Votos de um feliz Dia de Reis.
Fica a imagem de parte da minha colecção de brindes de Bolo-rei, a lembrar os dias felizes em que descobríamos estes pequenos objectos embrulhados no meio da massa.
Pequenas alegrias de infância.
Votos de um feliz Dia de Reis.
Fica a imagem de parte da minha colecção de brindes de Bolo-rei, a lembrar os dias felizes em que descobríamos estes pequenos objectos embrulhados no meio da massa.
Pequenas alegrias de infância.
Os meus votos de um Feliz Natal 2020 em segurança, isto é, nuclear. (E está bom de ver que me refiro ao núcleo familiar)
Não quero fazer concorrência ao programa “Irritações” onde os intervenientes ao fim de vários programas parecem ter de inventar factos que os irritam. Esta é uma irritação verdadeira que advém da compra de dois queijos num mercado biológico. Muito bonitos e apelativos, mas caríssimos, porque estamos a pagar, além do produto, crenças e convicções. Como ficaria espantado um verdadeiro queijeiro, daqueles lá da Serra da Estrela, se visse estes preços.
Mas tudo bem. Quando as coisas são de qualidade, tendemos a secundarizar os preços. O pior é que um aspecto importante nos queijos é o seu sabor e esse não estava lá. Sabiam os dois ao mesmo, isto é, a nada.
O queijo de cabra, que
cheirava intensamente a cabra, não sabia a cabra. Concluí que devia ter leite
de vaca misturado, mas estranhamente o sabor não acompanhava o cheiro.
Decidi fazer uma tigelada de requeijão com o queijo, uma estreia absoluta. A tigelada da Beira Baixa, sobre a qual já falei, (Ver: :https://garfadasonline.blogspot.com/2015/06/tigelada-da-beira-baixa.html), não leva habitualmente requeijão. Em minha casa, na Covilhã, era sempre a de requeijão que comíamos. Estranhamente nunca falei nela, o que prometo fazer proximamente.
Hoje é só para lhes mostrar a
minha experiência, feita com o queijo de cabra biológico a fazer o papel do
requeijão. Não dou a receita porque a fiz a olho, em dose menor para me caber
num pequeno forno e evitar ligar o forno grande. Fá-lo-ei quando voltar a este
tema.
A tigelada ficou boa, embora não
o suficiente para de futuro tomar o lugar do requeijão. Cheirava a queijo e até sabia a
queijo, talvez detectado pelo gosto inusitado naquela receita. Foi uma boa
solução, mas a não repetir.
Hoje os locais comerciais estão ávidos de história. Ter um passado valoriza o local e o produto. Nalguns países é assim há muitos anos, mas os portugueses forma-se esquecendo disso e paulatinamente foram destruindo sem qualquer apego as antigas lojas, cafés, drogarias, livrarias, etc. Foram registadas já tardiamente as “lojas históricas”, mas nem isso as salvou da destruição. Em seu lugar surgiram lojas turísticas algumas semelhando um passado que não tinham.
Esta introdução vem a propósito do bolo-rei e da sua introdução em Portugal hoje atribuída à Confeitaria Nacional, por Baltazar Roiz Castanheiro, na década de 1870. Esta antiga confeitaria tem sabido manter-se e apresenta uma história que hoje dificilmente pode ser rebatida e que lhes permite com orgulho vender um produto com passado.
Mas as origens de doces ou de pratos que os restaurantes e pastelarias hoje tomam como suas com o tempo pode revelar-se diferente. Em História, como na Medicina, o que hoje é verdade amanhã pode não o ser. É isso que ambos os ramos do conhecimento têm de entusiamante.

Pastelaria Lisbonense. Foto Guedes AHCMP
Passemos então ao Porto onde a
primeira introdução do bolo-rei terá tido lugar em 1890 na Confeitaria Cascais, na Rua de S. António, de acordo com os autores
do blogue Porto de Antanho.
Num papel publicitário de 1897, o proprietário da Confeitaria e Pastelaria Lisbonense, J. Augusto Ferraz de Menezes, que tinha loja na Rua Formosa 404, no Porto, onde também existia uma refinação de açúcar e onde eram feitas conservas de frutas, contava a história do bolo-rei em forma de lenda.
A lenda explicava a história
do bolo que fora encontrado por uma fada nos jardins do seu palácio. Tocado
pela sua varinha mágica revelou-se ser o bolo-rei da Confeitaria Lisbonense. A
fada, proclamada rainha do bolo-rei pela sua comitiva, fez saber aos seus
vassalos que incorriam num crime de lesa-majestade se deixassem de comprar o
bolo-rei da Confeitaria Lisbonense nos dias 3, 4, 5 e 6 do mês de Janeiro de
1897.
Embora não saibamos as datas do início da produção do bolo-rei ficamos assim esclarecidos da sua origem, e bem mais descansados. A Confeitaria parece datar de 1882, mas a presença de duas medalhas ganhas em Exposições no Palácio de Cristal, no Porto, a da Exposição Hortícola que teve lugar em 1877 e a Industria Portuguesa em 1897, situam-na, provavelmente como conservaria ou refinaria, pelo menos na década de 1870.
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| Pormenor das medalhas ganhas em Exposições |
O que percebemos é que este
bolo era no final do século XIX vendido apenas no início de Janeiro, destinando-se
a ser consumido no dia de Reis. Num anúncio publicado em 23 de Dezembro de 1900
no jornal "Voz Pública" a Confeitaria
Lisbonense disponibilizava já o bolo-rei a partir dessa data e até ao dia de Reis, fazendo crer que então o hábito se estendia já ao Natal.
