domingo, 15 de maio de 2022

Os Porfírios, o seu boneco e o Wally

 

Este post podia chamar-se “encontrei o Wally”, uma sequela para quem se lembrar dos livros “Onde está o Wally”. Mas esse Wally que teve tanto sucesso só apareceu em 1987 em Inglaterra e o nosso herói português é muito anterior.

Parece tratar-se de uma mascote da loja Porfírios, de que desconheço o nome. O seu “casaco à Dr. Jivago”, reproduz a moda do final da década de 1960, depois do filme com o mesmo nome ter divulgado a imagem do belo Omar Sheriff, com um casaco comprido, assertoado, e botões duplos. A camisola de gola alta e as calças de xadrez de boca larga em baixo completam o que se chamava o look ié-ié.

Imagem por cortesia de Carlos Caria

Na imagem do interior da loja dos Porfírios no Porto que foi fundada por Porfírio Augusto de Araújo e que se situava na Rua de Santa Catarina pode ver-se o nosso boneco pendurado do tecto.

Boneco de costas com a etiqueta identificadora
Lembro-me de ir ao Porto com o meu avô, era eu muito nova, pré-adolescente, e de ir a essa loja que já era considerada moderna. Comprei lá uma camisola de algodão com riscas largas, azuis e verdes, de óptima qualidade, porque a vesti durante anos e resistiu até hoje.

Imagem tirada da internet. Créditos fotográficos desconhecidos.
O grande sucesso da loja seria no entanto na sucursal lisboeta, que todos pensavam ser a original. Foi inaugurada em Lisboa em Dezembro de 1965 e situava-se na Rua da Vitória, 55-63, tomando o nome Porfírios Contraste, por iniciativa de dois irmãos do fundador da loja do Porto.

Logótipo de 1966

O logotipo da marca, que se tornou famoso, variou um puco ao longo dos anos, mas era completamente inconfundível.

Logo em 01-08-1996 foi feito o registo da insígnia Por-fí-ri-os e por baixo um círculo tipo alvo em preto e branco. O pedido foi feito pela firma Porfírio de Araújo e Filhos, Lda. 


Logótipo da Por-fí-ri-os Contraste em 1996

Ainda em 1-08-1996 o logotipo evoluiu para um círculo com as letras em cima. Em 2001 a loja encerrou.

Mas a sua história é de grande sucesso. Era um local mítico onde se ia quase em peregrinação. À posta formavam-se bichas para entrar, reguladas por um porteiro. Lá dentro era um labirinto com escadas e locais com coisas fantásticas que nos transportavam a Londres e à moda de Carnaby Street, outro local de encontros do 3º grau. Era um acontecimento.

Saco de papel dos anos 60

As peças de roupa que lá se compravam eram vestidas com orgulho, transformando as pessoas em seres “modernos”. È engraçado porque não me lembro de peça nenhuma que aí tenha comprado e no entanto nunca esqueci a blusa comprada anos antes no Porto. Mas sei que os casacos à Dr. Jivago eram aí vendidos.

Pormenor da imagem do Drugstore do Porto antes apresentado

Qual não foi o espanto quando ao procurar imagens da época me deparei com uma imagem da loja do Porto onde se encontrava este boneco. Presente num postal na posse de Carlos Caria, meu amigo, que a disponibilizou para completar este poste e fechar assim o círculo, a fazer lembrar o logótipo que o boneco apresenta nas costas.

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Convite: apresentação do livro Cadernos do Dominguizo em Guimarães

 No dia 20 de Maio estarei em Guimarães, no Paço dos Duques, para apresentar o meu último livro "Cadernos do Dominguizo" baseado num registo de receitas do início do século XIX. 

Espero ter o prazer de reencontrar as pessoas dessa zona. Até lá.


 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Limão caviar

Estes belos exemplares foram-me dados pela minha amiga Conceição, que os comprou na zona de S. Pedro do Sul e vou experimentá-los agora pela primeira vez. São extremamente raros e são hoje muito apreciados, em especial pelos chefes que anseiam por novidades. É este tipo de alimento que acabo por deixar estragar, porque acho tão interessante que tenho pena de o abrir. Já era assim em pequenina quando guardava os chocolates que me davam pelas festas, numa altura em que estes não eram de consumo diário, como agora.

