terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A marmelada da Tentadora

 

É verdade que a marmelada tem, em Portugal, um estatuto à parte entre os vários doces, do tipo conserva de fruta. A nossa marmelada foi sempre feita com o fruto Cydonia oblonga,  provavelmente originária da Ilha de Creta.[1] Já era mencionada desde o século XVI, no Auto da Feira de Gil Vicente, mas o seu conhecimento em Portugal seria seguramente anterior.[2]

Podemos encontrar o primeiro registo de um receita no manuscrito que pertenceu à Infanta D. Maria de Portugal, então já feita com açúcar.  A etimologia[3] da palavra mostra-nos que vem do latim melimellu, tomado do grego melimelon, composto de meli, «mel» + melon, «maçã», mencionando o marmelo para conserva, cozido com mel, usado desde a Antiguidade.

Avancemos na história da nossa marmelada para justificar a existência de objectos próprios para a sua apresentação e consumo. Desde logo o mais clássico nos domicílios: a tijela da marmelada. Deitado o doce no seu interior ficava depois ao sol a secar, afim de formar uma ligeira crosta e impedir que criasse bolor. Mas os confeiteiros utilizavam também recipientes próprios para a sua confecção. Durante a primeira metade do século XX surgiram várias casas comerciais em que a marmelada era vendida em recipientes de louça.

Em Lisboa esses objectos foram sobretudo feitos pela Fábrica de Sacavém e pela Fábrica Viúva Lamego, apesentando forma variadas.

Pormenor da fachada com azulejos de J. Pinto. Foto tirada da internet

Neste caso, o recipiente em forma de caixa redonda com tampa foi feito para a Casa Tentadora, em Campo de Ourique,  em Lisboa. O prédio desta casa comercial foi projectado por Ernesto Korrodi (1870-1944), arquitecto e designer de origem suíça contractado pelo governo português para dar lições no ensino industrial, inicialmente, em 1889, na Escola Industrial de Braga e a partir de 1894 na Escola de Leiria. 

Painel Arte Nova que estava no exterior e que foi colocado no interior.

Este arquitecto foi responsável por várias construções ao estilo Arte Nova, em todo o país. Mas numa determinada fase foi na região onde vivia que teve maior intervenção. Assim projectou par firma João Leal & Irmãos em 1906, uma casa, na freguesia de Coimbrão, em Leiria.  Para a mesma empresa, viria a ser responsável por um belo edifício, misto de habitação e comércio no gaveto da Rua Saraiva de Carvalho com a Rua Ferreira Borges em Lisboa.  Foi nesse edifício que, em 1910, a empresa João Leal & Irmãos, viria a abrir a Pastelaria A Tentadora.[4]

Aproveitamos para mostrar uma parte de outros exemplares que possuo, com o mesmo fim, destinados a uso no domicílio ou comercial. Memórias doces!



[1] Em Inglaterra a mesma designação aplica-se ao Doce de laranja, provavelmente por confusão, uma vez que foram os portugueses que introduziram a laranja nesse país, a par da marmelada.

[2] FERREIRA, Maria Valentina Garcia. (2004). “A história doce de uma alcunha do Sul”. Centro de linguística da Universidade de Lisboa. Lisboa: Actas do XX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística: 573-589. A autora sugere que a palavra existiria já no galego-português medieval.

[3] MACHADO, José Pedro. (1987). Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte.

[4] TEIXEIRA, José Manuel. (2018). Arquiteto Ernesto Korrodi Vi(n)da e Obra. Tese. Porto:  Universidade Fernando Pessoa.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Luís de Sttau Monteiro no Nada Será Como Dante

Uma entrevista minha, muito bem feita pelo João Carlos Barradas, sobre o meu livro Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo.
Ao minuto 13,40. 
É só carregar no link abaixo.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Boas Festas 2022-2023

 

A escolha de um cartão adequado para formular votos de Boas Festas não é fácil.

Comecei a guardá-los quando há alguns anos percebi que estavam em vias de extinção. Agora já se contam pelas centenas (uma forma modesta de dizer milhares), divididos em duas grandes temáticas: pessoais ou familiares e de empresas. De todos eles selecionei os mais interessantes que têm lugar em pastas, enquanto os outros se acumulam em caixas.

Quando chega o Natal a escolha depende do aspecto gráfico mas também da minha disposição. Este ano não me apetecia usar um artístico,  ou um romântico do século XIX, nem um dos anos 70 que tem anjinhos papudos que, embora bonitos, sentimos que não passou ainda tempo suficiente para os recuperarmos.

A escolha deste Pai Natal a partir da Lapónia num OVNI, em vez da clássica rena, pareceu-me adequada. Parece confuso, mas não tanto como uma imagem que este ano surgiu nas redes sociais de uma montra de uma loja no Japão com um Pai Natal, de fato completo, pregado numa cruz, acompanhado do comentário: “ Não perceberam o que era o Natal, pois não?”.

