sábado, 19 de outubro de 2024

Um Menu da Casa Real num calendário

 

Os menus em Portugal, surgiram na Casa Real na segunda metade do século XIX, com maior regularidade na década de 80. O seu uso foi precedido por ementas de casas comerciais, que mais precocemente adoptaram o serviço à russa.

 

Em Novembro de 1867, Urbain Dubois, importante cozinheiro francês, autor de vários livros, escreveu para a corte de Lisboa a pedir um “um menu autêntico da corte de Portugal, bem como as armas da Casa Real”, para introduzir na 3ª edição do seu livro Cuisine de Tous les Pays. Este devia ser publicado conjuntamente com outros de várias casas reais da Europa.[1]

Presumimos que nunca obteve resposta, pois a receita que viria a ser publicada no livro, no capítulo Menus Authentiques, foi fornecida pela Embaixada de França em Portugal.  Trata-se de um menu de 18 couverts, servido por M. Bla, com receitas francesas ao gosto da época.[2]


Foi por isso com surpresa que encontrei um calendário da Soc. Agrícola da Quinta da Aveleda, com ementas de várias casas reais europeias, destinado ao ano de 1950. Começava com uma ementa da Corte de Windor, de 1858. Seguia-se uma outra da corte de S. Petersburgo, de 1866, da corte francesa e da Turquia.

 Os meses de Setembro e Outubro eram então “decorados” com a ementa da de um jantar de 20 convivas, servido na corte de Lisboa em 1860.

Não existe qualquer informação sobre a proveniência destes documentos, mas, no final de cada representação da ementa, era acrescentada uma frase em que se dizia com graça, que não fora servido o Casal Garcia ou a Aveleda porque não havia.

Quanto à ementa da corte portuguesa rematava, com a frase: “ E no final a velha bagaceira Aveleda, se não fora ainda jovem então”.

Em cada uma das folhas do calendário um casal de aves pintadas, contornadas por um rebordo florido, tendo na retaguarda da folha escrito: “Para encaixilhar”.

 Estava tudo previsto. Não sei porque é que vim levantar questões.

P.S. O desenho destas aves viria também a ser utilizado em capas de ementas, destinadas aos restaurantes e oferta da mesma Quinta da Aveleda.

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[1] Pereira, Ana Marques Mesa Real. 2000: 189.

[2] Dubois, Urbain, La cuisine de tous les Pays, 7ª ed., Paris, 1897, Quadro XLVII.



 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Um lembrete e uma coincidência

 

O lembrete é evidentemente para recordar o lançamento do livro Rafael de Faca e Garfo, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, no dia 12 de Outubro, sábado às 15,30 m. Aproveite, visita o Museu e assiste ao lançamento. Dois em um.

Pag. 95 do livro

A coincidência está bem visível nas imagens apresentadas.

Pág. 96 do livro
Nas páginas 95 e 96 é reproduzido parte do serviço “Varina e Torre de Belém”, pertença do Museu Bordalo Pinheiro, e que foi feito em várias cores.

Pois bem, esta semana entrou cá em casa um prato em preto, precisamente deste modelo. Há pessoas com sorte! Eu sou uma delas.

Marca incisa e pintada


terça-feira, 1 de outubro de 2024

Lançamento do livro Rafael de Faca e Garfo

 

Tenho o prazer de anunciar o lançamento do meu novo livro “Rafael de Faca e Garfo” que terá lugar no dia 12 de Outubro no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa, às 15,30 horas.

Sobre o mesmo remeto para as informações já disponíveis no site do Museu, em 

 https://museubordalopinheiro.pt/atividade/lancamento-do-livro-rafael-de-faca-e-garfo/

Estão todos convidados. Apareçam! 


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Um poema de João de Deus dedicado a Bulhão Pato

 

Estive a organizar jornais antigos e a seleccionar os primeiros números de periódicos que, muitas vezes, não chegavam a ter números seguintes. 

No século XIX os títulos eram imensos, muitas vezes com vida curta e pequeno número de edições, mas são muito interessantes.

