domingo, 21 de dezembro de 2008

A véspera de Natal e o nascimento do Pai Natal

Na tradição das histórias de Natal surge-nos como precursor Clemente Clarke Moore (1779-1863) que foi professor de literatura grega e oriental naquela que é hoje a Universidade de Columbia.
Na véspera de Natal de 1822 , C. C. Moore saiu de casa, onde vivia com a sua mulher e seis filhos, para ir comprar um peru. Durante o caminho, enquanto enfrentava o rigor do Inverno, imaginou um poema de Natal que nessa noite contou aos seus filhos. Posteriormente escreveu e publicou o poema intitulado «A visita de S. Nicolau», que hoje é mais conhecido pelo nome de «A noite de véspera do Natal».
O poema teve uma aceitação extraordinária da parte do público e divulgou-se por vários países. Foi a sua descrição de São Nicolau que ajudou a formar a imagem do Pai Natal, chamado S. Nicolau (Santa Claus) nos outros países. Foi nele que vários cartunistas se inspiraram, ao utilizá-lo nos seus desenhos.
Foi o caso de Thomas Nast, que era na altura um conhecido desenhador gráfico na área da política, mas também de outros que se lhes seguiram, como aconteceu nas publicações da revista «Harper’s Weekly».

Desenho de Thomas Nast (c. 1869) designado «Saint Claus nos seus trabalhos», 1ª representação do Pai Natal com fato encarnado.
Embora Moore, em 1844, tenha publicado o conjunto dos seus escritos poéticos, foi a sua história, imaginada no regresso do mercado, na véspera de Natal de 1822 que o tornou famoso.
Segundo alguns, este autor baseou-se numa história de Washington Irving que publicara, em 1821, um poema de Natal chamado «O amigo das crianças».
Já no seu primeiro livro, publicado em 1809, e intitulado, «A History of New-York from the Beginning of the World to the End of the Dutch Dynasty, by Dietrich Knickerbocker», Irving se referia inúmeras vezes a São Nicolau. Descrevia-o então como um santo com fato e chapéu, a fumar um longo cachimbo e sentado num cavalo. O pseudónimo que adoptou nesse livro, "Knickerbocker", serviu de nome a uma grupo de homens que então viviam na chamada New Amsterdam, nome de Nova Yorque no século XIX. Foram eles que introduziram o culto de São Nicolau, embora na realidade fossem ingleses e não Holandeses. Talvez isso explique porque na descrição de São Nicolau não era referido o acompanhante árabe negro (Zwart Piet), habitual na iconografia holandesa.
Postal holandês com a imagem de S. Nicolau com o "Pedro Preto"
Mas voltemos mais atrás para lembrar quem foi S. Nicolau.
Este santo foi bispo em Mira, na actual Turquia e aí viveu, vindo a falecer no século IV. É um santo padroeiro de grande devoção na Rússia, o que explica a sua representação em ícones russos onde aparece com uma barba branca. Mas também o é noutros países, em especial na Grécia, Noruega e Holanda (Amesterdão). Neste país a sua festa tem grande tradição, razão porque alguns atribuem aos emigrantes holandeses a introdução do seu culto na América.
Toda isto vem a propósito de um anúncio da Coca-Cola sobre o qual falaremos no próximo post. Antes porém deixo uma versão do poema de Clemente C. Moore, numa lindíssima publicação de 1925, edição de McLouglin Bros, no livro «The Christmas Book».



Bolo de Natal


Este bolo de Natal, uma porca com os porquinhos a mamar, foi-me oferecido o ano passado.
Embora tenha longa duração porque é feito de massapão, o seu recheio é de doce de ovos, o que já lhe encurta o período de vida.
Já foi comido o ano passado, mas ficou a fotografia para recordar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Objecto Mistério Nº 3. Resposta: Funil para tarte

O funil para tartes funciona como uma chaminé, nome que por vezes também toma, uma vez que permite a saída do vapor, do seu interior.
As tartes a que nos referimos são as «pies» dos ingleses. Isto é, uma empada gigante, portanto com uma tampa de massa. Eram antigamente chamadas «pastelões».

