segunda-feira, 23 de maio de 2022
domingo, 15 de maio de 2022
Os Porfírios, o seu boneco e o Wally
Este post podia chamar-se “encontrei o Wally”, uma sequela para quem se lembrar dos livros “Onde está o Wally”. Mas esse Wally que teve tanto sucesso só apareceu em 1987 em Inglaterra e o nosso herói português é muito anterior.
Parece tratar-se de uma
mascote da loja Porfírios, de que
desconheço o nome. O seu “casaco à Dr. Jivago”, reproduz a moda do final da
década de 1960, depois do filme com o mesmo nome ter divulgado a imagem do belo
Omar Sheriff, com um casaco comprido, assertoado, e botões duplos. A camisola
de gola alta e as calças de xadrez de boca larga em baixo completam o que se
chamava o look ié-ié.
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| Imagem por cortesia de Carlos Caria |
Na imagem do interior da loja
dos Porfírios no Porto que foi fundada
por Porfírio Augusto de Araújo e que se situava na Rua de Santa Catarina pode
ver-se o nosso boneco pendurado do tecto.
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| Boneco de costas com a etiqueta identificadora |
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| Imagem tirada da internet. Créditos fotográficos desconhecidos. |
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| Logótipo de 1966 |
O logotipo da marca, que se tornou famoso, variou um puco ao longo dos anos, mas era completamente inconfundível.
Logo em 01-08-1996 foi feito o registo da insígnia Por-fí-ri-os e por baixo um círculo tipo alvo em preto e branco. O pedido foi feito pela firma Porfírio de Araújo e Filhos, Lda.
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| Logótipo da Por-fí-ri-os Contraste em 1996 |
Ainda em 1-08-1996 o logotipo evoluiu para um círculo com as
letras em cima. Em 2001 a loja encerrou.
Mas a sua história é de grande sucesso. Era um local mítico onde se ia quase em peregrinação. À posta formavam-se bichas para entrar, reguladas por um porteiro. Lá dentro era um labirinto com escadas e locais com coisas fantásticas que nos transportavam a Londres e à moda de Carnaby Street, outro local de encontros do 3º grau. Era um acontecimento.
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| Saco de papel dos anos 60 |
As peças de roupa que lá se compravam eram vestidas com orgulho, transformando as pessoas em seres “modernos”. È engraçado porque não me lembro de peça nenhuma que aí tenha comprado e no entanto nunca esqueci a blusa comprada anos antes no Porto. Mas sei que os casacos à Dr. Jivago eram aí vendidos.
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| Pormenor da imagem do Drugstore do Porto antes apresentado |
Qual não foi o espanto quando ao procurar imagens da época me deparei com uma imagem da loja do Porto onde se encontrava este boneco. Presente num postal na posse de Carlos Caria, meu amigo, que a disponibilizou para completar este poste e fechar assim o círculo, a fazer lembrar o logótipo que o boneco apresenta nas costas.
quarta-feira, 11 de maio de 2022
Convite: apresentação do livro Cadernos do Dominguizo em Guimarães
No dia 20 de Maio estarei em Guimarães, no Paço dos Duques, para apresentar o meu último livro "Cadernos do Dominguizo" baseado num registo de receitas do início do século XIX.
Espero ter o prazer de reencontrar as pessoas dessa zona. Até lá.
quarta-feira, 4 de maio de 2022
Limão caviar
Estes belos exemplares
foram-me dados pela minha amiga Conceição, que os comprou na zona de S. Pedro do Sul e
vou experimentá-los agora pela primeira vez. São extremamente raros e são hoje
muito apreciados, em especial pelos chefes que anseiam por novidades. É este
tipo de alimento que acabo por deixar estragar, porque acho tão interessante
que tenho pena de o abrir. Já era assim em pequenina quando guardava os
chocolates que me davam pelas festas, numa altura em que estes não eram de
consumo diário, como agora.
Mas tenho que os abrir porque
sei que lá de dentro vão sair umas pequenas pérolas que, introduzidas na boca, rebentam
libertando um sabor cítrico diferente segundo as diferentes variedades. E como
eu gosto de citrinos em especial os ácidos.
O nome da planta que o produz é Microcitrus australasica que indica logo
que é um pequeno citrino natural da Austrália, das florestas tropicais. Embora
seja de difícil cultura inicial, já se cultiva em vários sítios e, pelos vistos,
também em Portugal.
Com o tempo surgiram múltiplas
variedades e a pele pode apresentar-se em várias cores como castanha, roxa, laranja,
vermelha, preta ou verde, ou amarela como esta, dependendo da variedade. O
mesmo acontece com a cor da polpa.
Ao contrário dos outros
citrinos não se espreme para tirar o suco mas comem-se as pequenas pérolas, que
podem ser usadas sobre pratos de peixe e outros, com a vantagem de ficar
lindíssimo.
Acho que vamos
reencontrarmo-nos mais vezes.
terça-feira, 19 de abril de 2022
Museu virtual: Molheira
Descrição: Molheira de forma
oval com pequena base e asa ao nível do bordo superior, achatada, horizontal.
Tem colher cuja pega termina em cabeça de cisne. Colocada na zona oposta à asa,
faz com o corpo, o desenho de um cisne.
Material: Gallia. Liga de metal de cobre-estanho, coberta de prata por técnica de galvanoplastia.
