quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma natureza morta de Margaret Preston

«Decoração sem ornamentação» era um dos aforismos usados por Margaret Preston (1875-1963), nome de casada de Margaret Rose McPherson, pintora australiana modernista.
A natureza morta aqui apresentada impressionou-me pela simplicidade do traço e pela depuração dos elementos. O quadro designado «Implement Blue» foi pintado em 1927 e atribui-se-lhe a influência de Léger, nas formas cilíndricas e curvilíneas.  
Depois de ter tirado um curso de arte em Sidney, Margaret Preston foi para a Europa e estudou em Munique e Paris. Foi em Paris, onde frequentou o Museu Guimet, que tomou contacto com pintores pós-impressionistas, como Matisse e Kadinsky entre outros, bem como teve conhecimento dos fundamentos da arte japonesa que se iriam reflectir nalgumas das suas obras.
No regresso à Austrália dedicou-se à pintura, aos desenhos, à impressão e a muitos outros tipos de arte moderna na época, como colagens, utilizando elementos como a madeira e o linóleo. 

Com o seu extenso trabalho experimental tornou-se na mais inovadora artista da sua geração e uma das primeiras a incorporar a arte aborígene nas suas influências, em especial nas naturezas mortas com flores. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

O pão-de-quartos da Covilhã

Quando eu era pequena o pão que se comia em minha casa era o pão-de- quartos. Claro que não era só em minha casa e, ainda há pouco tempo, a minha amiga Alda, natural da Covilhã, publicou no facebook uma mesa de refeição em que estava presente um pão desse tipo. Apesar de estarem presentes vários alimentos foi o pão que suscitou maior entusiasmo entre aqueles que dele se recordavam.
Claro que eu fui uma delas. Até porque foi um pão que desapareceu substituído pelas novas formas, idênticas em todo o país. É pois natural que tenha ficado entusiasmada quando na minha última ida à Covilhã encontrei o dito tipo de pão.
A forma deste pão é-lhe dada cortando com a mão ou cutelo o pão em cruz semelhando a junção de quatro bolas. A sua forma permite ir cortando à mão cada uma delas que corresponde a um quarto do pão e daí a designação.
Mas nem só de forma vive o pão e o mais importante é a massa. Era um pão alvo, feito de farinha de trigo, mas compacto. Muito agradável no sabor.
Este que comprei apresenta a mesma forma e é portanto um verdadeiro pão-de-quartos. Mas quando o experimentei tive uma enorme decepção. Era um pão de padaria industrial igual a outros de diferentes feitios, sem história, e que não conseguiu fazer-me regressar aos meus tempos de menina e moça. Uma pena.

De qualquer modo fica aqui o registo até porque daqui a algum tempo já não há ninguém que se lembre dele e um dos netos do antigo padeiro é capaz de pensar: «Mas que perda de tempo juntar 4 bolas. Porque não se hão de vender separadas que é mais prático e fica mais barato?».

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Os pastores e o queijo da Serra da Estrela

Esta fotografia data de 1914 e foi tirada por Artur Ricardo Jorge (1886-1975) que, apesar da sua formação em Medicina, se dedicou às Ciências. O seu interesse pela Botânica e pela Zoologia fê-lo empreender várias visitas de estudo por diferentes países. 
Esta foto tirada na Serra da Estrela mostra-nos três pastores com os trajes tradicionais. Todos se apresentam com um chapéu de feltro de aba larga, botas de carneira ensebadas e a proteger a região lombar têm enrolado um pano preto, em faixa.
 Os mais velhos apoiam-se em cajados que vão servir para orientar os animais, de suporte na caminhada e de defesa. São estes os mais protegidos do frio, com camisas, sobre as quais levam coletes simples, embora um deles tenha virados arredondados, e sobre estes o casaco de surrobeco. No ombro, aguardando o baixar da temperatura, está a capa dobrada e, para melhor se protegerem, usam sobre as calças safões feitos de pele de ovelha.
Quanto ao jovem à direita, usa a chamada «camisola de pastor», uma camisa grossa de xadrez, neste caso sem aplicações ou rendilhados, que esses ficavam para os dias de festa. Sobre esta um colete de trespasse, com virados redondos, e vários botões em duas fiadas. Na mão segura a «ferrada», um utensílio em folha-de-flandres com asa, para a recolha do leite das ovelhas.
Antes do entardecer, no regresso, teria lugar o processo de transformação do leite em queijo. Mais tarde o queijo, quando pronto, iria juntar-se ao pão, para fazer parte da refeição que o pastor levava no «surrão», o saco de couro da merenda, usado a tiracolo. Fechava-se assim um ciclo.

sábado, 29 de novembro de 2014

Workshop: «Com comida desenha-se»

«Esta oficina destina-se a crianças entre os 4 e os 8 anos e os participantes terão a oportunidade de aprender de forma experimental, didáctica e divertida, como as formas, texturas e cores de vários vegetais e frutas podem ser utilizadas como materiais e técnicas de expressão plástica.
Durante a oficina, explorarão em conjunto os aromas e sabores dos alimentos, e verão como é possível criar personagens e cenários a partir de uma mistura de comida, brincadeira e desenho.»
Animadora : Sara Infante, ilustradora

Para inscrições contactar o CAC (centrodasartesculinarias@gmail.com)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Varinas em Arte Aplicada