Mas tenho que os abrir porque sei que lá de dentro vão sair umas pequenas pérolas que, introduzidas na boca, rebentam libertando um sabor cítrico diferente segundo as diferentes variedades. E como eu gosto de citrinos em especial os ácidos.

Foto tirada da internet

O nome da planta que o produz é Microcitrus australasica que indica logo que é um pequeno citrino natural da Austrália, das florestas tropicais. Embora seja de difícil cultura inicial, já se cultiva em vários sítios e, pelos vistos, também em Portugal.

Com o tempo surgiram múltiplas variedades e a pele pode apresentar-se em várias cores como castanha, roxa, laranja, vermelha, preta ou verde, ou amarela como esta, dependendo da variedade. O mesmo acontece com a cor da polpa.

Ao contrário dos outros citrinos não se espreme para tirar o suco mas comem-se as pequenas pérolas, que podem ser usadas sobre pratos de peixe e outros, com a vantagem de ficar lindíssimo.

Acho que vamos reencontrarmo-nos mais vezes.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Museu virtual: Molheira

 

Descrição: Molheira de forma oval com pequena base e asa ao nível do bordo superior, achatada, horizontal. Tem colher cuja pega termina em cabeça de cisne. Colocada na zona oposta à asa, faz com o corpo, o desenho de um cisne.

Material: Gallia. Liga de metal de cobre-estanho, coberta de prata por técnica de galvanoplastia.

 Época: década 1930-1940 (Art Deco).

 Marcas: Christofle e Gallia.

 Origem: adquirido no mercado português.

 Grupo a que pertence: equipamento culinário.

 Função Geral: Servir à mesa.

 Função Específica: apresentar o molho à parte.

 Nº inventário: 4566

 Objectos semelhantes: Não classificados.


Observações:

A molheira Cisne foi desenhada nos anos 30 por Christian Fjerdingstad para a linha Gallia da Christofle. Christian Fjerdingstad (1891-1968) foi um designer dinamarquês dos mais famosos, célebre pelas linhas sóbrias de estética Arte Deco.

Começou como aprendiz de um ourives regional, mas quando descobriu o trabalho de Georg Jensen, ficou fascinado e partiu para Copenhaga para aprender com ele. Após a Primeira Guerra Mundial, onde ficou gravemente ferido, estabeleceu-se em França. Tomou conhecimento com o movimento Art Deco e adoptou essa estética em várias peças, priveligiando os novos materiais, isto é, as novas ligas de prata.

Em 1924, a empresa Christofle, uma das principais do modernismo, encomendou-lhe uma nova colecção. Esta seria um sucesso presente na exposição de 1925, com trabalhos em prata, a que associou componentes naturais. Nessa Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, que teve lugar em Paris, os seus trabalhos estiveram ao lado dos de Jean Puiforcat, Georg Jensen, que havia sido seu mestre e Gérard Sandoz.

Fjerdingstad comercializou objectos estilizados, de luxo, em metal prateado com a marca Gallia e trabalharia em parceria com a Christofle até 1941. Este período correspondeu ao apogeu de ambos e as peças por ele desenhadas tornaram-se muito procuradas pela pureza das suas linhas. 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

quinta-feira, 7 de abril de 2022

A Padaria Caruncha no Porto


Tudo começou com uma factura bonita mas que se veio a revelar, para além disso, muito informativa.

Vejamos em primeiro lugar o que nos diz essa factura. A proprietária Maria Nogueira Caruncha é identificada no cimo do cabeçalho, mas a existência deste estabelecimento era antiga: a casa fora fundada em 1785. Em 1903, de acordo com o mesmo documento, situava-se na Rua de S. Lázaro, 397-391 e tinha uma filial na Rua de Cima de Vila, 86-88, no Porto.

A mesma anunciava que vendia: ”Pão fino especial, bolacha e biscoito”.

E devia ser de qualidade porque não era qualquer um que aí comprava. Esta factura enunciava a venda de pães de todo o mês de Dezembro de 1903, de 382 pães vendidos ao sr. J. Pinto Leite. Francisco Queiroz publicou um artigo na revista O tripeiro[1] intitulado “Os Pinto Leite. Uma família influente no Porto Romântico” em que falava sobre o seu papel como negociantes no Brasil, no Porto, em Lisboa e em Inglaterra. Eram vários irmãos e o mais velho, Joaquim, foi quem mandou construir no Porto uma das casas mais importantes da arquitectura do século XIX: a Casa do Campo Pequeno. 

