sexta-feira, 23 de março de 2018

Museu Virtual: Caixa para Chá



Nome do Objecto: caixa para chá (tea caddy)

Descrição: Caixa em madeira com seis gomos e tampa. Lacada em castanho e com desenhos e reservas em dourado. Estas representam seis cenas diferentes com figuras masculinas e femininas sentadas, envolvidas por plantas (de chá?). No interior encontra-se caixa em estanho com tampa dupla, a interior com pequeno botão central em marfim. Assenta em três pés trabalhados e dourados. Apresenta fechadura e chave para evitar furtos.
 
Material: Madeira lacada e dourada e estanho.

Época: Início do século XIX (primeira metade, c. 1840)

Marcas: Não apresenta.

Origem: Mercado português.

 Grupo a que pertence: Recipientes para guardar ou transportar alimentos

Função Geral: Recipiente para serviço e consumo de bebidas.

Função Específica: Preservar as folhas de chá, sem humidade e manter o cheiro.

 Nº inventário: 3300

Objectos semelhantes: Não inventariados.

 

Notas:

Durante o século XVIII foram usadas em Portugal caixas para chá em porcelana da China ou em prata, com o mesmo fim, muitas vezes com as armas dos encomendadores.
 Este tipo de caixa para chá em chinoiserie é extremamente raro, em especial com esta tipologia. Designado em inglês melon tea caddy, devido à sua forma em melão, existem com outras formas de frutas como as caixas com formatos de pêras ou de maçãs. Surgiram no início do século XIX. Depois de 1850 as caixas para chá apresentam-se mais frequentemente em madeira, com cavidades duplas ou triplas.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Lançamento do Livro das Pitanças


Vai ser lançado no próximo dia 15 de Março, às 17 horas, no Convento de Mafra um interessante livro denominado «Livro das Pitanças».
Passamos assim a ter acesso a um manuscrito conventual do século XVIII, designado Princípio e Fundação do Real Convento de Mafra, e sua grandeza, e sua sustentação, e luxo, etc. que é um códice pertencente ao Palácio Nacional de Mafra e que se conserva na sua extraordinária biblioteca (Casa da Livraria como era apelidada no livro).
A outra designação mais apelativa e simples, Livro das Pitanças, deve-se ao facto de nele estarem também registados os bens de consumo destinados aos religiosos.
Bluteau descreve os vários sentidos para esta palavra ao longo dos tempos mas a principal é a sua utilização para designar uma ração dada nas comunidades religiosas, em especial a que se consumia nos dias de festa.

Quem puder estar presente pode ter o livro em primeira mão e deleitar-se de imediato. Para os outros interessados ficam a saber que dispõem agora de mais uma valiosa fonte de informação sobre o Convento de Mafra e o quotidiano dos religiosos que o habitaram.

sábado, 3 de março de 2018

O citrino Kumquat


Falei a primeira vez no Kumquat no Dicionário Gastronómico «Do comer e do falar…» que escrevi com a minha amiga Graça Pericão. Cada um dos capítulos, que corresponde a uma letra do alfabeto, tem uma representação de um alimento começado por essa letra. O K esteve para ser o Kumquat mas acabou por ganhar o mais conhecido Kiwi.
Na altura ainda eu não tinha provado este fruto que agora já se cultiva em Portugal. Originária da China, tal como outros citrinos, passou depois para o Japão. Kumquat ou chin can significa em chinês «laranja de ouro», tal como o vocábulo japonês kinkan.
Gravura de 1874 de Hood Fich
O seu nome científico é Citrus japonica que veio substituir a designação antiga Fortunella margarita, nome atribuído a uma das suas variantes trazida da China para Londres em 1846 por Robert Fortune[1], um explorador de plantas pertencente à Royal Horticultural Society. Em 1850 já era conhecido nos Estados Unidos.
Laranja do Algarve, de Setúbal e Kumquat
Na literatura chinesa foi mencionado em 1178. E nós os portugueses, os responsáveis por ter divulgado a laranja a partir da China, também conhecemos precocemente o kimquat como afirmou um escritor europeu, de que desconheço o nome, que em 1646, lhe havia sido referido por um missionário português que se encontrava na China.
Em 1712 este fruto já fazia parte das plantas cultivadas no Japão e daí a sua designação. A planta de pequeno porte foi durante séculos apreciada como planta ornamental. Os japoneses fazem com elas lindíssimos bonsais, porque uma pequena árvore dá imensos frutos.
Nagami. Planta enxertada. Foto tirada da internet.
Existem quatro variedades principais que são: a “Marumi”, de frutos redondos; a “Nagami”, de frutos elipsóides a ovais; a “Fukushu”, de frutos redondos a piriformes e a “Variegada”, de frutos variegados de listas amarelas.
No meu último almoço no restaurante Cotrim, em São João da Talha, um lugar escondido onde se come óptima comida portuguesa, experimentei a variante oval ou Nagami. Come-se com casca e é deliciosa. As que experimentei tinham vindo de Mação mas há já outros locais onde é cultivada.
Para além de muito agradável ao natural (embora haja quem a considere ácida) deve ser muito boa em conserva doce. Guardei as sementes porque pode ser cultivada em vasos mas é preferível comprar a planta já desenvolvida. Fiquei fã.