Bem, este é um postal simples e bem disposto que serve para desejar a todos um Feliz Natal e um Ano de 2023, cheio de sorrisos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Museu virtual: Galheteiro em vidro.

 


Nome do Objecto: Galheteiro.

Descrição: Galheteiro de duplo depósito com as galhetas invertidas, em forma de bolas, assente num pé e com uma base circular.  Esta apresenta um raro rebordo interno invertido.

 Material: Vidro soprado.

 Época: Séc. XVIII.

 Marcas: Não tem. Provavelmente Marinha Grande (Fab. Stephens?)

 Origem: adquirido no mercado português.

 Grupo a que pertence: equipamento culinário.

 Função Geral: Equipamento para Servir e Consumir a Comida.

 Função Específica: Acessório de serviço, destinado a servir azeite e vinagre à mesa.

Nº inventário: 4739.

Objectos semelhantes: Não existem idênticos nesta colecção .

Observações: 

Estes objectos duplos, com esta função, parecem ter existido mais nos países mediterrâneos em que o consumo do azeite era maior. Modelos semelhantes não estão presentes nos países anglo saxónicos. Em Portugal foram produzidos no séc. XVIII, pela Fábrica de Vista Alegre e na Marinha Grande, com pequenas diferenças.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Infantilidades 01

 

Quando acrescento ao título um número faço prever que voltarei ao assunto. Mesmo que não esteja directamente ligado à alimentação diz respeito ao quotidiano, de que muito aprecio recordar histórias ou momentos.

Neste caso a memória tem a ver com o mundo da infância, de que mantenho  acesa uma viva curiosidade e nostalgia. Isso faz com que não resista aos livros infantis antigos, de que tenho um número considerável e que trato com carinho, inclusivamente mandando encadernar os mais delicados com pano de chita com riscas cor de rosa e pequenas florinhas.

Desenhos de Laura Costa

O mesmo se aplica a outros objectos antigos de brincar (claro que os de cozinha são os preferidos).

Mas existe um outro tema que se integra no que eu chamo de forma genérica “Panos” e onde se incluem muitos bordados infantis. Outro tema é o dos lencinhos de mão. Se os do final do século XIX e início do século XX eram delicados, com bordados e rendas, os que são verdadeiramente encantadores, para mim, são os dos anos 50-70.

Comecei a guardar os meus próprios lenços da juventude e fui aumentando a colecção. Este, que mostro agora, é novo e o motivo é encantador.

E não posso mostrar mais nenhum porque estão acondicionados em caixas num armazém. Um dia virão à tona. Para já fica este, embora já velho e que necessitou de um pequeno restauro.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Convite

 Lançamento na Biblioteca da Covilhã, dia 2 de Dezembro, às 18 horas. 

Sejam bem vindos!

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Queijadas da Ilha Graciosa

  

Espalhadas pelas belas encostas da Ilha, alternando com paisagens que parecem saídas de um quadro de João Hogan,  podem observar-se manadas de vacas que pastam calmamente. Chama à atenção a diversidade de cores: malhadas pretas e brancas, castanhas e brancas ou castanhas, numa mistura agradável à vista. São vacas leiteiras responsáveis pela grande quantidade de leite produzido que, na grande maioria, é exportado para outras ilhas. Na ilha é consumido em parte e transformado em manteiga e queijo, o célebre queijo da Graciosa que compete com o de outras ilhas dos Açores e que alguns dizem ser superior ao de S. Jorge.

O leite serve igualmente para fazer as Queijadas da Graciosa que antigamente eram designadas por “covilhetes de leite” ou “queijadas da praia”. Feitas no domicílio passaram, desde há cerca de 25 anos, a ser produzidas como especialidade  local por Maria de Jesus Félix que abriu uma fábrica para a produção das mesmas. Mas é possível encontrar outras idênticas em vários pontos da ilha.

A receita é conhecida e presumo que seja muito idêntica nos vários locais, porque nas que provei localmente não encontrei diferenças significativas. À vista são queijadas de bicos, habitualmente cinco, feitas com uma massa fina, levemente franjada nas extremidades. Lá dentro um creme de leite bem apurado, que lhe dá uma cor escura e que é extremamente doce.

Fiquei a pensar que, embora do ponto de visto teórico, seja bom manter as receitas tradicionais,  na realidade, hoje  em dia, o nosso paladar já não está habituado a uma quantidade tão grande de açúcar. Dito de outra maneira, entre o rigor escrupuloso da receita tradicional e os conceitos de alimentação actuais (menos sal, menos açúcar, etc.) há que optar pela adaptação aos hábitos mais saudáveis dos nosso tempos. Assim, apesar do meu interesse pelas antigo receituário de culinária, parece-me aconselhável reduzir a quantidade de açúcar da receita, que faz estranhar o paladar dos não autóctenes. E se eu sou gulosa!