domingo, 12 de março de 2023

Five O'clock Tea

 

Não resisti a este pequeno livrinho publicitário da Omega, editado em 1912. O título, muito apelativo para este blogue, transforma-se na verdade numa história de fadas adaptada a uma realidade moderna que nos enfatiza a força da publicidade e nos afasta do tema.

O livreto publicitário intitulado Five O'clock Tea foi escrito em francês por Jean Richepin (1849-1926), um prolixo autor e ilustrado por Maurice Lalau (1881-1961), com um apuro estético belíssimo.   

Conta-nos uma história cujos protagonistas são a pequena Didi e o gnomo Exacto. Pelo meio entra a figura do médico de família que aconselha a avó da pequena Didi que, enfeitiçada pelos contos de fadas, as deseja ver. Queixando-se de que estas figuras só apareciam quando ela estava a dormir combinam um chá (five o' clock tea).


O médico fala-lhe no progresso e de como os gnomos as representam, em especial um gnomo novo que diz as horas exactas. Criando um ambiente feérico, com fumos e luzes, apresenta o coração do gnomo, um coração em metal. E a pequena Didi acreditava ver todos as personagens que povoavam os contos dos seus sonhos, no seu five o’clok tea, presentes à hora marcada.

Intervalando a história surgem folhas com imagens dos belos relógios e, no final, uma representação da fábrica Omega. Destinado a ser distribuído pelos vendedores da marca mostra-nos como a publicidade era abordada no início do século passado. Mais uma forma de vender sonhos, para crianças e adultos!

 

sábado, 4 de março de 2023

Das coisas simples 03: Papel de embrulho

 

Foi há vários anos atrás que me comecei a interessar por papel de embrulho. A primeira vez que olhei para um foi nas Caldas da Rainha, numa pastelaria antiga que hoje já não existe. Vendiam cavacas e outros doces regionais e valia a pena lá ir. Acabava-se sempre por trazer um pacote que, na altura era ainda embrulhado em papel. Com o fundo branco, apresentava o nome de estabelecimento, entremeado com quadrados onde alternava a imagem de um menino e de uma menina. Perguntei o significado e o dono explicou-me que tinha sido o pai que tinha introduzido a fotografia do filho, ele próprio, agora à frente do negócio, enquanto a menina era a imagem da irmã.

Fiquei encantada, pedi uma meia folha à parte e comecei assim a minha colecção (?) de papéis de embrulho. Tenho vários temas mas os meus preferidos são os papéis de pastelaria.

Este, que agora apresento, vinha a embrulhar umas peças de louça compradas numa feira. Muito amarrotado, apresentava rasgões e pedaços de fita cola antiga. Foi endireitado, passado a ferro, retirada a fita cola e restaurado com fita apropriada. Tal como eu faço com outros documentos.

Também tem direito à vida. E cá está ele todo contente e bonito. Não é o mais vistoso dos papéis, mas corresponde a uma época, anos 50-60 em que eram muito frequentes imagens do país, das regiões e dos costumes.

Voltarei ao tema.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Convite de Carnaval: a vida são dois dias

 Há vários ditados relacionadas com o Carnaval. Um deles associa-se ao provérbio em título “… e o Carnaval são três”. Qualquer um deles minimiza os problemas e incentiva o gozo da vida. Com mais ou menos pressa, como naquele em que diz: ”a vida são dois dias e um deles já passou”.

Trata-se de um período de festejos e nestes cartões, mostrados agora nesta época, o enigmático Senhor X, de que desconheço o nome, convidou os seus amigos para uma festa que consistia num Baile de máscaras.

O baile teve lugar em Lisboa, na Rua da Barroca, Nº 72, no 1º andar. Penso que se tratava de uma casa privada porque não detectei nenhum clube nesta rua que vai da Rua das Salgadeiras à Travessa da Queimada, no Bairro Alto.

O convite, com a data de 1905, que seria apresentado dobrado, está neste momento encaixilhado e foi decorado com figuras femininas, feitas a tinta da China e aguareladas, com uma estética muito oitocentista.

Espero que gostem e sejam transportados para um festa que teve lugar há mais de um século, acompanhada  seguramente por uma alegria mais simples do que a dos nossos tempos.