[1] A quem se atribui também a introdução do chá, trazido da China, na Índia na região de Darjeelling, em 1848.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Objecto mistério Nº 56. Resposta: Aquecedor de pratos (Rescaldeiro)

 
O português é uma língua riquíssima mas quando se trata de termos técnicos temos dificuldade em encontrar a palavra certa. Quando dizemos «aquecedor de pratos» referimos-nos ao pratos ou travessas com iguarias, colocados sobre a mesa e destinados a mantê-la quente. Temos também a palavra «rescaldeiro» que seria muito adequada, mas que raramente é usada[1].
Depósito na parte inferior destinado a colocar álcool.
Na realidade existem outros aquecedores de pratos, do tipo móvel, que eram colocados à frente da lareira e que permitiam manter a comida quente. Modernamente os aquecedores de pratos são eléctricos, destinam-se a aquecer os pratos antes de irem para a mesa e são usados quase exclusivamente na restauração.
Os franceses chamam a estes objectos réchaud de table ou chauffe-plats. E na ausência de palavra adequada em português adoptámos também a expressão «réchaud» para utensílios com este fim e a de «prato-réchaud» para os pratos de parede dupla em que se introduz água quente para manter os alimentos mais tempo aquecidos.
Foto tirada da internet
Os franceses designam os pequenos aquecedores de formas variadas em que o aquecimento é feito por meio de brasas, de álcool, água quente ou mais modernamente eléctricos «chaufferette, quando se destinam a aquecer partes do corpo. Para estes temos as palavras escalfeta, botija, aquecedor de mãos, rescaldeiro, pelo menos.
Foto tirada da internet
Este tipo de réchaud ou aquecedor de mesa que serviu de objecto mistério começou a sua divulgação no século XIX, sobretudo nos países mais frios. Este modelo foi um dos primeiros deste tipo, e foi concebido por Mr. Cavaillé, que tinha fábrica em Paris no Boulevard Poissonière, 21. Foi registado em 10 de Outubro de 1902. É provável que tivesse saído da mesma fábrica referida numa tese francesa sobre fabricantes de bronze em 1839-1870 onde surge descrito como fabricantes de tubos de orgão. Nesse mesmo estudo há referência a um litígio entre uma fabricante chamado Boulonnois que se queixou, em 1857, de a firma Allez Frères ter copiado o seu modelo de chaufferette. Desconheço contudo se era semelhante à concebida por Mr. Cavaillé.
No início do século XX existiam várias marcas como esta, a «La Frileuse», mas também a «Cendrillon »; « La Parisienne»; « La Chauffeuse moderne » ou já nos anos 30 a «Thermoto».
Aquecedor de pratos dos anos 60, com velas, que uso frequentemente
Algumas serviam para aquecer os pés e uma idêntica à apresentada está registada num museu canadiano como aquecedor de pés. Dadas as dimensões (os pés ficariam de fora e as escalfetas são sempre maiores) e o facto de ter encontrado um exemplar que apresenta acoplado um aro para colocar o prato, penso que se confirma a resposta dada a este novo desafio, que muitos acertaram.




