descobrir um doce que desconhecia. Ao pequeno-almoço, na agradável Casa da Cisterna, onde fiquei, foi-me apresentada uma variedade de doces e entre eles um doce escuro de que gostei muito. A proprietária, a Ana Berliner, disse-me tratar-se de Doce de bagas de sabugueiro, cuja confecção não parece ser das mais fáceis. Percebi depois porquê. É que as bagas têm que ser fervidas para perderem um produto tóxico que possuem, a sambunigrina, destruída pelo cozimento, antes da confecção do doce.

Castelo Rodrigo. Casa da Cisterna ao lado da cisterna medieval
Procurei saber mais sobre a utilização da baga do sabugueiro (Sambucus nigra), um arbusto da flora autóctone portuguesa, que se encontra por todo o país. As bagas podem também ser usadas na preparação de guisados, pastéis, bolos e tortas e outros produtos de panificação. São também utilizadas em compotas, geleias, gelatinas e em xaropes, licores, vinhos e chás.

O mais interessante é que se trata de uma planta de que se podem utilizar todas as partes, isto é, as cascas, raízes, folhas, flores e os frutos. De tal modo era considerado útil que no Brasil o sabugueiro era chamado “armário dos remédios”, devido aos seus múltiplos usos. Na realidade, ao longo dos tempos os extractos de sabugueiro foram usados para fins medicinais, culinários e cosméticos, desde os povos pré-históricos e sendo muito popular entre os gregos e romanos, o que explica que aquela planta fosse considerada como guardiã da saúde. Na medicina tradicional, o sabugueiro era usado para baixar o ácido úrico e reduzir a ocorrência de cálculos renais; em casos de febre de origem desconhecida; no combate a gripes, rouquidão e outras queixas respiratórias; dores de dentes, nevralgias, dores de ouvidos e de cabeça, etc.[1]

No entanto algumas partes da planta são ligeiramente tóxicas, como as folhas, a casca fresca, frutos verdes, enquanto os frutos maduros (ricos em vitamina C) e as flores podem ser usados. Quanto às bagas devem ser ingeridas preferencialmente secas, com moderação e de acordo com as indicações já referidas.

Em Portugal, a cultura do sabugueiro era levada a cabo já pelos monges de Cister, seguramente no Mosteiro de São João de Tarouca (séculos XII a XVIII) e pela população em geral, considerando este um produto excelente para fins culinários e terapêuticos, tendo-se perpetuado estes usos e costumes até hoje. Presentemente na região do Douro existem extensas áreas de produção de baga de sabugueiro, sob a denominação “Baga do Varosa”, reconhecida como sendo de qualidade e exportada para vários países.

No nosso caso ficámo-nos pelo docinho, de que tive o privilégio de trazer um fraquinho para casa e, não ficámos nada mal.



[1] Hoje existem estudos fármaco-toxicológicos que que lhe reconhecem algumas outras propriedades como anti-oxidantes e anti-inflamatórias.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A exposição “Um cento de cestos”

Felizmente esta é uma exposição de longa permanência, porque os meus adiamentos podiam-me ter feito perde-la. Encontra-se no Museu de Arte Popular, um edifício maravilhoso, com ar abandonado, como se tivéssemos vergonha do que foi a estética do Estado Novo.

Entrada

 Faço votos para que ainda vamos a tempo de recuperar o que nos ficou dessa época e onde tantos e tão bons artistas colaboraram.

Parte do painel da sala
Utilizando exemplares do Museu de Arte Popular e do Museu de Etnologia, e tendo por base os estudos de Fernando Galhano, podemos ver mais de 300 cestos que, em grande parte, já não se fazem. As peças  são apresentadas por regiões e com indicação da sua utilidade.

Para mim uma exposição é mais do que um deleite visual, qualquer que seja o tema. Quero aprender com o que vejo. Por isso me irritam as exposições grandiosas, por vezes internacionais, com legendas mal traduzidas, informações superficiais e identificação que fica a um metro da obra, em que os curadores acham que a obra vale só por si.

Nesta exposição o conjunto de cestos tem placas que os identificam de forma fácil. Estão perto das obras, seguem o mesmo modelo em todas as vitrines e percebe-se, mesmo num conjunto grande de cestos, qual o seu nome, a região de proveniência e para o que serviam. Parece simples, mas para quem, como eu, já viu tantas exposições sabe que nem sempre é assim.

Pequeno cestinho para figos e doces
 Mostro aqui alguns modelos, alguns que eu já conhecia, mas a grande maioria foi uma agradável descoberta. Esta uma amostra de utensílios tão humildes, mas que foram tão úteis e que faz as pessoas olhar para eles com prazer e vontade de os preservar.

Não deixem passar, porque por vezes as exposições de longa duração são as mais fáceis de perder porque pensamos que vai lá estar mais tempo e quando damos por isso acabou. Vão ver!