Observações:
A molheira Cisne foi desenhada
nos anos 30 por Christian Fjerdingstad para a linha Gallia da Christofle. Christian
Fjerdingstad (1891-1968) foi um designer dinamarquês dos mais famosos, célebre
pelas linhas sóbrias de estética Arte Deco.
Começou como aprendiz de um
ourives regional, mas quando descobriu o trabalho de Georg Jensen, ficou
fascinado e partiu para Copenhaga para aprender com ele. Após a Primeira Guerra
Mundial, onde ficou gravemente ferido, estabeleceu-se em França. Tomou
conhecimento com o movimento Art Deco e adoptou essa estética em várias peças,
priveligiando os novos materiais, isto é, as novas ligas de prata.
Em 1924, a empresa Christofle,
uma das principais do modernismo, encomendou-lhe uma nova colecção. Esta seria
um sucesso presente na exposição de 1925, com trabalhos em prata, a que associou
componentes naturais. Nessa Exposição
Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, que teve lugar
em Paris, os seus trabalhos estiveram ao lado dos de Jean Puiforcat, Georg
Jensen, que havia sido seu mestre e Gérard Sandoz.
Fjerdingstad comercializou objectos estilizados, de luxo, em metal prateado com a marca Gallia e trabalharia em parceria com a Christofle até 1941. Este período correspondeu ao apogeu de ambos e as peças por ele desenhadas tornaram-se muito procuradas pela pureza das suas linhas.
quinta-feira, 14 de abril de 2022
quinta-feira, 7 de abril de 2022
A Padaria Caruncha no Porto
Tudo começou com uma factura bonita mas que se veio a revelar, para além disso, muito informativa.
Vejamos
em primeiro lugar o que nos diz essa factura. A proprietária Maria Nogueira
Caruncha é identificada no cimo do cabeçalho, mas a existência deste
estabelecimento era antiga: a casa fora fundada em 1785. Em 1903, de acordo com
o mesmo documento, situava-se na Rua de S. Lázaro, 397-391 e tinha uma filial
na Rua de Cima de Vila, 86-88, no Porto.
A
mesma anunciava que vendia: ”Pão fino especial, bolacha e biscoito”.
E devia ser de qualidade porque não era qualquer um que aí comprava. Esta factura enunciava a venda de pães de todo o mês de Dezembro de 1903, de 382 pães vendidos ao sr. J. Pinto Leite. Francisco Queiroz publicou um artigo na revista O tripeiro[1] intitulado “Os Pinto Leite. Uma família influente no Porto Romântico” em que falava sobre o seu papel como negociantes no Brasil, no Porto, em Lisboa e em Inglaterra. Eram vários irmãos e o mais velho, Joaquim, foi quem mandou construir no Porto uma das casas mais importantes da arquitectura do século XIX: a Casa do Campo Pequeno.
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| Palacete Pinto Leite no Porto |
Nesta
data não sei se a Maria Caruncha era viva mas num anúncio publicado em 1881 no
jornal O indicador[2]
à antiga Padaria da Caruncha surge o nome de João Marques Pereira. Este meu
homónimo nalguns locais vem designado como “Caruncho”, não nos tendo sido
possível perceber se adquiriu este nome por filiação ou se por ter adquirido a
padaria com esse nome, tomando a alcunha de empréstimo. 
Publicidade no jornal O indicador. Fonte: Blogue"Comer por escrito"
Sabemos apenas que João Marques Pereira foi um abastado proprietário que fez fortuna na indústria da panificação. Era dono da Padaria Bijou situada na Rua Duque de Loulé, esquina com a Rua Alexandre Herculano, no Porto. Em Março de 1898, pediu uma licença para edificar nesse local uma padaria, que seria inaugurada em 1902, com a designação referida.

Padaria Bijou. Foto Google maps.
Em
1906, pediu para construir nos seus terrenos anexos um armazém destinado a depósito de
farinhas.[3]
Em
1909, apresentou à Câmara do Porto o licenciamento para a sua casa de habitação
no mesmo local. Em 15-7-1910, devendo correr-lhe bem a vida,[4] solicitou novo projecto de
alterações à construção da sua habitação própria, destinado a ampliar o
projecto, tornando a casa mais rica, sobretudo a zona do hall de entrada.
Ambas
as construções continuam a existir no Porto e a qualidade do projecto[5] fez com que em 2018 fosse
apresentado à Câmara um pedido de classificação do conjunto do Palacete Bijou,
numa tentativa de protecção do edificado.
Bem ficamos por aqui. Esta beleza de factura acabou por me dar mais trabalho do que esperava. Acho que vou comer um bijou.
[2] Publicado no blogue “Comer por escrito”.
[3] Licença de obras pedida por João Marques Pereira, em 17 de Jan de 1906
[4] Em 1914 o João e Arlindo Marques Pereira Caruncho pediram uma licença para edificar no Porto uma outra padaria na Av. Rodrigues de Freitas, 373, na freguesia da Sé. E, em 1916, um Fernando Marques Pereira pediu também uma licença para a construção de um edifício para padaria na Rua da Cedofeita, nº 340, fazendo-nos pensar que a família se dedicaria a este ramo de negócio de forma mais extensa.
[5] Da autoria do arquitecto Eduardo da Costa Alves Júnior (1872-1918).








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