sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Objecto Mistério Nº 17

O objecto mistério apresentado na foto é uma espécie de caixa perfurada, em porcelana pintada.

Tem um diâmetro de 8 centímetros.

É um objecto de design.

A que se destina?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A valsa da «Água de Castelo» e a lenda de Salúquia

Foi realmente um achado esta partitura para piano da valsa «Sallúquia. A bela Moura».
Saída da pena de Alfredo Keil (1854-1907), mais conhecido por ter composto «A Portuguesa», que se viria a tornar no hino nacional e que foi autor de outras peças, sendo uma das mais conhecidas uma versão para ópera de «A Serrana”. Alfredo Keil foi também pintor.
A bela capa, não assinada, mostra a imagem da moura Salúquia e transporta-nos para a lenda ligada à presente cidade do baixo Alentejo designada Moura. A lenda data do século XII, quando Moura era habitado por árabes e se chamava Al-Manijah. Era governada por uma formosa moura, de nome Salúquia, filha de Abu-Assan. Apaixonada pelo alcaide de Arouche, chamado Bráfama, foi decidido o seu casamento. Na véspera, Bráfama acompanhado da sua comitiva, dirigiu-se para o castelo da sua amada. Sabendo dos preparativos, os irmãos Álvaro Rodrigues e Pedro Rodrigues, à frente de tropas cristãs e sob ordens de D. Afonso Henriques, saíram-lhe ao caminho. Bráfama foi morto e a sua comitiva destroçada. Vestidos de árabes os cavaleiros cristãos dirigiram-se para o castelo, onde Salúquia, pensando tratar-se do seu noivo, deu ordens para baixar a ponte levadiça. A surpresa da investida permitiu uma rápida conquista do castelo pelos cristãos. Apercebendo-se do logro, Salúquia agarrou nas chaves da cidade e atirou-se de uma das torres, que ainda hoje tem o seu nome, a “Torre de Salúquia”.
Foi este tema que Alfredo Keil foi buscar para a sua valsa encomendada pelas Águas de Moura. A água comercializada apresenta uma torre do castelo de Moura e foi por isso designada «Água do Castelo».
Esta água mineral foi criada em 1899 pela empresa Águas de Moura. Foi nessa data que foi feito o arrendamento à firma Assis & Cª, que ficou obrigada à construção de um balneário e de um hotel. Esse estabelecimento termal entrou em funcionamento em 1901 e em 1903 segui-se a inauguração do Hotel. A oficina de engarrafamento pertencia a Assis & Cª - Empresa de Águas de Moura Lda, que em 1906 iniciou também a exploração da nascente de água de Pisões, a 2 km da vila. Estas oficinas eram, ainda em 1947, consideradas exemplares por Acciouoli.
Adquirida pelo grupo Nestlé, as Águas do Castelo voltaram a ser vendidas em Dezembro de 2006 ao grupo espanhol Mineraqua.
A partitura deve datar do final do século XIX, dadas as suas características Arte-Nova.

É de 1906 o anúncio apresentado publicado na Revista Serões. Nele se pode ver no canto direito o símbolo de "Fornecedor da Casa Real" e uma referência aos prémios ganhos pela «Água Castello» nas Exposições de St. Louis (1904) e na do Palácio Cristal do Porto (Agrícola em 1903?).

sábado, 4 de setembro de 2010

O Festival das Confrarias Gastronómicas em Lisboa

Hoje ainda e amanhã pode passar pelo Mercado da Ribeira e ir visitar o Festival da Confrarias Gastronómicas.
É uma pequena feira onde se podem ver os principais produtos que as confrarias defendem. Estão representados os trajes característicos das confrarias e se quiserem, podem adquirir alguns dos produtos regionais. Estão presentes os produtos da Madeira e Açores, os de Penacova, Vila Nova de Poiares, Penacova, Aveiro, Ribatejo, Tentúgal, Serra da Estrela, etc. Podem também encontrar-se alguns representantes de outras confrarias menos conhecidas como a do nabo, que não parecia despertar qualquer interesse ou exposições de produtores como o da Casa do Sal da Figueira da Foz. A bancada da Confraria do Nabo
Confraria o Moliceiro da Murtosa

Pode adquirir doces, vinhos, enchidos, barros, sal, queijos, etc. O aspecto mais interessante é passear pela feira para ver mas sobretudo para falar com as pessoas e descobrir as suas actividades e motivações.

