quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

As chaleiras Alessi



 A chaleira, para aquecer a água para o chá, é um objecto indispensável no meu quotidiano. Procuro formas que tenham beleza, mas simples. Nunca comprei uma de design e se o fizesse não teria coragem de a usar.
Habitualmente apenas mostro imagens dos objectos que fazem parte da minha colecção. Hoje infelizmente tive que ir buscar à internet imagens de duas chaleiras icónicas produzidas pela Alessi e que nunca cheguei a comprar devido ao seu preço elevado

A primeira, produzida em 1985, é da autoria de Michael Graves e chama-se «Bird Whistle», apito de pássaro, nome que se deve à presença de uma ave no apito, em plástico colorido, que fazia sentido ao lembrar o seu som, quando a água ferve.
Para festejar os 30 anos de existência, Graves redesenhou o apito, em 2005, e transformou o pássaro num reptil pré-histórico. Este modelo foi designado «Tea Rex» e os dois apitos passaram a ser vendidos em separado. Para o comprador poder escolher.
Mas em matéria de chaleiras de design a Alessi não ficou por aqui e em 1992 o arquitecto Frank Gehry desenhou a «Pito water kettle» feita em madeira e aço. Tanto a pega superior como a asa tem o feitio de peixes. Também esta chaleira tem dois apitos melódicos, a lembrar o som das baleias, que podem ser substituídos de acordo com a disposição do seu possuidor.
 Quando vejo estas chaleiras Alessi lembro-me sempre da minha amiga Natacha que tinha uma «Bird whistle» há muitos anos atrás. Quando ia lá a casa olhava sempre para a chaleira com prazer. Um dia deparo-me com a imagem horrível do bico e a asa derretidos. Distraída, como sempre, tinha deixado a chaleira ao lume por tempo indefinido. A água evaporou e o metal aqueceu até derreter o plástico. É por isso que se algum dia perder a cabeça e comprar uma, só a irei usar para ouvir o apito e depois guardo-a religiosamente.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Empadas de galinha (especialidade do Alentejo)

Dentro de um livro vinha esta folha dobrada. Pensei tratar-se da receita e comecei a ler entusiasmada. Mas afinal era mais do que isso. Era um folheto de propaganda e divulgação deste produto alimentar, escrito à mão.
Infelizmente a folha está cortada em baixo e não ficamos a saber quem assinava este papel. Trata-se de um folheto muito bem escrito e elucidativo.
Começa por dizer para que tipo de refeição servem as empadas: «Muito prestativas para viagens, lanches de empregadas e colegiais e para piqueniques, pois se podem comer frias e não precisam garfo nem faca».
Depois de algumas considerações sobre as suas vantagens informa-nos que durante anos estas estiveram à venda na Rua da Betesga e na Rua do Ouro, na Leitaria Portugália.
Este estabelecimento foi inaugurado em 1918, situava-se na Rua do Ouro, nº 272 e era propriedade da firma Neto & Leitão, Lda. esta casa tornou-se conhecida por ter sempre disponível doces regionais portugueses.
Mas explica-nos a nossa redactora: «Tendo-se acabado essa leitaria por o dono ter ido para o Brasil, passam elas a ser vendidas ao domicílio», pelo mesmo preço, com vantagem para as freguesas.
Pedia depois a sua divulgação a quem já as apreciasse. As encomendas em grande número para casamentos e baptizados podiam ser feitas na Rua do Carmo 110, mas para tal eram necessários três ou 4 dias de antecedência. Para encomendas particulares recomendava escrever as quantidades e a data em que as desejavam e lá estariam nesse dia.
Uma iniciativa privada de grande valor, no tempo em que não existia telemóvel. Quem me dera que ainda existisse hoje. Para espantar quem acha a Uber Eats moderna.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Museu virtual: Tira-cápsulas


Nome do Objecto: Tira-cápsulas, também designado descapsulador, abre caricas ou tira-caricas.

Descrição: Objecto circular com orifício metálico central para retirar as cápsulas das garrafas. Possui desenhos diferentes nas duas faces. Incluído num saco de feltro protector.

Material: Plástico duro e metal.

Época: Século XXI início.
 Marcas: Ritzenhoff. H.-C. Sanladerer.

Origem: adquirido no mercado português.

Grupo a que pertence: Equipamento culinário para abertura.

Função Geral: Instrumento para a preparação, serviço ou consumo de bebidas.