 
Este modelo de varinas, carregando a sua canastra de peixe à cabeça, foi publicado na revista «Lavores e Arte Aplicada», em 1946. Estas figuras populares, que haviam chegado à capital em meados do século XIX, vindas das regiões de Ovar e terras próximas, inspiravam simpatia nos lisboetas e a sua imagem disseminou-se até em toalhas e panos de cozinha.
Esta publicação de lavores, como então se designavam este trabalhos manuais, tinha uma periodicidade mensal e apresentava desenhos para bordados e arte aplicada em pano e teve o seu início em 1945 tendo sido editada até 1962.
Era sua directora Laura Santos Catita e, tanto a redacção como a administração, a cargo de Jerónimo Pinteus de Sousa, ficavam à época sediados na Rua do Jardim do Tabaco, 33, 1º andar, em Lisboa.

Laura Santos Catita, que havia começado a trabalhar numa pequena tabacaria em Alvalade, seria mais tarde conhecida apenas por «Laura Santos». Juntamente com Mariália Marques publicou em 1955 a revista «Actualidades femininas: grande revista mensal para a mulher e para o lar» que teve apenas dois números, em 1952.  
A sua obra mais conhecida seria contudo «O mestre cozinheiro» que começou por ser vendido em fascículos na década de 1950 e que teve múltiplas reedições já na forma de livro. A este se seguiu «A Mulher na Sala e na Cozinha», «Culinária Prática», «Livro de Ouro da Doçaria Tradicional», «Arte Culinária Portuguesa», entre outros.
Tanto a autora como a editora destinavam as suas edições a uma dona-de-casa burguesa, com conselhos de economia doméstica e orientação de jovens para o casamento.
Apesar de à época ter tido grande divulgação, devo dizer que nunca me entusiasmaram os seus livros, talvez pela conotação pequeno burguesa e pela simplicidade dos textos, demasiado tradicionalistas e conservadores, em que o papel da mulher se remetia apenas à casa e à cozinha. 
Descubro agora, com surpresa, que a editora foi reactivada (agora MEL editores) e que os seus livros tornaram a ser reeditados.

O tempo tudo apaga e o nosso olhar interpretativo é agora saudosista.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas»

Aproxima-se a última sessão do curso «À volta da Mesa. Utensílios e práticas» que terá lugar na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves. 
Esta semana terá lugar na 6ª feira (e não na 5ª feira como anteriormente), dia 21 de Outubro, às 18,30 horas e incidirá sobre o século XIX.
Serão analisadas as consequências sociais da ascenção da classe burguesa que utilizava a mesa como prova da sua riqueza e poder.
Baixela Victoria, desenho de Domingos Sequeira, oferecida ao Duque de Wellington
Veremos as principais alterações que ocorreram na mesa nesta época e como o «serviço à russa» introduziu modificações nas baixelas, nos centros de mesa, nos serviços de copos e talheres, etc.  Falaremos nas cozinhas e nas salas-de-jantar, entre outros temas. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Objecto Mistério Nº 44. Resposta: Bule para vinho, tipo «cadogan»

China. Dinastia Qing, 2ª metade século XVII, CMAC, invº 373
Designado em inglês «wine pot» este objecto destinava-se ao uso de vinho de arroz na China. Conhecem-se modelos deste tipo, em forma de pêssego, desde a segunda parte do século XVII. 
Embora possam ser polícromos, este modelo da CMAG, apresenta um vidrado uniforme de cor roxa. Característicamente possuem dois ramos que saem da asas e do bico e que terminam em três folhas de pessegueiro.
Não é esta a única forma de apresentação dos bules para vinho que podiam apresentar-se com um aspecto de bule convencional, embora mais frequentemente tivessem maiores dimensões ou ainda tomarem a forma complexa de um letra chinesa.
 
O que caracteriza este tipo de bule é o seu aspecto enganador. Aparentemente não possuem qualquer orifício de entrada para o líquido e, contudo, quando inclinado ele sai. Isso deve-se a um sistema de funil invertido colocado no interior do bule e em que a entrada do líquido se faz pela base.
Um dos primeiros possuidores deste tipo de bules para em Inglaterra foi William Cadogan, 1º conde de Cadogan (1675 - 1726), que chegou mesma ao ter um bule deste tipo com a sua identificação. Por essa razão os bules de chá com esta forma tomaram o nome de «Cadogan».
Meissen, 1725
No século XVIII já eram feitos bules semelhantes na Europa e durante a primeira metade do século XIX continuaram a ser feitos sobretudo em Inglaterra onde foram sempre muito apreciados.
Este último exemplar é inglês, feito em Spode no 2º quartel do século XIX, e tive a sorte de o conseguir comprar pela internet ao fazer a pesquisa sobre estes tipos de bule. Os bules do século XIX apresentam diferenças em relação aos dos séculos anteriores, pelas suas maiores dimensões, forma de pêssego mais dificilmente identificável e bicos mais grosseiros. Ainda assim uma peça interessante para quem não pode ter um do século XVII. 
Fab. Manuel Cipriano Gomes Mafra, 1879-1887, Museu da Cerâmica invº 1472 

O gosto pelos vaso enganadores existiu também em Portugal como podemos ver pelas bilhas feitas no século XIX nas Caldas da Rainha ou, as bilhas de segredo de Bisalhães, ainda hoje fabricadas.