Voz Pública, 23 de Dezembro de 1900
Curiosamente na mesma
publicidade era dito que já fabricavam aquele bolo há vários anos e que tinham
sido os primeiros a produzi-lo no Porto.
Confusos? O tempo esclarecerá
as contradições.
Segundo alguns teria sido a Rainha Santa Isabel, a instituidora da primeira festa do “Império do Espírito Santo”, realizada no Convento de Franciscanos de Alenquer, cerca de 1323. Foi associada a estes ideais que se instituíram algumas Confrarias dedicadas ao sustento dos pobres, à criação de hospitais e à organização de bodos.
As festividades do Espírito Santo têm lugar no Pentecostes e correspondem a uma sobrevivência de antigos rituais pagãos, como as Saturnalia romanas. Isso explica a distribuição da carne de reses sacrificiais e do pão bento. Com estas festividades invocava-se a protecção divina contra certas calamidades naturais, como a peste, no Continente ou, mais tarde, os sismos nos Açores.
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| Espírito Santo. Pentecostes. Francico Henriques. MNAA |
Em Portugal continental poucas festas do
Divino Espirito Santo sobreviveram. Mantém-se ainda as do Penedo (Colares), as
de Cardigas (Mação), as de Eiras (Coimbra) e a mais conhecida, em Tomar. Esta
última designada mais popularmente por Festa dos Tabuleiros, pela presença de
inúmeras jovens com tabuleiros de pão à cabeça, decorados com flores.
Contudo se falarmos em Festas
do Divino Espírito Santo vem-nos imediatamente à cabeça as que têm lugar nos Açores.
A sua importância é tão grande que todos os anos os emigrantes açorianos
regressam à sua terra para nelas participarem.
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| Pormenor da fotografia. 1928 |
Por isso me espantou uma
fotografia com a representação de uma festa do Espírito Santo que teve lugar em
1928 na Picanceira (S. Isidoro - Mafra).
Fotografei a Picanceira há
muitos anos quando ainda esperava integrar as cozinhas populares no meu livro Cozinhas. Espaço e Arquitectura. Ficou
limitado às casas senhoriais mas as imagens desse bairro operário com 23
moradias unifamiliares, em fila, nunca se me apagou da cabeça. Infelizmente não
sei onde param as fotografias que agora seriam de grande utilidade.
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| Fotografia de Miguel Machado publicada no facebook de O Saloio |
Designado Bairro dos Ilhéus, faz parte da Quinta dos Machados. Esta quinta foi fundada em 1830 por Domingos Dias Machado, proveniente dos Açores, grande agricultor e que foi Presidente da Câmara de Mafra. Anexo a ele foi construído o bairro dos Ilhéus, no século XIX, adaptando um estilo insular, baseado na arquitetura da ilha de São Miguel, e adaptando alguns aspectos de arquitectura vernacular da região. Domingos Machado necessitava de trabalhadores para a sua propriedade agrícola e foi buscar ao Açores famílias de conterrâneos seus para trabalharem nas suas terras dando-lhes alojamento.
As casas, de pequenas dimensões, com dois pisos, impressionam
sobretudo pelo aspecto do conjunto e é sobretudo a imagem da zona posterior com
os bojos dos fornos individuais que mais chama à atenção.
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| Império do Espirito Santo nos Açores |
Explica-se assim a festa do
Divino Espírito Santo num local tão inusitado. Eram os açorianos a festejar uma
data tão importante para eles. Não é possível dizer se a festa teve lugar na
Quinta ou na rua principal do bairro, para onde davam as casas, e onde se
situavam as portas de entrada, ao nível do piso superior.
| Coroa do Espirito Santo que encima os tabuleiros de Tomar. Trabalho de Otilia Marques de Tomar. |
Passou quase um século e tudo
mudou. Felizmente ficou-nos esta memória.
Uma factura, mesmo que apresente poucos elementos, é quase sempre informativa. Contudo existem algumas que, pela riqueza de pormenores, nos indicam a existência de uma loja que desconhecíamos, os produtos que vendia, os preços na época, etc.
Para além do aspecto gráfico, muito cuidado nalguns casos, em especial no século XIX, podem também contar-nos uma história.
Quando fiz a investigação para o livro «Mesa Real», publicado pela primeira vez em 2000, apresentei os cabeçalhos de três facturas que encontrei na Torre do Tombo e que mostravam a evolução ao longo dos anos de uma oficina de latoaria, para fábrica de latas e depósito de conservas alimentares.
Esta factura de uma
serralharia que agora me chegou às mãos, para além da sua beleza gráfica, é um
verdadeiro mostruário de peças em ferro feitas pela Fábrica Lisbonense de Móveis de Ferro. Propriedade de A. P. Santos
Chaves, estava situada na Rua da Palma, cuja fachada do edifício com o funcionamento
no seu interior é visível na parte superior da factura. Tinha dois depósitos,
um na rua Augusta e outro na Rua dos Fanqueiros, portanto bastante centrais,
que deviam funcionar como locais de venda.
Lá encontramos os seguintes artigos:
3 lavatórios, com suportes para espelho e baldes respectivos; 1 bacia e um
jarro; 1 bidé; 2 leitos à inglesa; 1 escarrador; 2 alguidares de zinco; 3
bacias uma delas para banho; 1 fogão de quatro bocas circular; 1 cabide para
chapéus e até uma cama para bonecas.
É caso para dizer: há dias de
sorte!.