Função Específica: Abrir garrafas com cápsulas.
Nº inventário: Nº 3528

Objectos semelhantes: Vários não classificados.
Observações: Objecto de origem alemã produzido pela empresa Ritzenhoff, mais conhecida pela sua produção de vidros desde há mais de dois séculos. Tem-se salientado pela colaboração com múltiplos designers responsáveis pela decoração de copos das várias linhas. Os primeiros ficaram famosos por se tratarem de copos para leite que se apresentavam com fundo branco e malhas pretas. Nos últimos anos vários designers têm criado linhas de acessórios sobretudo relacionados com bebidas, como é o caso deste descapsulador. A série designada Romeu & Julieta apresenta imagens nas duas faces que são complementares. Muito variadas e imaginativas inclui outras temáticas divertidas como o fotógrafo de safaris e o chimpanzé, o gato e o rato, o diabo e o anjo, faces de casais, etc. Este objecto foi concebido pelo designer H.C. Sanladerer, mas nesta série encontram-se trabalhos de outros autores.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Brincar às bonecas…com a Nestlé


As bonecas de papel ou cartão recortados foram um presente apreciado para as meninas brincarem. O seu período áureo foi no final do século XIX e início do século XX.
Vinham acompanhadas de vestidos que se colocavam no corpo das bonecas mudando as toiletes. Era mais frequente que tivessem umas pequenas dobras de papel, encaixando nos ombros. Estas contudo apresentam-se com os fatos duplos, isto é, com a parte da frente e a de trás, dobrados, que se metem na cabeça da boneca.
A surpresa foi ao abri-las ter constatado que eram um brinde Nestlé. No interior podem ver-se diferentes tipos de dizeres publicitários referentes a essa marca.
Numa delas há menção às 42 medalhas de ouro e 32 diplomas de honra recebidas na Exposição de Paris de 1900 e à Exposição Internacional de Bruxelas de 1910, onde estiveram presentes os produtos Nestlé. Este dado situa as bonecas nesta época, o início do século XX, o que a estética confirma.
Fizeram a alegria de alguma menina que muito as usou levando mesmo a que a cabeça de uma delas se apresente cosida com linha. É a nossa vez de nos deliciarmos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O garden party em 1906 - 2


