domingo, 23 de abril de 2023

Decorações de cozinha “Português suave”

"Azulejo" de plástico

Pareceu-me adequado para comemorar o 25 de Abril relembrar um conjunto de decorações de cozinha, que deve datar da época de 1950.

Na época, existia um gosto pelas imagens populares, neste caso, um casal dançarino regional, reproduzidas num material moderno como o plástico ou a melanina. O quadro em plástico assemelha-se a um azulejo, então numa apresentação actualizada.

Quadro em melamina pintado à mão
 Quanto ao prato, apresenta-se pintado à mão por algum habilidoso, usando como base um material recente, usado na altura em várias cores e modelos, que então fazia as delícias das donas-de-casa modernas. Lembro-me de existir em minha casa uma molheira espantosa em melamina, de forma cónica, cor de laranja, acoplada a uma base circular amarela. Era um sucesso de modernidade.

Pequena floreira em ferro-forjado e barro pintado

A este juntavam-se dois suportes de pequenos vasinhos, feitos em ferro forjado retorcido. O seu interior devia ser preenchido com as também recentes flores em plástico, alindando assim o espaço das cozinhas. 

Por último uma imagem religiosa colocada numa pequena janela (ou oratório) com telheiro, igualmente em ferro forjado e que na base apresentava uma pequena cavidade destinada a florinhas de plástico.

Objectos hoje desprezados, fizeram na época o encanto e a alegria de muitas cozinhas portuguesas. Recupero-os hoje, apropriadamente, como símbolos de uma portugalidade simples.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Receita dos Bolos da Páscoa, na Beira Baixa

Receita de bolos da Páscoa

16 dúzias de ovos

20 litros de farinha de trigo tremês Nacional

7,5 Kg de farinha de trigo

4,5 Kg de açúcar

4,5 litros de azeite

 

Comentário:

Esta receita foi publicada no meu livro Cadernos do Dominguizo, que apresenta receitas do século XIX da Beira Baixa.

Referem-se aqui apenas as quantidades dos ingredientes, não sendo mencionada a forma de os fazer. Pela receita, parece tratar-se do Bolo de azeite, bolo tradicional da Páscoa na região do Fundão.

Embora nesta época festiva, na Beira Baixa, seja frequente o folar, este é um bolo doce específico desta zona. É grande e apresenta-se dobrado com uma prega ao meio.

As grandes quantidades permitem-nos presumir que eram feitos vários bolos, provavelmente para ofertas.

Se se entusiasmarem com a receita, e decidirem fazê-la, não se esqueçam de fazer umas continhas de dividir. Ou os amigos e família vão encher-se com as ofertas.

Uma Boa Páscoa.

 

quinta-feira, 30 de março de 2023

LAVALAR para a roupa

 

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial o número de detergentes, então baixo, aumentou progressivamente.

Não encontrei registo do Lavalar em Portugal, mas em 1955 era regularmente publicitado no jornal Diário Popular. Competia então com o OMO e outros detergentes, pelo que era indispensável a publicidade. O Radio Clube Português teve mesmo um programa patrocinado por esta marca, designado “Fim de semana Lavalar”.

As garrafas com riscas onduladas em vidro, tinham também o rótulo em vidro, como se pode ver neste exemplo. Apresentavam-se em dois tamanhos, porque tenho os dois modelos, mas apenas encontrei a foto de um. Eram entregues para receber o valor das mesmas, por isso é natural que não se encontrem muito frequentemente. Foi o achado de um vale com desconto de 1$20 escudos e com cupões para concorrer a dois concursos que me fez lembrar das embalagens e associar tudo.

Para além do concurso, que habilitava o comprador a um aparelho de televisão, uma modernice na época, era ainda possível conseguir uma embalagem de plástico, com tampas de várias cores, para guardar na cozinha os géneros de mercearia.

O grafismo da publicidade era muito atraente e num dos anúncios de jornal pareceu-me ter visto as iniciais do Oskar Lobo. Ah! E além disso não estragava as mãos. Tinha tudo para ser um sucesso, mas a concorrência era então grande e não sei quanto tempo veio a  permaneceu no mercado.



terça-feira, 21 de março de 2023

A Marmelada de Odivelas

 

Não há muito a dizer sobre esta canção escrita por Artur Lobo de Campos (1884-1949), que foi professor, poeta e oficial do exército. Era amigo de Afonso Lopes Vieira, com quem se escreveu abundantemente e o seu nome aparece ligado a várias actividades culturais.

Foi ele o autor da letra desta cantiga em que se enaltece a Marmelada de Odivelas e que aparece num papel destinado a divulgar a mesma. Quanto à autoria da música ficou a dever-se a Tomás Vaz de Borba (1867-1950) que foi um sacerdote católico, músico, compositor e professor.