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Das coisas simples – 02

Encontrei, no meio de uns papéis, esta folha de calendário. Não sei a quem pertencia, mas suponho que a uma jovem dona de casa no início da sua vida conjugal.

O calendário não tem data, mas, a avaliar pelo tipo de letra, deve ser dos finais dos anos sessenta, início dos anos 70.

Terá sido guardado por causa da imagem das aves, mas no meu caso o que me interessou foi o registo das ementas programadas. Muito repetitiva, e com predomínio de carnes, onde sobressaem os bifes, havendo mesmo semanas em que estes eram comidos em três dias da semana. Na descrição encontramos apenas referência ao elemento principal, estando ausentes legumes ou saladas.

Encontram-se registados os nomes dos pratos de almoço e do jantar, sendo estes em menor número, fazendo adivinhar refeições no exterior ao fim do dia.

Não há menção aos acompanhamentos e a confecção é extremamente simples, com fritos, assados e alguns cozidos.  Enfim, uma dieta monótona, repetitiva e de quem se esforçava por organizar as refeições, mas que tinha ainda poucos conhecimentos de culinária. Oxalá as coisas lá em casa tenham melhorado!


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O óleo de fígado de bacalhau. O melhor caminho para a saúde

 

O óleo de fígado de bacalhau é um assunto que me atrai tanto que imaginava já anteriormente ter falado nele. Descobri, com surpresa, que tal não aconteceu. Na minha infância consumi quantidade imensas deste fortificante que o meu pai me obrigava, e ao meu irmão, a beber. Estranhamente não desgostávamos do paladar, ao contrário de todas as outras crianças da nossa idade, para quem a toma deste medicamento era um drama diário.

A ingestão de óleo de peixe já era considerada como saudável há muitos séculos nos países nórdicos.  Foi contudo apenas em 1841 que um médico inglês, de Edimburgo, John Hughes Bennett, publicou um tratado sobre o Oleum Jecoris Aselli, ou Óleo de Fígado de Bacalhau, após passar alguns anos na Alemanha onde este era usado no tratamento de raquitismo, do reumatismo, da gota e da escrófula (uma forma de tuberculose).

Este assunto levou a novas pesquisas sobre o óleo de fígado de bacalhau em vários países. Na Holanda, Ludovicus Josephus de Jongh, produziu a primeira análise química extensa de fígado de bacalhau em 1843. Mas o grande problema era o sabor e o cheiro altamente desagradáveis ​​que impediam o seu uso.


Foi  em 1873, que Alfred B. Scott e Samuel W. Bowne, em Nova Iorque começaram a fazer experiências para tornar o óleo de fígado de bacalhau menos enjoativo. Ao fim de três anos fundaram a empresa Scott and Bowne, com o fim de comercializar a  chamada Scott's Emulsion. Apoiados na publicidade e com fábricas em vários países como Canadá, Inglaterra, Espanha, Portugal, Itália e França, e anunciaram sua emulsão em todo o mundo.

A primeira marca destra empresa  Scott e Bowne, foi  registada em 1879. Incluía as iniciais P.P.P. e três palavras - "Perfeito, Permanente, Saboroso". A  publicidade explicava que o mau gosto não era sentido porque as gotas de óleo eram cobertas com glicerina, assim como os comprimidos eram cobertos com açúcar ou gelatina.

A imagem do homem com o peixe nas costas, que em Portugal era designado como “peixeiro”, apareceu pela primeira vez na Emulsão de Scott cerca de 1884 e tornou-se a marca registada de Scott e Bowne em 1890.

A reputação do óleo de fígado de fígado como um tratamento eficaz para o doenças consumptivas mortais durante o século XIX, como a escrófula, tísica, tuberculose, raquitismo e reumatismo levaram ao seu grande consumo, que durou ainda bastante tempo. A  publicidade nas décadas de 1940 e 1950 enfatizava a presença das vitaminas A e D naturais e valorizava os factores de óleo natural para o fornecimento de energia dos produtos Scott.

Esta ideia manteve-se pelo menos até que os cientistas descobriram o papel da Vitamina A e D e as conseguiram sintetizar. As substituições sintéticas vieram interromper o imaginário que ligava  o peixe, o pescador, a terra do sol da meia-noite e a gordura especial que este peixe produzia. A emulsão de Scott terminava o seu apogeu.