O meu amigo Arménio da Confraria de Tentúgal e as Queijadas feitas no seu restaurante Casa Arménio

No primeiro andar estão instalados restaurantes que permitem experimentar alguns pratos regionais. Como visitei a feira no início da manhã tive a oportunidade de ver o desfile das confrarias, de que apresento algumas imagens. Em relação às confrarias gastronómicas a minha posição foi sempre um pouco ambivalente. Tive sempre a impressão de que se tratava de um conjunto de comilões que arranjaram um bom pretexto para comer. Mas não há dúvida que têm um papel meritório na divulgação dos produtos que escolheram defender e funcionam como um pólo de desenvolvimento da região.
Este festival permite um encontro dessas regiões com os lisboetas na medida em que nos traz os alimentos que identificamos como tradicionais.
Uma iniciativa a incentivar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O "British Bar" no Cais do Sodré

Há imenso tempo que eu não ia ao British Bar. Costumava descer a pé do Campo de Santana para o Cais do Sodré com uma amiga minha. Ela ia apanhar o comboio e eu seguia o meu caminho para casa. Quando chegávamos ao Cais do Sodré ao fim da tarde aproveitávamos e íamos ao British Bar beber um “Gin Fizz”.
Depois ela morreu e eu mudei de local de trabalho. Fiquei a prometer a mim mesma lá voltar, o que aconteceu uma vez ou outra, mas a intenção foi sempre maior.
Há poucos dias finalmente decidi-me a lá voltar. Está tudo na mesma. O British é um bar que se caracteriza por nunca ter estado na moda, o que lhe permite ser autentico. Inaugurado em 17 de Fevereiro de 1919, tem agora a idade respeitável de 91 anos. Ao longo deste tempo muitas pessoas por lá passaram. Foi no início o Bar Britânico e ficava mesmo em frente do Bar Americano, que já desapareceu. Era então frequentado preferencialmente por marinheiros.
Hoje a grande maioria dos seus clientes são anónimos que trabalham ali perto, ou que no seu caminho para casa decidem ir beber uma cerveja. Depois há os estrangeiros esporádicos que por lá passam, dão uma olhadela, e entram.
Mas foi também sempre um lugar de preferência de escritores e artistas. José Cardoso Pires foi um dos frequentadores que deixou as suas memórias sobre o British Bar no «Lisboa. Livro de bordo». Antes dele Bernardo Marques e Carlos Botelho também o foram. Tal como Fernando Pessoa que foi cliente do vizinho Americano.
Alain Tanner descobriu-o e usou-o no filme «Cidade Branca», nome que deu a Lisboa por causa da sua luz intensa. Lá estava Teresa Madruga por trás do balcão a fazer de empregada.
O interior do bar mantém-se inalterado com o grande balcão de madeira e as prateleiras com garrafas bem alinhadas. Na parede de trás o célebre relógio, que Alain Tanner também mostrou, com os números do mostrador em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.
Meia dúzia de mesas completam o espaço de dimensões limitadas para os padrões de hoje. Mas isso não incomoda ninguém. As pessoas chegam e bebem sobretudo cerveja, de entre as dezenas de variedades que a casa possui. Famosa é a cerveja de gengibre (Ginger Beer), uma especialidade da casa. Há também quem prefira um whisky. Eu confesso que nunca bebi outra coisa que não fosse o Gin Fizz, com muito limão, que é óptimo. Para acompanhar pode comer uma empada, ou outro salgado, para preparar o estômago para o jantar. Ou para um segundo Gin Fizz.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

As "Sopeiras" de Lisboa

A palavra “sopeira” é uma das provas de que a língua não é estática.
Utilizada inicialmente com o sentido de vaso para conter e servir a sopa na mesa, apresentava uma forma circular, de fundo arredondado e tinha sempre tampa. Era usada frequentemente com um prato inferior. Parece ter só surgido no século XVIII. O seu predecessor, a terrina, apresentava uma forma oval ou rectangular e, apesar de anterior, também apenas no século XVIII passou a ser exposta sobre a mesa. Mas voltemos à “sopa” que, no seu sentido inicial, era um prato de legumes fervidos, espessado com pão, e daí o nome. Falta-nos em português o termo que em França, na Idade Média, correspondia à “potage” e que se referia aos alimentos que eram cozidos num pote. Tudo o que diz respeito à sopa pode, nalgumas regiões, em especial em Trás-os-Montes, tomar a expressão de "sopeiro". Por exemplo aplica-se a prato sopeiro, para indicar que serve para a sopa, a colher sopeira ou mesmo a panela sopeira.
Com o tempo passou a aplicar-se às pessoas que faziam a sopa, que passaram a ser designadas por sopeiras. Embora a expressão sopeira se utilizasse sobretudo para as cozinheiras, isto é, as que faziam a sopa, foi também usada para as criadas que exerciam outras funções domésticas.
Esta designação foi muito usada no finais do século XIX e na primeira metade do século XX, passando depois a ser substituída por criadas ou cozinheiras consoante as funções exercidas. A expressão sopeira foi caindo em desuso, em especial após o 25 de Abril, altura em que passou a ser considerada pejorativa. Embora por vezes chamadas carinhosamente «sopeirinhas», passaram a chamar-se “criadas” e posteriormente “empregadas domésticas”. A função era a mesma, embora mais simplificada com a chegada dos electrodomésticos, mas a designação tinha deixado de ser adequada.
A imagem de sopeira surgia sempre associada à do “magala”, com quem frequentemente namorava. É uma dessas fotos que faz a contracapa da revista agora apresentada -
As fotos que utilizei foram publicadas no «Notícias Ilustrado» de 3 de Agosto de 1930 e são atribuídas a Batista. O texto intitulava-se «As sopeiras da Capital». Nele se exaltavam as novas sopeiras, mais modernas e alegres quando comparadas com a figura de Juliana retratada por Eça de Queirós, no «Primo Basílio», publicado em 1878.
São imagens de uma Lisboa mais provinciana, mais calma e simples, que fica apenas a 80 anos de distância de nós.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