Neste jornal, intitulado Jornal para Todos, publicado a 1 de Julho de 1898, João de Deus, na rubrica “Lyra D’Ouro”, dirigia-se a Bulhão Pato disponibilizando-se para partilhar um vinho que lhe fora oferecido. Enquanto escrevia descobre que afinal as garrafas já eram poucas. Tarde demais.

Quase a lembrar aquela história antiga: “Trazia-te um figo. Mal te vi comi-o”.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Convite: Lançamento de livro na Covilhã

 

Durante o Festival da Cherovia, de que sou confrade, irei apresentar o livro “Receitas particulares e Curiosas”, baseado em dois manuscritos de receitas, do século XIX, da região Norte.

Ao mesmo tempo farei uma pequena exposição de objectos relacionados com a cozinha e a mesa, que fazem parte do meu espólio e do sonho de um dia fazer um Museu. Apareçam!

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Uma caixa protectora

 

Os cadernos dedicados especificamente ao registo de receitas da época de 1960-1970, são hoje muito interessantes.

Tenho vários com receitas, mas a grande maioria encontra-se em branco ou apenas com meia dúzia de receitas registadas. Aquele ar arrumadinho para registo do que já se encontrava em cadernos antigos ou em papéis soltos, não resultou completamente.

Eu percebo isso bem. As agendas muito bonitas, cá em casa, também ficavam sem registos, sendo preferidas as mais práticas e que não davam pena “estragar”.

Hoje, nas arrumações, encontrei vários destes cadernos, que mostrarei proximamente, mas agora fico-me por esta, metida numa caixa de papelão e completamente nova. Nunca foi usada, como muitas outras. Perderam-se as receitas, mas ganhou-se um caderno com capa de plástico, impecável. Às vezes não se pode ter tudo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Uma ementa e uma boa história associada

  

Tenho um bom arquivo de ementas que guardo por temas. Algumas têm interesse pelo aspecto gráfico, outras pela sequência de pratos e outras ainda, as comemorativas, podem ser valorizadas de acordo com o motivo ou quando têm uma história associada. Foi o caso da que agora se apresenta e que nos mostra como, às vezes, o mundo é pequeno.

 O meu amigo Pedro ofereceu-me uma ementa de um almoço de homenagem a Noel Perdigão. Datada de 12 de Março de 1944 teve lugar na Casa do Ribatejo. Olhei para ela e pensei: “Este nome diz-me qualquer coisa. Já me passou pelas mãos algum tipo de informação”. Como tinha estado a fazer recortes (que eu guardo por temas) de umas revistas antigas que se encontravam deterioradas, pensei que devia ser daí.

Depois de uma longa procura, uma vez que todo o material relacionado com esta figura, não estava ainda arquivado acabei por encontrar uma pasta onde se encontrava um jornal Vida Ribatejana, de 21 de Janeiro de 1977, dando a notícia da morte de Noel Perdigão com 81 anos, com pormenores sobre a sua vida e agradecimentos à sua vasta colaboração nesse jornal.

Já em 1955 a Vida Ribatejana havia publicado um artigo de duas páginas sobre este artista com o subtítulo “Pintor Ribatejano”. Elogiando a sua acção mostrava várias obras da sua autoria.

Para além da sua obra artística como pintor e desenhador, fica-nos a ideia de alguém que era apreciado pelos seus colegas. No mesmo lote consta uma capilha com uns versos a ele dedicados por ocasião da sua mudança de jornal para um outro e que aqui se mostra. Assinado por vários colegas, os versos recorrem aos vários jornais da época, cujos títulos são enquadrados na métrica. Permito-me pensar que poderia existir outra ementa deste dia, sabendo bem como são os portugueses nas despedidas… Mas essa não apareceu.

Noel Perdigão ao centro

Mas o mais interessante é que possuo as fotos, em álbum e avulsas, que cobrem a vida de Noel Perdigão. Compradas noutro local vieram juntar-se à ementa e completar uma história. Situações destas não são raras quando é vendido um espólio a várias pessoas. O que é raro é juntar dados dispersos de uma vida, completá-los e valorizá-los. E isso é o que eu faço quase todos os dias.