Ementa do Garden Party. Colecção da autora.
Revelo finalmente a ementa do garden party que teve lugar nos jardins do Paço das Necessidades, no dia 24 de Abril de 1906.
Foi o achado da ementa que despoletou esta conversa. Trata-se de um lanche destinado a vários milhares de pessoas[1], que a Illustração Portugueza descreveu como «uma festa deliciosa oferecida por suas Majestades El-Rei D. Carlos e Rainha D. Amélia aos congressistas médicos», mas onde estiveram presentes os habituais convidados do «alto funcionalismo palatino», do corpo diplomático e aristocracia. Os convidados foram recebidos à entrada do jardim pelo conde de Figueiró e por D. Fernando de Serpa.
Convite para o Garden Party enviado pelo Mordomo-mor. Colecção da autora.
Após a chegada foi servida a refeição, descrita como um lunch, disposto em quatro bufetes, um com 70 metros e os outros com 50, 30 e 20 metros. O serviço foi feito por criados em traje de gala. Como nos mostra a ementa, o lunch consistiu em: Croquettes, Mortadelle et Salami; Sandwiches; Petits pâtés; Filet de boeuf à la Russe; Jambon et Langue Ecarlate; Mayonnaise de Langouste; Brioches et Savarins; Glaces. Como bebida foi servido chá e café.
Em cima o Conde de Figueiró e D. Fernando de Serpa a receber os convidados.
Em baixo um aspecto da reunião. Illustração Portugueza, 30 de Abril de 1906.
Suas majestades retiraram-se às 18 horas começando a debandada, mas uma hora depois ainda se viam convidados nos jardins.
O rei D. Carlos e D. Amélia. Illustração Portugueza, 30 de abril de 1906.
Embora os jornais da época se refiram a figuras internacionais de renome, este acontecimento serve-me de mote para falar em dois médicos importantes portugueses, quase ignorados ou muito esquecidos. Refiro-me a Luís Cebola[2], o convidado a quem pertencia o convite e a ementa e Aniceto Mascaró.
Occidente, 30 de abril de 1906
Começo por referir este último, pelas piores razões. A primeira vez que ouvi falar do Dr. Aniceto Mascaró, oftalmologista, natural da Catalunha, mas residente em Lisboa há três décadas à data da sua morte, foi quando estudei os licores. Mascaró foi o autor de um quadro a óleo que existiu na Casa Ginjinha Sem Rival, às Portas de Santo Antão, onde se exaltam as virtudes da referida bebida. Publicado no livro «Alfacinhas» desapareceu sem deixar rasto. Este oftalmologista foi um protector dos pobres e, no seu consultório atendia muitas pessoas gratuitamente. Em Lisboa fundou um instituto para cegos e é da sua autoria um método de ensino para cegos, uma alternativa ao Braille[3], com que pretendia melhorar a qualidade de vida destes. O seu consultório ficava na Rua do Alecrim e até, há pouco tempo existia no edifício que faz esquina com a Rua do Ferragial, apenas visível de cima do arco uma placa com o seu nome. Voltei lá para a fotografar porque não encontro a foto e constatei que, durante a renovação (destruição, como tem vindo sendo costume na Baixa) do edifício, esta desapareceu.
Quadro pintado por Aniceto Mascaró que esteve na Ginjinha das Portas de Santo Antão.
Mas voltemos ao Dr. Aniceto Mascaró que durante o Congresso teve destino semelhante ao da sua placa. Desapareceu da terra, isto é, teve morte súbita antes de fazer uma conferência. A sua morte e enterro que teve lugar ainda durante o congresso médico foi considerada a única nota triste deste evento de sucesso.
Dr. Luís Cebola em jovem. Colecção da autora.
Quanto a Luís Cebola, sobre o qual ultimamente têm vindo sendo feitos alguns estudos, foi um médico psiquiatra (alienista, nos textos da época), discípulo de Miguel Bombarda, que durante muito tempo esteve esquecido. Introduziu métodos inovadores, quando esteve à frente da Casa do Telhal, de que se salienta a ocupação ergoterápica, isto é, a terapêutica pelo trabalho e a criação de um Museu da Loucura, na década de 1920, onde expunha os trabalhos dos doentes. Lá se encontram obras de Stuart de Carvalhais, entre outras, feitas durante os seus internamentos relacionados com o alcoolismo. Uma delas, uma imagem satírica do médico cujo perfil surge desenhado sobre … uma cebola.
Dr. Luís Cebola à Esqª na foto. Colecção da autora.
Ao longo da sua vida Luís Cebola escreveu mais de 20 livros. Foi um republicano fervoroso, tal como muitos médicos da época e a sua proximidade ao poder explica a persistência da Ordem Hospitaleira dos Irmãos de S. João de Deus, na casa de Saúde do Telhal.
Dr. Luís Cebola à frente do seu Castelinho, no Estoril. Colecção da autora.
Só por curiosidade não posso deixar de dizer que foi Luís Cebola que mandou construir o Castelinho de Nª Srª de Fátima, no Estoril. Nunca lá viveu mas ia para lá ouvir o mar e esquecer-se dos seus problemas como psiquiatra.
O poste já vai grande e para terminar só me ocorre dizer esta generalidade: «Isto anda tudo ligado».

Bibliografia:
Illustração Portugueza, 30 de Abril de 1906.
Occidente, Nº 984, 30 de Abril de 1906
Pereira, Denise Maria Borrega. (2015). Visões da Psiquiatria, Doença Mental e República no Trabalho do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967)…. Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia. Lisboa: FCT.
Pina, Esperança M.; Nunes, Mª de Fátima. (2012). «O XV Congresso Internacional de Medicina de 1906» in Arte e Viagem, coordenação de Margarida Acciaiuoli e Ana Duarte Rodrigues. Lisboa, Instituto da História de Arte: 155-161.