Existem também algumas receitas que as designam por «timbal». A designação de timbal aplica-se a um instrumento de percussão de origem africana, sendo possível que a adaptação da palavra ao prato culinário tenha a ver com a forma da massa esticada sobre a tarte.
A receita que eu aprendi de timbal, na minha adolescência, era feita com massa folhada, ao contrário das empadas ou pastelões em que se usa mais frequentemente massa quebrada, mas não sei se esta é uma regra.

Durante o cozimento no forno o recheio da tarte ou pastelão ferve e liberta vapores que obrigam, se não se quiser que esta rebente, a que se faça um ou mais orifícios para a saída do mesmo. Há quem faça um orifício central e coloque um canudo de papel vegetal para permitir a saída do vapor. Mas existem objecto próprios para esse fim.

São os ingleses o povo que mais manteve o costume medieval dos pastelões. Pela mesma razão são eles que usam mais frequentemente funis para este tipo de tartes cobertas.

Existem vários modelos de que mostramos alguns exemplares, mas o mais interessante foi ter descoberto que o objecto mistério que apresentei como desafio é português. Embora seja muito semelhante aos paliteiros, em forma e dimensões, estes apresentam a cabeça do pássaro em posição horizontal.
Foi produzido na SECLA (Caldas da Rainha), penso que nos anos 60. Deve ter sido feito apenas para exportação, como acontece com várias peças da Secla. Na realidade não conheço nenhum português que alguma vez tenha usado um destes funis e eu própria confesso que também não.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Objecto Mistério Nº 3

- O objecto mistério de hoje é um utensílio de cozinha e não de mesa, como pode parecer à primeira vista.

- É um objecto que deve datar dos anos 60.

- Foi produzido em Portugal, mas destinou-se sobretudo à exportação

- Existem outros da mesma forma mas com fins diferentes. Esses sim de mesa.

- Para o mesmo fim existem utensílios de diferentes formas, como veremos na resposta seguinte.

- Qual é a coisa? Qual é ela?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A crise e a «Economia Doméstica"

Em tempos de crise é bom lembrar que em Portugal, ainda não há muitos anos atrás, se vivia com imensas dificuldades.
Quando começou a haver algum desafogo económico deixaram de se valorizar as pequenas coisas. Nos últimos tempos alcançou-se o auge do consumismo, que atingiu mesmo quem não o podia exercer.
Esqueceram-se os valores morais, os mais importantes, e só se valorizou o material. Dentro deste campo apenas as «marcas comerciais», identificadas com qualidade, luxo ou moda, passaram a ser importantes. Os mais novos, mais facilmente influenciados pela publicidade, assimilaram com facilidade estes conceitos.
De repente todos descobriram que afinal o paraíso prometido não estava ao alcance de todos. Nem nunca esteve. Afinal demasiadas pessoas estavam distraídas.

As novas gerações ouvem agora e pela primeira vez o conceito de economizar. Desde sempre essa noção foi sendo assimilada naturalmente, de forma racional e intuitiva.

Nos finais do século XIX, quando o papel das donas de casa se tornou mais relevante começou-se a instruir as mulheres, pilares da família. E surgiram conceitos considerados então científicos de «Economia Doméstica», que em Portugal apenas na primeira metade do século XX foram ministrados. E mesmo assim apenas nas grandes cidades.

Com o tempo perderam-se estes conceitos de economia doméstica ou outra. E hoje fico surpreendida por ouvir a própria EDP a ensinar os consumidores a poupar.