Palacete Pinto Leite no Porto

Nesta data não sei se a Maria Caruncha era viva mas num anúncio publicado em 1881 no jornal O indicador[2] à antiga Padaria da Caruncha surge o nome de João Marques Pereira. Este meu homónimo nalguns locais vem designado como “Caruncho”, não nos tendo sido possível perceber se adquiriu este nome por filiação ou se por ter adquirido a padaria com esse nome, tomando a alcunha de empréstimo.

Publicidade no jornal O indicador. Fonte: Blogue"Comer por escrito"

Sabemos apenas que João Marques Pereira foi um abastado proprietário que fez fortuna na indústria da panificação. Era dono da Padaria Bijou situada na Rua Duque de Loulé, esquina com a Rua Alexandre Herculano, no Porto. Em Março de 1898, pediu uma licença para edificar nesse local uma padaria, que seria inaugurada em 1902, com a designação referida.

Padaria Bijou. Foto Google maps.

Em 1906, pediu para construir nos seus terrenos anexos um armazém destinado a depósito de farinhas.[3]

Em 1909, apresentou à Câmara do Porto o licenciamento para a sua casa de habitação no mesmo local. Em 15-7-1910, devendo correr-lhe bem a vida,[4] solicitou novo projecto de alterações à construção da sua habitação própria, destinado a ampliar o projecto, tornando a casa mais rica, sobretudo a zona do hall de entrada.

Ambas as construções continuam a existir no Porto e a qualidade do projecto[5] fez com que em 2018 fosse apresentado à Câmara um pedido de classificação do conjunto do Palacete Bijou, numa tentativa de protecção do edificado.

Bem ficamos por aqui. Esta beleza de factura acabou por me dar mais trabalho do que esperava. Acho que vou comer um bijou.

 


[1] Nº 7, Julho de 2207.
[2] Publicado no blogue “Comer por escrito”.
[3] Licença de obras pedida por João Marques Pereira, em 17 de Jan de 1906
[4] Em 1914 o João e Arlindo Marques Pereira Caruncho pediram uma licença para edificar no Porto uma outra padaria na Av. Rodrigues de Freitas, 373, na freguesia da Sé. E, em 1916, um Fernando Marques Pereira pediu também uma licença para a construção de um edifício para padaria na Rua da Cedofeita, nº 340, fazendo-nos pensar que a família se dedicaria a este ramo de negócio de forma mais extensa.
[5] Da autoria do arquitecto Eduardo da Costa Alves Júnior (1872-1918).

quarta-feira, 30 de março de 2022

A sopeira espertalhona

Não resisti a partilhar este simples folheto de cordel. Estes folhetos, embora já existissem nos séculos anteriores, tiveram grande divulgação no século XIX. A designação ficou a dever-se ao facto de serem vendidos pendurados em cordéis, nas bancas de venda ou mesmo à volta da cintura de vendedores ambulantes.

Os temas eram sempre populares, com versos ou com textos teatrais, destinando-se muitas vezes a ser lidos em voz alta por quem tinha alguns estudos para pessoas que não sabiam ler.

Tinham sobretudo sucesso os textos jocosos e humorísticos, sendo que a noção de humor, como tenho vindo a constatar, é totalmente diferente da dos nossos dias.

Neste caso, o texto obedece a essas características glosando o tema das criadas, que então abundavam nas cidades e que são sempre caracterizadas como pessoas que não são de confiança e enganam os seus patrões.

Datado de 1881 e publicado em Lisboa, apresenta o título sugestivo “Conselho que uma sopeira espertalhona dava a um criado há pouco chegado da província com quem podia casar e a maneira delle vir a ser rico em pouco tempo”.

Se o título do pequeno folheto já é informativo, é ainda completado com umas quadras divertidas que ocupam quase 5 folhas, onde se explica como “Desviar” algumas moedas nas compras efectuadas e outros truques do género.

Embora de olho no novo criado, a quem transmite o seu conhecimento, não despreza a estima do patrão, o que justifica a gravura que nos mostra uma figura feminina com a legenda: “A sopeira namorando o patrão e o criado, sem a patroa saber”.

Fica tudo dito!