[1] O Mordomo-Mor emitiu cinco mil convites extensíveis às senhoras. É referida a presença de 7.000 convidados nos jardins.
[2] Jovem médico, uma vez que terminou o curso nesse mesmo ano.
[3] Que eu tenho, em parte incerta.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O garden party de 1906 - 1


 
O Occidente, 26 de Abril de 1906
Hesitei no título, não sabendo bem se devia dizer «O Garden Party» ou «Um Garden Party»?
Qualquer uma das expressões estaria incorrecta porque na realidade, aquando do XV Congresso Internacional de Medicina, que teve lugar em Lisboa, entre 19 e 26 de Abril de 1906, houve dois acontecimentos sociais com essa designação.
Os anfitriões do garden party em Monserrate
Organizado por vários médicos portugueses proeminentes, onde se destacava Miguel Bombarda (1851-1910), trouxe a Portugal uma comunidade científica internacional de renome. A sessão inaugural teve lugar na Sociedade de Geografia enquanto as sessões científicas decorreram na escola Médico Cirúrgica do Campo de Santana.
Alguns dos convidados estrangeiros em Monserrate, Illustração Portugueza 26-4-1906
O acontecimento teve eco em vários jornais porque pela primeira vez visitavam Portugal quase dois mil congressistas. O programa, muito bem organizado, previa várias visitas científicas a hospitais e institutos, mas também uma série de eventos sociais organizados por uma comissão de senhoras, mulheres de médicos.
Passo por alto alguns desses encontros e visitas, como uma ida ao Estoril, a Sintra, outra a Vila Franca de Xira, para assistir a uma tourada, com regresso de barco, uma soirée para assistir a um rancho folclórico do Minho, etc., para nos concentrarmos nos garden parties.
Os viscondes de Monserrate
Este tipo de acontecimento social, tipicamente inglês, entrou em moda durante o reinado da rainha Victoria. Trata-se de um reunião formal (e os trajes indicam isso mesmo), que tem lugar num jardim e em que é servido um lanche com chá, sandes, bolos, etc. Ainda hoje em Inglaterra eventos deste tipo têm lugar anualmente, considerando-se o início do acontecimento a chegada da rainha, anunciada por Música.
Em Portugal no final da monarquia devia também ser moda. O oftalmologista Gama Pinto organizou durante o congresso uma festa nos jardins da sua casa e o mesmo fez Mauperrin Santos que ofereceu um five o’clock tea na Escola Académica.
Palácio de Monserrate, Archivo Pitoresco, 1866
Muito frequentado foi o garden party oferecido pelo inglês Sir Francis Cook e sua mulher, os Viscondes de Monserrate. Como as muitas fotografias publicadas nos jornais da época nos mostram, a recepção aos convidados foi feita pelos próprios viscondes de Monserrate e pelo conde de Mesquitela. Os convidados espalharam-se depois pelos belos jardins, antes do lanche propriamente dito, sobre o qual não temos informação. 
Várias imagens do passeio pelos jardins de Monserrate IP 30-4-1906
Mais sorte tivemos com o garden party oferecido por D. Carlos e D. Amélia nos jardins do Palácio das Necessidades. Num lote de fotografias que adquiri vinha um envelope com um convite para o Dr. Luís Cebola (de que falaremos mais tarde) assistir ao garden party que se realizou no dia 24 de Abril de1906 pelas 16 horas da tarde, no jardim do Paço das Necessidades.
Sobre ele falaremos no próximo poste.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Toalhas e guardanapos...

Toalhas e guardanapos, a forma como “vestimos a mesa” deu um livro

Alexandra Prado Coelho, Jornalista

Parece um assunto doméstico, mas a história dos tecidos que  colocamos entre a mesa e os pratos cruza-se com a história da economia e da sociedade. Ana Marques Pereira seguiu as pistas dos panos que, ao longo dos séculos, têm vestido as mesas.
Falamos muito do que se coloca em cima da mesa – da comida, em primeiro lugar, mas também, e cada vez mais no universo do fine dining, da louça, dos talheres. Há, no entanto, um elemento que tende a ficar esquecido: as toalhas. Juntamente com os guardanapos, as tolhas são hoje os parentes pobres em muitas mesas. Muitos restaurantes optaram mesmo por prescindir delas, preferindo o contacto directo com a madeira (ou outro material). E, em casa, as boas toalhas geralmente só saem das gavetas em dias de festa.
Foi precisamente para as modas que, ao longo dos tempos, ditaram a forma como se “veste a mesa” que a investigadora na área da alimentação Ana Marques Pereira se propôs olhar. O resultado é Vestir a Mesa, um livro de peso, com uma recolha de imagens excepcional e um trabalho de pesquisa como nunca antes tinha sido feito sobre este tema que, sendo do quotidiano, vai da arte à indústria..........
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Parte da crítica da jornalista Alexandra Prado Coelho publicada hoje no «Fugas« do Jornal Público (19-1-2019), que muito me agradou. Obrigada.