[1] António de Moraes Silva no Diccionário da Língua Portugueza de 1831, menciona esta palavra, mas não se encontra na edição de 1789. Na realidade, nas grandes casas, durante o século XVIII, os pratos antes de chegarem à mesa eram aquecidos em pequenas fornalhas situadas perto das salas de refeições, pelo que os rescaldeiros só se devem ter divulgado no século XIX. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Objecto mistério Nº 56

Acabado de comprar este fim-de-semana, numa feira na província, não resisto a apresentar este objecto que me fascinou de imediato.
É uma caixa em cobre que mede 20 x 16 cm e tem de altura 5,5 cm.

Parece-me um desafio fácil mas, pelo que vim a decobrir, não tão fácil assim.

Perguntas do costume: para que serve? Como se chama?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Caldevilla nas Belas Artes

 Vale apena deslocarem-se à Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, para ver a exposição de cartazes de Raul de Caldevilla (1877 -1951).
Em 1914, Caldevilla fundou no Porto a ETP, Empreza Técnica de Publicidade, que se pode considerar a primeira agência publicitária nacional e que mais tarde se transformaria na Empresa do Bolhão.
Caldevilla teve também um papel importante na área do cinema português publicitário e não só. Dentro da temática deste blogue não posso deixar de falar no filme Chá nas nuvens, feito em 1917, como publicidade às Bolachas Invicta. O chá, devidamente acompanhado pelas bolachinhas, foi tomado no alto da torre dos Clérigos.
Para tornar mais espectacular este acontecimento filmado o acesso ao local foi feito por escalada realizada por dois espanhóis, contractados para o efeito. Cá em baixo a acompanhar todo esta aventura estavam mais de 100.000 pessoas, sobre as quais foram lançados pequenos papéis que semelhavam as bolachas. 
Uma campanha publicitária espantosa para a época e que associava já o interesse de Caldevilla na publicidade com o seu gosto pelo cinema.
É também por isso que na exposição se associam os cartazes de cinema, da colecção da Cinemateca Nacional com os muitos outros comerciais, em grande maioria de colecções privadas.
São esses cartazes que podem agora visitar até ao final desta semana, uma vez que a exposição foi prolongada.
Nota: ilustração com cartazes patentes na exposição.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Proteger os livros

Livros portugueses de cozinha do século XX  forrados com chita
Não vou falar de encadernação que é a melhor maneira de proteger os livros. Pessoalmente agrada-me ver os livros perfilados nas estantes envolvidos na sua pele colorida onde sobressaem as letras de ouro. Quando se apresentam com as capas fragilizadas, inspiram-me um instinto de protecção e lá vão eles para o encadernador. Voltam resistentes e belos na sua nova indumentária.
Capa de linho bordada
Mas há outras formas de protecção dos livros e uma de que lhes quero falar são as capas de pano, usadas provisoriamente. Ultimamente comecei a guardar algumas delas, em especial as usadas para envolver os livros de culinária. 
Capa em tecido de algodão com molas que vinha a forrar um livro de culinária
É sabido que um grande número de livros de culinária se apresentam em mau estado. Saem das estantes para a cozinha e são manuseados por mãos sujas de comida. Por vezes nem se tem noção disso mas seguir uma receita leva-nos a esquecer a fragilidade do papel. E lá aparecem nódoas nas folhas e nas capas.
Talvez por isso seja mais frequente encontrar capas de pano nestes livros. Estas que lhes apresento são exemplos desses cuidados. De tal modo era sentida essa necessidade que encontrei na Revista Lavores e Arte Aplicada de 1955 um desenho para bordar uma capa para o livro O Mestre Cozinheiro. 
Capa bordada, pronta a aplicar, para o livro O Mestre Cozinheiro
Era uma época em que as pessoas tinham tempo para bordar capas de livros e ficamos a pensar: quantas pessoas o terão feito?. Pois bem, podem imaginar a minha alegria quando no meio de uns bordados encontrei uma capa idêntica, resultado deste modelo, ainda por aplicar. Tinha que partilhar esta descoberta simples. 
O Mestre Cozinheiro em 4ª edição
P.S. Refiro-me aqui apenas aos livros impressos de culinária. Quanto aos manuscritos com receitas é um outro tema de que falarei numa próxima vez.