Em Portugal o produto de maior sucesso foi o óleo de fígado de bacalhau da Arriaga & Lane que recebeu vários prémios de qualidade, em exposições nacionais e internacionais. Na sua publicidade, afirmava-se que era o preferido entre todos e que reunia  a escolha de médicos e professores da Real Escola Médica de Lisboa e do médico da real câmara. Era usado em várias instituições como o Hospital de S. José, a Real Casa Pia, a Associação de Asilos, Asilo D. Luís, a enfermaria de crianças do Hospital D. Estefania, etc..

Apropriadamente, em Lisboa, a Arriaga & Lane tinha depósito na rua dos Bacalhoeiros, 135 - 1º e, no Porto, na rua Passos Manuel, 72-76 (Manuel Francisco da Costa & Cª). Também se vendia no Brasil. Face à concorrência de produtos externos, que já se apresentavam em cápsulas, a Arriaga & Lane passou a vender o seu precioso óleo neste formato, mas a metade do preço.

Curioso é notar que na década de 1970, o médico dinamarquês Jorn Dyerburg relacionou dietas baseadas em peixes oleosos de água fria a uma baixa incidência de doença coronária entre os inuítes da Groenlândia. O seu trabalho desencadeou mais estudos sobre os benefícios para a saúde dos ácidos gordos  ómega-3, abrindo caminho para a produção de inúmeros suplementos de óleo de peixe hoje existentes.

Esta pesquisa sugere que afinal há mais valor terapêutico do óleo de fígado de bacalhau do que a que advém das vitaminas identificadas inicialmente. Qualquer dia ainda vamos voltar à emulsão Scott.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

No Reino da Lambarice

 


 Os jogos da Majora povoaram muitos dias da minha infância. Lembro-me por exemplo do aquário com peixes, feito em cartolina, claro, onde pescávamos peixes com uma cana que terminava num íman magnético. Mas muitas outras variedades destes jogos de tabuleiro, infantis, foram surgindo ao longo do tempo.

 A fragilidade do material, usado tão frequentemente, fez com que muitos jogos não resistissem. Começava por se estragar a caixa e depois as peças, a pouco e pouco, iam-se perdendo. As mães, diligentes,  olhavam para aquilo e achavam que já tinha chegado ao fim da  sua vida. E lá ia o jogo!

A marca, criada em 1939, por  rio José de Oliveira, usando as letra do início e fim do seu nome, surpreendia os portugueses com a diversidade que apresentava. Ainda hoje me surpreendo com jogos que nunca vi.

Este é um desses raros jogos que devia mexer com o imaginário das crianças, sobretudo numa época em que os doces, só estavam presentes em datas especiais.

Percorrer esse caminho sinuoso, do Reino da Lambarice, por entre a visão de doçarias apetitosas, jogando os dados para avançar as marcas até ao final, onde o vencedor se podia deleitar com as mais variadas gulodices devia ser uma excitação. Mesmo não existindo na realidade qualquer doce verdadeiro sobre a mesa.

Mas naquela época todas as coisas simples tinham mais valor. Os doces eram mais doces e mais valorizados por serem raros. Hoje o seu consumo quotidiano tirou-lhes o valor e a magia. Se hoje uma criança jogasse este jogo seguramente que ia negociar com os pais comer, no final, uma guloseima da sua predilecção. Não perdoava.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo – 2ª edição

 

É com imensa alegria que dou a conhecer a 2ª edição do livro inicialmente lançado em Outubro de 2022, numa edição de autora. Três meses passados, e sem qualquer editora por trás a mexer os cordelinhos, isto é, tudo feito com a “prata da casa”, a 1ª edição, que felizmente despertou muito interesse, esgotou. E isto sem qualquer distribuição a nível nacional.

Eu, que não estou habituada a escrever sobre temas que gerem um interesse tão transversal, consegui despertar a curiosidade de muitos outros leitores, para além dos que se entusiasmam com a História da Alimentação.

Na realidade não sou eu que estou a vender o livro. É mesmo o Sttau Monteiro.