«O Sabão Tarzam», o Tarzan português

Foi uma surpresa a descoberta de um sabão Tarzam de que nunca tinha ouvido falar. O sabão Tarzam é uma versão portuguesa linguística de "Tarzan" e, ao mesmo tempo, uma interpretação nacional do “Monkey Brand Soap”.

O sabão «Monkey Brand» foi comercializado em 1899 por Sidney e Henri Gross que venderam a patente à Lever Brothers, que o comercializou nos Estados Unidos e em Inglaterra.
A sua publicidade ficou famosa por várias razões: a primeira porque anunciava o mais maravilhoso produto de limpeza e abrilhantador, a que se seguia sempre a referência «não serve para lavar roupa» e a segunda porque usou na sua publicidade a imagem de um macaco.
O macaco tinha contudo características humanas e apresentava-se quase sempre vestido. Uma das suas funções era evitar, na publicidade, a imagem da mulher no trabalho doméstico numa época, final do século XIX, em que um grande número de mulheres tinham optado pelo trabalho remunerado (ex: fábricas). Começava também a escassear o pessoal doméstico e a utilização do macaco humanizado, que foi já objecto de estudo em publicidade, permitia usar uma figura híbrida que estabelecia uma evolução de um elemento vindo da natureza para um meio cultural. O macaco transformou-se assim num símbolo do progresso industrial.
Em Portugal o mais conhecido produto dentro deste conceito foi o chamado "Sabão Macaco", que penso ser mais tardio que o sabão apresentado, e que não servia para o mesmo fim.
Existiu também um «Sabão Chimpanzé», produzido pelos Produtos Etelva, de E. Gameiro, de que nada consegui saber.

Prospecto da inauguração do filme «King Kong» em França


O sabão Tarzam apresenta um desenho de um animal simiesco que se assemelha ao King Kong. Designa-se a si mesmo o «Às dos sabões domésticos para Polir e Limpar». Numa das faces identifica-se como «limpa metais» e nas instruções para uso diz servir para limpeza de vidros ou dar brilho a metais. Não é referido mas, tal como o “Monkey Brand Soap”, podia acrescentar que não servia para lavar roupa, sendo nesse sentido distinto do conhecido sabão macaco.
Foi à utilização destes sabões no meio doméstico, que constituía também o local de aceitação das novelas, que levou a que estas se passassem a designar por “soap” (sabão).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pão de Rala, um doce conventual

Abri o livro “Évora” da autoria de Matos Sequeira publicado pela Empresa Nacional de Publicidade, nos anos 30, e fiquei fascinada pelos desenhos de Alberto de Sousa, que ilustram o texto. São imagens simples e depuradas, feitas a tinta da China, que mostram um Portugal antigo, que já não existe. Todas as imagens são perfeitas, não há objectos estranhos ou figuras indesejadas, porque foram desenhadas de uma forma ideal. Como são diferentes das minhas fotografias de edifícios em que existe sempre um carro a tapar as fachadas. Chamaram-me sobretudo à atenção as imagens da cozinha e refeitório do Convento de Santa Helena do Calvário. Esta foi uma casa religiosa da Ordem de Santa Clara, fundada em 1565, por iniciativa da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel I. Era uma ordem pobre em que as freiras tinham por vezes dificuldades alimentares. De tal modo que utilizavam o chamado “Sino da Fome”, que faziam tocar quando os alimentos escasseavam. Alertadas as pessoas caridosas vinham trazer-lhes mantimentos. A doceira do Convento

Apesar destas carências ficou-lhes ligada a criação de um doce conventual chamado Pão de Rala.
Na história da sua origem teria estado uma visita do rei D. Sebastião ao convento. Pouco tendo para oferecer, a madre abadessa apresentou ao rei o que havia: pão ralo, azeitonas e água. Apesar de simples a refeição agradou ao rei que passou a dar uma tença ao convento. As freiras retribuíram com uma doçaria, que chegou até nós, e é agora vendida na Pastelaria Pão de Rala, em Évora. É um pão doce que é vendido acompanhado de azeitonas doces, feitas em massapão escurecido com cacau. Aqui lhes deixo as gravuras da cozinha conventual e a história do Pão de Rala, tal como chegou aos nossos dias.
“Se non è vero, è ben trovato".