Poderá ter sido nesta última actividade que se conheceram e decidiram fazer esta canção destinada a apoiar a Banda dos Bombeiros Voluntários de Odivelas.

Embora não esteja datada, é provável que seja da década de 1940, atendendo aos registos biográficos de ambos.

A Marmelada de Odivelas merece.

domingo, 12 de março de 2023

Five O'clock Tea

 

Não resisti a este pequeno livrinho publicitário da Omega, editado em 1912. O título, muito apelativo para este blogue, transforma-se na verdade numa história de fadas adaptada a uma realidade moderna que nos enfatiza a força da publicidade e nos afasta do tema.

O livreto publicitário intitulado Five O'clock Tea foi escrito em francês por Jean Richepin (1849-1926), um prolixo autor e ilustrado por Maurice Lalau (1881-1961), com um apuro estético belíssimo.   

Conta-nos uma história cujos protagonistas são a pequena Didi e o gnomo Exacto. Pelo meio entra a figura do médico de família que aconselha a avó da pequena Didi que, enfeitiçada pelos contos de fadas, as deseja ver. Queixando-se de que estas figuras só apareciam quando ela estava a dormir combinam um chá (five o' clock tea).


O médico fala-lhe no progresso e de como os gnomos as representam, em especial um gnomo novo que diz as horas exactas. Criando um ambiente feérico, com fumos e luzes, apresenta o coração do gnomo, um coração em metal. E a pequena Didi acreditava ver todos as personagens que povoavam os contos dos seus sonhos, no seu five o’clok tea, presentes à hora marcada.

Intervalando a história surgem folhas com imagens dos belos relógios e, no final, uma representação da fábrica Omega. Destinado a ser distribuído pelos vendedores da marca mostra-nos como a publicidade era abordada no início do século passado. Mais uma forma de vender sonhos, para crianças e adultos!

 

sábado, 4 de março de 2023

Das coisas simples 03: Papel de embrulho

 

Foi há vários anos atrás que me comecei a interessar por papel de embrulho. A primeira vez que olhei para um foi nas Caldas da Rainha, numa pastelaria antiga que hoje já não existe. Vendiam cavacas e outros doces regionais e valia a pena lá ir. Acabava-se sempre por trazer um pacote que, na altura era ainda embrulhado em papel. Com o fundo branco, apresentava o nome de estabelecimento, entremeado com quadrados onde alternava a imagem de um menino e de uma menina. Perguntei o significado e o dono explicou-me que tinha sido o pai que tinha introduzido a fotografia do filho, ele próprio, agora à frente do negócio, enquanto a menina era a imagem da irmã.

Fiquei encantada, pedi uma meia folha à parte e comecei assim a minha colecção (?) de papéis de embrulho. Tenho vários temas mas os meus preferidos são os papéis de pastelaria.

Este, que agora apresento, vinha a embrulhar umas peças de louça compradas numa feira. Muito amarrotado, apresentava rasgões e pedaços de fita cola antiga. Foi endireitado, passado a ferro, retirada a fita cola e restaurado com fita apropriada. Tal como eu faço com outros documentos.

Também tem direito à vida. E cá está ele todo contente e bonito. Não é o mais vistoso dos papéis, mas corresponde a uma época, anos 50-60 em que eram muito frequentes imagens do país, das regiões e dos costumes.

Voltarei ao tema.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Convite de Carnaval: a vida são dois dias

 Há vários ditados relacionadas com o Carnaval. Um deles associa-se ao provérbio em título “… e o Carnaval são três”. Qualquer um deles minimiza os problemas e incentiva o gozo da vida. Com mais ou menos pressa, como naquele em que diz: ”a vida são dois dias e um deles já passou”.

Trata-se de um período de festejos e nestes cartões, mostrados agora nesta época, o enigmático Senhor X, de que desconheço o nome, convidou os seus amigos para uma festa que consistia num Baile de máscaras.

O baile teve lugar em Lisboa, na Rua da Barroca, Nº 72, no 1º andar. Penso que se tratava de uma casa privada porque não detectei nenhum clube nesta rua que vai da Rua das Salgadeiras à Travessa da Queimada, no Bairro Alto.

O convite, com a data de 1905, que seria apresentado dobrado, está neste momento encaixilhado e foi decorado com figuras femininas, feitas a tinta da China e aguareladas, com uma estética muito oitocentista.

Espero que gostem e sejam transportados para um festa que teve lugar há mais de um século, acompanhada  seguramente por uma alegria mais simples do que a dos nossos tempos.