Como vai longe o período oposto em que, a então correspondente CRGE (Companhias Reunidas de Gás e Electricidade) incentivava ao consumo, promovendo mesmo a venda de electrodomésticos.
Tudo a isto a propósito de um pequeno objecto. Uma lata de conservas reciclada em raspador. Foi-me vendida, como sendo um raspador de escamas de peixe. É provável que assim seja.
O seu fundo foi picado com um prego, de forma regular, criando orifícios, em que os bordos cortantes são utilizados para raspar. Pode também ter sido utilizado para raspar a casca de citrinos, à semelhança de outros exemplares que possuo.

Para mim é um objecto fascinante porque encerra em si, para além da noção de economia, uma disponibilidade do tempo e uma atenção pelas pequenas coisas que hoje já não existe. Para meditar em tempo de crise económica.

domingo, 30 de novembro de 2008

Joana Vasconcelos e os utensílios domésticos

A propósito do meu último post um amigo mandou-me uma foto do sapato Dorothy de Joana de Vasconcelos, feito com tachos e tampas em aço inoxidável e que esteve exposto em Paris, no jardim da Tulherias, em 2007.

Foi uma maneira de eu chamar à atenção para a obra de uma das mais criativas artistas plásticas portuguesas e para o uso dos utensílios domésticos na arte.

Lembrei-me imediatamente de outras criações desta artista, como é o caso do Coração Independente, feito em arame e talheres de plástico e que vi exposto no restaurante Eleven.
Na altura fiquei encantada com aquele coração gigante, de cor amarela, em que o entrecruzamento dos talheres semelhavam uma filigrana translúcida que reproduzia os típicos corações nortenhos. Soube depois que a mesma obra havia sido feita utilizando talheres em preto e também em encarnado.

Joana Vasconcelos tinha já usado funis de plástico azuis, numa criação de 1999 a que deu o nome de Tolerância Zero.

Mais conhecida é a estrutura feita com garrafas de vidro verde, que se encontra à frente da entrada do Museu Colecção Berardo, de que faz parte e que se intitula Néctar. Foi com esta instalação que Joana Vasconcelos recebeu o prémio Colecção Berardo, em 2006.
No meu mundo «terra a terra» este entrelaçado entre os objectos comuns e a arte dá-me um enorme prazer, que agora partilho com quem me lê.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os utensílios domésticos como Arte


Entre Fevereiro e Maio deste ano esteve presente uma exposição do escultor chinês Zhan Wang no Museu de Arte Asiática de São Francisco.

Nascido em Pequim, em 1962, tornou-se conhecido como um importante artista da sua geração, com exposições em vários países.

As suas criações mais reconhecidas são as rochas em aço inoxidável em que molda as folhas de aço sobre secções da rocha, unindo-as depois e polindo-as. O resultado é o de uma reprodução oca e brilhante, de um corpo geológico.

As rochas que servem de modelo são seleccionadas pelo autor e apresentam formas que são valorizadas pela cultura chinesa, que considera a água e as rochas como elementos importantes da natureza e fontes de meditação. Zhan Wang estabelece desta forma uma ponte entre a China tradicional e a tecnologia moderna.



Na exposição referida o escultor utilizou rochas trazidas da Serra Nevada e designou a exposição «Montanha Dourada», numa alusão à corrida à busca de ouro, que teve lugar nesse local, no século XIX . Nela participaram milhares de chineses que fizeram de S. Francisco a porta de entrada nos Estados Unidos.
Só por si este aspecto parecia já bastante interessante, mas não justificaria a sua presença neste blog, se a exposição não tivesse uma segunda parte.


O artista completou a exposição criando uma paisagem topográfica de S. Francisco, que se integra numa série de «paisagens urbanas» já por si realizadas.
Nesta instalação para além de usar as rochas em aço, utilizou outros objectos de uso comum, sobretudo utensílios culinários em aço brilhante.

E assim surgiu uma imagem de São Francisco construída com panelas, tachos, escumadeiras, caixas, formas, conchas, etc. O resultado foi surpreende. As paisagens exercem sobre nós uma atracção que nos faz esquecer estar em presença de objectos comuns, porque se transformaram em arte.
É para isso que servem os artistas, para nos surpreender e emocionar.